Onipresente.
1 Eu sou...
Notas iniciais
Percorro meu trajeto pelas ruas dessa cidade, deixando minha presença impregnada na pele de quem atravessa meu caminho.
Gosto do jeito como me evitam, embora pouco antes de dormir, é o meu rosto que desliza por seus pensamentos mais turbulentos.
Avisto um velho homem caminhando ao meu lado. Um pacote marrom da única mercearia aberta pesa em seus braços, o que nada mais é do que uma miligrama em comparação às toneladas do universo que cai sobre seus ombros estafados. Sua consciência é de chumbo, e sua mente possui cantos mais profundos do que as rugas que marcam a sombra de sorrisos mortos pelo tempo. Ele balança a cabeça, quase tropeçando no chão de pedras.
"Até a próxima, meu velho amigo", suspiro na altura de um de seus ouvidos. O velho parece estremecer, e segura o pacote com mais firmeza. Ele volta de onde partiu, e então o abandono.
No fim da quadra, uma jovem mergulha os saltos na calçada da esquina, segurando um cigarro apagado entre os dentes, revirando a bolsa com uma das mãos à procura de um isqueiro. Seu batom vermelho rubi mancha a superfície do papel em sua boca, e ao levantar o rosto, é possível observar a nebula de verdes e roxos por baixo de ambos os olhos verdes, miseravelmente contornados por um lápis preto borrado. Os hematomas parecem de um evento de semanas atrás, mas a dor que carrega em seu peito é fresca, feito a chegada da manhã, com a aurora que rasga o manto negro jogado sobre o céu no fim da noite. Ela suspira uma vez, e finalmente encontra o objeto que tanto procura. Inala a fumaça como se sua vida dependesse disso… ou sua morte, que parecia uma opção melhor, no momento. Um carro para ao seu lado, e a porta é aberta. Um homem misterioso troca palavras com a jovem, e a mesma joga o cigarro quase inteiro no chão, apagando-o com a sola do sapato de plástico vermelho. E depois desaparece com a figura disposta a comprar sua companhia.
“Nós nos veremos em breve, minha cara amiga!” grito para o automóvel que rapidamente serpenteia pelas ruas noturnas do centro. Ela sabe que iremos.
Antes do sol dar as caras no horizonte, cruzo com mais um acompanhante.
Ele está deitado debaixo do viaduto que, aos poucos, vai voltando à seu aspecto barulhento. Ele só tem mais alguns minutos para recarregar a mente. Uma mantinha áspera é tudo o que cobre seu corpo na noite de outono — ganhou de um falso bom samaritano que certa vez também lhe ofereceu comida e alguns trocados para uns goles — ele se encolhe, os pedaços de papelão rasgam sob o peso de seu corpo. Ele pensa em mim. Eu deito ao seu lado, abraçando-o. O homem fita a mancha esbranquiçada em um de seus dedos, onde um dia, havia um anel. Pensa um pouco na época em que tinha uma cama, e braços para lhe abraçar. E então adormece, tremendo entre os meus.
“Amanhã a gente se vê.” digo, e dou tapinhas em seu ombro antes de deixá-lo.
É o meu trabalho todos as horas, todos os dias, mas principalmente, durante todas as noites. Eu estou em cada lugar que tentar me procurar. No passado, no futuro, no presente. Eu estou em todas as casas, cada apartamento, cada um torturado pelo arrependimento. Eu sou as dúvidas, eu sou o medo — da morte, do mundo, ou de si mesmo. Eu sou o monstro no armário, a figura desfigurada no rabo do olhar. Eu sou toda a energia negra que a mente humana é capaz de criar.
Eu sou contínua e recorrente. Eu sou onipresente.
Notas finais
Se não gostou, ainda assim agradeço muito por ter lido. ^-^
Feedbacks seriam muito apreciados.
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