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22 Inesperado


Notas iniciais
A chegada de Melanie em Las Vegas talvez seja com... surpresas.

Quando cheguei no avião, meu pescoço escorregou para um lado e eu sabia que não deveria dormir, porque qualquer um que estivesse ali era um suspeito. Porém iriam fazer três dias que eu havia me separado de meus amigos e ainda não tinha dormido direito, apenas sonecas que duravam de dez a quinze minutos e eu estava completamente exausta. Minhas olheiras estavam cada dia mais escuras e meus cabelos pareciam desidratados pelo mesmo motivo. Não que eu me importasse com a aparência, mas sabia que se não dormisse ao menos um pouco, não teria condições para enfrentar as próximas coisas que estavam por vim.

Suspirei e puxei meu casaco fino para cima de meus ombros, não pude deixar de notar que os cortes de um Manticore que enfrentara a duas noites estavam piorando. Passei os dedos gelados pelos cortes e isso pareceu aliviar um pouco, olhei para o lado e a maioria dos passageiros dormiam, apenas algumas pessoas mantinham os olhos presos a livros e jornais.

Fechei meus olhos e pensei que nenhuma pessoa dali parecia ameaçadora, em poucos segundos, minha mente foi esvaziando e ficando leve. Minhas pálpebras se fechando aos poucos e meu corpo se encolheu.

O meu sonho era como um filme dos últimos dias: Como uma fita sendo rebobinada. Eu estava andando sozinha, as lágrimas em meu rosto estavam secando contra o vento e se olhasse para trás e espremesse os olhos poderia ver meus amigos segurando Nico. Ele olhou para mim e jogou os braços para cima, tentando chamar a atenção, tentando me chamar de volta. Chloe apareceu a acariciou seus ombros, que pareceram relaxar de imediato com o toque da filha de Afrodite, ela pareceu conversar com ele por um bom tempo então meus amigos o soltarão, Chloe se agarrou aos braços de Nico e pousou a cabeça em seu ombro forte. Aquilo doeu mais que tudo, mais que uma facada. Doeu mesmo. Era como se eu sentisse que minha pele estava sendo puxada em direção oposta por brutamontes. Passei a mão pelo rosto e esperei algumas lágrimas caírem por cima da minha mão tremula e agora aparentemente fraca.

Eu não iria ficar parada ali, sentindo a dor tomar conta de mim, vendo que Nico em poucos minutos apagara lembranças de meses. Os meses mais importantes da minha vida.

Eu não ia.

Não era obrigada.

Limpei as lágrimas e sai correndo, a poucos metros fui atacada. Um manticore. Era claro que eu sabia quem era a criatura medonha na minha frente. Meu pai mostrara alguns livros, que aos meus seis anos eu chamara de "catalogo de monstros" eu não sabia a razão, mas era obvio que ele estava tentando me proteger. Ele me explicava várias coisas sobre os monstros quando criança.

O Manticore me atacou, suas garras afiadas entrando em contato com minha pele e causando mais dor, eu com mais raiva ainda, rolei no chão e cravei minha faca no peito do bicho, fazendo com que seus olhos saltassem e ficassem vermelhos de raiva, ele tentou me atacar mas eu, com os cotovelos, recuei, ainda estirada no chão, lhe dei um chute perto da boca.

Ele veio para atacar mas minha arma estava pronta, o atingi com tudo perto do coração, depois mais uma vez e mais uma. E pó de monstro foi para todo o lado. Ao redor de meu corpo no chão, em meus cabelos e na minha barriga. Levantai-me e bati a sujeira depois sai caminhando lentamente, sem rumo.

Depois o cenário mudou. E eu estava caminhando mais rápido. Havia parado numa cafeteria e comprado um pequeno café com o dinheiro que sobrara, estava chovendo forte e as pessoas de São Francisco andavam mais rápido ainda, com capas de chuva e enormes guarda chuvas pretos. Era só uma chuva de verão, passaria rápido. Meus pensamentos ainda estavam a mil e eu não conseguia eliminar a última cena de Chloe e Nico entrelaçados na calçada. Me sentei na frente de uma loja de presentes, e tomei um longo gole do meu café. Um homem saiu da loja me olhou por um longo instante e depois entrou na loja, cinco minutos depois, ele estava acocorado na minha frente. Ele sorriu para mim, mas eu só olhava para meus joelhos entre nós. O hálito de sua boca era quente e doce. Eu o olhei por um breve instante, mas seus olhos verdes pareceram me prender por muito tempo.

–Tome isso — ele sussurrou pegando minha mão, a abrindo e colocando um pacotinho dourado nela.

–O que é?

–Abra — ordenou sorrindo. Seus lábios rosados eram bonitos. Ele se levantou e disse — Espero que fique bem.

Assenti — Vou ficar — prometi.

Ele entrou no seu carro e eu abri o pacotinho, era uma pulseirinha fina, bijuteria, estava enrolada a uma nota de vinte dólares que eu guardei no meu casaco. Quando ergui a cabeça para acenar para o homem que havia entrado no carro, o carro não estava mais ali. No próximo dia, tive de usar o dinheiro para o metro e eu estava novamente sem dinheiro. Só com a pulseira, que saberia que logo deveria vender para conseguir comprar algum lanche ou qualquer coisa do tipo.

Acordei com alguém sacudindo meus ombros. Havia dormido tempo demais. Droga. Droga! pisquei rápido e vi a aeromoça na minha frente, seus lábios vermelho-sangue por causa do batom estavam puxados num leve sorriso. Um sorriso doce.

–Las Vegas — ela me informou abrindo mais seu sorriso.

Me levantei num pulo e coloquei meu casaco — Obrigada por me informar — agradeci passando pela mulher. — Quase fico — brinquei depois de sair correndo.

Pouco tempo depois eu estava transitando as ruas de Las Vegas. Eu já tinha vindo para cá com meu pai quando eu era pequena, talvez umas três vezes. E lembro que aqui foi a primeira vez que aconteceu uma coisa estranha na minha vida. Um velhinho, aparentemente, muito simpático e doce apareceu querendo conversar comigo. Eu estranhei, mas o senhor na minha frente tinha bom papo, nós estávamos conversando animadamente, ele me convidou para dar uma volta. E seus olhos verdes escuro cintilaram, mudando levemente de cor para um azul e eu estranhei. Meu pai chegou com nossos sucos de manga e o expulsou, o velho não queria sair e meu pai acusou que iria surrá-lo se não sumisse no instante. Eu não entendi. Mas meu pai e o velho pareceram se entender exatamente com um olhar, um olhar duro, gélido e cheio de enigmas. Aos meus quatro anos de idade. Fiquei assustada e queria chorar. Mas o velho foi embora me encarando e meu pai acariciou meus ombros, mas sabia que o tenso ali era ele.

–Está tudo bem querida — ele afirmou me entregando um copo de suco — Vamos, vamos sair daqui.

Agora tudo aquilo não se passavam de lembranças, e enquanto eu ia caminhando pelas ruas de Las Vegas, a cidade dos cassinos. Sentia mais falta do meu pai. Saberia exatamente as palavras que ele me diria se soubesse de tudo. Saberia que ele me apoiaria na minha escolha e diria palavras como "Chloe? Ah por favor, ela é só uma filha de Afrodite! Uma patricinha, é isso que vocês chamam não é? Minha filha, você é filha de Atena! Atena! Consegue entender? Você tem um ótimo futuro. Você é inteligente, bela... Não se preocupe por causa disso" O pensamento me vez sorrir e agarrar mais meus braços cruzados. Era como se eu pensasse assim nele eu podia sentir que meu pai estava ali, comigo, me dando apoio e força.

Apenas levantei a cabeça quando vi o letreiro de neon escrito "Cassino Lótus" sorri fraco novamente. Eu havia chegado. Eu estava em Las Vegas. A ladra... a cria de Zeus como minha mãe chamava estava ali, e isso me fez pensar que a garota que a poucos estaria em minhas mãos era na verdade a minha tia... a menina... a ladra era irmã da minha mãe... irmã de Atena.

Apertei os olhos e tentei enxergar quem eram os adolescentes que estavam na frente do Cassino. Meu coração apertou. Coloquei o pé no asfalto para atravessar a rua.

Eu não podia acreditar.

Notas finais
reviews?