Notas iniciais
O desabrochar de uma flor...

[...]

Bernardo a olha mais uma vez. E não consegue resistir à tentação de beijá-la. Um beijo intenso, sedento, tomado pela paixão que nascera àquele momento. Emília o batia, repulsa, sem acreditar no que acabou de lhe acontecer. Se contorcia em seus abraços como se tivesse sendo forçada a beijá-lo, mas não, seu corpo e seus lábios o queriam. Ela não o resistiu por muito tempo, e se rendeu literalmente aos beijos e aos braços fortes que a segurava quase posta no chão. De nada adiantava relutar. Bernardo a beija sem parar, quase sem fôlego insisti em ficar. Como poderia ficar tão longe assim de uma mulher? Mas não uma mulher qualquer! Uma mulher perfeita, com os traços de Emília Beraldini. Uma mulher com sua doçura, mesmo ofuscada por sua teimosia. Como pôde resistir há tanto tempo outra vez apaixonar-se? E agora? O que será desse amor? Uma paixão que está invadindo seu peito...

E os dois continuam o beijo, se entregando ao renascer de uma nova paixão... Se fosse por Bernardo àquele beijo jamais acabaria. Mas Emília ao recobrar-se sua sensatez o faz querer parar. Mas insiste. Bernardo continua a beijá-la, sedento por ela, por seu cheiro, sua pele. Quando ele "respirou de seus lábios", Emília sem perder tempo, e nem a oportunidade o grita para soltá-la. "Por favor, me solte, senhor Boldrin!" Dizia Emília. Bernardo a solta ao vê-la querer chorar receosa do que acabou de acontecer.

— O senhor não podia ter feito isso! Não acredito que foi capaz de usar da fraqueza de uma mulher para satisfazer o seu ímpeto libertino. — Indignada. Emília segurou as lágrimas, olhando para Bernardo assustada. — O senhor achou o quê? Você não entende o quanto me compromete fazendo isso?

— Emília, lutei para resisti-la, mas não consegui. O meu ato libertino foi mais forte que eu. Me perdoe, Emília, eu peço desculpas! Eu não sei o que deu em mim... — Disse. Como se isso bastasse a Emília.

— Vocês homens são tão hipócritas! O senhor sabe que sou uma mulher casada. O que o senhor estava pensando? — Indignou-se. Como se isso adiantasse tirar o doce gosto de Bernardo de seus lábios. — O senhor jamais irá tocar em mim novamente, ouviu bem?

— Eu consigo ver no brilho dos seus olhos algo diferente, especial. Eu senti! Eu senti você envolvendo-se em meus braços. Eu senti sua pele roçando a minha, me instigando a beijá-la mais, implorando por um abraço meu. Vai negar, Emília Beraldini? — Aproximou para falar o mais perto dela.

— O senhor não ouse chegar perto de mim! — Disse tropeçando pelas pedras. — Por favor, quero que fique longe de mim. Longe!

— Você é uma mulher irresistível, Emília. Não sei como pude... — Disse Bernardo fazendo gestos com as mãos inconformado com o seu preconceito, achando que ele a ousadamente a faria algum mal. Mas o que ela poderia pensar?!

— Eu não quero ouvir! Eu só quero ir para a minha casa, quer dizer, o hotel no qual estou hospedada. Eu... Eu nem sei porque estou falando com o senhor! — Impaciente e confusa.

— Não seja teimosa. Por que insiste em ser assim? — Perguntou.

— Por medo, talvez! Por raiva! Me diga senhor Boldrin, como poderia reagir de outra forma? O senhor forçou-me a fazer algo que não podia e nem ao menos queria. O senhor foi um grosso! — Respondeu irritada.

— Entendo... Mas por medo não foi! Eu jamais a machucaria. Esse beijo Emília, esse beijo foi o suficiente para despertar a paixão que há tempos não sentia por uma mulher.

— É por isso que eu sinto medo! Eu sei o que eu fiz, ou melhor, o que nós fizemos. O senhor não podia ter me beijado! Eu não me importo com o que sentiu. E eu jamais acreditaria em uma paixão tão repentina. O que lhe dá o direito de sair, assim, beijando as pessoas? — Emília foi firme com suas palavras. Fria, sem se importar com o que Bernardo a dizia.

— Eu não sou homem de sair beijando as pessoas. Eu beijei, você, Emília. — A puxou para si, instigando beijá-la mais uma vez. — Por favor, não negue o que acabamos de sentir aqui um pelo outro.

— Me solte! Já o disse que não me tocasse mais. O senhor não ouve quando falo?! — Disse. Mas nem ela conseguia controlar o que estava sentindo por ele naquele instante. Repulsiva em seus braços com os olhos penetrados aos de Bernardo, mas o brilho no olhar não dá para negar.

— Isso, Emília! Isso soa nos meus ouvidos como um "sim". — Insinuou ao tomar-lhe os lábios mais uma vez.

Emília consegue soltar-se dele, e a única reação que fez após mais uma vez ser beijada por ele, foi dar-lhe um tapa. Bernardo se recolhe pelo forte tapa ardente que sentiu em seu rosto.

— O senhor é muito abusado! Me respeite! Quantas vezes será preciso que o senhor me ouça dizer que sou uma mulher casada! Isto é incompreensível? Não soa muito bem?! Senhor Boldrin, eu quero que esqueça tudo que aconteceu hoje. Tudo! A única coisa que insisto é que me leve para casa. — Ponderou. Olha para a sua mão sentindo a ardência do tapa que deu em Bernardo. Uma boa prova a "Terceira Lei de Newton", que "a uma ação sempre se opõe uma reação igual". Não sabe se foi o certo a se fazer, mas na hora, depois do beijo foi a única forma que reagiu. Ainda se recompondo do forte tapa, Bernardo a olha sorrindo.

— Tudo bem! Eu não vou mais incomodá-la, mas não me peça para esquecê-la. Mesmo se eu quisesse, não poderia. — Ponderou.

— Vamos ou não vamos? — Foi só o que disse.

Eles se vão em direção ao carro. Bernardo só a observa com passos rápidos. Rir, por sua audácia, mesmo sabendo que o que fez não foi uma boa iniciativa. Afinal, como o mesmo disse, que não se envolveria com mulheres casadas e muito menos lutaria por elas. Mas isso não bastou para lembrar-lhe. Não "serviu" para uma mulher casada como a senhora Emília Beraldini. Ele apressa os passos a ponto de chegar ao carro o mais que Emília conseguia em sua frente. Abre à porta para ela gentilmente. A espera chegar. Só que a mesma abre a porta do carro traseira futilmente, sem se importar com a gentileza dele. Tolerante, considerando o que acabou de fazer.

— Por que não vem comigo aqui na frente? — A indagou.

— Porque não quero! Simplesmente preciso ir... O senhor vai ficar parado aí me olhando, ou vai me levar? — Ríspida. Não era nenhum taxista, claro que não deveria tratar os outros com arrogância, mas bem que Bernardo mereceu.

— Claro que não! Que honra a minha ser o motorista de Emília Beraldini... Vamos? — Bernardo a olhou para ver sua reação e logo em seguida passou a chave para ligar o carro.

— Não tenho outra escolha, se não o desprazer da sua companhia.

— É bom tê-la, mesmo com seu desprazer. — Replicou.

— Hunm... Estamos perdendo tempo demais aqui parados! O senhor poderia seguir adiante, por favor?! Como já tinha o dito, está tarde! Gema e minha filha devem estar preocupadas. E eu acho que o senhor tem mais o que fazer, escrever um livro, quem sabe?! Ao invés de irritar uma mulher casada nessas alturas da madrugada!

— Sim, mas antes quero pedir-lhe um favor, posso?

— Se estiver ao meu alcance e que não me comprometa. Claro! — Respondeu o sorrindo de canto.

— Por favor, peço que me chame de Bernardo eu não me importo!

— Se assim prefere! O chamarei, senhor Bernardo...

— Bernardo, Emília! Somente Bernardo, por favor.

— Dona Emília, ou senhora Emília. Não temos intimidade, então prefiro que mantenha essa forma de tratamento. — O repreendeu e justificou-se.

— Pois bem, como a senhora quiser. Curioso, não?

— O quê? Não consigo ver nisso curiosidade!

— A senhora se intitula uma mulher casada, senhora Emília Beraldini. Diz a mim, que não posso, não devo chamá-la por seu primeiro nome, pois não temos "intimidade". Senhora Emília Beraldini...

— Hunm... O que tem de curioso nisso?

— Não consigo ver algo mais íntimo que um beijo, ainda mais quando duas pessoas se acabam de conhecer. Isso não lhe soa um tanto estranho, confuso? Talvez, até curioso? — Bernardo diz a Emília com um sorriso que mal cabe em seu rosto, fazendo Emília, que antes ouvia atentamente, abrir um sorriso sem graça com seu "descobrimento".

— Hunm... Você, senhor, Bernardo Boldrin, — Diz dando entonação ao nome — continuará com esse assunto? Eu não vou mais insistir, estou muito cansada! Se preferir, me chame como melhor lhe aprouver. — Diz Emília ao deitar-se no sofá do carro, põe a mão direita em sua testa como quem estivesse preocupada com alguma coisa, fechando os olhos.

— Sim! Daqui por diante a chamarei por Emília. — Diz Bernardo convicto.

— Não temos, "daqui por diante", o senhor é muito abusado, só pode estar brincando comigo. Por Deus, como fala! Eu cansei de farpas, de falarmos um com o outro como se fôssemos duas criancinhas. Queira se convencer que o aconteceu com nós dois não passou de um descuido meu, e do seu ato libertino. Eu não quero continuar essa conversa, vamos ou não vamos? — Impaciente.

— Está bem! Vamos, Emília. — Conformado. Ligou o carro para seguir adiante.

— Me desculpe perguntar, — Bernardo a olha pelo retrovisor do carro. — Mas o senhor não têm família, filhos, uma esposa em casa preocupada?! Sinto, mas eu tenho e devem estar aflitas! É bem provável que quando chegar em casa se assustem, ao me ver neste estado deplorável. — Disse Emília. "Continuando a conversa."

— Não tenho! — Bernardo gritou antes de parar o carro. — A senhora passou dos limites ao tocar em uma ferida antiga. — Se alterou.

— O quê? Eu disse algo que não deveria? O que o senhor está dizendo? Eu não sei nada sobre você, muito menos da sua vida. Por que gritou comigo? — Perplexa. Emília se assusta com Bernardo, que reage de forma alterada, como se algo que ela disse, e não disse, de qualquer forma o atingisse completamente desproporcional emocionalmente. Ao se dá noção do que acabou de fazer, mansa a voz ao falar com ela novamente.

— ahhh... Me desculpe! Eu não sei aonde estava com a cabeça! Emília, peço desculpas! Você me desculpe? Eu não queria gritar com você. Eu irei levá-la! — Disse Bernardo ligando o carro novamente.

— Eu... Obrigada! No caminho eu explico a localização do hotel. — Disse Emília a Bernardo confusa, e preocupada.

Depois de Bernardo reagir bruscamente ao gritar com Emília, não houve no carro uma conversa, nem se quer farpas. Emília apenas dava a Bernardo instruções para chegar ao hotel em que está hospedada. Ela se sentiu culpada mesmo sem saber o motivo que fez Bernardo se alterar, mas não quis perguntá-lo, afinal, para ela isso seria intimidade demais.

Bernardo se ver estarrecido com o comentário de Emília, mesmo ela não ter noção da sua dor. Essa dor que o machuca tanto, o fez sentir e lembrar tão rapidamente algo que com ela parecia ter esquecido. Algo que o corrompe, atormenta, o dilacera o coração, algo que nem mesmo com seu amigo, Raul, consegue falar. Raul conhece o que Bernardo passou, mas acredita que falando com Bernardo sobre isso só dificultará mais fazê-lo esquecer.

Bernardo se sentiu tão incomodado e desconfortável, que não dirigiu uma palavra a Emília. Ele a leva para o hotel. Ao chegarem, Bernardo sai do carro, abre à porta para Emília, que o agradece. A pede desculpas pelo beijo roubado que a deu, e diz que não irá mais incomodá-la. Emília se surpreende com Bernardo, que antes de partir beija sua mão, um cavalheiro, e sai sem dizer mais nada.

Emília entra no quarto do hotel e conversa com Gema.

— Emília! Por onde esteve? São mais de meia noite, o que aconteceu com seu vestido? Por que está machucada? Emília, fiquemos mais uma vez preocupadas, acho que me deve uma explicação. — Diz a Emília com os braços cruzados a enchendo de perguntas.

— Gema estou cansada, podemos conversar amanhã? — Disse Emília tirando o salto.

— Não! A conheço, aconteceu alguma coisa, Emília? Liguei para o Raul, e ele me disse que Bernardo a trazia. Tem alguma coisa que queira me contar?

— Gema, não acredito!!! Você já pegou o número daquele fotógrafo?! Mas como você é rápida! — Se surpreende Emília com a rapidez de sua amiga.

— Sim, trocamos algumas mensagens! — Rir, Gema. — E, espera aí! Não tente mudar de assunto não. Sente aqui e me explique, por onde esteve esse tempo todo! — Fala levando Emília para o sofá.

— Mas Gema, nem minha mãe é tão preocupada assim comigo! — Diz Emília.

— Tenho certeza que se ela estivesse aqui faria a mesma coisa! _Disse Gema com razão.

— Está bem, por onde eu começo! — Disse Emília conformada.

— Pode começar depois que eu e Lívia saímos da casa de Rosa. E não me esconda nada! — Diz Gema pronta para ouvir.

— E consigo? Você é uma amiga difícil de confundir, conhece tudo sobre mim. E é com certeza a quem mais posso confiar. Só não diga para mamãe, ela não pode saber disso, Gema. — Disse Emília rindo.

— Está bem, não direi a Vitória. Pode começar!

— Sim, só em você confio inteiramente. — Emília pegou nas mãos de Gema.

— Dizendo assim, não pode ter acontecido uma coisa boa. — Gema curiosa querendo saber o que aconteceu.

— Vou explicar tudo o que aconteceu, e depois você mesma tire suas próprias conclusões. Lívia dormiu?

— Sim, dormiu após reclamar que o jantar foi um tédio. Fale Emília!

Emília conta a Gema detalhes e fica espantada com o que acabara de ouvir. Agora quem está sentada é ela, inerte, sem acreditar. E Emília andando para lá e para cá como se não tivesse o controle do seu próprio corpo.

— Foi isso o que aconteceu! O que me diz? — Diz Emília a Gema esperando ouvi-la dizer algo.

— Amiga, por enquanto estou estarrecida como você. Eu não sei o que dizer. O que sentiu quando ele a beijou? — Diz Gema sem perder a oportunidade de perguntá-la o que sentiu com o beijo de Bernardo.

Emília despreparada se assusta com a pergunta da amiga sem cabimento.

— O que senti? Gema, isso é pergunta que se faça!? Ah, eu fiquei assustada. Eu fiquei furiosa com ele. Eu não podia fazer muito, eu fiquei com muita raiva, foi isso, e depois ele me beijou quando eu tentei bater nele. Gema, você entende a gravidade disso? — Disse Emília com a mão na cabeça.

— Emília! Isso você não me contou, vocês se beijaram de novo?! O que sentiu Emília? Mas diz a verdade! — Diz Gema impressionada.

— Sim! — Responde constrangida. Foi horrível, ele me segurou muito forte e não consegui, não pude contê-lo.

— Com essa história pra cima de mim! Logo eu que sou sua amiga, sei lá, desde o "século passado". Você sabe que não foi isso que eu quis dizer. Vamos! Me conte o que sentiu verdadeiramente.

— Eu não sei. Eu não sei o que senti, Gema! Ou melhor, não consigo explicar. Eu também não quero mais falar sobre isso, vamos dormir! — Disse Emília entrando na suíte.

— Vai negar que ele é charmoso? Bonitão? — Pergunta Gema desafiando Emília.

— Não vou negar, não para você. Meu Deus como ele é charmoso, que homem charmoso. Ah!! e eu sou uma mulher casada! E agora finalizamos este assunto, não quero mesmo Gema falar sobre isso. — Fala Emília da porta do banheiro.

— Está bem! Mas algo me diz que este assunto não terá por encerrado. — Diz Gema ao sentar no sofá.

Bernardo.

— Bernardo está tudo bem? A Gema ligou preocupada com a Dona Emília. — Diz Raul, logo que ver Bernardo chegar.

— Sim. A levei para o hotel em que está hospedada. Raul, amanhã conversamos, está bem assim!? Estou com uma forte dor de cabeça, a única coisa que preciso agora, é tomar um remédio e dormir. Amanhã falamos sobre o livro! — Diz Bernardo ao ir para o quarto.

— Tudo bem... — Disse Raul preocupado, pois a tempos não ver o seu amigo tão desnorteado assim, sem rumo.

Notas finais
E a ferida que "jamais" irá cicatrizar...