One of many zeros
2 2º dia de visita
Notas iniciais
– Boa tarde, Ulqui. Você dizia não gostar que eu te chamasse de Ulqui mas no fundo eu sei que você só brigava por implicância mesmo. Mais um ponto da sua personalidade: você, apesar de ser bem direto e não ter vergonha de muita coisa, não sabia agir quando as pessoas te acham fofo. Então você reclamava bastante porque, como deve imaginar, eu não te deixo esquecer nunca que você é fofo.
No primeiro dia que eu te dei carona, foi bem estranho. Acordei cedinho, passei um tempo escolhendo minhas roupas, arrumei e desarrumei umas trinta vezes o cabelo, passei meu melhor perfume e fui pra frente da sua casa no horário marcado... Ok, fui um pouco antes. Não sabia se devia bater, fiquei plantado na porta levantando e abaixando a mão, sem saber o que fazer. Aí você abriu a porta do nada e ficou me olhando com esses olhões.
– Oi – o nervosismo ataca o meu cérebro novamente. A sorte é que eu não falo sem querer as bostas que eu penso, aí não falo nada mesmo.
– Bom dia, não achei que você fosse realmente pontual de manhã.
– Ainda bem que você não tem grandes expectativas sobre mim, mais fácil não desapontar.
Geralmente, as pessoas ficavam muito impressionadas com o meu carro. Não é todo adolescente de escola pública que dirige uma Lamborghini, certo? E eu sempre trabalhava naquele carro pra deixar mais e mais perfeito, na real, a única coisa que eu sei fazer de bom na vida é mexer com carro. Você queria me ajudar a estudar pra ser alguém na vida mas acho que vou acabar sendo um mecânico pé rapado mesmo. Mas isso não é sobre mim, enfim, antes de entrar você só deu um meio sorriso discreto.
– Que foi? – perguntei só pra te encher o saco mesmo.
– Lamborghini Murciélago.
Não tinha entendido na hora, mas depois da nossa convivência aprendi que se tem um animal que você adora é morcego.
Na escola não aconteceu muita coisa interessante. Não tínhamos todas as aulas juntos, então também não sabia muito de você. Ainda ficava te seguindo com o olhar pelos corredores e ainda não tinha muito assunto pra chegar junto.
O tempo foi passando assim, não vou te dizer cada detalhezinho – até porque nem lembro. Todos os dias eu te pegava, trazia, a gente conversava pouco, não tinha abertura para os meus esquemas funcionarem.
A noite, geralmente, a galera da minha gangue ia para os rachas. As vezes eu corria mas desde que te conheci fiquei aéreo demais, não dava pra arriscar assim. Sempre ficava lá encostado na minha carroça, observando o movimento, fazendo pose de badass, cercado de garotas, me sentindo o fodelão. Dessas vezes também não foi tão diferente, continuei cercado de garotas, encostado no carro, observando, mas não dei corda pra elas. Também não tava querendo passar uma imagem de fodão, tava era pensando o que eu fazia.
Quero dizer, você é inteligente, Ulqui. Eu sou bem ignorante. Antes de te conhecer eu resolvia tudo na porrada. Acho que nunca tinha lido um livro inteiro enquanto você tinha uma estante cheia deles. Você até me ensinou a usar o plural certo porque nem isso, no Ensino Médio, eu sabia. Você gosta de outro tipo de música, faz outro tipo de programa, tem outro tipo de ideologia. Você é extremamente calmo e paciente e eu sou uma dinamite. E por alguma razão você simplesmente não saía da minha cabeça. Não sabia se estava perdidamente apaixonado por você em tão pouco tempo ou só intrigado com algo diferente. Primeiro porque eu nunca gostei de um menino antes, eu sei que é normal, o Nnoitra namora o Tesla, mas sei lá. Sempre gostei de muito peito e muita bunda, mas mesmo masculino você é bem magrinho. Aaah eu vou parar de falar disso porque você tem muitas qualidades inadequadas de dizer agora.
Mas tá, tive a brilhante idéia de ler um livro pra ter o que conversar com você. Mas que livro? Não conheço muitos. O que tinha em casa era a Bíblia e lista telefônica. Como você morava perto de mim, fui te pedir uma recomendação, porque pelo menos seria um livro que você gosta também e não um aleatório, correndo o risco de não conhecer.
– Sai todo mundo do meio, vou sair – disse pras pessoas atrapalhando a passagem. Claro que Nnoitra achou estranho e veio argumentar. Eu disse que não era da conta dele e fui embora.
No caminho, estava pensando “que porra de idéia é essa? O que ele vai pensar se eu chegar 23:30 na casa dele pedindo recomendação de livro sendo que ele sabe que eu não leio?”. Mas por alguma razão eu não conseguia convencer a mim mesmo que isso era extremamente idiota. Toquei a campainha, seu pai atendeu e chega fiquei com medo.
Não me leve a mal, não tenho medo de adultos, mas descobri de quem você herdou esse olhar intimidador. Perguntei se você estava, ele me mandou subir para o seu quarto. Abri a porta devagar e realmente não esperei o que encontrei. Você dando uma surra num saco de areia, haha.
– Não sabia que você treinava, Ulqui – me escorei na passagem da porta e afundei mais minhas mãos no bolso da calça.
– O que você t- Ulqui? – você começou a perguntar com calma, depois fez uma careta extremamente ofendido.
– Vai me socar também?
– Vou, vou te cobrir de porrada se não me respeitar.
– Eu que quero te cobrir de porra.
– Quê? – você realmente pareceu não ouvir. Graças a Deus, né?
– Quê? Disse nada.
Passamos o resto da noite conversando sobre coisas aleatórias. Acabei esquecendo de falar do livro. Lembrei dois dias depois e tive outra idéia maravilhosa: procurar você no facebook pra descobrir seus gostos. Digo, não tinha muitos Ulquiorras no facebook, né? Na verdade, só você. Assisti alguns dos filmes, te stalkeei um pouco e deixei pra tentar ler Romeu e Julieta porque era o único título familiar lá.
Assim eu pude ir criando um vínculo maior contigo no dia a dia. Não ficava mais só te observando de longe de dizendo coisas pequenas, conversávamos. Ouso dizer que te conquistei como amigo, e nem precisei tanto de todo aquele “estudo” de antes.
Eita, tá ficando tarde, né? Escuta, eu trouxe pra você sua cópia de Romeu e Julieta, se você quiser depois eu posso ler um pouco pra ti. Por falar nisso, eu tinha o lido pra te impressionar, acabou que eu não entendi nada e você me explicou. Até amanhã.
Fale com o autor