Arte. Simplesmente arte. O sangue sobre o carpete de Susan é arte. Seu rosto pálido, que carrega sem malcriações um pesar inigualável, também é arte.

Feridas irreparáveis, originadas de um passado conturbado. E as lembranças... Oh, as lembranças que assombravam até mesmo os felinos daquele apartamento mal iluminado... Quando irão dissipar-se como os antigos sonhos de Susan?

O "tic-tac" incessante do relógio não era, sobretudo, o único som melódico daquela tarde. Haviam também as gotas gélidas da tempestade, que insistiam em criar melodias distintas todas as vezes que caíam sobre o asfalto.

O céu, pesaroso e monocromático, encobria carinhosamente o astro-cálido, tornando o ambiente melancólico, silencioso, enfadonho. Teacup fitava-o atentamente, como se houvesse algo interessante ali.

"Zoe está no céu, não há o porquê preocupar-se..." Disse a mulher de vestes e lábios negros, penteando os delicados e curtos fios capilares de Susan. "E eu, Mrs. Ashworth, estou bem aqui." Sussurrou, permitindo que seu desejo de beijá-la pudesse tornar-se realidade.

Um corpo jazia decompondo-se ali naquele mesmo cômodo. Susan teve que matá-lo. Era basicamente uma questão de deixar Joe viver e matar Mitzi, ou dar um fim às loucuras do moreno de uma vez por todas.

"Você fez isso por mim, eu compreendo." Mitzi acariciou-lhe as madeixas macias, repousando o crânio da maior em seu colo logo após. "Admiro esse seu instinto naturalmente corajoso. Sempre fostes forte."

"Não sou mais imortal, Mitzi. Não sou mais especial. A Morte foi-se, arrancou-me a paz e a normalidade dos meus dias... Eu devo pagar por tudo que fiz..." Até então, Susan havia conseguido conter suas lágrimas, até Mitzi dizer:

"Zoe sentiria-se orgulhosa de tudo que fez. Você é especial, Mrs. A, sempre foi... Apenas não és inteligente o bastante pra perceber isso."

"Insolente!" Vociferou a maior, entre risadas discretas e sarcásticas. "Então, Einstein, o que devo fazer com... esse corpo?"

"Vamos denunciar ele, é claro, e dizer que tivemos de defender-nos. Os policiais vão compreender." Disse Mitzi, levantando-se ligeiramente e recolhendo duas canecas que jaziam sobre um pequeno balcão. "Que tal tomarmos um café e assistirmos algum filme?"

"Pode ser... Contanto que você prepare o café."

***

O líquido pardo, ardente e fumegante servido em duas canecas — azul e escarlate, respectivamente — esfriava-se aos poucos conforme o vento frígido adentrava o quarto de Susan através das janelas. Os felinos, inquietos, decidiram invadir tal cômodo e deitarem-se ao lado de ambas as moças.

O silêncio quase ensurdecedor forçou Mitzi a indagar: "Como conhecestes Teacup?". E Susan, impaciente, respondeu de prontidão: "Sempre gostei de gatos. Desde que vim morar aqui, passei a alimentá-los, e Teacup vinha visitar-me todos os dias".

"Que adorável és, Teacup." Disse a menor, abraçando fortemente o gato em questão. "Mrs. A, tens sorte em ter um amigo como Teacup."

"Não, Mitzi, tenho sorte em ter você." Afirmou Mrs. Ashworth, bebericando um pouco de seu café pouco antes de receber um abraço inesperado, porém agradável e confortante, de Mitzi Hunt.

Ambas compartilhavam fatias de panquecas e, de vez em quando, distribuíam carícias entre si.

Os gatos aqueciam os corpos esbeltos das morenas que, até então, mantinham-se em silêncio, dormindo juntas.

Susan sentia-se fervendo interiormente, e a culpada era a morena de lábios escuros. Mitzi, Mitzi, Mitzi... Simplesmente e unicamente Mitzi...

"Como consegues ser tão feliz assim?" A maior indagou a si, fitando a jovem temporariamente inconsciente.

Beijou-lhe sutilmente, envolvendo os braços ao redor daquele corpo pequenino. Não era necessário fazer perguntas tão triviais, principalmente em um horário tão impróprio.

O céu tornava-se escuro e sem cor. Um cavalete vazio até o momento, mas que logo seria preenchido por inúmeras e incontáveis estrelas.

Talvez Susan também fosse isto: um simples cavalete vazio, incompleto, almejando pinceladas abstratas de artistas experientes. E Mitzi era essas pinceladas que preenchiam o coração de Mrs. Ashworth de sentimentos alegres, positivos, artísticos...

"Oh, Mitzi, responda-me: o que é arte?" Indagou entre sussurros e afagos.

"O amor, Mrs. A... O amor é arte."

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