Open The Walls
2 Dollhouse
Notas iniciais
Desde pequena Melissa foi submetida a um teatro. Toda a sua vida foi assim, desde que se entende por gente a menina vive sobre o controle de sua mãe, Clara, uma mulher rígida, mas instável.
Clara vive uma luta diária para manter sua família perfeita, o que é quase uma missão impossível, já que só Melissa a obedece, ao passo que os outros dois, David, seu filho e Pedro, seu marido, não a escutam. Contudo, seu esforço não é totalmente em vão, uma vez que a aparência de casa de boneca é mantida por fora, tudo maravilhoso, se ninguém souber o que acontece lá dentro.
Melissa estava em seu quarto, atordoada como sempre, lutando para não chorar. Nem tinha motivo para fazer isso, mas como era uma bebê chorona sentia vontade o tempo inteiro. Talvez fosse a depressão, a obrigação de parecer o que não é. Aliás, a garota estava se empenhando para perder aquele apelido que a atormentava desde criança, não queria mais ser apenas uma chorona e por isso engoliria aquelas lágrimas, apesar de ainda querer afogar todo mundo nelas.
Quando voltou a si e conseguiu controlar a vontade de desmoronar, a menina viu seu pai passar pela porta de seu quarto. Levantou lentamente da cama e olhou por uma greta, pôde o ver descendo as escadas enquanto sussurrava ao telefone. Ela sabia com quem ele estava falando, não entendia porque insistia em sussurrar, todos dentro daquela casa sabia sobre a traição, não era uma novidade, muito menos um segredo. Talvez ele acreditasse que as paredes têm ouvidos.
Quando o homem terminou de descer as escadas, Melissa escancarou a porta e correu até o quarto de sua mãe, passando pelo quarto de David e o observando rapidamente. Mexeu desesperadamente na maçaneta, mas Clara havia a trancado, como era de se esperar.
— Mãe, por favor, acorde. — a menina exigiu, praticamente socando a porta, porém não obteve resposta. — Papai está com uma puta, e seu filho está fumando maconha. — continuou com a voz elevada. Ao contrário de seu pai, ela não imaginava que as paredes tinham ouvidos, e se tivessem não estava nem aí. — Mamãe... — ela murmurou, desistindo, ninguém nunca a escutava mesmo.
Afinal, o que ela havia dito não faria diferença nenhuma. Sua mãe já sabia de tudo aquilo, só fingia que não via para manter sua ilusão, e mesmo que Clara tivesse a ouvido, não ligaria, ela tinha como fugir dos problemas, tinha suas bebidas, no entanto, Melissa não tinha uma válvula de escape.
A menina bateu com as costas na porta e enquanto as lágrimas escorriam por seu rosto, ela escorregou até o chão. Encaixou a cabeça entre seus joelhos e ficou encolhida ali, chorando. No fundo, ela nunca conseguia deixar de ser uma bebê chorona.
Algum tempo depois, Melissa se assustou e ergueu a cabeça, havia escutado um barulho vindo de dentro do quarto. Levantou-se e em seguida a porta se abriu, revelando sua mãe com uma aparência ótima, como se não estivesse de ressaca há dias.
— O que está fazendo aqui, Melissa? — indagou, encarando a menina.
— Eu estava... — começou, sendo interrompida.
— Chorando de novo, Melissa?! Vá passar uma maquiagem, Amanda virá aqui e você não pode estar com essa cara! — exclamou estressada e a garota bufou. Sua mãe quase não falava com ela, e quando falava era para brigar, o que havia feito de errado?
Amanda era uma amiga de Clara, esposa de alguém importante, porém Melissa estava distraída demais para se lembrar de quem era.
Clara deixou Mel reclamando sozinha e foi para a sala receber sua visita. Melissa foi para seu quarto, sentou em frente a sua penteadeira e começou a se maquiar, era hora de atuar, tinha que colocar sua cara de boneca. Soltou seus cabelos claros e ouviu sua mãe a chamar, a convidada devia ter chegado. Olhou mais uma vez para o espelho e se forçou a sorrir, descendo para a sala logo depois.
— Mel, meu amor! — Clara exclamou ao ver a filha, que continuou sorrindo.
— Sua menina é linda, Clara. — Amanda comentou e cumprimentou Melissa com um abraço.
— Filha, por que não vai chamar o seu irmão? Aproveite e passe na cozinha para pegar o chá que fiz. — sua mãe pediu docemente, para onde foi a mulher que havia brigado com ela minutos atrás?
— Mas... — Melissa tentou questionar.
— Vá, meu bem. Você não quer ser uma boa irmã? — perguntou retoricamente, mesmo se ela não quisesse, não teria outra opção.
— Claro, mamãe. — respondeu, tentando se manter calma e recebeu um sorriso em resposta. Subiu as escadas se controlando para não bater os pés e quando já estava no segundo andar, bufou mais uma vez.
Melissa tentou levar David para o andar de baixo, mas ele não estava bem e não seria bom para a “família exemplar” mostrar um filho naquelas condições a alguém importante, então inventou uma desculpa e desceu novamente, passando na cozinha e pegando a chaleira. Chegou à sala e as duas mulheres conversavam sobre as joias que estavam espalhadas pelo corpo de Clara.
— São lindas, querida. — Amanda disse.
— Obrigada. — agradeceu o elogio. – Cadê o David, Mel? — a mãe indagou, enquanto a menina colocava chá em sua xícara.
— Ele não está se sentindo bem. — respondeu, servindo chá para Amanda. — Decidiu deitar um pouco. — observou sua mãe, ainda colocando chá na xícara da outra moça.
— Ai! — Amanda exclamou, alterando um pouco a voz, fazendo Melissa e Clara olharem para ela assustadas. Mel arregalou os olhos, enquanto a mulher se levantava.
— O que houve? — Clara perguntou, também levantando de seu assento. Melissa não conseguia formular nenhuma frase.
— Eu vou embora, marcamos outro dia para conversar. — Amanda falou, passando a mão por sua saia, agora molhada por chá quente.
— Ah meu Deus! Desculpe, querida. — exclamou Clara, espantada.
— Está tudo bem, depois nos falamos. — e saiu porta a fora, com Clara a seu alcanço. Melissa continuou parada na sala, sem saber o que fazer.
Minutos depois, Clara voltou, parando na frente da filha, que havia sentado no sofá.
— Aonde é que você estava com a cabeça? — ela gritou, pegando o braço da menina e a levantando. — Tem noção do quão importante aquela mulher é?! — continuou gritando e a sacudiu, soltando-a no sofá outra vez. — Você só não vai apanhar por que... — virou as costas e foi para a cozinha, provavelmente para procurar alguma de suas garrafas de bebida, deixando a filha chorando na sala. Ela não precisava completar a frase, Melissa sabia que só não tinha levado uma surra ainda porque ficaria com marcas, que seriam mal vistas, já que famílias perfeitas não têm problemas.
A campainha soou e Mel ouviu outro grito de sua mãe, mandando-a atender a porta, ela devia estar muito ocupada com o álcool. Assim a menina fez, abriu a porta e se concentrou em parar de chorar.
— Eu esqueci minha bolsa. — era Amanda, explicando porque havia voltado para lá. Pelo visto Clara ainda não estava bêbada, pois assim que a frase foi dita, ela apareceu novamente. A mulher entrou quando Melissa deu espaço para ela passar.
— Eu nem havia notado. — Clara disse, parada no batente da cozinha. Melissa apenas continuou segurando a porta, enquanto sorria.
— Certo, eu só vim busca-la mesmo. — falou, pegando a bolsa e saindo novamente.
— Até mais. — Clara disse e Melissa balançou a cabeça, Amanda deu um meio sorriso e foi embora outra vez. A mãe encarou a menina com uma expressão feia e voltou para onde estava antes.
Mel subiu as escadas e foi para o seu quarto, não tinha mais nada para fazer. Se jogou na cama e desejou que ninguém nunca visse o que acontecia na cozinha, entre aquelas cortinas, porque ela via coisas que ninguém merecia ver.
Fale com o autor