Onisciência

1 Onisciência


Aconteceu abruptamente.

Era uma noite quente, e eu tomava um refrigerante na sala de estar. Deixei o copo sobre a mesinha e peguei o controle remoto da TV, sem a intenção de ligá-la. Apertei um botão qualquer, então um estranho feixe de uma luz débil se projetou na parede por alguns instantes. Naquele momento, eu passei a ter consciência de tudo.

Apaguei a lâmpada do teto. Então mantive pressionado o botão do controle remoto, e aquela luz extraordinária iluminou novamente a parede. Uma cor completamente nova. Uma cor que ninguém jamais viu. Como uma lanterna esdrúxula, o controle remoto clareava a minha sala de estar.

"Por que você está aí parado no escuro?", ouço a voz do meu filho às minhas costas.

"Você está vendo isso, Lucas? Está vendo essa luz incrível?" perguntei, mas eu já sabia a resposta. A exata resposta. "Não", dirá ele, "você ficou... lelé?", perguntará desinteressado antes de dar um bocejo e voltar ao seu quarto.

"Não, você ficou... lelé?" ele responde, boceja e volta para o quarto.

Não estou segurando nenhum dispositivo de outro mundo. Meu controle remoto é como qualquer outro, emite luz infravermelha, invisível ao olho humano, imperceptível a qualquer pessoa, exceto a mim. Talvez "ver" não seja a melhor palavra para descrever a maneira como eu subitamente passei a perceber as ondas eletromagnéticas. Não há nada de anormal na anatomia dos meus olhos. Para ser mais exato, eu tenho consciência da presença dessas ondas. Mais do que isso, eu percebo cada uma das partículas que viajam desde o LED na ponta do controle remoto até a parede, a mais de 299 mil quilômetros por segundo. A minha mente foi radicalmente alterada, e agora sou capaz de saber precisamente a posição, a direção e a velocidade de todas as partículas de matéria e de energia nesse mundo. Eu sou capaz de processar toda essa informação de maneira sincrônica e diacrônica. Meu cérebro recebe todas as informações da luz infravermelha emitida por meu controle remoto e as converte em uma ilusão luminosa, permitindo que eu "veja". É uma interface entre mim e o conjunto de fótons que atravessam a minha frente.

Apesar da extraordinariedade que isso representa, permaneço tranquilo. Não existe mais espaço para dúvidas ou medos dentro de mim.

Agora sou capaz de detectar todos os tipos de radiação, que passam diante de mim como uma festa de ondulações multicoloridas por cores que vão além do espectro visível. São micro-ondas, ondas de rádio, ondas ultravioletas e radiações gama. Consigo acompanhar uma única partícula de elétron isolada, assim como sou capaz de decodificar as mensagens que um conjunto de elétrons transmitem pelos sinais de comunicação. Dentre as muitas frequências de onda que atravessam a minha casa e o meu corpo, detenho-me sobre a 105,8 megahertz, na qual o radialista narra uma tentativa de assalto que aconteceu há alguns minutos numa cidade vizinha. Segundo ele, sete disparos foram efetuados, três pessoas feridas. Errado. Na verdade, foram nove disparos. Eu sei. Eu sei.

Caminho até a janela e olho para o céu. Vejo as nebulosas, as constelações distantes, as matérias escuras, as distorções espaciais, exoplanetas que ainda serão descobertos pela ciência daqui a cem anos, estrelas mortas. Tudo emite onda, tudo emite informação. Mas apenas eu sou capaz de recolher, identificar, processar, relacionar e interpretar todas elas.

Em seguida, olho para o copo de refrigerante que deixei sobre a mesa, um líquido formado por muito mais ingredientes do que informa a embalagem do produto. 528 bolhas de gás carbônico sobem em direção à superfície neste momento. O que me faz pensar que, antes disso tudo acontecer, eu poderia considerar um tanto inútil a informação de que há 528 bolhas no copo de refrigerante. Mas agora, agora que eu percebo que tudo é partícula, que estamos todos nadando entre partículas, que somos partículas, não me importa se são as bolhas no refrigerante, a notícia do assalto ou os números da loteria de amanhã. Tudo se resume a matéria e energia.

E, por falar em loteria, eu sei onde se vende o bilhete premiado, que será sorteado amanhã e fará alguém milionário. O que me impede de comprá-lo é saber. Eu sei os eventos que ocorrerão no futuro, e ficar milionário não é um deles.

Inspiro, e 29.281.748.070.024.637.114 moléculas de componentes do ar entram em meus pulmões. Quando expiro, as moléculas empurram umas as outras, se chocam, como bolas num jogo de bilhar em proporções gigantescas. Absolutamente tudo se conecta. Eu entendo essas conexões, elas formam um único fluxo contínuo universal cujo movimento não uniforme pode ser precisamente determinado com as informações que eu tenho.

Instantaneamente, passo a saber de todas as coisas que acontecem e, consequentemente, posso deduzir por inferência lógica tudo aquilo que vai acontecer. Da mesma forma, sou capaz de depreender o passado. Se eu conheço cada mínima parte do universo presente, também posso entender de onde essas partes vêm e para onde vão. Posso compreender os eventos desde o Big Bang até o Big Crunch. Dito isso, parece-me tão insignificante o fato de que morrerei em três dias.

Tento dormir, mas é difícil. Meu cérebro não para de processar, consumindo muito mais energia que um cérebro comum. Nunca mais conseguirei dormir normalmente. Alimento-me com grandes porções de açúcar, mas são insuficientes. Em intervalos regulares, meu corpo tem colapsos causados pela fadiga mental, mas fico recuperado algumas horas depois.

Não saio muito de casa nos dias que seguem. Vou ao mercado algumas vezes. Levo Lucas à casa do avô, peço que fique com ele por alguns dias.

"Senhora, é melhor dar alguns passos para trás. Um pombo vai pousar naquele fio e fazer uma sujeira" eu digo a uma mulher que está parada no ponto de ônibus. Essa é a única vez que demonstro meu dom a outra pessoa. Faço isso porque eu sei com detalhes os episódios da minha vida. Faço isso para realizar o que já é previsto acontecer. A mulher, como esperado, não acredita. Contudo ela não sabe que, na manhã daquele mesmo dia, não muito longe dali, o senhor Carlos Mendez acordou atrasado para o trabalho e pediu que sua esposa levasse os filhos à escola. Foi assim que Rita Mendez perdeu o horário marcado no consultório do dentista da esquina. Por isso, outra paciente, Lúcia, que já estava na sala de espera, conseguiu consultar-se mais cedo. Ela já havia deixado o consultório e, em alguns instantes, passaria com o carro naquela rua tranquila, assustando um pombo cinzento que procurava migalhas na calçada, fazendo-o voar até um fio de alta tensão que passava sobre o ponto de ônibus, alinhando sua cloaca com a cabeça da mulher parada ali. Eu não devo alterar o futuro, assim como não posso mudar o passado.

Antes da minha epifania universal, eu poderia acreditar que o dom da onisciência poderia ser aproveitado para ganhar poder, prestígio, dinheiro, ter segurança, prever perigos e evitar lesões. Quanta tolice! Tudo já está determinado pelo movimento das partículas. Não há arbítrio, não existe escolha. Nunca existiu. O que me permite prever o futuro é justamente o fato de que o futuro já está determinado. Todos os eventos que haverão de acontecer são resultantes do oceano de partículas que interagem umas com as outras, com suas direções e velocidades já definidas, e qualquer alteração nesse movimento é causada por outras partículas cuja ação já estava prevista. Da mesma forma são os nossos cérebros, amontoados de partículas em movimento constante e determinado. O que chamamos de pensamento, decisão, liberdade, é na verdade uma mera imagem mental gerada pelo deslocamento de átomos e moléculas em nossas cabeças. Uma pessoa acredita que demora alguns segundos para decidir entre o par de meias brancas ou cinzas. No entanto, isso já estava decidido desde sempre. A diferença entre essa pessoa e mim é que, enquanto ela acredita que tem a liberdade de escolha, eu SEI qual ação as partículas me levarão a fazer.

Eu me vejo nas águas de um rio que me leva fatalmente numa única direção. Nem o menor movimento, nem o menor pensamento são livres. Tudo é uma grande prisão.

Estou no topo de um edifício, ultrapasso a grade de segurança e me inclino para frente. "Não pule", alguém grita lá embaixo, "seja qual seja o seu problema, você pode mudar isso. Se você quiser, você pode mudar". Não posso, não quero. Já está definido. E finalmente eu me lanço em direção ao fim.

No momento em que aperto o botão daquele controle remoto, eu conheço todos os instantes dos poucos dias que me restam. Eu conheço todos os instantes da vida daqueles que virão depois. Eu as vivo várias vezes em meus pensamentos.

Ainda contemplo aquela estranha luz quando escuto uma voz atrás de mim.

"Por que você está aí parado no escuro?"

Lucas, você nunca vai entender.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!