Only
23 Nos despedimos de alguém especial
Notas iniciais
Pvo's Nico
Assim que Melanie nos deixou, eu fiquei mal, por mais que todos os meus amigos me perguntarem seguidamente como eu me sentia, e eu sempre dizer que estava tudo bem e que Melanie era uma garota inteligente e forte e que saberia se cuidar. Por mais que no fundo tentasse falar isso para mim mesmo. Eu nunca tinha percebido o quão especial Melanie era na minha vida e sim, eu me sentia um completo idiota por isso. Porque eu não falei para ela que a amava? Eu tive completa certeza disso quando a beijei pela primeira vez.
Eu tentei correr atrás dela e dizer para ela ficar. Eu precisava fazer isso. Porque eu não amava apenas o seu rosto ou o seu jeito meigo, eu amava a Mel por completo. O jeito irritado dela quando alguém não consegue entender alguma estratégia em algum jogo no acampamento ou o jeito que ela se olhava no espelho lá em Nova York murmurando para si mesmo o quão infeliz estava com seu corpo.
Enfim, não consegui. Não pude e jamais, JAMAIS me perdoaria por isso. Na mesma noite que Melanie nos deixou, eu e Jackson fomos procurar um hotel por umas ruas fechadas enquanto Nathan protegia as garotas quando elas foram comprar lanches. Acabamos achando um hotel barato e simples. Meninas num quarto e meninos em outro, separados.
-Ei, cara. — Jackson disse colocando a mão no meu ombro, desajeitado quando estávamos voltando para buscar as garotas e encontrar Nathan — De boa, você sabe que a Melanie vai voltar.
Eu pisquei rápido e olhei para ele — Ou talvez não — murmurei. Jackson suspirou e assentiu, porque com toda certeza notou que eu não estava para esse papo.
A noite, eu simplesmente não consegui pegar no sono, porque sabia que Melanie tinha pouco dinheiro e que ela provavelmente estaria dormindo nas ruas e eu não gostava de pensar que ela estivesse sozinha nessa cidade. Então sai para fora, no pequeno jardim que o hotel oferecia. A brisa da noite era fria e tudo estava tão gélido. Perfeito para um filho de Hades. Perguntei-me que horas eram, porque nada parecia ter vida. Tirei o moletom e caminhei pelo jardim escuro, até chegar no muro. Dei um salto e subi no mesmo, de forma que poderia ver um pouco da cidade, instantes depois ouvi passos leves e delicados me virei e vi Chloe. A brisa fria da noite fazia com que o lado direito de seus cabelos — agora mais lisos — voassem de leve. Ela estava toda encolhida, com frio. Estava usando uma camisola de seda cor creme e também estava descalça. Ela sorriu para mim
-Oi Chloe — sussurrei pegando a sua mão estendida no ar, ela apertou a minha mão e eu a ajudei a subir no muro, ficamos de frente por um instante se olhando. A luz da lua, sua pele era mais branca ainda. Chloe era uma garota bonita, bonita mesmo. Ela sempre fora, desde que havia chegado no acampamento, aos meus dez anos, ela sempre fora bonita e delicada. Mas eu não conseguia gostar dela como gostava da teimosa da Mel.
-Nico? — ela sussurrou olhando para a lua.
-Sim?
-Eu sei como você... se sente em relação a Melanie — anunciou Chloe — Sou uma filha de Afrodite, lembra? Sei disso. Não que precise ser filha da deusa do amor para notar tudo que rola entre você e Melanie
-Rola? — questionei olhando para suas bochechas com as leves sardas.
-Sim. Dá para ver num olhar o sentimento de vocês. É tão lindo, tão puro e tão... verdadeiro. Sei que Afrodite sempre sonhou que eu... ou qualquer outra filha dela, é claro... encontrasse um amor assim como o seu ou o de Melanie.
-Chloe eu acho que...
Chloe me olhou por um instante. Doce, mas decidida e eu sabia que ela não gostava de ser interrompida. Ficamos nos olhando por um longo momento antes dela morder os lábios e continuar
-Sei que nada pode mudar e sei principalmente sobre o que Hades estava falando... E sabe de uma coisa? Ele tinha completa razão.
-Hades? Chloe... pelos deuses! Do que meu pai estava falando?
Ela balançou a cabeça negativamente. Não iria contar — Não tenho permissão para contar, ninguém tem, e tenho que dizer que foi um erro Hades ter falado a você sobre isso. Era um segredo dos deuses. Um segredo que permaneceria apenas no Olimpo.
-Já que Hades errou... Você pode acabar com o segredo não é? Pode me contar?
-Não, Nico. Sinto muito, eu não posso. Afrodite que me falou sobre isso. Em um sonho, acho que sei porque Afrodite me contou.
-Porque?
-Porque sei que ela sabe os sentimentos que sinto por você — Chloe se aproximou um pouco e nossas pernas se tocaram, sua pele era macia e incrivelmente quente. — Ela sabe que eu sempre sonhei com que você... com que nós nos... beijássemos.
-B-beijar? — gaguejei num sussurro — Eu e... você?
Ela assentiu, seus olhos cintilaram com lágrimas com a luz do luar atrás de nós.
-Pode fazer isso Nico? — ela pediu. — Por favor, Por favor... Eu amo você.
-Não você não ama — neguei, mas me inclinei para ela. Porque com Melanie não fora assim a primeira vez? Porque? Droga. Droga. Eu estava fazendo as coisas totalmente erradas. Eu queria Melanie. Eu queria que com Melanie fosse assim. Eu nunca queria me separar de Melanie, porque eu a amava. Droga.
Joguei minha cabeça para trás e uma lágrima escorreu, sussurrei em pensamento "Me desculpe Melanie, me desculpe por tudo e pelo o que vou fazer agora" Então me inclinei para Chloe e a beijei. Primeiro imaginando que era Melanie que estava na minha frente, que era Melanie que estava dizendo que me amava e que era Melanie que eu teria em meus braços para sempre. Mas isso não era possível. Porque os lábios de Chloe não eram macios como os de Mel.
Chloe não beijava com sentimento, isso era evidente, era como desejo e necessidade. Melanie não cheirava a jasmim e rosas — na verdade Mel odiava perfumes florais porque ela disse que se sentia mal — Melanie tinha um cheiro amadeirado, bom, ela cheirava a canela e algo muito fresco e seus cabelos eram sempre macios e os fios grossos davam a impressão de segurar um travesseiro de plumas novinho. Eu estava beijando Chloe e pensando em Melanie. Não estava certo, porque eu estava ferindo as duas ao mesmo tempo. Me soltei de Chloe e a olhei por um instante, ela estava ofegante e seus olhos estavam fechados, pulei do muro e corri para meu quarto.
Mas isso eram apenas lembranças, lembranças despertadas quando olhei para minha Melanie do outro lado da rua, apreensiva, em dúvida. Estava com um casaco fino preto e nos observava com os olhos saltados. Chloe segurou meu braço com força quando a viu.
-Me solte — ordenei, quase num rosno. Mas não foi a minha intenção. Então soltei um olhar de desculpa. Fui na borda da calçada e fiquei olhando para Melanie intensamente. Isso fez com que ela avançasse em minha direção, quando chegou me abraçou desconfortavelmente, eu enterrei meu rosto em seus cabelos macios e inspirei o cheiro bom que vinha do corpo dela. Ela chorou. E chorou muito, seus braços foram se apertando cada fez mais em minha cintura, e ela soluçava. Soluços agudos e cortantes. Minha pequena estava de volta. Estava chorando, chorando nos meus braços. A puxei de meu abraço e olhei seu rosto encharcado.
-Estou aqui, bobinha — prometi rindo. Ela limpou as lágrimas e assentiu.
-Devemos entrar ali, não devemos? — Melanie apontou para o cassino.
-Sim — concordei — Não podemos ficar jogando, nem se quer olharmos para as máquinas. Se não, talvez, nunca mais sairemos. Precisamos de alguém com competência para isso.
-Eu vou — Mel disse decidida. Eu sorri. — Volto logo, eu prometo.
Melanie saiu de meu abraço e cumprimentou nossos amigos e Ashley também chorou, chorou tanto que nem se importou com a maquiagem, ela abraçava Melanie e dizia que ela era louca e que se não estivesse tão feliz e emocionada iria matar Melanie ali mesmo. Jackson afagou os braços da namorada para acalma-lá. Chloe veio até ela e acariciou seus braços.
-É bom ter você de volta — ela sorriu. — Até porque ninguém falou muito de você nesse pouco tempo separados. Estava acostumando ficar sem você, senti falta mesmo.
Melanie a olhou com desdém e depois olhou para mim — Ninguém falou de mim? — ela disse olhando decepcionada para mim.
-Não falamos — admiti — Mas pensamos. Pensamos muito em você. Todo instante.
Melanie concordou com um aceno de cabeça e disse: — Eu vou gente, é sério. Eu entro.
Todos se olharam. E tudo aconteceu muito depressa. Nathan — o menos sentimental — foi o primeiro a ver. Ele apontou com um dedo para o céu e disse: — Vão, se protejam, eu cuido disso.
Ninguém percebeu de imediato. Todos olhavam para Melanie. E estavam com sorrisos no rosto — Menos Chloe, a irritada e Nathan que apontava para o céu — Melanie virou a cabeça ao cutucou de Nathan e viu que o que vinha em nossa direção. Um espírito da tempestade. Prendi a respiração e as coisas pararam por um instante, saquei minha espada, mas foi tarde demais. O espírito vinha em direção a Chloe, que era a primeira semideusa — a mais perto — Melanie arregalou os olhos e saltou, se intervendo a frente da inimiga Chloe. O espírito da tempestade acabou rasgando a coxa esquerda de Melanie de fora a fora. Ela caiu no chão. Acompanhada de um grito horrível de dor, Jackson ia puxar Chloe mas ela disse que não — aos berros.
-SOU EU — ela gritou — Sou eu a garota da profecia que iria morrer. Sou eu.
Nathan lutava, tentando impedir que o espírito se aproximasse, eu corri para ajuda-lo. Mas não consegui chegar a tempo, o espírito conseguiu — não sei como — fugir de Nathan e chegou a Chloe, a empurrou. Ela gritou. Chorou. Soluçou. E gritou mais. E então ele rasgou seu peito, causando um enorme corte na filha de Afrodite.
Com raiva. Me aproximei do espírito e com a ajuda de Nathan e Jackson conseguimos mata-lo. Choveu pó monstro pra tudo que é lado. Ashley se interveio entre as duas garotas não chão. Colocou a mão na cabeça das duas e sussurrou:
-Eu sinto muito eu... Chloe... porque? — disse olhando para a irmã.
-Fique, Mel. Você vai conseguir. — ela disse.
Melanie estava viva? Viva! Melanie sobrevivera. Corri para ela, peguei sua cabeça e coloquei em meu colo.
-Consegue me ouvir? — pedi a ela. — Melanie, você consegue me ouvir? — eu praticamente gritava enquanto sacudia a cabeça dela. Ashley, arrastada por Jackson se levantou. Jackson fez carinho nos seus cachos loiros, mas ela começou a berrar e estender os braços para o corpo morto da irmã.
-Chloe! — ela gritou — Fique comigo, fique! Por Afrodite! Por todos... Porque?
Colei minha testa na testa suada de Melanie e sussurrei — Promete que fica comigo? Você vai ser forte não vai?
-Não... consigo Nico — ela sussurrou fechando os olhos.
Uma lágrima escorreu de meu rosto e pousou nas bochechas avermelhadas de Melanie, ela apertou seus olhos e tive certeza que estava fazendo uma prece a Atena.
-Hades — disse em voz alta, com meu rosto ainda colado no de Melanie — Sei o quão irônico parece ser eu pedir a você que salve uma vida. Você é o deus dos mortos. Mas tenho certeza também de que você sabe o quanto Melanie é importante para mim. E sabe também que eu não conseguiria suportar conviver com a dor em perde-la — Silêncio. Um grito abafado de Melanie depois um soluço. — Por favor, mantenha-na viva. Por favor.
Melanie agarrou a sua mão na minha e abriu os olhos, nos olhamos nos olhos por um longo instante entes dela falar: — Se eu morrer você vai sentir — ela disse entredentes, fazendo força para falar alto — Você vai ter a certeza de que estarei nos campos do elísio. Você vai de alguma forma me encontrar, porque eu nunca... eu nunca deixaria você, nem que tivesse forças para isso.
Concordei. Olhei para sua coxa, sua calça estava cortada e o sangue nela escorria levei as minhas mãos trêmulas ao ferimento e o toquei, o toque frio fez com que Melanie estremecesse. E aconteceu um milagre. Quando a toquei, o ferimento enxugou de leve. O que é estranho, mas o sangue parou de escorrer, como se meu toque fosse mágico. O ferimento não fechou, mas Melanie retomou uma cor saudável e parou de ofegar. A olhei e ela sorriu, ainda pouco fraca. Olhei para meus amigos, para ver se alguém tinha notado. Mas todos estavam em volta de Chloe, do corpo de nossa outra amiga.
-Você vai ficar bem — prometi. — Nós vamos tentar o máximo para isso.
Toquei mais uma vez o ferimento, ele enxugou mais um pouco. Melanie já não estava tão fraca. Toquei novamente, nada. Toquei centenas de vezes e nada. Olhei no fundo dos olhos cinzentos que tanto conhecia.
-Posso ficar de pé — ela garantiu. — Você me salvou.
Segurei suas costas com força e a coloquei meio sentada, a apoiando contra meu peito, seus dedos logo encontraram minha camisa e o seguraram com força. Com uma mão em sua coxa boa e a outra na suas costas, ajudei Melanie a levantei. Ela colocou o pé no chão com um gemido e apertou mais a minha camisa.
-Chloe — ela choramingou, os olhos cheios de lágrimas ao olhar para mim — Eu não consegui impedir.
Uma lágrima escorreu por seu rosto: — Sei que você tentou. E é isso que importa. Infelizmente senti quando Chloe se foi... Ela nos deixou.
-Ela era uma pessoa boa, sei disso. — Melanie confirmou com tristeza. E com lágrimas nos olhos, todos nós nos levantamos e olhamos Chloe de pé. Ela mesmo morta, estava divina. Não perdera a cor nem nada, em cada segundo que se passava, parecia com mais vivacidade.
-Eu não acredito — sufocou Ashley em um pulo, lágrimas escorreram pelo seu rosto, mas de felicidade. — Afrodite... — ela sussurrou. — Ela...
Mas Ashley não precisou concluir a frase. Uma espécie de brilho vermelho encheu o local, passou por nós todos, vinha do corpo de Chloe, entrelaçou eu e Melanie e me senti mais prendido a ela. Passou por Jackson e Ashley que se olharam com sentimento e se abraçaram forte, passou por Nathan e o fez derrabar uma lágrima. Um filho de Ares... chorando. Depois voltou a Chloe, o brilho a cobriu por inteira fazendo com que cobrisse seu corpo e quando sumiu tínhamos ali uma rosa. Era uma rosa bonita e grande, bem florescida. Era de um tom vermelho-sangue que jamais poderia ser encontrado. Ashley ajuntou a flor do chão e inspirou
-Tem o cheiro do perfume de Chloe — ela anunciou para nós acariciando as pétalas — E é macia como a pele da minha irmã. Chloe tornou-se imortal.
Todos nós nos sentimos tocados, Ashley segurou a rosa para si e a apertou contra o peito
-Eu sei que nunca te disse isso... Mas eu amo você Chloe — sussurrou segurando a rosa.
Olhei para Melanie, ela olhou para mim e se segurou mais em minha camisa. Não precisamos dizer nada, Chloe tinha razão, nos entendiamos no olhar. Ela puxou-me pela camisa, fazendo com que eu me inclinasse até ela. Então nos beijamos. Do jeito que deveria ser nosso primeiro beijo. Não precisamos dizer nada depois do nosso beijos, só sentir a magia do amor. E nos beijamos novamente, inúmeras vezes.
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