Only You
8 Capítulo 8
Notas iniciais
O céu ainda está escuro. Perdi o sono, por causa de um ou dois pesadelos que tive – nem me lembro quantos foram, mas sonhei muitas coisas horríveis, e Caleb estava na maioria desses sonhos. Levanto num sobressalto e começo a caminhar entre os colchões do minúsculo cômodo que podemos chamar de quarto. Peter dorme como uma criança, e me pergunto o que ele está sonhando. Passo pelo colchão de Christina, que dorme de boca aberta e braços cruzados atrás da cabeça. Dá até uma vontade de rir da cara dela enquanto dorme. Decido não acordar nenhum dos dois, e, na ponta dos pés, desço a escada para respirar um pouco de ar fresco na parte de fora desse refúgio. Infelizmente me deparo com Tobias, ainda acordado, sentado ao lado da porta, e ao me ver, ele não levanta nem me chama, ele apenas sorri. Claro que eu adoraria sorrir para ele de volta (mentira) mas não sorrio, apenas dou meia-volta até a escada, mas ele me repreende puxando meu braço.
– Quero te mostrar uma coisa – diz ele, e deixo a curiosidade atropelar o sentimento de raiva e a vontade de fugir de perto dele. Ele caminha até uma caixa jogada num canto da sala e retira o envelope da Erudição, aquele que custou a vida do meu irmão. Tobias me entrega o envelope, e retiro vários papéis de dentro, e todos parecem iguais. Guardo-os de volta e entrego o envelope a ele
– Depois eu leio – respondo secamente, e ele apenas confirma com a cabeça. Deve ter algo muito importante nesses papéis, mas o que importa? Já não quero mais derrubar Jeanine, não me importa o que ela faça, não quero me importar, nada mais importa pra mim (exceto Peter e Christina).
– Tris, você realmente mudou muito – o que ele quer dizer com isso? – porque, para você desistir tão fácil de destruir o sistema das facções, e ainda por cima se apaixonar pelo Peter...você não deve estar passando bem.
– E o que você tem a ver com isso? – disparo furiosa. Ele apenas solta uma risadinha sarcástica e continua
– Já passou pela sua cabeça que ele pode ser um impostor? Que ele pode estar enganando você esse tempo todo, só para conseguir algo em troca? – pergunta, arqueando as sobrancelhas. Agora quem está com vontade de rir sou eu.
– Ele me salvou. Um impostor faria isso?
– É claro que faria!!! – responde furioso – ele está seduzindo você, tentando ganhar sua confiança! Lembre-se de quem ele é: o garoto que tentou jogar você de um abismo, que esfaqueou o olho de Edward só porque era mais fraco que ele, aquele que nunca teve pena de ninguém. Abra os olhos!
– Chega! – interrompo-o – eu confio nele, se tem alguém aqui em quem eu não deva confiar, é você – ao dizer isso, ele me segura pelos ombros e me beija.
Me beija.
Não, não quero, saia de perto de mim – é o que grito em meus pensamentos. Mas não consigo dizer nada, não consigo afastá-lo nem sair correndo.
Eu queria tanto aquele beijo como ele.
Mas não posso me entregar a ele. Eu não amo ele. Mas porque não consigo me afastar?
Quando finalmente tenho força para empurrá-lo, corro para o cômodo de cima, torcendo para que ninguém tenha visto isso. Felizmente ninguém viu.
– Você vai pagar por isso – diz ele, sério o bastante para me fazer tremer de medo – você e ele.
Não consegui dormir mais depois disso. Acordo Peter, que abre os olhos nervoso
– Careta...o que houve? – pergunta, com a voz sonolenta.
– Vamos dar o fora daqui. Agora – tento controlar minha voz para que ele não perceba que estou entrando em pânico, mas não é só por causa daquele beijo. Eu sei que Tobias odeia Peter ainda mais agora, eu sinto que ele vai tentar fazer algo ruim a Peter, e a mim também.
– Quê... mas para onde?! – pergunta nervoso.
– Não sei, não faço idéia, mas vamos embora – agarro seu braço, e ele só tem tempo de pegar uma lata de comida que ele guardava embaixo do colchão.
Quando finalmente chegamos até a porta, Peter para de andar e me puxa para perto.
– Acho que estamos sendo observados – sussurra ele – vamos andar com mais calma e naturalmente, para não darem conta que estamos dando o fora.
– Ta — sussurro de volta, dando uma última olhada para trás.
Quando estamos quase chegando à rua, escuto um barulho alto, seguido de um grunhido de dor à minha direita. Peter.
Olho para suas costas, de onde brota uma infinita poça de sangue. Solto um grito de horror, misturado com raiva, tristeza, tudo. Viro-me para trás onde vejo Tobias caminhando até mim com um olhar vazio.
– O que pretende fazer agora? – pergunta calmamente. Não consigo responder, não consigo reagir, só consigo olhar para Peter. Não. Não. Não.
– É, acho que não morreu – continua ele – mas no próximo tiro ele morre – ele saca novamente a arma, dessa vez apontando para a cabeça de Peter. Jogo-me em cima de Tobias e agarro a arma.
– Então foi com essa arma que você matou meu irmão? – pergunto numa explosão de raiva e histeria. Ele dá de ombros.
– Não, ah e falando em Caleb, você devia ter visto a cara dele antes de morrer. “-Ah, não atire em mim, achei que estivesse do meu lado”, ah hahahaha, pelo visto ele é tão ingênuo quanto você.
– Atirou nele de propósito – rosno com mais raiva ainda – eu já devia saber – atiro em sua perna, e ele cai no chão gritando de dor.
Pego Peter, meio desajeitada, e o coloco em minhas costas, segurando suas mãos em torno do meu pescoço. Deixo um Tobias cego de dor para trás, e eu sei que poderia perfeitamente matá-lo, mas não quero me rebaixar a esse nível. E a preocupação agora é em achar logo um hospital, ou algum canto isolado e seguro, onde eu possa ver seu ferimento – embora eu não entenda nada de medicina.
Então eu lembro que eu e Peter somos dois fugitivos da Erudição, e que todos os profissionais médicos dessa cidade são da Erudição. Entrar em um hospital seria como caminhar em direção à Jeanine.
O que eu faço o que eu faço o que eu faço? – repito essa pergunta na cabeça enquanto ando e carrego Peter em minhas costas. Ir a um hospital não é a melhor opção.
Mas é a única opção.
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