Anna Winter era uma garota aparentemente comum. Pele pálida por não tomar muito Sol, cabelos negros ondulados até o pescoço e uma característica cara emburrada. Abaixo de seus olhos negros havia sempre um pequeno par de olheiras devido a crises repentinas de insônia. Aos vinte e dois anos, a garota vivia sozinha de aluguel em um pequeno apartamento a uns dez minutos do centro da cidade, onde trabalhava como recepcionista em um hotel. O salário não é lá grande coisa, mas serve para pagar o aluguel com direito a sobras para alimentação e distrações fúteis, como sua tão adorada coleção de revistas em quadrinhos. Nenhuma dessas características a difere dos milhares de habitantes de Olgden Ville ou de qualquer outra pessoa da sua idade no mundo. Porém, Anna possuía uma peculiaridade extremamente desagradável em sua vida: ela era uma pessoa azarada.

Porém, seu azar não era apenas uma superstição ou uma sucessão de coincidências do destino. Qualquer um que a acompanhasse em um dia de sua trágica vida perceberia que se tratava do azar em sua forma mais pura. Se dissessem que aquela garota era a pessoa mais azarada de todo o mundo não estariam exagerando, e sim reforçando o óbvio e a condecorando com sua posição merecida. Era como se ela estivesse com a sorte no vermelho e devesse uma boa quantia para a vida. E essa era a causa de seu mau humor corriqueiro, afinal seria impossível se manter feliz e tranquilo em uma situação como a dela.

Apenas afirmar o azar de Anna não é uma forma convincente de fazer com que acreditem nesse fato. O meio mais rápido e certeiro para tal é o uso de exemplos. Ao nascer, escorregou das mãos do médico e caiu de costas no chão, sem chorar. Isso fez com que o obstetra se desesperasse e batesse mais forte que o de costume no bebê para que este chorasse, conseguindo atingir seu objetivo. Sua mãe morreu no parto e seu pai rapidamente casou com uma das enfermeiras que o consolou enquanto ainda chorava sobre o leito de sua falecida esposa. A garota recebeu sua primeira picada de abelha aos três meses de idade, quando o inseto simplesmente pousou sobre seu braço, a picou e morreu de desgosto. Sua primeira ida ao ortopedista foi aos cinco meses, quando fora atropelada por um velocípede e engessou os dois braços. Nunca conseguia tirar notas máximas, pois seus deveres sempre davam um jeito de estragar ou ela era pega enquanto um colega tentava colar de sua prova, fazendo com que ambos fossem punidos. Bateu o recorde mundial de mordidas de cachorro recebidas, assim como o de atropelamentos sofridos, e o de acidentes... Enfim, se existia algo que pudesse dar errado, então era quase certo de que isso aconteceria com Anna. Sempre que comia ao ar livre, recebia um “tempero” especial doado por pombos ou uma visita desagradável de insetos. Nem mesmo o mais habilidoso dos garçons havia servido a garota sem derrubar algo nela pelo menos uma vez. Ou seja, era uma vida, no mínimo, complicada.

Essa situação e a falta de motivos para que estivesse passando por ela há tanto tempo era o tópico mais discutido em suas brigas consigo mesma, que nunca não levavam a nada. Foi algo desesperador em alguns momentos, a levando a tentar cometer suicídio cinco vezes, porém seu azar era tanto que sempre escapou com vida. Após saltar do quinto andar de seu prédio e cair em um caminhão de plástico bolha, ela resolveu desistir e aceitar que não poderia fugir de seu trágico destino. A partir daquele momento, se conformou em tentar viver uma vida normal, sendo atrapalhada diariamente por sua total falta de sorte. E foi em um desses dias “normais”, quando Anna tomava café em uma lanchonete depois do trabalho como em um dia qualquer, que algo lhe chamou a atenção.

Uma garota de uns seis anos com cabelos negros, curtos e lisos até os ombros, olhos grandes e negros usando um vestido rosa desbotado com alguns remendos e meia calças brancas tentava alcançar o balcão da atendente. Carregava uma mochila velha em formato de coração e se apoiava em duas muletas de madeira desgastadas. A mulher atrás do balcão estava de mau humor e não fez o mísero esforço de esticar a mão para pegar o dinheiro das mãos da pobre garotinha. A cena durou uns dez minutos, até que um homem que estava na fila atrás da pequena resolveu ajuda-la. Ela, então, pegou um pedaço pequeno de bolo e uma caixinha de leite, sentando em uma das mesas logo em seguida. A dificuldade em se movimentar carregando aqueles produtos era notável, mas a garotinha não se deixou abalar e chegou lentamente até seu destino, saboreando seu lanche como se fosse um baquete celebrando uma vitória gloriosa.

Anna assistiu curiosa enquanto a pequena conquistadora terminava de comer e levava os restos para o lixo. Como a senhorita azarada já havia terminado seu café e apenas esperava o tempo passar, resolveu sair e, nesse momento, seu azar agiu. Estava passando ao lado da garotinha, quando um garçom tropeçou em seu próprio pé e derrubou uma xícara de café em cima da pequena. Seria uma queimadura feia, porém Anna socou a xícara, fazendo-a voar para o outro lado da lanchonete. O impacto quebrou a porcelana e abriu um pequeno corte na mão da garota, que a segurou instintivamente para tentar suportar a dor.

O garçom se irritou e apenas foi limpar a bagunça, deixando Anna ali mesmo. A garotinha rapidamente colocou a mochila no chão e tirou um pequeno lenço rosa com corações bordados e o estendeu para a azarada:

— Deixe eu ver sua mão. – disse a pequena.

— Está tudo bem. Estou acostumada com esse tipo de coisa.

— Não me venha com essa. Vá lavar essa mão imediatamente!

Anna estranhou um pouco a ordem, mas decidiu não subestimar seu azar e obedeceu, voltando novamente para perto da garota. Esta limpou o sangue e enrolou o lenço em volta do ferimento, prendendo-o com um nó. Depois disso, ela agradeceu e se retirou da lanchonete. Anna continuou observando aquele pequeno ser, até que este fora derrubado por dois garotos de uns doze anos na calçada em frente à lanchonete. O pequeno e frágil corpo da garota caiu, mas suas pernas continuaram de pé, revelando ser próteses aparentemente improvisadas. Os garotos riam e debochavam enquanto a pequena tentava encaixar novamente suas pernas, o que irritou profundamente uma certa garota azarada.

A gozação foi interrompida por um soco de Anna, que fez um dos garotos ser arremessado contra o chão. E antes que seu amigo dissesse alguma coisa, teve o mesmo destino. Ambos saíram correndo o mais rápido que puderam sem olhar para trás. Após se certificar que os problemas haviam sumido, a garota se voltou para a pequena vítima, que ainda tentava “se recompor”, e estendeu sua mão. A garotinha hesitou, mas acabou aceitando a ajuda.

Após esse incidente, Anna descobriu que a garotinha era Jade, uma órfã que perdeu os pais e as pernas em um acidente e morava no orfanato Sweet Dreams há alguns anos. Naquele mesmo dia, ela adotou a criança e passou a ter companhia em seu pequeno apartamento. Seu azar continuou o mesmo, a assombrando sempre que tinha a oportunidade. Porém, a partir daquele dia, nunca mais se queixou ou deixou seu humor ser abalado. Percebeu que ser a personificação do azar não a impedia de ser a sorte de outras pessoas e decidiu que estava tudo bem em viver assim.

Notas finais
Essa foi minha primeira One Shot, então não sei bem o que esperar da "recepção". Só sei que gostei bastante de escreve-la e fico feliz de ter conseguido fazer isso hoje, já que não conseguia tirar essa ideia da cabeça xD Espero que gostem~
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!