Operação Cupido
2 Encontro
Notas iniciais
Mais um capítulo pra vcs!
Mal consigo esconder meu nervosismo quando o sinal do intervalo soa. Parece que acabei de ser atingida por alguma espécie de raio.
Passei a aula toda trocando olhares furtivos com João. Parte porque eu mal podia acreditar no que tinha acontecido entre nós no domingo, e parte porque ele não parava de me lançar piscadinhas. Esse garoto é mesmo maluco.Atravesso a multidão de alunos que se concentra ao meu redor. Estou quase no meio do caminho em direção a sala de música, quando ouço meu nome ser chamado.Giro para trás, dando de cara com uma Letícia esbaforida.—Por que saiu correndo da sala?—pergunta ela, ajeitando os cabelos dourados.Mordo os lábios. Me sinto extremamente estúpida por não me sentir tão confortável perto dela como costumava a me sentir. O fato é que assim como é uma das minhas melhores amigas, Letícia também é uma das melhores amigas de Edu, e todas as vezes que olho para o rosto dela, é impossível não me lembrar dele.E eu não preciso me lembrar do meu ex mais do que já lembro.— Eu...—Não vai me dizer que está se escondendo de Edu, de novo?—pergunta, os olhos cheios de preocupação.Fecho as mãos em punhos.—Não. Não sou eu quem está fugindo Letícia, e você sabe muito bem disso.Ela suspira.—Laura...Ele só precisa de um tempo.—Já se passaram dois meses—digo, voltando a andar pelo corredor vazio.— Você sabe como ele é...—Aparentemente não—respondo, meu coração latejando dentro do peito—Eu tenho que encontrar uma pessoa, te vejo depois.Letícia ergue as sobrancelhas.—Quem?Toda essa conversa idiota está me atrasando mais do que deveria .—A curiosidade matou o gato—falo, e corro corredor afora , ignorando seus gritos.A sala de música fica em um canto relativamente escondido dentro do Colégio. A maioria dos alunos praticamente a ignora, uma vez que as aulas de música só acontecem dentro do ensino fundamental , e só uma vez por semana.O espaço é tão vazio que chega a ser assustador, além do fato que pouca luz solar o atinge. Dou passos hesitantes em direção a porta, tentando ignorar o clima tenebroso.Talvez João seja mais inteligente do que jamais imaginei. É o lugar perfeito para discutirmos nosso trato.Abro a porta, que solta um rangido baixo.João está sentado em uma das mesas que estão espalhadas pela sala. Ele parece ainda mais bonito do que ontem, embora isso seja tecnicamente impossível.—Guardei seu all star encardido em um lugar seguro.Ele se vira em minha direção, um sorriso travesso espalhando-se pelo rosto angular. —É sério? Onde?Balanço a cabeça de um lado para o outro.— É segredo.Assim que cheguei em casa fiz questão de colocar o tênis dentro de uma caixa velha de sapatos, e enfiá-lo debaixo da cama. Isso não parece emocionante o suficiente para contar para um garoto popular.—Isso é maldade.—Ninguém disse que a vida é justa.Ele revira os olhos.—Por falar em justiça, temos que dar continuação a nossa operação—diz, balançando os pés.Reparo em seus tênis novinhos em folha. Eles são de um azul claro tão belo quanto suas feições.—Certamente—respondo, me encostando em uma das carteiras.Os olhos escuros de João me encaram do outro lado da sala, e eu os encaro de volta, recusando-me a desviar o olhar mesmo quanto meu rosto esquenta.—Você está corando—solta ele, um sorrisinho brotando em seus lábios. —Você está imaginando coisas—falo, torcendo as mãos –E não é disso que estávamos falando.A língua dele passeia pelos lábios.—Bem que poderia ser...Faço um som de nojo, e ouço sua risada logo em seguida. —Então—respiro fundo—Qual a primeira parte do plano?Ele estala a língua no céu da boca.—Você tem que voltar para casa direto depois da aula?—Não—respondo, cruzando as pernas.—Maravilha—fala, passando as mãos pelos cabelos castanhos. É um gesto simples, mas que chega a me distrair um pouco—Vamos juntos ao Terry’s. É importante que as pessoas pensem que estamos em um encontro.Chega a ser quase desconcertante a maneira tranquila pela qual ele profere essas palavras. É como se ele tivesse dizendo que vai comer cereal pela manhã, e não levar uma garota para um encontro de mentira.O terry’s é um restaurante que fica relativamente perto da escola. Lá eles servem todo tipo de coisa, desde Hambúrgueres até frutos do mar exóticos. Não é a toa que a maioria dos alunos do Instituto se reúna lá para almoçar e bater papo.Se eu e João chegássemos juntos naquele ao Terry’s, seríamos o assunto mais comentado da semana.—Laurita—chama ele, apertando os olhos—Você por acaso me ouviu?Percebo que acabei esquecendo de lhe dar uma resposta.—Sim—digo—Nos vemos na portaria depois da escola.Um sorriso se abre em seu rosto. Os caninos dele são levemente afiados, quase como os de um vampiro.João pula da mesa onde está sentado, e caminha com satisfação até mim.—Hasta la vista, baby—suas mãos deslizam até meu rosto, colocando um fio de cabelo atrás da orelha.Dou um sorriso fraco.—Hasta la vista.Medeiros pisca para mim pela vigésima vez no dia e corre até a porta, me deixando sozinha dentro da sala escura.Fico o resto do intervalo ali. Ainda refletindo em como vou fazer com que todos se convençam de que eu e eles estamos realmente em um relacionamento .
Penso na promessa em que fizemos um para o outro, e cravo minhas unhas na palma da mão. Só espero que nosso plano não acabe indo por água abaixo.##Quando a aula termina, estou me sentindo mentalmente e fisicamente esgotada. O resto dos três horários que tivemos foi marcado por uma série de perguntas desnecessárias pela parte de Letícia, das quais eu tive um grande trabalho para me esquivar.Não quero contar a ela sobre João. Primeiro porque sei que ela fará um escândalo extremamente vergonhoso se eu falar algo sobre ele, e segundo porque sei que depois de hoje, ela vai acabar descobrindo de qualquer maneira.Corro até a entrada da escola, sentindo meu coração bater descompassado. Não é nem de longe o primeiro encontro que tive na minha vida , mas é a primeira vez que finjo estar saindo com alguém. A perspectiva de tudo dar errado ainda me coloca em uma posição bastante vulnerável.Encosto em uma das grades, assistindo as panelinhas seguirem em diversas direções. É estranho como conseguimos nos dividir tão facilmente depois da quarta série.João aparece entre a manada de alunos. Ele segura a mochila em um dos ombros, e o skate em uma das mãos. Um boné virado para trás esconde parte dos seus cabelos.Quando finalmente passa pelo burburinho, não demora muito tempo a me localizar. Seus olhos se iluminam por um momento, e eu sinto meu corpo se aquecer.Faz muito tempo desde que alguém me olha assim. Gosto disso muito mais do que deveria.—Olá, Laurita—me salda, estendendo a mão para um high Five.Bato minha palma na sua, e antes que eu sequer perceba o que está acontecendo, ele entrelaça seus dedos nos meus.Olho para as nossas mãos entrelaçadas, tentando resolver a confusão que toma conta da minha mente.—Achei que seria mais convincente se chegássemos de mãos dadas.—Ah—balanço a cabeça para cima e para baixo, indicando que entendi o que ele quis dizer.É esquisito estar andando de mãos dadas com alguém novamente, especialmente alguém que até um dia atrás, eu nem tinha contato. Mas como faz tudo na vida, ele segura a minha mão como se tivesse feito isso por anos.Sinto alguns olhares pousarem em nós durante o caminho. —Parece que a operação já está começando a dar certo—ele sussurra, apertando minha mão com gentileza.Olho em volta, percebendo que uma das garotas do primeiro ano nos encara com a boca aberta.—Parece que sim.Não demoramos muito tempo para chegar no Terry’s. O lugar está apinhado de gente, como sempre, e o letreiro pisca sem parar, embora ainda esteja de dia.Dessa vez sou eu que aperto a mão de João. Diversos alunos do Instituto estão espalhados por todas as áreas do restaurante, seja comendo, conversando ou até mesmo dormindo. —Relaxa—sussurra Medeiros em minha orelha, fazendo com que os pelos de minha nuca se arrepiem.Ele abre a porta do Terry’s e eu prendo a respiração. É como se alguém tivesse atendido um holofote e o apontado em nossa direção. Olhos diversos nos seguem enquanto andamos em até uma mesa qualquer. Posso praticamente ouvir cochichos sobre mim quando solto a mão de João e largo meu corpo em uma das cadeiras. Ele tem um sorriso convencido estampado em sua face. Eu acabo sorrindo junto.—Então é assim que você se sente todos os dias?—pergunto, tamborilando os dedos sobre a mesa.Ele dá uma risada.—Só quando entro em campo—responde, girando a pulseira de couro que tem no pulso—Mas nem ali a atenção é tão grande.—Acho que somos as celebridades do dia.—Definitivamente somos as celebridades do dia.Solto uma risadinha baixa. Pela primeira vez nesses dois meses não me sinto completamente invisível. A garçonete aparece alguns minutos depois. Peço um milkshake de morango e um hambúrguer com batatas fritas para acompanhar. Medeiros pede praticamente a mesma coisa, exceto que o seu milkshake é de chocolate.Olho para as unhas, tentando ignorar os olhares que vem e voltam sobre mim.João coloca a mão por cima da minha, que descansa sob a mesa. Um calafrio familiar sobe pela minha espinha.Sinto que ele está fazendo a maior parte do nosso teatro. Então me inclino levemente, aproximando-me de seu rosto.Ele parece ficar assustado por meio segundo, mas logo sua expressão suaviza.—Você não pode fazer tudo sozinho--digo.Faço um círculo em sua bochecha com a ponta do indicador. É exatamente o ponto onde suas sardas se destacam como constelações.João não desvia minha mão, muito menos para de olhar para o meu rosto. É engraçado a forma como o fato de estarmos fingindo um namoro, torna as coisas muito mais fáceis do que seriam em uma situação real. Eu não tenho que me preocupar com o que ele pensa ou deixa de pensar de mim, ou tentar fazer com que minhas melhores qualidades se destaquem.—Eu nunca tinha percebido que seus olhos são meio verdes—ele diz de repente. Pisco, um pouco acanhada.—Eles são castanho-esverdeados. Não dá pra perceber a não ser que esteja muito perto.—Estou feliz que esteja perto então.Nunca em um milhão de anos imaginei que João Medeiros chegasse a ser uma pessoa até... Doce. Minha vida está mesmo um caos.Graças a Deus a comida chega naquele mesmo instante. Volto a minha posição normal, sorrindo de volta pra garçonete.Ataco o hambúrguer. Ter seis horário de aula, sendo dois seguidos de física, faz com que qualquer pessoa fique faminta.João faz o mesmo. Com os treinos de futebol acontecendo regularmente, ele tem que comer mais do que duas de mim.Quanto mais pessoas entram no restaurante, mas eu sinto que a primeira fase do plano está sendo um sucesso. Cochicho isso para meu parceiro enquanto, término de mordiscar um pedaço de pão.—A festa do Ryan vai ser a segunda fase—Ele cochicha de volta, dando um gole do seu milkshake.Quase cuspo a comida da boca. Ryan Lopes é conhecido por dar as festas mais legendárias de todo o Colégio. Como seus pais trabalham com empresas internacionais, eles estão constantemente fora, o que Ryan e seu irmão aproveitam para praticamente destruírem sua mansão.—É sexta feira—continua João, sem perceber minha cara de espanto—Temos que estar lá.—Se meus pais não me matarem primeiro, eu com certeza vou estar lá.Ele ri, enfiando uma batata frita na boca. —Pode apostar que eu não vou deixar que eles façam isso.No caminho de volta, ainda parece tudo muito surreal. Não estamos mais de mãos dadas quando chegamos a escola novamente, mas a sensação de sua pele com a minha resiste em mim.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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