One-shots By Gi Saggiomo

2 Ela acreditava... Vegas via.


Notas iniciais
Ela acreditava que coisas mágicas acontecem em lugares mágicos. E porque ela acreditava... Aconteciam.

Vegas nem era um lugar tão mágico assim.

Claro, poderia soar como ingratidão, uma vez que poucas pessoas tinham a mesma oportunidade que ela, de estar ali e poder descobrir isso por si só. Mas, verdade fosse dita... Não era.

Vegas era o símbolo do poderio monetário máximo.
Bebidas, fumo de todo tipo, inclusive cachimbos, e claro, mulheres em vestidos vermelhos que talvez revelassem até mesmo seus ancestrais.

Veja bem, não que haja algo de errado com aquele tipo de veste, na verdade... Naquele lugar, naqueles cassinos, talvez elas que estivessem certas, e não eu, com meu jeans, all-star, camiseta e cachecol. Cachecol, sim. Embora estivesse um sol bem forte no meio do deserto, a temperatura não chegava aos 5 celsius.

Mas que importava? Eu não estava em Vegas para conseguir meu green card definitivo seduzindo algum americano, o embebedando e casando-me com ele, embora, pensando bem, não fosse uma ideia assim tão ruim...

Eu havia descoberto recentemente que todo o meu glamour e romantismo havia ido por água abaixo conforme eu crescia. Se um dia houve algo de europeia em mim, havia me deixado faz tempo e agora, eu me via, de espírito, como uma cidadã americana até que bem aceitável.

Inglês fluente, apaixonada pela forma como as coisas lá eram estranhas e, mesmo quando não funcionavam, funcionavam melhor que o Brasil.
Tinha de engolir tudo o que havia dito de mal dos Estados Unidos. Eles podiam estar destruindo o mundo, mas eles sabiam como viver. Eu queria mesmo odiá-los. Mas os luxos daquela civilização derrubaram por terra qualquer moralismo que eu um dia tive.
Capitalista, consumista... Me reconhecia mais com aquela gente pálida e gorda de McDonalds do que com as pessoas de meu país natal.
Ah, my sweet San Francisco....

Eu fechei os olhos enquanto estava ao lado de um caça-níqueis. Meus amigos jogavam enquanto eu me lembrava da baía... Do píer 43 e da vista de Alcatraz.
Que coisa mais maquiavelicamente bucólica e linda... Inspiradora.
Céus se um dia puder escolher onde morar, me levem de volta para San Francisco...

Mas, voltando à Vegas e ao caça-níquel... Não tinha ideia de que horas eram. Os cassinos eram todos ambientalizados de forma que as pessoas se rendessem ao tempo e esquecessem a vida lá fora, e eu demorei algum tempo para olhar no celular... Já era pouco mais de 22hrs.

Que acham de darmos uma volta para conhecer o MGM? Conhecemos os outros cassinos, mas não o nosso próprio hotel! disse nossa amiga que organizara tudo. Ela levava jeito para a coisa.

Concordamos e ela começou nos levando até o 3º Starbucks que ela havia encontrado lá dentro. Sim, dentro de nosso hotel, passávamos na frente de 2 deles todos os dias pela manhã para sair, e ela havia encontrado o terceiro numa noite que fora andar sozinha com o marido atrás de uma balada para conhecerem.

Milhares de... Okay, milhares é um exagero. Muitos restaurantes, corredores e praças de alimentação depois, encontramos alguns corredores que iam, aparentemente, para lugar algum. Mas, como estávamos explorando, resolvemos seguir por eles mesmo assim.

Uma curva atrás da outra, seguíamos por corredores de quartos térreos e que pareciam mais baratos que os nossos. Estávamos nos afastando da área de cassinos e comércio e os corredores ficavam cada vez mais vazios, com umas rampas horizontais rolantes e paredes quase completamente de vidro...
Tocava música boa. E isso é uma das coisas que mais amo nos Estados Unidos. Em qualquer lugar, toda música boa. É pop, pop-rock, rock, mesmo rock-alternativo! Um pouco de black, soul, hip-hop entre outros... Mas no geral, as músicas eram exatamente aquelas que eu sabia cantar... Agora não era diferente.

Eu caminhava na frente cantando Wonderwall enquanto o grupo atrás de mim se desagrupava. Alguns se rendiam ao sono, uma vez que o dia seguinte seria uma correria sem fim, e outros insistiam em continuar comigo... Minha mãe foi uma das últimas a ficar, me chamando, eu disse que sabia voltar ao quarto, que ela podia ir e eu apenas olharia o que tinha no final daquele corredor.

Ela concordou, seguindo com o grupo, uma vez que não saberia pedir informações se fosse deixada sozinha, e eu segui. Do nosso grupo todo, a única que saberia se virar caso realmente se perdesse, era eu. Mas eu raramente me perdia por completo, uma vez que embora tivesse um senso de direção um pouco falho, era ótima em arranjar pontos de referência.

A música mudou para Payphone, e eu não consegui me controlar. Sozinha, nos corredores de um cassino em Las Vegas, eu fechei meus olhos por um segundo e sorri ao teto... Eu morreria feliz ali. Naquele momento.

Mesmo sendo Vegas. Eu me sentia feliz. Mesmo sem estar formada, ou ter um namorado, ou ter terminado meu livro ou qualquer outra coisa... Eu me sentia completa.
Isso não é algo que sinto no Brasil. Lá sinto constantemente que se ficar ociosa, sou inútil. Sou incompleta. Me atolo em trabalho apenas para saber que ainda existo.
Mas ali...
Ali eu existia apenas para fechar os olhos e cantar enquanto a música me consumia em meio aos corredores verdes e de vidro.

I'm at a payphone trying to call home
All of my change I spent on you
Where have the times gone, baby it's all wrong
Where are the plans we made for two

Yeah, I, I know it's hard to remember
The people we used to be
It's even harder to picture
That you're not here next to me
You said it's too late to make it
But is it too late to try?
And in our time that you wasted
All of our bridges burned do...!

Mas eu parei de cantar quando uma porta foi escancarada à minha direita... Eu não havia parado de cantar enquanto andava.

What the hell do you think you're doing?!?

Eu era fluente em inglês... Era mesmo. Não só era, sou. Mas naquele momento...
Naquele momento... Eu não conseguia sequer respirar, quem dera responder...

... Uhn... Sorry.

Foi tudo o que consegui responder para a pessoa mais incrível que eu poderia sonhar em conhecer um dia. Robert Downey Jr. Estava de pé na porta. Uma garrafa de Whisky de uma marca que eu não conhecia na mão esquerda. A direita segurava a porta escancarada.

I've wasted my nights
You turned out the lights
Now I'm paralyzed
Still stuck in that time when we called it love
But even the sun sets in paradise

I'm at a payphone trying to call home
All of my change I spent on you

... A música ainda tocava ao fundo enquanto ele me encarava... Uma mistura de curiosidade e revolta em seu olhar, e eu não sabia dizer qual era maior.

I'm sorry if I interrup...

Eu tentei dizer, mas, ele estendeu o indicador na minha direção em sinal de que me calasse, e eu obedeci, num misto de admiração e choque.

Continue.

What?

I want you to sing. You already woke me up anyway..!

Eu não queria cantar... Quer dizer, queria, claro! Era minha terapia afinal, mas, você acha que eu era capaz de fazer isso diante dele?!?
Mas, capaz ou não, assim que o refrão acabou, eu continuei.

If happy ever after did exist
I would still be holding you like this
All those fairy tales are full of shit
One more fucking love song I'll be sick

You turned your back on tomorrow
Cause you forgot yesterday
I gave you my love to borrow
But you just gave it away
You can't expect me to be fine
I don't expect you to care
I know I've said it before
But all of our bridges burned down

Naquele ponto, eu já não me importava mais... Eu havia voltado a cantar com todo o meu coração, tudo o que eu poderia arrepender. Que ele gritasse e me prendessem... Eu só não queria mais parar...

I've wasted my nights
You turned out the lights
Now I'm paralyzed
Still stuck in that time when we called it love
But even the sun sets in paradise

I'm at a payphone trying to call home
All of my change I spent on you
Where have the times gone, baby it's all wrong
Where are the plans we made for two

If happy ever after did exist
I would still be holding you like this
All those fairy tales are full of shit
One more fucking love song I'll be sick

Now I'm at a payphone...

Quando chegou na parte rap, eu parei de cantar, olhei mais uma vez na direção dele, uma vez que havia fechado meus olhos, e ele parecia surpreso...
Talvez eu não cantasse assim tão mal... Ou muito, muito pior do que eu imaginava cantar.

You're not from here, huh? You have a very interesting accent, although its pretty dawn well hidden in some american accent.

No, I'm not.

So...?

Ele me perguntou. Era evidente que ele não queria apenas que eu concordasse com ele, e por isso, acabei corando um pouco antes de continuar.
Era difícil falar com ele naquele estado. Não parecia bêbado, ao menos, não mais do que o padrão Stark de normalmente bêbado, mas... Era o meu herói diante de mim. O cara perfeito que tornara o super-herói perfeito ainda mais perfeito...
Eu não tinha como não admirá-lo.

I'm from Brazil. Eu admiti, surpreendentemente, sem vergonha na voz. Giovanna Saggiomo.

Ele não tentou repetir meu nome, o que era bom, provavelmente sairia algo muito estranho... Afinal, eu caíra na bobagem de dar meu nome para o atendente de um Starbucks no aeroporto de Chicago e sinceramente, não faço sequer ideia de como é que ele escreveu.

You can call me Lilly, if you'd like.

Lilly... You sure is pale as one. Very diferente from the girls I saw at Rio...

I'm not from Rio. I'm from São Paulo. The... Well, working part of Brazil. Most of brazilian workaholics are from there.

Are you one of them?

For sure.

Them, come in, have a drink with me.

Eu hesitei, arregalando os olhos para ele. Devo ter feito uma expressão muito hilária, pois ele rio.

I'll call security if you dont. I'll say you were too loud and...

Jeez, I'll join you.

Eu concordei outra vez, entrando no quarto dele. Era realmente muito mais simples que o meu. Uma cama de casal encostada no canto, o banheiro ao lado, não havia televisão ou muitas luminárias, muito menos a parede quase completamente de vidro que eu tinha na minha suíte, num dos andares mais altos.

Im Robert. But I'm quite sure you already knew that.

Yeah, I did. I'm actually a big fan of...

Me?

Yeah.

Will you ask me to make you mine and impregnate you, than to leave my wife and marry you and...

Eu apenas bufei com desgosto, cruzando os braços enquanto levantava uma de minhas sobrancelhas. Outra vez, ele olhou na minha direção como se maravilhado pela minha reação, coçando a barba por fazer com um sorriso.

Will you say I'm wrong?

No. Fact is, although I love your job, and that pretty much means I love you. I'm not willing to destroy your family nor anything like that... If I did.... I'd be just a lazy girl who wants to marry a rich and famous guy instead of becoming rich and famous on my own. That's not really my style.

You're saing you dont want my money?

Yes. I don't want it.

LIAR!

Quando ele levantou a voz, eu me vi dando um pulinho breve de susto. Meu coração foi parar na boca, e eu mordi os lábios.

I'm a workaholic.What good would it be if I wasnt working hard so I could pay for my own stuff? I don't want, nor need, your money, Mr. Downey, I'm so sorry.

Eu sequer sabia porque estava me explicando, mas a expressão que ele me observava agora era um misto de pânico e terror. Era uma expressão bastante infantil, na verdade... Mas eu não consegui lhe dar as costas. Soltei um suspiro e me aproximei da mesinha de canto, pegando o copo cheio de whisky dele e levando aos lábios uma vez.

Jeez!

Are you old enough to drink?

Yes, I am.

Foi tudo o que respondi antes de tomar um gole maior. De pura insistência. O whisky desceu queimando minha garganta ao mesmo tempo que o cheiro de álcool subiu destampando meu nariz e fervendo meu cérebro. Era muito forte.

Won't you drink with me?

Eu perguntei, observando enquanto ele ainda segurava a garrafa ao centro do quarto, me observando como se eu fosse algum tipo de alien de outra dimensão... Qual é, é apenas outro hemisfério, não podia ser assim tão estranho.

You're really a weirdo.

You were the one inviting me over your room, alas, forcing me to enter, or I'd be in jail by now!

That's a cassino, not a church, you'd never be arrested for singing. I lied.

Why?

Me vi perguntando antes que pudesse me conter. Talvez o Whisky realmente estivesse fazendo efeito.

I heard you singing and wanted you to make me company. Sing for me. I can pay you if you want.

I already said I don't want your money, havent I?

Ele abriu um sorriso canalha.

Nor your body...! Jeez! If you ever fall for me, Id be more than happy to be yours, but I dont want your body. I want your heart.

Aren't you a romantic one?

Thats the only thing I've got left.

Ele me observou outra vez com aquela expressão, como se eu fosse um alien.

That's really the only thing you want, isnt it...? It doesn't look like you're trying to trick me.

I'm not! Mr. Downey, I DO love your acting! I DO love the way you look like Tony in your interviews, but, truth be told, I don't know you. I don't know how much Stark you are, for real!

Apparently, too much.

Foi a resposta dele, e eu não entendi o que ele quisera dizer com aquilo... Como podia ser demais ser Tony Stark? Tony Stark era um canalha, claro. Mas ele podia ser.

Genius, Playboy, Billionaire and Philantropyst. How can it be bad?

You forgot the jerky part.

No, I'd never forget anything about my favorite character ever!

Eu sorri para ele, e ele acabou colocando mais whisky no meu copo, se sentando aos pés da cama, bebendo da garrafa direto do gargalo.

You're a crazy fangirl, that's what you are.

At least, I'm not trying to get under your clothes...

Yet!

Quando dei por mim, estava rindo com ele. Tomei um gole menor do whisky dessa vez, afinal, precisaria estar sóbria para controlar a minha voz para cantar, e me coloquei de pé.

So, what do you want me to sing?

Whatever you want. Just... Don't stop too soon.

They tried to make me go to rehab,but I said,
No, no, no
Yes, I've been black but when I come back you'll
know, know, know
I ain't got the time and if my daddy thinks I'm fine
He's tried to make me go to rehab,but I won't go, go, go

Me vi cantando Rehab antes que eu tivesse a oportunidade de parar... Não sabia o porque... Talvez fosse mesmo o Whisky subindo, mas, por ser um tom menos agudo, era um ótimo aquecimento de voz...

An angel's smile is what you sell
you promise me heaven, then put me through hell
Chains of love, got a hold on me
when passion's a prison, you can't break free

Whoa!
You're a loaded gun
yeah, whoa...
There's nowhere to run
No one can save me
The damage is done

Shot through the heart
and you're to blame
You give love a bad name
I play my part and you play your game
You give love a bad name
You give love a bad name

De Bom Jovi, voltei para Maroon 5. Além de amar o grupo, ele sempre me acompanhava em minhas viagens aos Estados Unidos, desde o ano anterior, com Moves Like Jagger...

But baby there you go again, there you go again
Making me love you
Yeah I stopped using my head, using my head
Let it all go
Got you stuck on my body, on my body
Like a tattoo
And now I'm feeling stupid, feeling stupid
Crawling back to you

So I cross my heart and I hope to die
That I'll only stay with you one more night
And I know I said it a million times
But I'll only stay with you one more night

Try to tell you no
But my body keeps on telling you yes
Try to tell you stop
But your lipstick got me so out of breath
I'd be waking up
In the morning probably hating myself
And I'd be waking up
Feeling satisfied, but guilty as hell, eh

E então, sem saber bem o porque, cantei a última música que parecia capaz de me lembrar.

I've been trying to do it right
I've been living a lonely life
I've been sleepin here instead
I've been sleepin in my bed
Sleepin in my bed

So show me family
All the blood that I will bleed
I don't know where I belong
I don't know where I went wrong
But I can write a song

I belong with you, you belong with me
You're my sweetheart
I belong with you, you belong with me
You're my sweet

I don't think you're right for him
Think of what it might have been if we
Took a bus to chinatown
I'd be standin on canal and bowery
And she'd be standin next to m...

Mas eu nunca terminei a música. De olhos fechados, eu não notei quando ele se aproximou e me segurou à força pelos braços, unindo os lábios aos meus.
O beijo dele tinha sabor de whisky, e não só do que eu estivera bebendo... Ele já deveria estar numa garrafa de número muito mais avançado do que eu, e eu sabia que desacostumada àquela quantidade de álcool, eu talvez não conseguisse me controlar.

Mas naquele momento, me controlar era uma bobagem sem tamanho. Ele não esperou mesmo por uma permissão minha, me empurrou pra cama e a última coisa que eu queria era pará-lo.

Eu era mesmo muito cheia de um discurso romântico, mas eu não seria capaz de negar aquele homem agora. Aquele homem que eu amava numa forma de admiração tão profunda... Alguém seria capaz de negar seu herói...? Eu não era.

...

...

...

...

...

Acordei no dia seguinte com o despertador do meu celular. Meu coração estava acelerado, e eu tinha certeza que tinha de correr de volta para o meu quarto antes de meus pais acordarem.
Porém, ao abrir os olhos, lá estava eu, em meu quarto. Perfeitamente normal.

Tentei forçar a memória nos detalhes da noite anterior. Tentei me lembrar se era mesmo real, ou se tudo não passara de um sonho. E assim como nos sonhos bons, quanto mais me esforçava para lembrar, mais eu esquecia.

Desisti da ideia de que aquilo fora real quando ninguém me questionou onde eu estivera na noite anterior, afinal, mesmo para mim já era evidente que eu tinha estado com eles o tempo todo...

...

Me despedi de Vegas, no avião, sentindo um buraco dentro de mim, maior até mesmo do que sentira quando voltara para o Brasil depois de sair de Orlando, ou mesmo antes de entrar no carro em San Francisco para descer a costa.

Em Vegas tive meu sonho mais doce e mais secreto... E mesmo ao falar mal dos cassinos fedidos e mal frequentados... Eu ainda vou sentir saudades da música.

Sempre.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.