Only For You
1 Capítulo Único
Sherlock Holmes observava John Watson. Era quase um estudo diário, uma obrigação contínua — mas sem a parte irritante. Fazia isso por prazer, por sentir a necessidade de decorar cada detalhe do homem com quem dividia apartamento há mais de três anos. John mantinha sua rotina diária exatamente igual, e para Sherlock isso era um fato curioso, e, mesmo que fosse difícil de admitir, também incrivelmente adorável.
— Você está me observando? — John perguntou de sua poltrona, onde folheava um jornal, tirando Sherlock de seu devaneio.
— Estou? — Sherlock piscou algumas vezes para clarear a mente. Não havia escapatória, pois era a mais pura verdade. Estava observando o ex-militar ler o jornal tempo suficiente para que aquele gesto se tornasse perceptível e estranho.
— Claramente — respondeu John, risonho, mas curioso. — Não que isso seja algo que você já não tenha feito, contudo hoje parecia diferente.
Sherlock franziu o cenho, tentando ao máximo fingir indiferença perante o que seu companheiro de apartamento expunha sobre seu respeito. Era verdade, a maior das maiores verdades, que o detetive consultor teve de admitir: John Watson lhe tomava a maior parte do dia e dos pensamentos. Era, todavia, curioso para alguém como Sherlock compreender a existência de sentimentos complexos com os quais nunca lidara, exigia de si mesmo uma grande dose de exasperação.
Há algum tempo, o detetive procurava razões em seu palácio mental para se ver tão dependente de John. Passava horas e horas tentando entender, decifrar aqueles sentimentos que já não eram tão novos quanto achava. Na verdade, desde o princípio de sua parceria com John, Sherlock sentira-se diferente, como se a existência do mais baixo em sua vida trouxesse um sopro novo de esperança... Sim, esperança! Esperança de ter, talvez, um amigo, alguém para se apegar. Porém, não esperava que aquilo tudo se tornasse muito mais que uma singela amizade.
O que não demorou para o detetive compreender era a possibilidade de um afeto maior do que poderia aceitar. Via John mudando de namorada ao longo daqueles três anos, o ouvia afirmar sua opção sexual quase como um mantra, e isso desencorajava Sherlock, que então descobriu o desabrochar de um sentimento doce e novo em seu peito. Era clichê demais para ele afirmar em voz alta, mas não o suficiente para flutuar constantemente no ar cristalino de seu palácio mental, onde, há muito, o rosto expressivo e bondoso do médico e ex-militar já estava estampado nas paredes que antes eram incolores e insignificantes.
Os sentimentos que Sherlock Holmes nutria secretamente por seu amigo John Watson eram tão complexos e densos que, em momentos, se tornavam quase palpáveis. Sherlock ansiava pelo dia em que perceberia a reciprocidade. Entretanto, a rapidez com que o mais baixo trocava de companheira era tamanha que o detetive já não via esperanças para si mesmo.
— Perdido em pensamentos, Sherlock?
E mais uma vez, John lhe arrancou de seus devaneios, como se garras invisíveis o tomassem pelos braços com força total. Sherlock piscou novamente, notando que seu amigo o observava intrigado, já não folheava seu jornal, apenas mantinha seus cansados olhos iluminados — orbes que variavam de tonalidades, ora azul, ora tão escuras que se tornavam quase indecifráveis para as análises do detetive consultor — fixos em Sherlock.
Para John, ver seu amigo tão quieto era de fato algo a se preocupar. Obviamente, às vezes implorava a Deus que Sherlock Holmes fosse amordaçado, tamanha era sua forma intensa de irritar o médico com seus falatórios malcriados e, sem dúvidas, tão egocêntricos quanto qualquer outro item em sua personalidade nada sutil. John não estava acostumado a ser objeto da curiosidade constante do homem à sua frente; sabia que, vez ou outra, Sherlock o cuidava, mas para o ex-militar aquilo não passava de uma mera forma de debochar de qualquer que fosse a atividade em que estivesse empenhado.
Tudo para Sherlock era entediante ou chato demais para que valesse a pena perder tempo observando, e era aí, nesse fato, que John se via tão intrigado. Fazia alguns dias que percebia a intensidade daquelas orbes cristalinas e de cores indecifráveis — os olhos de Sherlock — acompanhando-o onde quer que fosse dentro do 221B da Baker Street, e não poderia, de forma alguma, negar o quanto aquela fixação do mais alto em observá-lo lhe causava intensos calafrios que cresciam do baixo ventre em direção ao peito e pescoço.
Em certos momentos, sentia-se tão exposto perante aqueles olhos que se obrigava a olhar para si mesmo, garantindo que não estaria, de fato, nu.
Naquela noite, Sherlock estava empoleirado em sua poltrona de couro, com as mãos firmes unidas em frente ao rosto, os longos dedos passando ritmicamente como um pêndulo de hipnose pelo lábio inferior, fazendo com que seus já carnudos lábios se tornassem rosados e atrativos demais para que John pudesse se concentrar.
Não era novidade para o loiro o fato de que sentia uma inexplicável atração sexual pelo seu amigo detetive, e esse era o motivo de John insistir em arrumar uma companhia feminina. Era difícil aceitar a possibilidade de querer tocar tão intensamente o corpo esbelto e esguio de Sherlock, a ponto de lhe tirar o sono quase que constantemente.
— Estou distraído hoje — Sherlock enfim falou, mantendo o movimento de vai e vem dos dedos no lábio inferior, tornando aquele gesto quase obsceno.
— Estou ciente disso — John falou, cruzando as pernas. — O que lhe distrai, posso saber?
Sherlock desejava do fundo do âmago exclamar ser ele o motivo de sua completa distração e tudo mais. Porém, não era dado a situações como aquela, e também não saberia lidar com a enxurrada de sentimentos que viriam se John o rejeitasse.
— Muitas coisas me distraem, Watson — Sherlock falou, enfim abaixando as mãos no colo. — Uma mente como a minha vive em constante luta, é difícil não sucumbir a algumas situações, principalmente as que me atraem o suficiente para me distrair.
— Você fala, mas ao mesmo tempo não diz nada — John reclinou a cabeça para o lado. Queria jogar aquele jogo, queria ver até onde seu companheiro iria.
— Estou lhe dizendo que há inúmeros motivos para me ver distraído — Sherlock suspirou, querendo poder falar com mais clareza, mas sua falta de experiência e seu medo não o apoiavam naquele momento. Olhava para as linhas de expressão na face bronzeada do médico sentado à sua frente. John era a união de tudo que lhe trazia paz, e ao mesmo tempo a fusão do seu inferno e tentações pecaminosas. Suas curvas, sua voz, seu jeito de mover os ombros quando se via tenso, até a forma como sorria tímido. Tudo em John Watson era a salvação e perdição de Sherlock Holmes.
— Pois bem, estou curioso. Diga-me um dos motivos de seus devaneios — John sentou-se mais ereto na poltrona, animado com a possibilidade do jogo de gato e rato. — Afinal, é uma noite significativamente chuvosa e fria, e ambos não temos nada mais animador para fazer.
— Pensei que iria à caça de algum novo envolvimento físico, ou como você prefere rotular, uma nova namorada — Sherlock falou em falsa animação.
— Me ofende quando diz que caço meus romances — John interrompeu com divertimento, os olhos sorrindo mais que os lábios.
— Não há forma mais sensata de descrever suas tentativas ridiculamente forçadas de não ficar sozinho — John observou o detetive lhe penetrar com os olhos, como se tentasse lhe ler.
— Isso não vem ao caso agora, de qualquer forma estou novamente solteiro.
Sherlock sentiu uma leve palpitação no peito; era, sem dúvidas, uma ótima notícia. Uma oportunidade? Quem sabe.
— Então, Sherlock, me conte: o que lhe tira tanto da realidade? — Watson falou sorrindo com animação, tamborilando os dedos nos encostos da poltrona.
— Se eu lhe contasse, teria que lhe matar, o que com certeza seria um infortúnio.
— Não seja melodramático, Sherlock — Sherlock retribuiu o sorriso, percebendo um leve rubor subir no rosto bronzeado do ex-militar. — E obviamente você não seria capaz de me matar por inúmeros motivos.
— Agora eu é que estou curioso, me ilumine, Watson — Sherlock falou intrigado. John revirou os olhos, mas não se absteve de responder:
— Primeiramente, você não conseguiria me matar, sou um soldado, lembra?
— Por Deus, homem, você era médico militar...
— Acho que você sabe muito bem que eu poderia lhe neutralizar, seja lá qual for a forma como pretende me matar. Enfim, descarte essa possibilidade — Sherlock riu, John o acompanhou. — E, secundariamente, você não mataria seu melhor amigo.
— De fato, não mataria — Sherlock falou com plenitude. — Mas fique ciente de que sou um químico apto para soluções extraordinárias.
Ambos deram altas gargalhadas por tempo suficiente para doer os lados da barriga.
E então John ficou em silêncio por alguns minutos. Talvez o mais baixo soubesse o que estava deixando Sherlock tão perdido em pensamentos; talvez também não tivesse coragem para admitir. Contudo, era necessário arriscar, precisava entender, e ao que tudo indicava, aquele era o momento certo para isso.
— Sherlock, posso lhe fazer uma pergunta? — John enfim falou. — Você não precisa responder se não quiser.
O mais alto semicerrava os olhos, pressionando os lábios firmemente.
— Já estou curioso, John.
John pigarreou, entendendo aquilo como um incentivo. Olhou fixamente para o rosto anguloso do amigo, onde alguns cachos negros caiam na testa, tornando a visão ainda mais enriquecedora. E então falou:
— Você está apaixonado por mim?
Ambos prenderam a respiração no segundo seguinte àquela pergunta jogada ao vento. Sherlock havia sido pego, então não era tão bom em disfarces como pensava. O moreno conseguia ouvir os próprios batimentos cardíacos em seus ouvidos, tão ensurdecedores que não conseguia ouvir mais nada além disso. Sabia que estava prendendo a respiração e que gotículas de suor se formavam em sua testa. Também sabia que John estava tão apavorado quanto ele, deduzia isso pelo leve tremor nas mãos do amigo e pelo balançar frenético da perna esquerda.
John, por outro lado, queria intensamente que seu amigo afirmasse que sim, que estava apaixonado; para que suas fantasias deixassem de ser meras fantasias e se tornassem a realidade mais esperada daqueles longos três anos de total abstenção de sentimentos.
O silêncio pairava sobre eles, tão intenso que até o tilintar dos ponteiros do relógio de parede parecia mudo. Ambos mantinham o contato visual, sem ao menos piscar, cada um travando uma batalha dentro de si, lutando com fervor para admitir a pergunta proferida. Era aquele o momento: a glória ou o fracasso.
— Como disse, você não precisa responder... — John quebrou o silêncio com a voz dois oitavos mais baixa que o normal, ainda mantendo os olhos fixos em Sherlock. — Era apenas uma pergunta... uma curiosidade, por assim dizer.
— Eu sei — Sherlock respondeu com firmeza, piscando algumas vezes. — John, eu não sou dado a esse tipo de... coisa.
John não estava surpreso, sabia da possibilidade de uma resposta negativa, mas antes que pudesse mudar o assunto, Sherlock continuou:
— A resposta para isso é bem clara para mim, contudo... — Sherlock suspirou alto e longamente. — Sim, John, eu estou apaixonado por você.
E novamente, a sala do 221B caiu em silêncio palpável. Dessa vez, Sherlock se via mais calmo, era a mesma sensação de arrancar o band-aid: poderia doer, ou poderia estar curado. Naquele momento, não importava mais — não havia volta.
John respirava acelerado, o rosto tão corado quanto o escarlate de sua poltrona.
Era uma sensação indescritível ouvir tais palavras vindas diretamente da boca de Sherlock, e sem dúvidas o ex-militar estava internamente eufórico.
— John, posso lhe devolver a pergunta? — Holmes falou, entre curioso e levemente preocupado. — Poderia me dizer se é recíproco?
A reação do mais baixo surpreendeu até mesmo Sherlock. John, em um movimento ágil, levantou-se de sua poltrona e foi ao encontro do detetive, pairando sobre ele. Watson apoiou os dois braços sobre o encosto da poltrona de Sherlock, tocando-o de leve. Logo, o médico inclinou-se sobre a face corada do detetive, forçando-o a levantar a cabeça.
Sem aviso, John colou seus lábios, que há muito ansiavam por aquilo, nos lábios deliciosamente desenhados de Sherlock. Tão delicadamente que poderia ser descrito como o farfalhar das folhas de um salgueiro na primavera.
Ambos moveram suas bocas com calma, apreciando o sabor um do outro — algo que desejavam, e Deus era testemunha de que tudo estava de acordo com a imaginação dos dois, nos momentos em que se viam sozinhos no silêncio de seus quartos, onde deixavam suas mentes vagarem para situações como aquela que viviam naquele exato segundo.
Não demorou muito, John afastou sua boca por alguns instantes.
— Isso responde sua pergunta?
Sherlock olhava intensamente para aquela confusão de expressões que eram os olhos de John, ainda sentindo o doce sabor do médico em seus lábios. Apenas balançou a cabeça em concordância, incapaz de proferir qualquer palavra, quem dirá formular uma frase, tamanha era sua perplexidade.
John pegou sua mão, colocando o detetive em pé à sua frente. Toda a magnitude e exuberância de Sherlock Holmes estavam a centímetros de si. Conseguia sentir a intensa onda de vibrações vindas do corpo do detetive, que o atingiam em cheio juntamente com seu indescritível perfume. John fechou os olhos por alguns segundos, absorvendo aquelas sensações, e então foi tomado por longos braços que o trouxeram para junto do corpo esbelto e rígido de Sherlock.
— A resposta para sua primeira questão é: — Sherlock atraiu a atenção do mais baixo novamente. — Você... você me distrai incansável e perturbadoramente desde o primeiro dia em que lhe vi.
John sorriu, voltando a abrir os olhos.
— Esse é um fato curioso, Holmes.
— Você não faz ideia, Watson.
E então se uniram, não apenas com o selar de lábios, mas também com a conexão de dois corações que agora batiam em um ritmo quase perfeito dentro de corpos atraídos como imã em inox. Sherlock Holmes e John Watson eram a verdadeira imagem da semelhança na diferença — não que isso fizesse algum sentido na cabeça de ambos, mas a realidade era que não precisava fazer sentido, desde que juntos pudessem possuir um ao outro e ao mundo igualmente. Era isso que valia.
John via em Sherlock a possibilidade de uma relação cheia de aventuras e jamais cairia na melancolia, apesar de todos os defeitos do detetive. Aos olhos experientes do Dr. Watson, aquilo era o que o trouxera para tão perto.
Já para Sherlock, via em John a calmaria que precisava em sua mente conturbada; o ex-militar proporcionava-lhe sensações semelhantes ao correr de águas cristalinas no ensolarado e escaldante deserto.
E isso se resumia em um completar o outro. Nada lhes destruiria — eram eles contra o mundo... e o mundo não seria capaz de se igualar à grandeza do amor que ambos sentiam.
FIM
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