One More Time
1 Memories intertwined in darkness
Notas iniciais
Espero que gostem
É meio difícil relembrar o passado quando as memórias estão perdidas e confusas.
Talvez, isso seja por causa do acidente que sofri quando estava de férias aos dez anos de idade, depois daquelas férias tenho seguido a vida com um vazio que não consigo explicar. Talvez, se eu voltasse para aquele lugar eu conseguiria achar algo.
Eu consigo lembrar de algumas coisas, mas só até certo ponto, e são vagas as memórias. São sem sentido, que não me levam a lugar nenhum.
Lembro do inicio das férias, da visita ao Japão. Mas o que aconteceu durante este tempo ainda está confuso em minha mente. É como se uma parte estivesse sido retirada à força, me lembro de estar caindo, mas não onde ou por que.
Bem... Eu tentarei contar o que lembro, apesar de serem coisas sem nexo e que estejam um tanto embaralhadas.
Há mais ou menos uns cinco anos atrás, quando eu tinha dez anos, fui em uma viagem para o Japão com meus pais para visitar meus avós paternos que, até então, não os conhecia. Esta foi uma das minhas primeiras viagens em família, uma das mais divertidas e que não aconteceriam novamente tão cedo.
Ao conhecer meus amáveis avós, descobri que, além de nossa família possuir uma confeitaria prestigiada na França onde morávamos, meu avô tinha um dojo. De início, eu não sabia o que aquele nome significava, mas no momento em que cheguei, fiquei encantada com a imensidão do lugar, a casa ficava ao lado do dojo e a sua frente tinha um enorme jardim. Para uma criança isto seria um parque de diversões.
Ao chegar, fui cumprimentar meus avós e abraçá-los. Eu entendia um pouco de japonês — que aprendi com minha mãe desde pequena.
Enquanto meus pais e meus avós conversavam antes do almoço, fui vasculhar os lugares que tinha a minha volta. Meu avô reparou que eu estava sem fazer nada e me perguntou se eu não gostaria de dar uma olhada dentro do dojo. Admito que estava muito curiosa, não tardei em aceitar.
Entrei no dojo e de primeira vista, achei-o muito grande e bonito. Meu avô perguntou se meu pai, alguma vez, me falou sobre as artes marciais passadas por nossa família em gerações, e eu respondi que não, então, ele logo começou a me explicar todo o sentido dos fundamentos deste aprendizado, e eu, como uma criança, não prestei muita atenção à explicação, mas me interessei, pois me parecia emocionante realizar todos aqueles golpes e, quem sabe, até aprender os ensinamentos ao longo do meu crescimento.
Perguntei ao meu avô se ele poderia me ensinar algumas coisas. Ele respondeu-me que, enquanto eu estivesse ali, ele me ensinaria tudo que pudesse e que, quando voltasse para casa, eu deveria pedir para meu pai continuar meus ensinamentos ou que eu aprendesse tudo que eu pudesse com outros mestres nas artes marciais.
Os dias iam passando e a cada dia eu aprendia mais, mas logo minhas aulas com o vovô acabariam, pois em poucos dias estaríamos voltando para casa. Senti-me um pouco triste com esta notícia, porque realmente estava feliz de passar meus dias com a família e eu adorava, principalmente, o clima do Japão e suas árvores, os lugares que visitei também me agradavam muito.
Alguns dias antes de ir embora, vovô me perguntou se eu gostaria de ver um de seus treinos com seus alunos, eu respondi que sim. Inevitavelmente, passei a manhã inteira ansiosa para ver como seria uma aula com vários alunos, e também, esperava ver alguns de seus alunos se desafiando entre si.
Logo chegou à tarde, no horário em que a aula começaria e antes de começar, vovô veio me falar que eu não poderia treinar junto com todos porque eles estariam em um nível mais avançado que o meu.
Sem poder fazer outra coisa, sentei-me no chão e apenas fiquei observando a aula, todos pareciam estar se divertindo e em um momento olhei para o lado. Lá tinha um menino, acho que mais novo que eu, sentado a alguns centímetros de distância de mim, então levantei e fui ate ele e perguntei:
— Hey, você treina aqui ou só esta esperando alguém?
Ele não respondeu de primeira, então perguntei novamente:
— Você esta esperando pra treinar hoje?
— Sim. — Ele finalmente respondeu.
— Hum... Sou Nina, prazer. — Resolvi me apresentar.
— Prazer, Ren.
Depois, perguntei sua idade, ele era um ano mais novo que eu, tinha nove anos. Nossa conversa não durou muito tempo.
Pouco depois, a aula acabou e as pessoas começaram a se arrumar para ir embora. Eu fui perguntar ao vovô se depois desta aula teria outra aula para as crianças, ele afirmou e disse-me que eu poderia treinar também, pois a maioria já estava iniciando como eu, mas que uma ou duas crianças estavam mais avançadas.
A aula infantil havia começado, eu achei muito legal. Quando acabou, fui me apresentar para as meninas que fizeram a aula junto comigo, eram três meninas e cinco meninos.
Enquanto conversava com as meninas, vi de relance que o Ren estava sozinho num canto, talvez esperando um de seus pais virem buscá-lo. Falei para as meninas que já voltava e fui até lá conversar com ele, ele parecia ser muito tímido, mas mesmo assim respondia quando eu tentava falar com ele.
Perguntei o porquê dele não estar junto dos outros garotos e ele não me respondeu, então, eu logo percebi que os outros nos olhavam com expressões estranhas.
Presumi que eles não gostassem muito do Ren, mas não entendi o porquê disso, logo uma senhora veio levar ele para casa, ela me cumprimentou e eu retribui o cumprimento, disse até mais para o Ren.
Depois, as meninas vieram ate mim e me perguntaram o porquê de eu estar falando com o Ren, eu respondi normalmente que não havia um motivo em especial, só que ele foi a primeira pessoa que conheci ali.
Eles ficaram quietos, depois me disseram para não voltar a falar com ele. Minha curiosidade despertou, ele não havia feito mal para mim. Perguntei por que eu deveria obedecer ao que elas estavam falando, elas me disseram que o Ren não tinha direito de ter aulas no Dojo.
Eu novamente perguntei por que elas estavam falando isto, elas disseram que ele não pagava as aulas. E ele só participava delas, pois seus avós eram vizinhos e conhecidos do vovô. Apenas por isso, elas me disseram que todas as crianças que faziam aula ignoravam ele, e algumas vezes maltratavam ele, apesar de eu ainda sermos crianças, aquilo realmente me irritou.
Era um absurdo.
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