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16 Reencontro


A noite foi caindo aos poucos no acampamento. Todos os campistas se entreolhavam rapidamente quando cruzavam caminhos, alguns normalmente, mas a grande maioria estava com os ombros encolhidos e os olhos baixos. O chalé de Afrodite era mais triste, os garotos se sentaram num canto isolado e sussurravam entre si, as irmãs abraçavam umas as outras com lágrimas correndo pelos olhos e o rosto vermelho.

Ashley ficou o tempo inteiro com Jackson, os braços em volta da cintura dele e a cabeça escorada em seu peito, estava silenciosa e triste. Uma de suas irmãs se aproximou dos dois e eles conversaram baixinho, aos sussurros

–Pode ser eu — Ashley sussurrou.

–Ou Chloe — a irmã retrucou e Jackson passou a mão nos cabelos de Ashley

–Vai ser triste de qualquer forma

A menina assentiu e olhou para baixo, tão cabisbaixa quanto Ashley. Eu conseguiria entende-la, porque se fosse com qualquer outra pessoa de meu chalé eu também ficaria assim.

Olhei para o meu lado, todos os meus irmãos em silêncio, alguns conversavam com alguns campistas, falando sobre a profecia e de um jeito ou de outro tentando entende-la.

–Não fique triste Mel. Pelo menos sabemos que você vai ficar bem, você vai ficar aqui conosco — Algum de meus irmãos me disse, mas eu não olhei para ver quem era, apenas assenti e abaixei a cabeça

–Espero — sussurrei.

Aos poucos, os semideuses começaram a deixar o lugar, os sussurros baixos foram diminuindo até ficar tudo em silêncio, eu continuei lá, olhando o fogo na fogueira estalar mais lentamente agora. Quíron me olhou por um longo instante então disse:

–Fique mais o tempo que precisar — ele disse.

Olhei para ele, agradecida e sorri de leve: — Obrigada — murmurei — Eu logo vou para o chalé

Quíron assentiu e saiu trotando em direção a casa.

Eu não sabia ao certo o que pensar, eu não sabia ao certo o que eu estava fazendo ali. Alguma força estranha dentro de mim, dizia para mim permanecer no lugar. Eu não tinha vontade de sair, estava cansada e triste, a pouco tempo atrás, eu voltara a ser aquela adolescente comum de Nova York, onde o maior medo é tirar uma nota baixa ou reprovar em uma matéria com uma professora chata e velha. Ri com a ideia. Se as coisas continuassem tão simples....

Meus antigos medos agora pareciam tão bobos. Tão... ridículos.

Olhei em volta: Uma arvore alta balançava a ritmo do vento, fazendo algumas poucas folhas voarem e cair dançando no chão. Concentrei-me nos sons, além do estalo do fogo, podia ouvir muito pouco as ondas calmas quebrando na beira da praia.

Fechei meus olhos, desejando por um momento não pensar em mais nada, e foi o que fiz. Fechei meus ouvidos para qualquer som e deixei-me levar.

Tudo ficou muito calmo e confortável por um instante, eu poderia ouvir o som de meus próprios pensamentos vagos e o som calmo e hesitante da minha respiração. Suspirei lentamente três vezes depois repeti o movimento mais umas poucas vezes.

Abri meus olhos lentamente, a visão desembaçando aos poucos. Me sobressaltei ao ver a figura no tronco do outro lado da fogueira. Era mulher, extremamente linda, tinha os cabelos puxados em um rabo de cavalo frouxo, o mesmo caia em mínimos cachos castanho-chocolate nas pontas. Ela tinha grandes olhos cinzentos e os lábios eram rosados e cheios.

Usava um jeans desbotado, botas de caminhada da melhor marca e uma blusa de algodão branca.

–Você estava tão linda concentrada — a mulher suspirou. Tentei pensar em uma resposta para isso, mas estava confusa e não achei que nada cairia bem, então sussurrei um "Obrigada"

A mulher assentiu e ajuntou um graveto do chão, começou a passar o graveto pelo chão, formando traços e círculos no chão, me peguei observando os movimentos que ela fazia com as mãos e notei o quão macia parecia sua pele de porcelana.

Ela parecia mesmo uma boneca e imaginei que tivesse uns trinta anos, no máximo.

–Fico chateada que não me reconhece — a mulher disse, sem tirar os olhos do chão. — Sabe, Melanie, eu acompanhei tudo o que aconteceu hoje a tarde...

–Acompanhou?

–Sim — ela olhou para mim por um breve momento e depois sorriu — E posso dizer que fiquei muito orgulhosa de você decidir ir na missão, sei que faria isso especialmente para tirar Ashley da missão, se Ashley não fosse... Ela não morreria. Assim como Nico — ela deu uma pausa para o suspense, mordeu os lábios e depois continuou: — Eu posso entender o quão... especial esse garoto se tornou para você, e eu não tenho dúvidas que você não hesitaria se caso tivesse que dar a vida por ele.

Arqueei as sobrancelhas e olhei nos seus olhos, mas a mulher não tirou os olhos do chão, parecia estar concentrada agora, com milhares de pensamentos passando por seu cérebro, mas não parecia confusa, aliás, parecia pensar em cada um com tremenda concentração e parecia encontrar a solução para cada pensamento.

–Eu posso não ter sido tão presente — ela murmurou — Ou você pode achar isso, mas em cada pequeno detalhes das coisas eu estive lá. Não da forma como estou aqui, eu a observava de longe e sempre fazia com o que as coisas andassem a seu favor... quase sempre

Ela levantou a cabeça e nossos olhos se encontraram, através do fogo, pude ver o brilho especial e chamuscante que aquele olhar tão familiar tinha.

–Mãe? — arquejei, hesitante.

–Melanie — ela confirmou sorrindo, seus olhos brilharam ainda mais, meus olhos se encheram de lágrimas e eu tive vontade de correr para ela e abraça-lá. Mas lembrei a mim mesma de que Atena era uma deusa, o que era estranho, por que eu estava ali, prestes a completar dezessete anos e jamais dera um abraço em minha própria mãe — Oh Melanie.... — ela sussurrou

–Mãe, eu senti tanta falta sua — solucei, abaixei o rosto e o escondi por trás das mãos, as lágrimas escorriam por meu rosto — Eu acho que nunca fui uma boa filha, tanto para você quanto para o meu pai e... Me desculpe por todas aquelas vezes que disse que não me importava com você era...

–Mentira — ela completou num suspiro. — Eu sei que era.

Assenti e ficamos em silêncio, mas logo levantei os olhos pois não queria perder os poucos minutos de minha vida com minha mãe, pensei que essa oportunidade seria rara... Quantas vezes mais na minha vida eu poderia vê-la falar comigo daquela forma?

Quando ergui o olhar, ela continuava lá, magnifica, numa postura que irradiava poder. Tudo nela irradiava poder. A forma como os pequenos cachos na ponta do rabo de cavalo se mexiam quando ela virava o rosto, a forma como os olhos refletiam contra a luz do fogo.

–Obrigada — sussurrei, do nada, as palavras saindo de minha boca, eu me sentia insegura de dizer que a amava. Mas Atena pareceu entender, ela assentiu com um breve aceno de cabeça e depois se levantou, ela veio na minha direção, caminhando lentamente, caminhava normal, mas parecia estar desfilando, não se tinha dúvidas de que se tivesse mais alguém ali, todos estariam olhando boquiabertos para a mulher em minha frente.

Ela sorriu antes de se inclinar e acariciar meu rosto, sua pele macia entrou em contato com a minha e o toque me pareceu familiar. Onde ela tocou ficou ardendo, uma ardência boa e calorosa.

–Você cresceu — observou, sorrindo. — Está mais...

–velha? — perguntei rindo, ela sorriu mais e revirou os olhos. — Não posso dizer o mesmo de você

–Eu realmente fico feliz em saber que você não guardou rancor de mim.

Eu suspirei e olhei para baixo: -Mãe? A senhora... realmente sente orgulho de mim ?

–Meus filhos raramente me decepcionam — ela disse se virando — Então imaginei que alguém que realmente não me decepcionaria seria você.

Fechei os olhos por um segundo e assenti, quando voltei a abri-los minha mãe não estava mais ali.