POV Rick

Nunca a vi arrumada para um encontro comigo pois nunca a convidei para sair. Eu gosto do jeito que ela acorda com o cabelo bagunçado, camisa larga e pés descalços. Não importa o quão frio esteja o chão, ela insiste em andar descalça pra lá e pra cá como quem está aprendendo a passear sobre as nuvens. E de um jeito totalmente idiota, eu acho isso poético.

Eu também nunca a levei ao primeiro jantar. Nem fomos ao cinema e saímos andando de lá com as mãos dadas. Não passamos pelo início de relacionamento que todo casal passa. O que houve foi um beijo, que não faço a menor ideia de quem começou, em um canto escuro de um bar. Sem aviso prévio, a boca dela colou na minha e mudou todo o meu rumo.

Eu a procurei por um ano e de repente, sem explicação nenhuma, a reencontrei e pronto: ela me invadiu de novo.

Meus olhos estão ardendo por ter passado a noite procurando e organizando os livros na prateleira, minha editora deve estar me xingando por não ter aparecido na reunião de hoje e perdi uma prova, mas não estou dando a mínima para tudo isso. A única coisa que me interessa nesse momento é ver esse sorriso estampado na cara da Kate. Acho totalmente adorável o fato de ela estar animada como uma menininha do maternal.

– Deixa eu te mostrar uma coisa. — Ela fala, com um dos livros de Bulgakov na mão, me puxando para sentar no chão do seu lado. — Tá vendo essa mancha? — Ela me pergunta, apontando para uma marca parecida com uma xícara de café. Seus olhos estão brilhando, como se ela estivesse prestes a me revelar um grande segredo. Balanço a cabeça positivamente e ela sorri. — Foi minha mãe. Quando ela estudava aqui. O Mestre e a Margarida era o livro favorito dela, então ela sempre pegava aqui na biblioteca, até que um dia, esse acidente aconteceu. — Kate ainda sorria, passando as pontas dos dedos pela mancha.

– É muito bonito o jeito que você fala da sua mãe. — Por alguns instantes imagino que a relação entre mãe e filha é bem próxima, apesar dela nunca falar da família.

– Ela morreu há mais de dois anos. — Kate encosta a cabeça no meu ombro. E automaticamente coloco meu braço em seu ombro, puxando-a para mais perto de mim. Estou totalmente surpreso por ela se abrir comigo.

– Aposto como ela era incrível. — Falo, arrancando um sorriso dela.

– No meu aniversário ela sempre fazia cupcakes de chocolate e nós íamos ao cinema assistir filme de terror. — Nós dois começamos a gargalhar. Já estou acostumado com Kate e suas risadinhas inapropriadas no meio de qualquer filme de terror. — Depois eu, ela e meu pai ficávamos deitados na grama do jardim, tentando criar desenhos com as estrelas. — Kate sorria, o brilho nos seus olhos ainda estava ali, constante. — Ela tinha um jeito meigo de sempre querer algo para melhorar o momento. Mamãe sempre queria o melhor. Com ela tudo era mais fácil. — Sua voz ficou menos firme e naquele momento eu percebi a saudade imensurável que ela sentia da mãe. — Do lado dela eu sinceramente sentia como se pudesse fazer qualquer coisa. — Me afastei um pouco, forçando-a a me olhar nos olhos.

– Eu sei que não é o mesmo, mas eu estou aqui pra você. Sempre estarei. Você ainda pode fazer qualquer coisa.

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POV Kate

Não consegui segurar o choro que estava preso na garganta quando ele falou, em alto e bom som, que ele sempre estará aqui pra mim. Eu já sentia que são deles os braços calorosos que podem me envolver para me acalmar, mas o ouvir falando que aquilo… Talvez eu só precisasse saber que eu tenho alguém só pro caso do meu mundo todo cair mais uma vez, entende?

– Hey, para de chorar. — Ele me envolvia com seus braços, uma sensação totalmente diferente de tudo que já senti percorria meu corpo. — Kate, me escuta. Tudo ficará bem, você não está sozinha.

Fiquei mais alguns minutos em silêncio, protegida no abraço dele, ouvindo sua voz rouca sussurrando no meu ouvido que tudo ficaria bem.

Tudo já estava bem. Desde aquela única noite com ele, tudo mudou na minha vida.

– Você nunca me falou da sua família. — Constatei, ainda com voz de choro.

– Não tem muito o que falar… Somos só eu e minha mãe. Ela é atriz e sempre está em uma turnê.

– Você sente muita falta dela?

– Sim. — Ele respondeu depois de pensar por alguns segundos. — Acredito que vocês duas vão se dar bem. Próxima vez que ela estiver pela cidade vou te levar lá em casa, mas agora, Katherine Beckett, nós vamos comprar seu cupcake de chocolate.