Only You
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Como prometido, Peter me levou para ver Tobias. Claro, Jeanine não sabe ainda que fui vê-lo. Quando entro em sua cela, ele está sentado com os joelhos encostados no tórax. Ele arregala os olhos ao me ver.
- Tris? Tris! Você...está viva! — ele corre até mim e me enlaça em seus braços. Encosto minha cabeça em seu ombro. Peter está assistindo tudo na porta, mas não diz nada.
- Tobias... — sussurro em seu ouvido — eu estou aqui. Estou viva. — digo. Ele me aperta com mais força.
- Eu sei...eu sei. — Suas mãos percorrem as maçãs em meu rosto. — Tris, precisamos fugir daqui. Hoje a noite. — Me afasto dele como se tivesse levado um choque. Fugir daqui? Como?
- Tobias, como você pretende — ele me interrompe.
- Shh. O Peter está aqui. Vou explicar como vamos fugir daqui, mas tente não levantar suspeitas — diz. Aceno com a cabeça. Ele aproxima sua boca do meu ouvido.
- Às sete horas, diga a Peter que está passando mal e que precisa muito ir ao banheiro. Estarei esperando lá. Dentro do banheiro, há uma janela de ventilação que leva ao lado de fora deste prédio. Ela é pequena, mas acredito que conseguiríamos passar por ela. Você conseguiria fazer isso, Tris? — Seus olhos brilham quando termina de falar. Não posso desapontá-lo.
- Sim — respondo. — Às sete, certo?
- Certo — ele sorri e me beija. — Acho que está na hora de você voltar — ele aponta para Peter, que está encarando seu relógio de pulso carrancudo.
- Certo — abraço ele novamente. Ele sorri e pisca um olho. Caminho até Peter, que já está no corredor. Ele me agarra por um braço e me conduz até minha cela.
- O que vocês tanto sussurravam hein? — pergunta impaciente.
- Não é da sua conta. — Respondo firme. Talvez essa não tenha sido uma resposta muito gentil, mas Tobias disse para não levantar qualquer suspeita. Peter abre minha cela e fica em pé ao lado da porta.
- Eu sei o que vocês estão planejando — diz. Meu coração dispara.
- Não sei do que você está falando — respondo. Ele apenas solta uma risadinha.
- Ele quer fugir com você. Hoje a noite. — Arregalo os olhos. Como é que ele...
- Peter. Não conte isso para ninguém. Por favor — talvez seja inútil implorar pela compaixão dele.
- Por que eu contaria? — diz. Sinto um alívio. Não, Peter certamente não contaria. O que ele ganharia com isso? Além disso, se contasse, Jeanine iria saber que ele voltou a ser meu guarda-costas.
- Eles injetaram alguma coisa em você? — pergunto ironicamente. — Cadê aquela sua maldade de antes? Estou decepcionada, Peter. — Dou risada da minha própria piada. Exatamente como ele fazia. Seu rosto continua inexpressivo. Paro de rir e encaro ele. Definitivamente, ele mudou.
- Você não vai fugir com ele, não é? — pergunta. É claro que vou. Ou pelo menos tentar.
- Sim, eu vou. E agradeceria se você colaborasse comigo e não perguntasse isso em voz alta. Alguém pode ouvir — murmuro. Ele assente com a cabeça.
- Não vai dar certo, e ele é um idiota se não consegue elaborar um plano direito. A janela de ventilação é pequena o bastante para você passar, mas ele não conseguiria passar por ela nem encolhendo, por causa de seus músculos. Talvez ele já soubesse disso. Talvez ele já saiba que não conseguirá fugir, mas quer que você fuja. Não concorda comigo? — pergunta. Paro e penso a respeito disso. Peter tem razão. As janelas de ventilação são pequenas, e até eu teria que me espremer para passar por uma delas. Faz sentido. É o tipo de coisa que Tobias faria. Ele me ama, e a única coisa que importa para ele é saber queestou bem.
- Talvez você tenha razão... — digo a Peter. E ele tem.
Decido não ir ao encontro de Tobias. Só iria me arriscar, e não suportaria fugir sem ele. Ele terá que pensar em outra forma de escaparmos. Nós dois.
- Então, você não vai, certo? — seus olhos grandes e verdes brilham ao perguntar isso. Encaro ele por alguns segundos.
- Não — respondo sem prolongar o assunto. Ele parece satisfeito.
Peter mudou muito desde a última vez em que nos vimos. Ele não tem mais um olhar maligno como antes. Seu olhar agora é cansado, inexpressivo. E seu sorriso, que antes era largo e cruel, agora está contido em uma expressão vazia. Ele disse que gostava de mim...mas também disse para que eu esquecesse e fingisse nunca ter ouvido aquilo. Mas não sei fingir. Cada vez que olho para Peter, lembro de cada palavra que ele me disse ontem. Não olho para ele com o mesmo medo que olhava antes. Sempre que o encaro, não consigo desviar o olhar, como se eu não me importasse de passar o resto do dia admirando suas feições. Ele franze a testa.
- O que foi, Careta? — pergunta. Balanço a cabeça.
- Nada. — respondo. Continuo encarando seu rosto. Ele me encara de volta. Após alguns segundos de silêncio, ele limpa a garganta e passa a mão em seus cabelos.
- O Louis fez alguma coisa com você? — pergunta. Olho confusa para ele.
- Aquele guarda que estava com você ontem — revira os olhos — ele te importunou ou fez algo com você? — sinto um calafrio quando ele pergunta isso. Não sei como responder a isso. Abaixo a cabeça para não precisar encará-lo.
- Ele...ele me tocou — respondo, com a voz trêmula. Não seique tipo de conclusões Peter poderá tirar disso. Permaneço com a cabeça baixa.
- Aquele filho da mãe... — responde, com um tom de raiva. Ele se agacha para perto de mim.
- O que mais ele fez com você?! — pergunta furioso. Minhas mãos estão tremendo.
- Nada — respondo. Ele fecha os olhos por um instante e tenta se acalmar. Depois, inclina seu corpo para frente e soca a paredeatrás de mim. Ele suspira e se agacha para perto de mim novamente.
- Peter — arrisco dizer — por que me salvou ontem? — pergunto. Seu rosto ainda está vermelho de raiva.
- Por que... — ele hesita um pouco — eu não confiava naquele sujeito. E também...só eu posso chamar você de Careta — ele desvia o olhar, com o rosto corado. É quase raro ver Peter ficar corado. Acho que só o vi ficar tão corado assim nas simulações da iniciação. Não contenho um sorriso.
- Eu senti sua falta — quase engasgo com as palavras. Mas quero ser honesta com ele, já que ele foi comigo. — Quero dizer...achei estranho não acordar com o barulho da porta abrindo e você me chamando de "Careta". — Agora sou eu quem estou corada. Sinto minhas bochechas quentes. Olho para Peter esperando que ele diga alguma coisa, mas ele permanece calado, me encarando. Não digo mais nada também, e fico apenas encarando-o de volta. Nenhum de nós desvia o olhar.
- Sabe... — diz Peter, finalmente quebrando o silêncio — eu sempre tive inveja de você. Acho que foi por isso que comecei a te odiar tanto — ele ri — porque você sempre se superava. Meu único objetivo era ser o mais forte, e eu realmente estava disposto a derrubar qualquer um que entrasse em meu caminho. Até mesmo Drew e Molly. Mas você apareceu...e estragou tudo, de todas as maneiras possíveis. Eu queria te derrubar, mas quanto mais tentava fazer isso, mais eu caía. Comecei a ver que dentro da sede da Audácia, meu maior inimigo não era Edward, ou Quatro, ou qualquer outro que fosse mais forte do que eu. Era você. Apesar de não ser a mais forte...você é certamente a mais corajosa. E eu a invejo muito por isso. Você e eu somos muito parecidos. Ambos somos maus, e carregamos enormes fardos de culpa. Mas você compensa tudo o que faz de ruim com coisas boas, mas eu não sou assim. Sempre fiz maldades, e nunca nada ou ninguém me impediu de continuar sendo cruel. Depois que você atirou no meu braço, depois daquele dia...eu me dei por vencido. Vi que não era tão forte como pensava. Fui vencido por uma Careta. Ridículo, não? — ele solta uma risada e continua. — Na sede da Amizade, por algum motivo, eu fiquei feliz por estar com você. Digo...fiquei feliz em saber que você estava bem. Quando você me salvou, na hora em que tentaram atirar em mim...eu fiquei muito feliz, mas não queria que você soubesse. E depois disso, nos separamos, e não sabia mais para onde ir. Só pensava em retribuir o que você havia feito por mim. A Erudição me encontrou, e disse que se eu me juntasse a eles, não me matariam. Sem escolha, tive que aceitar a oferta. E então, naquele dia...quando vi você novamente, dentro da sede da Erudição, se arriscando...fiquei aliviado. Não por você ter sido presa, mas por você estar viva. E desde então, não parei mais de pensar em você. — ele olha fixamente para mim — Tris...é possível odiar e amar alguém ao mesmo tempo? — diz com a voz trêmula, soltando uma pequena risada para disfarçar o nervosismo. Deixo escapar uma risada. Mas minhas bochechas continuam quentes. Estou tremendo.
- Peter. — olho para ele sorrindo — eu te odeio. — Digo. Ele ri.
- Eu a odeio também, Tris — responde. Acho que quando disse que odiava ele, foi apenas uma forma de dizer que eu o amo...mas não posso. Não posso estar apaixonada pelo Peter. Não posso. E eu amo o Tobias. Tobias..! Ah, não...
- Peter, que horas são? — pergunto com um tom de desespero.
- Seis e quarenta — responde, um pouco confuso. — Por que você sempre pergunta que horas são? — não respondo. Faltam vinte minutos para encontrar Tobias. Preciso decidir logo, se vou ou não. Minha escolha pode significar a minha salvação.
- Você vai mesmo com ele?! — pergunta. Permaneço em silêncio. Não, não vou. Se eu for, terei que fugir sozinha. Como Peter disse. Sei que Tobias não conseguiria passar pela janela de ventilação, e não estou pronta para voltar ao esconderijo dos sem-facção e dizer que fugi, mas deixei Tobias na mão. Decido permanecer aqui. Mas que outra oportunidade terei de fugir?
- Tris... — Peter aponta para seu relógio, que marcam exatamente sete horas. Mesmo que pensasse em mudar de ideia, já não adianta mais. Tobias verá que não fui e certamente ficará com raiva, e perceberá que só fiz isso porque sabia que ele não fugiria comigo. As coisas vão continuar exatamente como estão.
Pelo menos, eu achava que continuariam.
Alguns minutos se passam, e a porta da cela se abre. Jeanine aparece com um enorme hematoma na testa. Sinto-me triunfante, já que eu fui a responsável por isso.
- Beatrice Prior — diz com uma voz severa — Tobias Eaton fugiu há poucos minutos, e acredito que você sabia que ele planejava essa fuga, já que Peter a levou para a cela de Tobias hoje a tarde — ela lança um olhar de ódio para Peter, que abaixa a cabeça. Tobias fugiu. Ele conseguiu fugir. Ele foi embora sem mim.
Um enorme peso preenche meu coração. Eu deveria ter confiado nele. Deveria saber que Tobias daria um jeito de fugir comigo. Ele com certeza daria um jeito. Mas eu não confiei nele.
- Acredito que você saiba quais são as consequências disto, não é senhorita Prior? — ela me encara e sorri — sua execução ocorrerá amanhã. — Meu corpo inteiro estremece e começo a soluçar. Levo as mãos até o rosto e me ajoelho no chão. Ela se vira para Peter.
- Quanto a você — ela puxa a arma de Peter e a aperta contra a cabeça dele — trate de não repetir mais isso. A não ser que queira ser executado junto com ela — Jeanine aponta a arma para mim. Ele permanece de cabeça baixa e não fala nada. Ela continua esperando por uma resposta, mas Peter permanece calado. Ela afasta a arma da cabeça de Peter e suspira.
- Está decidido — diz, passando os dedos pelo cano da arma — os dois serão executados. — Ela caminha em direção a porta, mas antes, para e me encara, com uma cara de deboche.
- Pobrezinha...- diz, fingindo piedade — acabou de ser traída pelo namoradinho, e agora vai ser executada. Que dó. — Ela sorri maliciosamente e sai da cela. Peter corre para tentar alcançá-la, mas não consegue. Ele soca a porta várias vezes e xinga Jeanine, que com certeza não está ouvindo mais nada do que ele diz. Ele desisti e cai de joelhos no chão. Quando paro de chorar, olho para ele. Lágrimas estão se acumulando em seus olhos verdes. Peter está chorando.
- A culpa é minha — ele soca o chão com força — você poderia estar longe daqui com Tobias... — as lágrimas escorrem de seus olhos — mas graças a mim...ao meu egoísmo...você vai ser executada também. — Ele apoia a cabeça em um de seus punhos feridos. Assim como ele está abalado, eu também estou. Tobias conseguiu fugir, mas como? Por que ele foi sem mim? Será que ele me odeia agora? Ou ele acha que não fui porque não consegui fugir da cela?
Começo a soluçar novamente. Diferente de Peter, que chora silenciosamente, eu suspiro várias vezes e solto gemidos de dor.
Ambos sentimos o peso da culpa. Peter por ter voltado a me ver, arriscando-me e se arriscando também. E eu por não ter fugido com Tobias. Somos teimosos. Somos maus. Somos iguais. E amanhã, vamos morrer juntos.
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