Ontem Felipe. Hoje não mais.

3 Capítulo 3 - Eu te salvo mas você escapa


Notas iniciais
Estou furioso, porém confuso. Não sei o que fazer. Alguém me ajude. - Me encolhi, chorando, sozinho.

Olhei para um lado e para o outro tentando entender o que estava acontecendo, um lugar no qual ninguém ia, apenas eu sabia que ele existia. Mesmo ele estando na escola apenas eu frequentava aquele canto. Me perguntava se era apenas um gato ou uma pessoa, até que eu joguei uma pedra na árvore. Um gato caiu dali, mas por sorte ele caiu com as quatro patas. Um garoto pulou logo atrás dele;

–Te peguei seu danado. — Ele era da altura do Mike, seu cabelo era um loiro, quase branco, obviamente tingido, tinha olhos vermelhos assim como as folhas de outono que caiam naquela tarde, estava usando um uniforme não completo, cinza com as letras miúdas "Colégio Din Trim" estampadas no seu peitoral. — Ah. Oi, sou Daniel, desculpa te intrometer, tive que vim pegar o Tadeu. Aliás qual seu nome?

Apontei para as pedras nas quais eu havia jogado há pouco tempo atrás. "Daniel" eu percebi ele falando com um som meio sombrio com um pequeno suspiro após.

–Brincadeira, eu sempre gostei de Daniel, mas meu nome é Felipe, Não pensei que iria conhecer alguém assim do nada com esse nome. — Eu percebi que ele não estava feliz em me ver ali, fui me levantando para ir embora, mas ele me interrompeu;

–Não se preocupe, eu já estou de saída, além disso. Sei que você não quer que eu seja um amigo seu... — Falou com voz alta, enquanto se virava — Aliás, ninguém quer. — Sussurrou, quase não ouvi, mas acho que foi isso que ele falou. Eu vi ele indo para o colégio à frente do meu, era um colégio muito mal colocado pela sociedade, todos criticavam aquele local. Há muitas histórias sobre lá, coisas como eles raptarem meninas de outras escolas e puxar muita briga com qualquer um que os irrite. Não me importei muito com tudo isso, me levantei e tentando esquecer isso eu fui para sala do clube. Passei por corredores, pátios, quadras, salas de clubes, ginásios e reparei numa coisa que me irritava um pouco. Todos ficavam me olhando, em cada lugar que eu passei, cochichavam nos ouvidos uns dos outros alguma coisa sobre mim, eu estava próximo à janela quando reparei nisso. Para me distrair eu olhei para fora dela. Vi uma menina quase morrendo pra carregar quatro caixas de laranja, eu joguei a pedra na mão dela para ver se ela soltava. Corri até lá em baixo, pulando três degraus a cada passo. Assim que a vi, fui ajudá-la, percebi que sua mão estava machucada.

–Ahm, desculpa. — Falei baixo e olhando para o chão. Peguei as quatro caixas e a ajudei a levá-las. Quando olhei para seu rosto, percebi que ela era mais bonita do que parecia, não era muito alta, seus olhos eram verdes, ela tinha cabelos da mesma cor que aquela folha que caíra mais cedo no cantinho que cortavam até seu ombro. Ela participava do clube de culinária, só tinha quatro pessoas nele. Apenas deixei as caixas próximo da porta e fui fechando-a.

–A propósito eu me chamo Flávia ok? Só pra você saber. — Acenei com a cabeça que sim e fui embora. A sala de culinária era apenas vinte passos da sala do clube de ajuda. Assim que pisei meu pé na sala ouvi Lara correndo pelo corredor de entrada com um celular na mão.

–Precisam de você... No velho porto... AGORA! — Lara falou muito ofegante. Fiquei muito preocupado com tudo isso e fui o mais rápido possível de bicicleta, que era o único jeito de eu sair naquele momento. Por sorte o velho porto não tão longe do colégio. Assim que cheguei percebi que Renata estava lutando contra cinco ou seis caras do colégio Din Trim. Não sou muito bom de cair dentro no "mano-a-mano", então fui tentar subir em algum lugar ali da construção, a única coisa que eu não esperava era que teria alguns caras me esperando logo depois da escada, nos quais, com facilidade, me levaram para uma sala no qual tinha uma visão do centro da construção. Eles nem sequer me amarraram, sabendo que eu não teria força para abrir a sala. Eu tentei de tudo para abri-la mas mesmo assim, nenhum arranhão naquele vidro mesmo eu tentando jogar as pedras, cansado quase desistindo de tentar escapar daquele lugar ouvi uma voz suave e arrogante:

–Então você já se cansou? Ah é... Eu esqueci que você é apenas um moleque fracote, acho que você já percebeu com quem eu estou aqui na minha frente, não é? A pobre renatinha, que um dia estava sempre disposta a lutar, mas não depois que eu terminar com ela. Bem, como você pode ver ela está muito fraquinha agora, está certo que ela está semi-nua e está amarrada, mas esse é o jeitinho que eu gosto. Você prefere que eu narre... Ou você vai ver pela janela de vidro? Quem se importa, farei do mesmo jeito. — Fiquei procurando em volta alguma saída e percebi que perto do chão havia uma redoma de vidro. Fiquei me perguntando se eu caberia ali, ainda bem que sou magro não? Me apertando e indo de um braço ao outro consegui passar sem muito esforço.

–(ritmo de rock) — O celular de Renata começou a tocar.

–Alo? — Daniel atendeu o telefone

–Escute com atenção, solte ela e ninguém sai ferido. — Uma voz grossa e confiante começou a falar.

–Háha você acha que sou otário?! — Daniel gritou olhando para cima, aonde tinha várias plataformas. — Eu sei que você chamou outras pessoas para virem te ajudar! — Daniel terminou desligando o telefone e colocando-o com força na mesa. Quando ele estava começando a tocar nela, uma pedra bateu com força no seu braço e consecutivamente caíram mais dez, todas o acertando. A porta se abriu velozmente e quando menos se percebera os outros três membros do clube estavam bem ali. Daniel sumiu como pó, simplesmente não se achava ele em nenhum lugar. Renata, constrangida por estar semi-nua, perguntou a eles quem eles haviam chamado para o reforço.

–As vezes ele pode ser bem valente quando não é visto. — Mike falou apontando para a plataforma na qual eu estava. Pegou o celular e mostrou para a Renata a última ligação do celular dela: "Felipe", era o que se lia. Desci da plataforma e comecei a catar as pedras, eu estava sem coragem de olhar para eles, provavelmente estava morrendo de vergonha, mas nada com que eu me importe. Eles me chamaram para ir para casa com eles, mas eu apenas fui para o meu canto de novo. No caminho de lá passei pela sala do clube de culinária e vi que a presidente do grêmio estava dando uma bronca nas meninas, pois já era a quarta vez que ela falava isso:

–... Então tratem de arrumar mais alguém para o clube em uma semana se não eu as tirarei dessa sala! — foi a única coisa que eu consegui pegar da conversa, antes dela ir embora eu pedi a ela um papel de inscrição e joguei debaixo da porta do clube de Flávia. Mesmo sabendo que eu nem iria tocar novamente o chão daquela sala, eu apenas queria ajudar.

Quando finalmente cheguei no meu lugar de conforto, aonde eu pensei que ficaria feliz, sem preocupações, olhei para o céu começando a escurecer e vendo que o mundo estava em paz, Daniel aparece novamente, já havia apontado as luvas para ele:

–Relaxa aí amigo, vim aqui apenas para te dizer que você deveria se importar mais com os outros, por que não dá uma olhada no seu "clube de ajuda"? — Corri o mais rápido que pude pois sabia que Renata estava lá. Abismado com o que vi, congelei diante de um breve beijo que Mike deu em Renata. Instantaneamente uma lágrima caiu sobre minhas mãos sujas de terra.

Notas finais
Espero que ninguém descubra isso. - Renata sussurrou no ouvido de Mike.