Operação Cupido Corporativo - Itahina
1 CAPÍTULO I - O Pneu Furado e a Carona "Forçada"
Notas iniciais
A Uchiha Corp. era uma empresa construída sobre três pilares inabaláveis: métricas de desempenho implacáveis, uma arquitetura corporativa feita quase inteiramente de vidro temperado e a absoluta falta do que fazer dos quatro diretores de departamento nas últimas horas de uma tarde que prometia muita chuva.
Através das paredes transparentes, quatro pares de olhos acompanhavam cada micro movimento do homem e da mulher sentados à mesa da sala de reunião principal.
De um lado, Itachi Uchiha. Diretor Operacional, vinte e nove anos, terno ajustado com precisão cirúrgica e uma expressão facial que variava apenas entre "seriedade absoluta" e "frieza institucional". Do outro lado, Hinata Hyuga. Analista, postura impecável, cabelos escuros perfeitamente alinhados e uma calma analítica que parecia imune a qualquer crise financeira.
Eles estavam analisando relatórios de auditoria interna. Era uma tarefa burocrática, seca e inteiramente desprovida de qualquer emoção humana.
Para a Força-Tarefa dos diretores, que estavam em outra sala observando tudo, aquilo era drama romântico de alto nível.
— Olha lá — sussurrou Shisui Uchiha, colando o rosto no vidro de modo que o nariz ficasse achatado. — Olhem a forma como ela passou a folha de papel para ele. Isso não foi um repasse de documento. Foi um pedido de socorro emocional.
— Ela nem olhou nos olhos dele, Shisui — pontuou Sakura Haruno, cruzando os braços e franzindo o cenho enquanto ajustava os óculos. — Ela olhou para a gravata dele por exatos 1,4 segundos.
— Exatamente! — Ino Yamanaka, a diretora de marketing e mente pensante por trás da vigilância não autorizada, tragou seu café com ar dramático. — É a clássica esquiva do olhar provocada pelo excesso de tensão sexual não resolvida. Eles estão morrendo por dentro. Aquele ambiente ali está impregnado de desejo reprimido, vergonha e timidez corporativa. É doloroso de assistir!
— Eles parecem duas pedras — comentou Naruto Uzumaki, do departamento de TI, mastigando uma rosquinha de canela. — Tipo... pedras mesmo. Daquelas que você encontra em rio.
— Você não entende a complexidade da timidez adulta, Naruto — declarou Shisui, virando-se para o grupo com o fervor de um general prestes a traçar um plano de guerra. — O Itachi é meu primo. Eu conheço aquele olhar. É o mesmo olhar que ele faz quando quer muito uma coisa, mas se recusa a admitir porque acha que vai quebrar o decoro. E a Hinata é reservada demais para dar o primeiro passo. Se não intervirmos, eles vão passar os próximos dez anos trocando e-mails com 'Atenciosamente' no final enquanto a alma deles grita por paixão!
Ino bateu a palma da mão na mesa. — Decretado! Operação Cupido Corporativo entra em ação hoje!
— Qual é o plano? — perguntou Sakura, ligeiramente cética, mas já sacando a caneta para anotar.
Shisui sorriu com a arrogância de quem acabara de desenhar a Mona Lisa.
— A natureza vai trabalhar a nosso favor, hoje. Olhem para fora.
Através das imensas janelas do local, o céu de São Paulo havia desabado em um tom cinza-chumbo, despejando uma tempestade tropical capaz de congestionar qualquer avenida em questão de minutos.
— Fui ao subsolo há vinte minutos com uma chave de fenda. Esvaziei o pneu dianteiro esquerdo do carro dela. Está murchinho da Silva. Ela não vai a lugar nenhum por conta própria – Shisui sorriu.
— Ela pode chamar um carro de aplicativo. — Sakura comentou.
— Já resolvi isso também, o aplicativo de transporte da Hinata vai 'misteriosamente' parar de funcionar — disse Shisui, apontando para Naruto.
— Já estou com o código pronto — respondeu Naruto, dando um duplo clique no notebook. — Bloqueio de IP no celular dela via rede interna. Ela não vai conseguir acessar esse aplicativo de jeito nenhum.
— E o que vai acontecer depois? — Ino curvou-se para a frente.
— O toque de mestre, — concluiu Shisui. — Eu vou garantir que o Itachi a encontre no saguão ilhada e indefesa. O cavalheirismo vai agir. Eles serão forçados a dividir o carro sob a chuva. Se a tempestade, o isolamento e o cheiro do estofado de couro do Volvo do Itachi não dobrarem esses dois tímidos, nada mais dobrará.
*****
Às dezoito horas e trinta minutos, o saguão da Uchiha Corp. estava mergulhado na penumbra elegante de suas luzes indiretas, contrastando com o rugido da chuva caindo do lado de fora.
Hinata Hyuga estava parada perto das portas automáticas de vidro, vestindo seu sobretudo bege impecável, segurando a bolsa com as duas mãos e olhando fixamente para a tela do celular. Ela tocava repetidamente no botão de atualizar o aplicativo de transporte, que exibia uma mensagem persistente em vermelho: Conexão instável. Tente novamente.
Ao lado dela, a três passos de distância — a distância exata ditada pela etiqueta corporativa —, Itachi Uchiha aguardava o elevador para ir ao subsolo com a pasta de couro sob o braço.
Atrás da pilastra de mármore do fundo, Shisui ajustou o terno e entrou em cena como se estivesse apenas passando por ali.
— Hinata? — Shisui fingiu surpresa ao se aproximar, falando em um tom audível o suficiente para atrair a atenção de Itachi. — Tudo bem por aqui? A chuva está um caos lá fora.
— Ah, boa tarde, Shisui... Pois é. — Hinata ergueu os olhos, os cílios longos emoldurando uma expressão de pura e contida frustração. — E para piorar, o pneu dianteiro do meu carro está totalmente murcho. Tive que acionar o seguro, mas eles disseram que o guincho vai levar pelo menos duas horas por conta dos alagamentos.
— Que azar! — Shisui lamentou de forma extremamente teatral. — Mas, conseguiu chamar um carro de aplicativo?
— O aplicativo não está chamando de jeito nenhum. Acho que a rede caiu por causa do temporal. – Hinata suspirou, o tom de voz suave e acanhado.
Itachi, até então imóvel como uma estátua de mármore, deu um passo discreto à frente. Sua voz soou grave, pausada e inteiramente destituída de calor: — Duas horas no saguão é um absurdo. A tempestade não vai ceder tão cedo.
Shisui quase soltou um urro de vitória ali mesmo, mas manteve a compostura. Até sem saber, Itachi cooperava com os planos — Veja só! Aproveitando a oportunidade, o Itachi está de carro e ele passa pelo seu bairro para chegar em casa, não é mesmo, Itachi? Que coincidência conveniente! Você podia dar uma carona para a nossa analista, não podia?
Hinata deu meio passo para trás, encolhendo os ombros em uma postura de timidez quase dolorosa. — Ah... Não, por favor, não precisa se incomodar, Diretor Uchiha. Eu posso esperar. Não quero ser inconveniente...
— Não seja ridícula, Hinata! — interveio Shisui, empurrando-a sutilmente pelo cotovelo. — O Itachi é um cavalheiro. Ele adora ajudar. Certo, Itachi?
Itachi ajustou o relógio no pulso, a expressão rígida imutável. — Imagino que não seja incômodo algum. O trânsito estará travado de qualquer forma. Acompanhe-me até o subsolo, senhorita Hyuga.
— Têm certeza? — ela perguntou, os olhos perolados brilhando com hesitação tímida. — Eu realmente não gostaria de atrapalhar...
— Não atrapalha — disse ele, já se virando em direção ao elevador com passos firmes. — Vamos.
Escondidos atrás das plantas ornamentais do mezanino, Sakura, Ino e Naruto assistiam à cena com binóculos de teatro e sorrisos triunfantes.
— Viu como ela ficou vermelha? — Ino sussurrou, apertando o braço de Sakura. — Ela está morrendo de vergonha de entrar no carro dele!
— E o tom de voz dele? — disse Sakura. — Tão frio que dá para congelar um copo de água. É puramente uma defesa do ego. Ele está desesperado por dentro!
— Trabalho de equipe perfeito — comemorou Shisui, juntando-se ao grupo nas sombras enquanto o elevador fechava as portas com o casal dentro. — O soco de realidade amorosa foi dado. Amanhã eles chegam de mãos dadas, tenho certeza!
*****
O elevador desceu em absoluto silêncio até o segundo subsolo. Durante todo o trajeto, Itachi olhou fixamente para o painel de andares enquanto Hinata manteve as mãos cruzadas sobre o corpo, o olhar cravado no chão de granito.
As portas se abriram com um bip suave.
Eles caminharam lado a lado pela garagem mal iluminada, o som dos saltos dela e dos sapatos de couro dele ecoando pelo concreto. Passaram pelo sedan de Hinata, cujo pneu dianteiro esquerdo estava murcho, sem dizer uma única palavra.
Itachi destravou sua SUV preta. Abriram as portas, entraram e fecharam.
No exato milissegundo em que as portas pesadas de liga de alumínio se fecharam, isolando a cabine do som da garagem, o ar do ambiente mudou radicalmente.
Itachi ligou o motor. O painel digital acendeu, o aquecedor começou a soprar um ar quente e acolhedor com cheiro de sândalo e a central multimídia conectou automaticamente ao Spotify, reproduzindo uma canção de MPB suave.
Hinata soltou um suspiro longo e teatral, jogou a bolsa de grife de qualquer jeito no banco de trás e soltou os cabelos do coque perfeito com um único movimento rápido, balançando a cabeça. Em seguida, tirou os sapatos de salto alto e os colocou, também, no banco de trás.
— Meu Deus do céu — disse ela, a voz subindo duas oitavas, totalmente desprovida de qualquer vestígio de timidez ou recato. — O seu primo é um imbecil, sabia?
Itachi deu ré no carro com a mão esquerda no volante e o braço direito apoiado atrás do encosto do banco do passageiro, o qual Hinata se sentava. Um sorriso lateral, lento e extremamente debochado, surgiu em seus lábios — o tipo de sorriso que nenhum funcionário da Uchiha Corp. jamais havia presenciado em toda a história da empresa.
— O que ele aprontou dessa vez? — perguntou ele, engatando a primeira marcha e acelerando em direção à rampa de saída.
— Ele esvaziou o pneu do meu carro — disse Hinata, pegando o celular do bolso, abrindo a gaveta do painel do carro e puxando, sem nem pedir licença, um pacote meio aberto de salgadinho de queijo. — O sensor de pressão do painel deu aviso de perda de ar, não de perfuração. E o Naruto derrubou meu aplicativo de transporte via firewall da empresa. Eu conheço a tela de erro de DNS do sistema dele. É a mesma de quando ele tenta bloquear o site da Americanas na Black Friday.
Itachi soltou uma risada curta pelo nariz, virando o volante para entrar no caos chuvoso da avenida principal. — Eu avisei que a movimentação deles estava patética hoje. Eles passaram a tarde inteira nos encarando como se fôssemos um experimento de laboratório.
— A Ino estava quase colando o peito no vidro! — Hinata colocou um salgadinho na boca, mastigando com gosto e oferecendo outro para ele. Itachi inclinou a cabeça ligeiramente para o lado e aceitou o salgadinho diretamente dos dedos dela, sem tirar os olhos do trânsito. — E a atuação de tímida que eu tive que fazer na recepção? Eu mereço um Oscar, sério. 'Ah, Diretor Uchiha, não quero incomodar...'. Que vergonha alheia de mim mesma!
— A sua atuação foi aceitável — provocou Itachi, estendendo a mão direita para longe do câmbio e entrelaçando seus dedos firmemente nos dela sobre o console central. Ele puxou a mão dela até os lábios e deu um beijo demorado nas costas de seus dedos. — Mas a minha resposta em tom corporativo foi impecável.
— Foi horrível. Você pareceu um sociopata — ela riu, repousando a cabeça no encosto do banco enquanto o carro avançava lentamente no congestionamento. — Mas enfim... já que eles nos deram esse empurrãozinho tão caridoso, o que vamos jantar hoje?
— Eu comprei vinho tinto e massas frescas ontem — disse ele, o polegar acariciando a pele macia da mão dela. — Mas achei que tínhamos combinado de pedir comida japonesa.
— Pedir a comida vai demorar com essa chuva — Hinata virou o rosto e deu um beijo suave no pescoço dele, logo acima do colarinho da camisa social. — Você cozinha a massa. Eu abro o vinho e fico assistindo você de avental.
— Uma proposta aceitável, Hinata — murmurou ele, o tom de voz tornando-se mais baixo e aveludado enquanto ele apertava a mão dela um pouco mais forte. — Contanto que você não me desconcentre.
— Ah, Diretor... — ela sussurrou contra a pele dele, o tom carregado de ironia debochada. — Eu prometo manter a mais rigorosa conduta profissional.
*****
Na manhã seguinte, às sete horas e quarenta e cinco minutos, o saguão da Uchiha Corp. já contava com a presença VIP de seus quatro maiores conspiradores.
Shisui, Ino, Sakura e Naruto estavam posicionados estrategicamente perto da cafeteria do térreo, cada um segurando um copo de café para disfarçar, mas com os olhos fixos na porta de entrada giratória.
— Eles vão chegar juntos — afirmava Ino, ajustando o batom no reflexo da janela. — Tenho certeza. Uma carona no meio de um temporal, travados no trânsito por duas horas? As barreiras caíram. Eles devem ter jantado juntos, conversado sobre a infância e percebido que foram feitos um para o outro.
— Se o Itachi não deu um beijo nela quando a deixou em casa, eu não me chamo Shisui Uchiha. — declarou, cheio de orgulho. — Eu preparei o terreno perfeitamente. O pneu murcho foi uma jogada de mestre.
— Lá vêm eles! — alertou Naruto, apontando com o copo de café.
A porta giratória se moveu.
Primeiro entrou Itachi. Terno cinza chumbo, postura ereta como uma régua, pasta na mão esquerda, café na mão direita. Expressão facial: sério absoluto.
Dois metros atrás dele, vindo do outro lado do saguão, entrou Hinata Hyuga. Sobretudo bege, cabelos presos no coque perfeito, pasta de documentos sob o braço. Expressão facial: profissionalismo impecável.
Os quatro conspiradores seguraram o fôlego.
Ao se cruzarem na fila do elevador social, Hinata parou. Ela olhou para Itachi. Não houve sorriso. Não houve olhar cúmplice. Não houve a menor alteração na frequência cardíaca visível de nenhum dos dois.
— Bom dia, Diretor Uchiha — disse Hinata, a voz clara, educada e totalmente impessoal.
Itachi assentiu levemente com a cabeça, sem sequer desviar o olhar do painel indicador do elevador. — Bom dia, senhorita Hyuga. Lembre-se de enviar o relatório de auditoria revisado até as dez horas.
— Já está na sua caixa de entrada, Diretor.
As portas do elevador se abriram. Itachi entrou primeiro. Hinata entrou em seguida, mantendo uma distância de três passos e encarando a porta que se fechou entre eles.
Perto da cafeteria, o silêncio do grupo foi absoluto por cinco longos segundos.
Naruto olhou para o copo de café, depois para Shisui. — Cara... Eles nem se olharam direito.
— Eles estão piores do que ontem! — desesperou-se Ino, levando as mãos à cabeça. — O que aconteceu naquele carro?! Eles brigaram?! Eles discutiram sobre métricas?!
— Não é possível — disse Shisui, a cara congelada em uma mistura de choque e negação absoluta. Ele colocou o copo de café no balcão com força. — Eles não brigaram. O bloqueio emocional deles é mais profundo do que eu imaginava. A carona foi um curativo para uma ferida que precisa de cirurgia.
— O que você vai fazer? — perguntou Sakura, encarando-o com preocupação.
Shisui estreitou os olhos para as portas fechadas do elevador, a determinação queimando em seu peito com a intensidade de um cruzado.
— A carona foi gentil demais — declarou ele. — O próximo plano precisa ser mais agressivo. Naruto, vamos!
— Vamos? — Naruto perguntou após tomar o último gole de seu café. — Vamos para onde?
— Preparar o próximo plano. Sexta-feira, eles não escapam!
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