Ontem, Hoje E Para Sempre
2 Ela não é nada.
Notas iniciais
Cair Parável, ano 2007
Ben.
Desci do carro, batendo a porta. Joguei a mochila por cima do ombro e caminhei em direção à escola, em direção ao gramado onde vi minha linda sentada à sombra da macieira, ela tinha um livro aberto sobre as pernas, seu rosto angelical demonstrava a concentração na leitura, os cabelos loiros e lisos estavam presos num delicado rabo de cavalo. Ao lado dela estava Jade, mirando-se num espelho.
- Oi, meninas. – cumprimentei.
- Oi – Jade não desviou a atenção do espelho. Lílian ergueu os olhos para mim, enquanto eu sentava ao seu lado na grama.
- Oi, Ben. – ela sorriu. Aproximei-me dela para lhe beijar, mas Lílian desviou, pousando o indicador em meus lábios.
- Lílian, qual é... – rolei os olhos enquanto ela dava um sorriso provocante.
- Você é muito apressadinho... – defendeu-se ela.
- Eu estou esperando há muito tempo, se é que você já esqueceu que vem me enrolando... – lembrei.
- Calma Ben – Jade finalmente largou o espelho e olhou para nós. Encarei-a.
- Jade e eu andamos pensando em algo para fazer... Sabe... Algo que vá marcar o ultimo ano. – disse Lílian.
- Ah, nossa... E o que seria? – perguntei em tom de tédio enquanto me escorava na arvore.
- Ainda não sabemos. – Jade falou como se fosse óbvio. – Mas tem que ser algo bem... – o sinal a interrompeu.
- Nossa, olha quem chegou... – Lílian falou com nojo olhando para a calçada alguns metros a nossa frente.
– Vermes deviam ser proibidos de frequentar a escola. – acrescentou Jade, seca.
Olhei na direção em que elas olhavam. Lá, indo para a entrada da escola, tinha duas garotas da nossa sala. Elas sentavam sempre no fundo e não eram muito de conversar com ninguém, eram daquele tipo solitário a quem ninguém percebe ou se interessa.
- O que têm elas? – perguntei sem dar muita importância.
- Relaxa Lílian – disse Jade. – Elas são inofensivas. – deu de ombros.
- E nem chegam perto de sua beleza. – roubei um beijo de Lílian, levantei no mesmo instante e fui rapidamente para dentro da escola. Ouvi-as vindo atrás de mim.
Entrei na sala de aula e sentei ao lado de Ed. Jade e Lílian a nossa frente. Dei uma espiada por cima do ombro para o fundo da sala. Na ultima mesa estavam as duas garotas. A da direita tinha os cabelos longos castanho-avermelhado, soltos. Usava uma regata preta e uma saia longa. A da esquerda usava uma blusa com o capuz cobrindo a cabeça, uma calça jeans e All Star. A chegada do professor me fez voltar a atenção para frente.
- De olho na Pevensie? – perguntou Edward com um sorriso de lado enquanto tirava os livros da mochila.
- Não, tá louco? Ela não é nada. Meu negocio é Lílianl. – falei.
- Bom dia – cumprimentou o professor, passando os olhos por nós. – Er... Senhorita Pevensie, o capuz, por favor. – pediu ele. A turma olhou para quem ele falava. A garota, sem tirar os cotovelos da mesa, empurrou o capuz para as costas. Ela não era o que eu classificava como bonita. Suas roupas sempre neutras eram fechadas, não havia resquícios de maquiagem em seu rosto e seu cabelo sempre preso do mesmo jeito. Nem se comparava com Lílian e as minissaias que ela usava. Voltei a olhar para frente e a aula de história começou.
Dormi a maior parte do tempo, nada me dava mais sono do que história. Edward me cutucou diversas vezes para que eu acordasse, eu despertava, ouvia umas duas ou três palavras e logo voltava ao estado “dormindo acordado”. Ed me cutucou de novo e eu lutei para manter os olhos abertos, o professor fazia um pergunta.
- Sendo assim, quem de vocês poderia me dizer como terminou a guerra contra os telmarinos? Alguém? – seus olhos corriam pela sala. Lílian, sentada a minha frente, levantou a mão graciosamente. Voltei a prestar atenção.
- Senhorita... – ele permitiu, escorando-se na mesa e cruzando os braços.
- A guerra terminou quando o exército de Narnia encurralou o exército telmarino no rio e venceu a batalha. – respondeu confiante. O professor nada disse por alguns segundos, quando ia falar algo chamou a atenção de seus olhos no fundo da sala. Ele indicou para que alguém falasse.
- Na verdade – uma voz doce, melodiosa e pouco escutada começou. Todos os olhares se voltaram para a garota que falava, mas ela olhava para o professor. – O exército de Narnia encurralou sim os telmarinos no rio, mas a guerra só terminou quando a Rainha Lúcia chegou acompanhada do próprio Aslam, na outra margem do rio, de frente para a ponte que os telmarinos tinham construído. De acordo com o livro, Lorde Sopespian, que comandava os telmarinos, seguiu em frente com seus soldados na direção do Grande Leão; foi quando Aslam rugiu, despertando o deus Baco que derrubou a ponte matando todos os telmarinos que estavam sobre ela, então os que sobreviveram se renderam aos narnianos e o príncipe Caspian foi coroado. – explicou a Pevensie.
- Excelente! – falou o professor. Voltei a olhar para frente e vi que Lílian encarava a garota com raiva antes de virar para frente outra vez. Jade perguntou alguma coisa a ela, e ela resmungou alguma coisa, mas foi interrompida pelo professor que continuou a aula.
[...]
- ISSO AÍ, BEN! – era a aula de Educação Física, os garotos do time comemoraram quando marquei um gol, era só um treino, mas mesmo assim era gratificante.
- Ótimo, gente, só por hoje, para o chuveiro! – falou o treinador.
Caminhei para fora do gramado, peguei as chuteiras e fui para o vestiário. Tomei uma ducha rápida.
- Vamos ver as meninas, elas estão jogando vôlei. – comentou Edward com tom malicioso enquanto calçava as meias, sentado no banco entre os armários.
- Você vem, Ben? – perguntou Daniel, vestindo a camisa. – A Lílian vai estar lá, de shortinho. – ele riu. Dei um sorriso torto, fechando a porta do meu armário. Apoiei a mochila no banco para fechar o zíper. Assim que os dois ficaram prontos, esperamos John por mais uns minutos e seguimos para a quadra onde estava armada a rede de vôlei e onde as meninas da turma estavam divididas em dois time, as poucas que sobraram estavam sentadas no banco dentro da quadra. Nós sentamos na arquibancada.
Vi Lílian, ela usava o short curto e colado, como os das jogadoras da seleção, e a camisa sem mangas, os cabelos loiros estavam presos num rabo de cavalo e ela acabara de marcar um ponto, estava comemorando com Jade.
Seu time sacou e depois de um tempo tentando manter a bola longe do chão, o time adversário mandou a bola para fora deixando uma de suas jogadoras com o tornozelo torcido. A treinadora interrompeu o jogo.
- Pole, para o chuveiro. Pevensie, você entra! – gritou ela.
- Mas eu não sei jogar! – argumentou a Pevensie.
- Entra! – ordenou a treinadora. Mesmo contra a vontade, a garota entrou no jogo no lugar de Giulia Pole que foi colocar gelo no tornozelo. O jogo continuou. O time de Lílian marcava ponto atrás de pontos, ela marcava a maioria dos pontos. Realmente, a Pevensie não jogava nada. Ela não tinha o menor jeito para esportes. Até que, num lance que não deu muito certo, ela acabou acertando a bola no rosto de Lílian que caiu sentada. Nada grave, mas foi o suficiente para deixar Lílian muito, muito zangada.
- Você está bem, Ramandu? – perguntou a treinadora à Lílian. – Só por hoje meninas!
- Desculpe. – a Pevensie pediu a Lílian, que apenas a encarou. Não entendo por que Líly se incomoda com essa garota, Jade tem razão, ela é inofensiva. Um nada...
Depois do treino lamentável, era o almoço. Depois de pegar minha comida, Edward, Daniel e eu seguimos com nossas bandejas até a mesa onde estava Lílian e Jade. Comi tranquilamente enquanto elas mal tocaram na comida, falando sem parar.
-Jade, me empreste seu espelho, por favor. — Lílian, sem humor, estendeu a mão esperando o objeto que Jade caçava dentro da bolsa de couro. Assim que o teve em suas mãos, Lílian se pôs a mirar-se nele.
-Tudo bem com você? — questionou Daniel, após alguns segundos observando a cara ferrada de Lílian.
-Aquela imprestável! — vociferou Lílian com o dentes trincados. — Ela fez isso de propósito, aposto como fez! — ela falava sozinha. Ed, Dan e eu trocamos um olhar intrigado.
-Está falando da Pevensie? — perguntou Daniel.
-Ainda está bolada com a bolada, Lílian? — Edward gargalhou de sua piada sem graça o que só fez a loira ferrar mais a cara.
-Ela fez de propósito, eu sei que fez, primeiro foi na aula de história, depois no treino. Excelente... Se ele tivesse pedido detalhes e responderia a mesma coisa, ou até melhor! — ela resmungou. Bufei. — Ela está fazendo isso de propósito e isso não vai ficar assim...!
Foi a vez de Daniel rir.
-A Pevensie? Não implique com ela, Lílian...
-Ela que está implicando comigo! — defendeu-se.
-Ela não fez por querer, Lílly, por que ela implicaria com você? — perguntou Dan calmamente.
-Por que você está defendendo ela, Daniel?! — indagou Jade, raivosa.
-Por que eu sei que ela não iria implicar com você sem motivo... — continuou ele, medindo as palavras depois de ser fuzilado com o olhar de Jade.
-Você conhece ela? — perguntou Edward, com a boca cheia.
-Bom, mais ou menos, John nos apresentou certa vez, ela não é do tipo vingativa e implicante, vai por mim...
-John a conhece? — perguntei, nunca tinha visto os dois juntos...
-Sim, ele é amigo dela. Dela e de Gina.
-Quem é Gina? — perguntou Ed, com a boca cheia novamente.
-Gina, Ed, a ruivinha que anda com a Pevensie.
-Ahhhh...
-Nunca vi John com elas, Dan. — observou Jade, tomando seu suco de laranja.
-Olha ali. — ele apontou para uma outra mesa não muito longe dali. Assim que olhamos naquela direção, vimos os três juntos almoçando em meio a uma conversa cheia de risadas, ou melhor, John e Gina conversavam e riam, a Pevensie estava com atenção distante rabiscando alguma coisa em um papel. Por alguns segundos, eu a observei, algo nela me fazia sentir estranho... Não sei explicar, naquele momento era como se a conhecesse de algum lugar... Como se já tivesse visto aquela cena antes,s mas de modo diferente... Como se ela fosse uma peça importante no tabuleiro de minha vida... Sei que isso é estranho, mas iria ficar pior se o aceno de John não chamasse minha atenção.
Foi quando percebi que só eu continuava olhando para lá. Acenei de volta e não demorou para que o aceno de John chamasse a atenção de Gina e da Pevensie. Gina direcionou um sorriso suave para mim, eu retribuí, mas foi quando meu olhar encontrou o da morena que meu coração disparou. Eu nunca tinha olhado em seus olhos de forma mais atenta, e foi o que desencadeou uma sensação mais estranha ainda. E não fui o único. Ela também me olhava com um misto de confusão e nervosismo até que a conversa distraída de Gina e John a chamou de volta para a mesa, mas eu permaneci com os olhos presos na figura diferente dela.
-Ben...? Ben? Alô?! Ben! Narnia para Ben!... — eu ouvia ao longe.
-BEN! — chamaram Jade, Edward e Daniel, trazendo minha atenção de volta.
-Que?
-Onde você estava?
-Não saí do lugar. — resmunguei voltando-me para minha comida, concentrando-me em comer. De relance, pude vê-los voltar a fazer o que estavam fazendo, mas, também de relance, pude ver Lílian me encarando aborrecida, olhando de mim para a mesa da Pevensie, mas não olhei para ela, apenas fiquei comendo em silêncio, tentando entender aquela sensação estranha.
O sinal tocou e nós voltaríamos as aulas, quando por acidente, Lílian e a Pevensie se esbarraram. A garota pediu desculpas sinceras pela mísera quantidade de suco derramado na perna da loira e seguiu seu caminho após Lílian deixar bem claro que não queria a ajuda dela. Enfurecida, a loira secou o suco de sua perna longa e seguiu de forma quieta e sombria até a sala de aula.
-Está tudo bem com você? — questionei a ela.
-Você ainda tem dúvidas de que ela está implicando comigo? — indagou Lílian, séria. Não respondi. — Jade, lembra que queríamos fazer algo para marcar o ultimo ano? — mudou seu tom para um do tipo “Diversão a vista”.
-O que você está planejando? — perguntou a outra parecendo animada.
-Uma brincadeirinha com a Pevensie... — respondeu a loira, dando um sorrisinho enquanto brincava com uma das mechas do cabelo.
-O que? — questionei. — O que você quis dizer com “brincadeirinha”?
-Uma coisinha boba... — deu de ombros, logo me lançando um olhar doce, enrolando uma mecha do cabelo nos dedos de um jeito sedutor. — Você vai me ajudar, não vai, Ben? — a vozinha doce.
-Depende. — falei, completamente derretido. Ela ficou em silêncio por alguns minutos fazendo Jade explodir de curiosidade.
-Anda logo, Lilly, conta o que você está planejando! — implorou.
-A missão vai ser sua Ben. — disse calmamente. — Você aceita embarcar nela sem poder voltar atrás ou mudar o rumo da mesma?
-Como eu disse... Depende. — fiz-me de difícil.
-Se aproxime dela, Ben. Conquiste a confiança da Pevensie e deixe o resto conosco. — falou num tom vingativo.
Jade a olhou maravilhada enquanto víamos nos olhos de Lílian o que ela tinha em mente. Eu ia concordando, mas me dei conta do quanto isso era cruel.
-Ficou doida? Isso não se faz, Lílian! — argumentei. — Na verdade, você nem deveria fazer nada contra ela, essa história de implicância é tudo coisa da sua cabeça. Além disso, e se ela não se deixar conquistar? — por que eu estava defendendo a garota que eu sequer sei o nome?
-Eu vi como ela olhou para você no refeitório, ninguém resiste a você, bobinho – uma massagem estratégica no meu ego. — Além disso, não vai ser nada demais... Só uma brincadeirinha boba... — deu de ombros.
-É, Ben, vamos lá, vai ser divertido! — Jade a apoiou.
-Isso é errado. — falei.
-Me acertar uma bolada é errado, me desmoralizar na frente de toda turma é errado; eu tenho uma imagem a zelar, Ben, querido, além disso... — ela se aproximou de mim, pondo-se na ponta dos pés para falar em meu ouvido com aquele tom sedutor que me desarmava. — Se você fizer o que eu pedi, ao fim do baile de formatura terá o que há tempos vem me pedindo...
Eu estremeci. Uma proposta tentadora. Extremamente tentadora.
Ah, que mal tem? Vai ser só uma brincadeirinha...
Notas finais
Beijokas!!
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