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26 Complicações


Notas iniciais
Pvo's Ashley

Alicia se virou para nós e eu pude jurar ver seus olhos cintilarem com lágrimas.

-Obrigada — ela sussurrou apertando seus dedos entrelaçados a frente do corpo. Alicia olhou para cada um de nós e sorriu — Prometo que terão uma recompensa a altura.

-Não precisamos de recompensa — Jackson disse sorrindo um pouco. — A verdade é que estamos felizes por não ter estragado a vida de alguém.

-A verdade é que precisamos sim de uma recompensa! — Nathan disse.

-Nathan, por favor — pousei minha mão sobre o seu pulso — Não seja mal-educado.

-Deixe — Alicia disse. — Eu prometi uma recompensa.

-Obrigado jovens semideuses — murmurou Zeus, quase como sua própria vontade.

-Por nada, senhor Zeus — sussurrei. — Se nos permitirem... Temos ainda uma viagem a fazer.

-Claro — o deus dos céus disse gesticulando para a porta.

-Adeus — murmurei.

-Espere! — uma voz alta me impediu de virar o corpo totalmente. — Eu preciso de um favor. — Virei-me para ver quem era. Atena, a deusa Atena havia nos parado. — Ashley... se... me permite?

-Mas é claro.

-Diga para Melanie que estou orgulhosa.

-Vou dizer — garanti num leve aceno de cabeça — E pode ter certeza que eu já sabia disso.

-Obrigada, Ashley, tem minha gratidão.

-É uma honra senhora — despedi-me de Atena e segui na frente dos garotos, sem a presença dos deuses é claro que seria mais difícil ficar perto de Jackson.

Quando chegamos ao acampamento a noite já caía, apertei meus dedos na Colina meio-sangue nervosa, eu não sabia como encarar as pessoas, aviam se passado tão poucos dias, mas eu me sentia diferente, como se realmente amadurecesse nesses últimos dias. Várias coisas haviam mudado, e eu gostaria mesmo de dizer que haviam mudado para o bem.

Felizmente, quando atravessei as barreiras ninguém estava ali me esperando, poucos campistas ainda estavam por ali, encontramos uns seis campistas em volta da fogueira, eles tocavam e cantavam, mas não era aquela alegria que estava acostumada a ver, cantavam mais baixo, mais como para entre si.

-Onde estão os outros campistas? — perguntei sentando-me no chão, logo que Nathan se ofereceu a levar minhas coisas.

-Estão lá na casa branca. — Jane, a criança de Apolo respondeu.

-Na casa branca? — estranhei.

-Sim, olhe, acho que a sua amiga... Melanie não está bem.

Arquei as sobrancelhas e corri em direção para a casa branca, eu tinha me esquecido como era correr por aqui, onde o ar era puro e gostoso, mas agora parecia mais sufocante, porque é claro que se Melanie estava na casa branca alguma coisa estava errada. Terrivelmente errada.

-Quíron! Quíron! — ofeguei quando encontrei Quíron conversando com três campistas na frente da casa. O centauro ergueu uma mão dizendo que o assunto estava encerrado e as crianças foram embora, Quíron avaliou a minha expressão e eu avancei — Por favor, eu preciso ver Melanie... Jane... Jane me contou que ela estava mal.

-Ashley — ele disse coçando a barba, na maior calma. — Olá.

-Quíron — implorei — tenho que dar um recado de Atena para ela. Por favor

-Tudo bem, vamos — Quíron me guiou até um pequeno quarto iluminado na casa grande, os campistas se aglomeravam naquela minúscula portinha que eu acreditava impossível passar dois ao mesmo tempo, inclusive Quíron que era um centauro.

Me joguei no meio da multidão, talvez uns dezoito campistas estavam ali disputando a entrada naquela portinha, a maioria, é claro, filhos de Atena. Perguntei-me por que ninguém ainda não tinha entrado, porque era evidente que lá dentro, o quarto estava vazio.

Quando encostei as mãos na soleira da porta e respirei o ar do quarto pensei que iria me sufocar a cena que vi doeu tanto. Nico se encontrava de joelhos em frente a cama, sua cabeça estava tombada na cama, ele escondia o rosto nos braços cruzados, não estava dormindo, era evidente, sua respiração estava forte, talvez tivesse chorando, ou havia chorado recentemente.

Melanie, que estava deitada na cama, com a perna enfaixada tinha os dedos pousados na cabeça de Nico, ela tentava acariciar o cabelo dele mas tinha tão pouca força que mal conseguia respirar, sua respiração vacilava, ela tossia e seu corpo dava fortes tremores e arrepios. Seu corpo estava suado e tinha uma toalha na testa.

Fiquei um tempo pasma, minhas pernas tremiam agora, na porta observando os dois, a cada tremor que Melanie tinha, Nico fechava mais as mãos nas cobertas e se juntava ao seu corpo.

-Mel? Nico? — sussurrei me aproximando dos dois. Me ajoelhei ao lado de Nico e observei Melanie, ela tremeu mais uma vez e eu encostei na sua perna boa, causando-a um arrepio, poucos segundos depois ela adormeceu, percebendo que ela não tremia mais, Nico ergueu os olhos, cujos tinham olheiras profundas e estavam com os cílios longos grudados, por causa das lágrimas.

Nico ficou observando Melanie e passou a mão pelo seu rosto.

-Ela finalmente conseguiu dormir — ele suspirou, sua voz quase sumindo — finalmente conseguiu ficar tranquila.

-Deuses — sussurrei impressionada. — Ficamos sem nos ver nem um dia ao certo, como pode acontecer... tudo isso?

-Eu não sei... começou a piorar.

-Ambrosia! — pulei do chão. Nico apenas olhou para mim.

-Já demos duas vezes hoje, é muito arriscado.

-Droga, e porque ela não tá melhorando?

-Não sei, Ash. Ela simplesmente não muda o quadro.

-E Quíron? O que ele diz sobre isso?

Nico olhou para a porta, os campistas quase entravam porta adentro

-Por que eles só ficam na porta?

-Eu dei um murro num dos filhos de Ares quando ele tentou entrar.

-Um filho de Ares? — impressionei-me — Uau.

-Bom, é que Quíron disse que o quanto menos gente melhor.

-Quer que eu saia?

-Não, você não. Melanie com toda certeza vai querer você por perto.

-Certo. — concordei e segui para a porta — hora de vocês dormirem, tchau — fechei a porta na cara dos campistas e voltei para a bera da cama, peguei o pano que estava na testa de Mel e o molhei novamente numa vasilha de água fria, antes de colocar o mesmo na testa de Melanie, coloquei a mão na sua testa. Estava quente, muito quente. Coloquei o pano na testa dela novamente.

-Quíron disse que ela vai melhorar.

-É claro que vai — disse apoiando minha mão nas costas de Nico.

-Ela não parece nada bem

-Mas vai melhorar, você sabe que ela é durona — eu sorri.

-Vamos ter que trocar o curativo.

-Por que?

Nico se levantou e deu a volta na cama, ergueu a camisola de Melanie até a metade da sua barriga e começou a desenrolar a faixa.

-Por que você tá fazendo isso?

-Os filhos de Apolo aconselharam. Não sei ao certo, falaram que a faixa por muito tempo abafa o ferimento e pode fazer piorar, só que a ferida não pode ficar muito tempo exposta, porque pode contrair bactérias e piorar. Aí a febre aumenta e pode causar mais uma vez o vômito.

-Mais uma vez?

-Cinco vezes hoje.

-Droga Nico! Ela deveria estar internada! — indignei-me o empurrando para o lado por um instante e desenrolando mais rápido a faixa, minhas mãos tremiam e eu comecei a chorar, mas não apenas por Melanie, mas pelo sofrimento de Nico que fora para uma comoda de madeira e começou a pegar a faixa enquanto controlava as lágrimas. Chorei pela dor de Melanie, pela minha própria dor, apesar de eu não ter nenhum ferimento, chorei pela falta que sentia de Jackson e pela falta que sentia de Chloe.

Olhei a ferida de Melanie, a carne em volta estava completamente verde, o ferimento requeria pus e estava tão feio que não vale nem a pena lembrar, no momento levei minha mão a boca e jurei que vomitaria no instante, fui para janela e abri o vidro.

-Vá enfaixar aquilo lá — disse tapando a minha boca enquanto enfiava o rosto para fora da janela. Nico hesitou mas concordou. Pude ver pelo canto do olho que ele colocou o dedo delicadamente na ferida e observou a reação de Melanie, ela tremeu o corpo e as pálpebras, não acordou, mas era evidente que mesmo assim sentia dor.

Nico analisou a ferida e muito calmamente levantou a coxa de Melanie enquanto passava a faixa. Depois de pronto ele se sentou no chão ao lado da cama e fechou os olhos bem apertados começou a murmurar palavras muito baixo e eu não pude ouvir, mas imaginei que ele estava pedindo ajuda a Hades.

Despejei água da jarra da comoda num copo, minha mão ainda tremia, tomei um gole e me sentei ao lado de Nico, lhe ofereci o copo ele pegou e deu um curto gole.

-Sei que não é a hora — murmurei com a voz trêmula. — Sei que nós dois estamos sofrendo mas... Jackson acabou comigo.

Nico virou lentamente o rosto para mim e o silêncio dominou o quarto pequeno e fechado, ele arqueou as sobrancelhas, impressionado, não acreditando, esperando que eu falasse "pegadinha" mas não era, eu apenas abaixei a cabeça e assenti, as lágrimas rolaram por meu rosto involuntariamente.

-E agora Mel — sussurrei chorando mais ainda. — Eu me sinto perdida.

-Eu também me sinto perdido. — Nico garantiu me abraçando com um braço. — Pode confiar em mim, vou ajudar você a superar Jackson.

-E eu vou ajudar você... E vou ajudar a Melanie.

-Obrigada, Ash. Eu nunca amei alguém tanto quanto amo Melanie, eu nem sabia o que era o amor.

-Eu sei que você a ama. Obrigada por estar aqui.