One-shot: Tormented
1 Capitulo Unico.
Notas iniciais
Já passava da meia-noite, e mais uma vez eu caminhava ao longo da praia, sem rumo, sem destino.
É claro que eu sabia onde ela me levaria, já havia feito o mesmo trajeto varias vezes. Tantas vezes quanto o sol se pôs, a lua brilhou, e as ondas do mar engoliram a areia. Tanto quanto o número de estrelas no céu.
Vivia uma vida noturna, caminhando pela praia todas as noites, imaginando como seria viver em outro lugar. Ter pais, amigos, uma casa só minha, talvez um carro, cerca branca, e um cachorro chamado Brody, um gato chamado Willbie e talvez uma tartaruga chamada Danna. Podia ter irmãos, dois, ou três. Um quarto todo decorado com fotos de amigos, mas amigos de verdade, não como aquelas amizades que vejo todos os dias na escola, constituídas de falsidade, mentira, inveja, aproveitamento...
Uma estrela cadente caiu.
"Faça um pedido, Claire" Diria minha avó caduca "Tenho certeza de que se você pedir, sua mãe vai voltar, junto com seu pai" E esboçava um sorriso esquizofrênico no rosto.
E quando eu dissesse "Vovó, mamãe e papai estão mortos, lembra? Acidente de carro" ela simplesmente diria "Uhum, não são lindas as estrelas?" E com o mesmo sorriso sem sentido e esquizofrênico, sintomas da velhice, alzheimer, demência e outras muitas doenças que afetavam-lhe o cérebro, tornando-a gagá, iria dar-me as costas e voltar para suas costuras e crochês.
Não é que eu não ame minha avó, ou que ache que ela é maluca, embora seja verdade, apenas estou cansada de tudo. De ser a estranha da escola, que, por adotar um estilo próprio, meio gótico, meio nerd, é excluída por todas as pessoas. Cansada de ter de acatar com tudo, de não ter uma vida normal, de não ter com quem ir no baile de primavera. Cansada dos clichês da vida, tão mesquinhos e repugnante.
Ajunto um pedaço de galho de uma árvore que estava jogado na areia e risco o chão.
Gostaria que a vida fosse como este risco, desenhado na areia.
Você poderia fazer qualquer coisa que quisesse, e se algo desse errado, era só passar a mão por cima, apagar o risco anterior e fazer outro.
Lembro-me de que uma vez, minha angústia havia chegado a um ponto em que fui presa, duas vezes, por agressão física e vandalismo.
Fora a muito tempo, mas lembrava como se fosse ontem.
Minha avó, doente e inocente como só ela, fora me buscar na prisão, assustada, confusa, talvez decepcionada? Eu não sabia. Ela simplesmente pagou a fiança e me levou para casa.
Quando chegamos, ela esquentou a janta e serviu a mesa. Jantamos e conversamos normalmente. Como se realmente NADA tivesse acontecido.
Senti-me culpada, o fato de minha avó não fazer nada me deixava pior. Após aquele dia, fiz de tudo para evitar magoá-la.
Mas aqueles eram outros tempos, quando meu avô ainda estava vivo e são. Quando, mesmo que velhinho e fraco, ainda nos alegrava e cuidava dela, junto a mim.
Isso tudo antes do AVC, acidente vascular cerebral, ou, se preferir, um "derrame".
O dia de sua morte foi o dia mais triste em nossa casa. Alguns parentes próximos vieram nos visitar e nos dar os pêsames. Alguns tio-avôs nos ajudaram com velório e enterro.
Depois disso minha avó entrou em uma depressão sem fim, e está assim até hoje, quatorze meses depois, caquética, catatônica.
Eu, sinceramente, já não vejo sentido na MINHA vida.
Eu já não tinha mais nada mesmo.
Dobrei para a esquerda e subi as dunas, indo em direção a área elevada, um barranco rochoso e coberto de grama, de onde dava para ver o mar e a lua.
Antes de ir embora, eu sempre parava neste lugar,sentava e contemplava o cenário, desfrutando de cada detalhe que o fazia magnifico.
Me imaginava uma moça bonita, bem arrumada, com chapéu e tudo mais, um cachorrinho e uma cesta de piquenique, esperando o amor da minha vida para jantarmos ao luar.
Sonhos, as vezes mesquinhos, mas são eles que nos definem a nós mesmos.
Minha teoria, é claro.
Ao sentar, reparo que há um pedaço de corda próximo a mim.
Era uma corda bonita, eu não podia deixar de notar.
Dourada, e nada suja, como se tivesse acabado de ser esquecido ali, ou posto de propósito, quem realmente sabe?
Rapidamente uma ideia veio a minha cabeça.
Uma chance de ser feliz em outro lugar, ou pelo menos terminar com a dor deste em que me encontro.
Uma chance de conhecer um lugar novo, diferente, quem ia saber? Porque não tentar?
A lua brilhava alta no céu escuro e decorado por milhões e milhões de estrelas.
E porque não virar uma delas, se juntar a uma constelação e viver ali, brilhando, admirando os bem afortunados e felizes que habitam esse mundo gigantesco.
A garotinha, bonita e com chapéu, agarra a corda, determinada, e olha fixamente para a mesma, cogitando a ideia que lhe surgira.
Não poderia se demorar, se estava decidida, o momento era este.
Coragem, era o que lhe faltava.
Mas não hoje,não naquele momento.
Ela levantou-se lentamente, e dirigiu-se para a arvore seca e sem folhas a sua frente.
Poderia ter sido impressão dela, mas quanto mais próxima chegava da arvore sem vida, mais a lua la no alto brilhava, como um aviso, implorando para que ela parasse e pensasse mais.
Porém ela não tinha tempo, nem motivação para permanecer parada, imaginando o que estava prestes a perder, ou não.
O vento, imponente, cortava-lhe o rosto, gélido e tortuoso, como se estivesse fazendo força para pará-la, fazer com que ela não seguisse com seu objetivo,seu destino.
Mas não adiantou, mesmo lacrimejando, ela prosseguiu, sempre lentamente, delicada e sutil, bela e imponente, decidida e, agora, depois de tantos passos para frente, destemida.
Pássaros sobrevoavam o local, voando em círculos como sinal de aviso "Não faça isso, menina do chapéu rosado". Sem resultado, é claro.
O cãozinho, sem objeção, apenas a seguia, triste, quieto, simplesmente calado.
Ela, enfim, chega a arvore, amarra a corda e um dos galhos aparentemente mais forte e faz um laço na ponta.
Vira-se para o mar, e solta um suspiro.
Ela não queria dizer nenhuma frase clicheria antes de fazer o que estava prestes a fazer, sua vida já tinha clichês desagradáveis demais para que ela acabasse assim.
Mesmo assim, para não se arrepender depois, ela disse uma palavra, apenas uma, antes de decidir por si própria o que queria para seu futuro.
Fechou os olhos, e, involuntariamente, soltou uma lágrima. Pôs o laço em torno do pescoço claro como mármore sob a luz da imponente lua.
"Amor"
Mais uma lágrima.
Uma estrela cadente caíra novamente, como um ultimo apelo a vidada menina, mas não adiantou.
Só restara o som da corda apertada no galho da árvore balançando como uma pinhata esquecida e abandonada em um aniversário sem convidados e sem palhaços de circo. Sem alegria, sem risadas. SEM VIDA.
De repente, um brilho, quase que invisível no céu.
E la estava, uma estrela, brilhando, intensamente, no meio de tantas outras já quase apagadas.
A estrelinha Claire.
–------------------Fim–------------------
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