Open wounds, closed heart
13 Dia 13
29/07/2017
Quando cheguei ao GAPAD fui imediatamente deixar as bebidas que eu havia trazido sobre a mesa, junto dos lanches que seriam consumidos posteriormente. Não demorou até que eu me encontrasse com Guang, que deixava um bolo de cenoura junto aos outros doces. O bolo parecia delicioso, com bastante cobertura de chocolate, e fiquei surpreso ao descobrir que o próprio Guang o havia cozinhado – fato anunciado por Leo, que se aproximou assim que nos viu.
As palestras de hoje, devo admitir, não foram nada muito surpreendentes, pois grande parte da informação eu já sabia por causa de pesquisas que eu havia feito por conta própria há um tempo atrás, quando eu buscava causas para o estresse na sociedade jovem ter crescido tanto nos últimos anos. Ainda assim, era sempre interessante ver Minako agindo toda formal, como a psiquiatra que era.
Mas o que acho ter sido o momento realmente relevante do meu dia ocorreu logo após o fim das palestras.
Eu comia uma fatia do bolo do Guang (que estava muito bom) quando vi Minako ir apressada em direção à porta do salão. Seguindo com o olhar a direção a qual ela se direcionava, vi meus olhos se fixarem em duas pessoas, que aguardavam a doutora com feições nada alegres; uma delas era Victor.
Minako conversou com o senhor desconhecido, que parecia cansado e apontava de maneira estressada em direção ao Victor, que não parecia nem um pouco satisfeito com aquela situação. O senhor retirou seu chapéu e entrou no salão, seguindo atrás de Minako provavelmente para terem uma conversa particular. Antes de deixar Victor sozinho, porém, ele o disse alguma coisa, algo que não ajudou a melhorar o seu humor anormal. Era estranho não ver um sorriso em seu rosto.
Quando Guang e Leo notaram para onde eu olhava (ou melhor, para quem), incentivaram-me a ir falar com ele, e foi o que eu fiz. Respirei fundo e andei em sua direção. Eu disse um “oi” tímido enquanto esfregava os dedos das mãos uns nos outros, e Victor respondeu sem muita vontade. Ficamos em silêncio por algum tempo, e isso estava me matando, então perguntei se havia acontecido alguma coisa, já que ele tinha faltado. Victor, meio distante, simplesmente respondeu que nada aconteceu. Entretanto, suas palavras não pareciam sinceras e, mesmo ciente que eu o estava incomodando (era óbvio que ele não desejava a minha companhia), perguntei mais uma vez se nada acontecera e se ele estava bem.
Quando Victor tornou a olhar em minha direção pensei que seus olhos fossem me congelar de tão frios que eram. Ele então perguntou se eu não podia o deixar em paz e se eu não via que ele não queria conversar. Sem saber o que falar, apenas fiquei olhando para ele, não tendo esperado aquela reação.
Enquanto eu lutava contra um choro que eu queria fingir não ter quase acontecido, Guang e Leo vieram ao meu resgate, aparentemente tendo visto o que se passava. Leo ficou irritado e disse para Victor sobre como eu estive preocupado com ele e de como eu fui o único que nunca duvidou que ele fosse uma boa pessoa (coisas que eu queria muito que ele não tivesse dito).
Abalado pela situação e sem qualquer vontade de vê-los brigar por minha causa, afastei-me antes que eu pudesse sequer ver as expressões no rosto de Victor depois daquelas revelações. Fui em direção ao quintal, mas já havia gente lá. Sendo assim, fui em direção ao portão.
Eu havia acabado de chegar ao portão quando Victor me segurou pelo braço. Seus olhos não mais eram frios, mas ainda assim eu não desejava ter de encará-los naquele momento. Victor se desculpou, mas foi só quando ele começou a explicar o que acontecera que ele obteve minha total atenção.
Aparentemente, ele tinha depressão e havia tido uma recaída essas semanas, e mesmo hoje ainda não estava 100%, e complementou então dizendo que ainda assim isso não era desculpa para ter me tratado mau. Ele me disse que eu não precisava esquecer a sua grosseria, mas que esperava não ter destruído as chances de sermos amigos, porque ele havia sido sincero quando me disse há algumas semanas que desejava a minha amizade.
Sem saber bem o que fazer, apenas concordei.
Victor sorriu levemente, como se parte de seus problemas houvessem se resolvido. Para mim, lamentavelmente, era o contrário. Senti-me nervoso e despedi-me de Victor, que se reuniu ao senhor de mais cedo e foi embora, prometendo aparecer na semana seguinte.
Fui para casa aquele dia com muitas coisas na cabeça, mas, por fim, decidi que dar uma chance para Victor não custava nada. Ele parecia uma pessoa legal e eu estaria mentindo se dissesse que não me interessava nele… como amigo.
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