25/11/2017

Quando cheguei desacompanhado ao GAPAD, o único surpreso foi Victor. Ele imediatamente perguntou por Phichit, cuja presença nos dias de palestra havia se tornado habitual. Explicamos que ele estava enrolado com uns assuntos da faculdade e que por isso não viria hoje, apesar de muito desejar. Victor anuiu, em sinal de compreensão, e nos chamou para sentarmos com ele.

Enquanto esperávamos Minako terminar de se organizar, tanto eu, quanto Victor nos vimos presos em um ciclo de silêncio onde era óbvio que ambos desejávamos falar alguma coisa, mas éramos incapazes porque acabávamos nos atropelando e voltando ao silêncio. Victor, sorrindo embaraçado, levou uma mão à nuca e olhou para o lado, enquanto eu focava em minhas mãos, que descansavam em meu colo. Guang e Leo riram entre si, provavelmente se divertindo com a cena, mas ninguém fez qualquer comentário.

“Trouxe a torta?”, perguntei, finalmente, trazendo à tona a primeira coisa que consegui pensar. Porém, assim que Victor me informou que já havia a deixado nos fundos, voltamos ao silêncio constrangedor de antes.

Sinceramente, não sei porque isso estava acontecendo. Para minha sorte, o início da palestra deu-me uma desculpa para deixar as preocupações de lado.

Hoje, o tema tratado foi sem dúvidas o mais interessante até agora. Falamos sobre procrastinação e de como nosso estado mental pode nos afastar até das atividades que normalmente nos dariam prazer, e nunca me identifiquei tanto com as palavras e termos que Minako escrevia no quadro branco. Também achei muito interessante a parte de preguiça emocional, que é um assunto que certamente irei pesquisar mais profundamente quando tiver a oportunidade.

Quando acabou, Minako parecia cansada. Seus olhos, porém, brilhavam, satisfeitos com o retorno que haviam recebido. Comentários, troca de experiências, dúvidas… Em todos os meus meses no GAPAD, nunca vi as pessoas participarem tanto.

Imediatamente virei em direção aos meus amigos, desejando saber o que eles tinham achado da palestra de hoje, mas encontrei apenas Victor. Ele se virou em minha direção ao perceber que estava sendo encarado e, perante minhas expressões confusas, explicou que Guang e Leo já haviam ido comer.

Internamente, pensei em comentar algo a respeito do comportamento deles, mas decidi por ficar quieto.

“Gostou da palestra?”, Victor perguntou, mas ele parecia estar perguntando mais por educação do que por qualquer outra coisa, já que eu tinha certeza que meus olhos brilharam durante toda a apresentação. Sorri e anui, em um silencioso sim.

Nós ficamos um tempo sentados, conversando, aproveitando que o assunto havia voltado a fluir normalmente. Perguntei se sua birra com Makkachin havia diminuído desde ontem, e Victor suspirou. “Ele mereceu. Sabe, estou cansado do comportamento dele. Eu queria que pelo menos ontem ele não tivesse feito cena, já que você vinha lá em casa.”, ele resmungou. Vendo a oportunidade e sentindo-me um pouco mais atirado que o normal, perguntei: “Hm, só porque eu ia? Assim vou me sentir especial.”

Okay, pausa. Eu sinto que devo explicar uma coisa antes de prosseguir. Esse tipo de provocação é algo que eu normalmente faço com Phichit. Uma brincadeira velha e recíproca, praticamente uma piada interna.

Naquele momento, porém, não era com Phichit que eu estava falando, e me pergunto se meu cérebro se esquecera disso.

Victor corou, seus lábios caindo abertos enquanto nenhuma resposta saía destes. Ele estava prestes a falar algo quando o interrompi, sentindo-me de repente desesperado. Desviei o assunto e fiz questão de impedir que Victor o trouxesse à tona, o que ele tentou fazer algumas vezes. Com o tempo, ele desistiu e aceitou que não estaríamos tendo aquela conversa tão cedo. Pouco depois, Victor disse que odiava acabar com a diversão, mas que tinha de ir trabalhar.

Um sorriso imediatamente brotou em meus lábios enquanto eu pedia por mais detalhes. Ele me explicou que começava oficialmente só segunda, mas que iria cobrir um funcionário que não poderia comparecer hoje. Eu o desejei boa sorte e repeti pelo menos umas três vezes que tudo daria certo. Escondendo dentro de mim uma grande vontade de abraçá-lo, despedi-me dele com um aceno ao que ele saiu portão afora. Fiquei um tempo contemplando o tempo lá fora, onde uma fina chuva caía do céu, e então me juntei aos meus amigos.

A primeira coisa que Leo me disse quando me viu foi: “Essa torta está deliciosa! Qual o ingrediente secreto? Amor?” A minha falta de reação foi suficiente para que eles me perguntassem o que tinha acontecido (desta vez). Sem sequer saber por onde começar, contei tudo, desde a minha visita à sua casa, passando pelo beijo que ele me deu na bochecha, até o meu flerte acidental de agora há pouco. Guang e Leo trocaram olhares, evidentemente confusos.

“Espera…”, Leo começou, mas foi Guang quem continuou: “Hm, Yuri, vocês não estão namorando?”. A pergunta soou tão sincera que fiquei sem saber como responder. Embaraçado, mas principalmente confuso, falei que não. Pelo jeito, eles achavam que nós já estávamos namorando secretamente, e que só não tínhamos falado nada ainda porque somos dois idiotas envergonhados. “Achamos que tudo estava acertado, por isso, nunca falamos nada do abraço. Ou você acha que não sabemos desse pequeno acontecimento?”. Leo tinha um sorriso debochado no rosto.

Duas fatias de torta de frango depois, feitos todos os devidos esclarecimentos, Guang me perguntou se eu não pretendia dizer ao Victor como eu me sentia. “Não acha que está na hora?”

Ciente que eu tinha que ser sincero, contei que eu sabia que já devia ter sido honesto sobre como eu me sentia. Porém, meu medo de ser rejeitado e de ele se afastar era grande, e não era algo que eu conseguia simplesmente ignorar. Eles me asseguraram de que esse tipo de insegurança era normal, e que eu não devia deixar ela me controlar.

“Você não quer que ele saiba?”

“E se ele não gostar de mim?”

“Isso não vai acontecer, mas, se acontecer, você realmente acha que o Victor é um total babaca que te trataria diferente por algo do tipo?” Leo sorriu e apoiou uma mão em meu ombro, e então falou algo sobre eu ser o maior defensor do Victor para causas perdidas. Sorri ao relembrar os acontecimentos de um passado agora distante.

A passagem do tempo é realmente algo engraçado. Pessoas mudam, assim como os sentimentos que elas carregam umas pelas outras. Meu eu do passado não tem ideia das coisas que o aguardam.

Um sorriso firme e um olhar decidido foram tudo que meus amigos precisaram para compreender que eu havia enfim me resolvido.

Eu estava pronto para confessar meus sentimentos para o Victor.

Notas finais
Olá, mundo. Mais um capítulo, yey! Espero que tenham gostado. ヽ(・∀・)ノ Sinceramente, este é um dos meus capítulos preferidos porque tem aquele gostinho de "estamos chegando no final". Okay, isso talvez não tenha feito muito sentido. Whatever. A vida também não faz sentido. Comentários são sempre bem vindos. Façam uma autora feliz. Obrigada a todos que estiveram comigo até aqui. Tem sido uma longa jornada, uma jornada que a cada semana está mais próxima de seu fim. (dramático, não?) Vou ficar mais emocional a cada novo capítulo, se preparem porque no último vão ser só lágrimas. Até semana que vem!