Nada poderia ser mais estúpido que brigar por nada. Ambos concordavam, mas, como sempre em uma discussão que começava com um simples comentário imprudente, nenhum daria o braço a torcer. O motivo da vez era a garota não poder sair nas próximas noites, pois teria que preparar-se para um importante exame na faculdade. Ele apenas comentou inocentemente que já o esperava, ela nunca podia fazer nenhuma de suas vontades e, assim tão fácil, ela explodiu. A discussão caminhou até ela dizer a pior mentira que poderia e, mesmo sem admitir, arrepender-se.

— Como quer que eu faça suas vontades se você nem liga para as minhas?

— Essa foi ótima, senhorita Rukia. Perfeita. Me diga uma única vez que eu não te atendi? — e então ela pôs-se a pensar. Não perdeu a pose, continuou com o queixo erguido e nariz empinado como se isso compensasse a falta de altura nada intimidante. Não daria a ele a satisfação de vê-la sem palavras. Não nessa situação.

— Pois bem. Vou te dar um simples exemplo, Ichigo. Não aceitou que eu comprasse um cachorrinho mesmo que ele só passaria na sua casa os finais de semana.

— Quer saber? Me poupe dessa sua estupidez. Eu simplesmente cansei de fazer tudo e ainda te ouvir reclamar quando deixo passar uma coisinha.

— Coisinha? Acho que você está muito diferente de quando nos conhecemos.

— Coisinha sim. Se o único exemplo de vontade sua que eu não fiz é comprar um maldito cachorro, acho que quem está diferente aqui é você.

— Não seja tão frio. Eu queria companhia e um cachorrinho poderia ser bom quando você não estivesse disponível.

— Ah, claro. Porque quando você me chama eu nunca venho correndo.

— Não fale assim! Você e eu sabemos que as vezes não dá para você vir.

— Mas mesmo assim eu venho — e era verdade. Mesmo sem poder, mesmo tendo muitas coisas para fazer, ele nunca negou para ela algumas horas de atenção. Mas, evidentemente, não era assim que ela queria as coisas. Ele entendia que ela estava nervosa, estressada e sofrendo pressão, o exame da faculdade seria realmente importante. Mas não era por isso que ele planejou um tempo todo especial? Ele só não queria que ela relaxasse um pouco? Por Deus, esteve sempre pensando nela. Maldito amor altruísta. Se conseguisse, só queria viver sem amar ninguém. — Pois é, Rukia. Se não sou o suficiente para você, apenas termine tudo!

— Se assim o quer! Então está tudo terminado. Desculpas não adiantarão, já aviso — bradou convencida de que não voltaria atrás.

— Não será necessário — disse enquanto a assistia recolher seus pertences. — Não quero você mais — gritou antes que ela batesse a porta com força.

Não demorou mais de cinco dias até que ele fizesse o que ela advertiu a nem tentar. Já estava na porta da casa de Rukia para, mais uma vez, pedir desculpas. Não lhe feria o orgulho redimir-se quando era ela que o deveria fazer. Aliás, o orgulho não mais importava em situações como essa ou ao menos não tanto como nas brigas idiotas.

A porta abriu e ele sabia que a veria com os cabelos desgrenhados, short curto e blusinha. Ela nunca preocupava-se em arrumar enquanto estavam brigados.

— O que foi, Ichigo? — perguntou fingindo descaso, mas os olhos brilharam quando viram o que ele trazia em mãos. Nenhum diamante ou anel de ouro. Melhor do que isso. Ele sabia que ela se enfurecia ainda mais quando ele pedia desculpas trazendo joias. Dessa vez ele foi esperto e trouxe algo vivo, como o que sentia por ela.

— Chama-se Pandora e espero que goste muito mesmo, foi um sacrifício para eu aceitá-la — disse sincero e com o sorriso tranquilo. Assim como ela gostava. — Estou perdoado? — perguntou enquanto, com a mão livre, bagunçava mais os cabelos alaranjados.

Rukia não teve outra reação senão pegar a bola de pelos no colo e abraçá-la. Acariciou a cabeça do cachorrinho de pelo comprido antes de olhar para o namorado. Sim, namorado. Ela sabia que isso não tinha mudado.

— Obrigada, amor.

— Perdoado? — insistiu querendo ouvi-la dizer que sim. Era apenas o que precisava, do consentimento dela, para beijá-la ali mesmo na calçada.

— Terá que me fazer algo antes — disse séria e ele apenas temeu que não fosse algo que pudesse fazer imediatamente.

— Fale, mulher — pediu impaciente. Ela não poderia simplesmente beijá-lo?

Ela riu e ele soube que tudo estava bem. Rukia cuidadosamente colocou Pandora no chão para que ela reconhecesse o lugar e logo o animalzinho correu para dentro da casa.

— Entre — ela ordenou e ele obedeceu fielmente. Ela fechou a porta e ficou de frente para ele encarando os olhos amendoados que nunca poderia esquecer. — Agora me dê sua mão — mesmo desconfiado, ele o fez.

Então ela depositou a mão dele no bolso de trás do short curto e sorriu quando ele fez o mesmo.

— Agora pode me levantar com a outra mão.

— Assim? — Perguntou depois do pequeno esforço.

— Não — disse matreira. Ela queria mais. Sempre mais. — Assim — mostrou juntando os corpos ainda mais como se quisesse fundi-los. E realmente queria.

— Desse jeito realmente é melhor. Mas me deixaria fazer ficar ainda mais gostoso?

— Me garante que vou gostar?

— Ah, claro que vai — disse encostando os lábios na curva do pescoço dela. Como previsto, ela arrepiou-se e estremeceu.

— Então está bem — concordou como ele sabia que ela faria.

O coração da mulher acalmou-se mesmo palpitando mais acelerado. Tudo estava bem ao menos até brigarem por coisas insignificantes novamente. Mas, ela sabia, se isso acontecesse, as desculpas viriam, mesmo que fosse ela quem as pediria esmagando seu orgulho. E o melhor, junto com as desculpas, viriam os abraços, beijos e carinhos atenciosos até que tudo acabasse como sempre: na cama.

Ou no sofá.

Talvez na mesa da cozinha.

Não importava realmente. Teriam um ao outro.

Sempre.

Notas finais
Obrigada por ler, espero que tenha gostado (:
Sinta-se a vontade para comentar =P
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!