— Não aconteceu nada, Gema! Sua amiga teimosa queria sair do quarto, acredita?! — Enrico passou a mão no rosto desviando-lhe o olhar.

— Como não?? Está tudo bem, Emília? Emília! Olhe para mim, está tudo bem? — Não poderia acreditar. Os gritos que ouvira diziam outra coisa, que não estava nada bem.

— Gema, por favor, fique comigo, estou com muita dor de cabeça, preciso tomar o remédio que o Doutor me receitou. Pega para mim? — Disse Emília com a voz falhada. Estava com lágrimas no rosto e vermelho por se irritar, como ele pôde afirmar que não havia ocorrido nada? Mentiroso! Como se Gema fosse boba.

— Está bem! — Exaltou resignada. Foi até o criado-mudo e pegou na gaveta a caixa do remédio. O encontrou e fez menção que daria a Emília.

— Enrico, quero que saia do quarto. — Firme. Ele de pé em sua frente com cara de preocupado a irritava.

— Tudo bem! Vou deixá-las a sós. Mas não pense que nossa conversa acabou por aqui, Emília! Temos muito o que falar. A começar sobre aquele senhor que foi chamado de seu esposo! — A disse diretamente nos seus olhos. Emília os [olhos] encontrava, mas não entendia nada. Em seguia Enrico olha para Gema como quem desconfia. O que ele poderia esperar, afinal? Elas não são melhores amigas? Certamente deveria saber de alguma coisa.

— Enrico, vai! Espere ela se acalmar. E, por favor, evite brigas, Emília precisa de repouso se não pode vir adoecer, sim?! — Disse calma e cuidadosa. Recebeu o seu olhar e o devolveu em firmeza. Não iria permitir que ele tornasse exacerbado este momento. Realmente o senso lhe faltou à cabeça. Ele sai do quarto deixando-as como prometido a sós. Gema cuidadosamente se aproxima com um copo com água para dar-lhe o remédio na tentativa de acalmá-la. Quando Emília a questiona sobre a forma brusca que Enrico a referiu.

— Gema! — A chamou tentando procurar em seus olhos alguma resposta. Parecia ela não querer que Emília os encontrasse. Estava estranha. E aparentava um incômodo que antes não havia percebido.

— Sim, aqui está o remédio! Tome devagar... — Disse paciente. Sentou na cama e o entregou com desvelo.


— Não entendi! Como assim "aquele senhor que foi chamado de seu esposo"? Como assim? Do que ele estava falando, Gema? — Indagou. Enrico já estava severamente enraivecido por causa de Lívia, agora, sobre esse "fato", não tinha conhecimento. O que foi dessa vez? Emília poderia de certa forma se defender?

— Emília, foi um equívoco! O Bernardo foi quem a levou para o hospital, não sei se lembra. Então o Doutor se referiu a ele como o seu marido, pelo menos foi o que eu entendi, sendo assim, Enrico chegou na hora e ficou furioso! Você ainda estava dormindo, não poderia mesmo saber. — Esclareceu Gema.

— Hunm... Como o Bernardo estava lá Gema na hora em que o Enrico chegou, se eu sofri o acidente no outro dia? Como assim, o doutor se referiu a ele como meu marido? — Confuso, não? Era só o que faltava agora.


— Amiga, foi um engano do médico, não foi culpa do Bernardo. Aqui seu remédio! — Replicou.

— Hunm... Obrigada, minha cabeça está para explodir! Estranho, não é? — Insistiu em continuar.

— O quê? — Já sabia o que poderia vir. Sua expressão era de espanto.


— O médico ter se confundido! — Engoliu o remédio de uma vez. Seus pelos eriçaram pelo gosto amargo que descia goela abaixo. Tremeu pela sensação amarga que ainda não saíra da sua boca e olhou novamente para Gema afim de continuar com o assunto.

— Hunm... Você precisa descansar Emília, tente dormir um pouco! — Pediu. O rumo que essa conversa tomaria, não chegaria ao agradável.

— Eu não sei se consigo... — acarinhou seu rosto com as mãos inconformada e voltou fixar os olhos a amiga. — Gema, estou pensando seriamente em me separar do Enrico. Como posso ficar tanto tempo com uma pessoa que só se importa consigo? Que não se importa com sua própria filha? Chega, quando voltarmos para o Rio vou pedir o divórcio! — Foi firme. Mas pensar nessa possibilidade e passar por uma situação como essa, aí sim, não seria nada agradável. Seus olhos marejados ficaram, contendo a emoção que talvez desabaria sobre o seu rosto. Esta cansada! Agora mais do que nunca precisa tomar uma decisão, precisa tomar as rédeas da sua vida.

— Não pense nisso agora, amiga. Descanse! — A olhou com desvelo. Passou a mão em seu rosto como forma de consolo e afirmando que não a deixará sozinha nesse momento crucial da sua vida. E isso, simplesmente com o olhar. Elas se entendiam pelos mais simples gestos, àqueles que se constroem e se reconhecem baseado em uma história de amizade verdadeira.


— Gema, estou confusa! — A confidenciou sua segurança. Seus olhos não poderiam negar.

— Com o quê, Emília? — Estranhou. Emília com suas emoções nem sempre foi direta assim.

— Eu... Na verdade não estou! Eu só tenho medo do que estou sentindo. É errado! — Zangou-se de si mesma. Como poderia? Se insinuava a querer dizer sobre o Bernardo, será? Gema entendia.

— Do que você está falando Emília? — Ficou tentando procurar a resposta do que indagava no olhar de Emília. Ela o desviava querendo reter o assunto.

— Não... Não... Não é nada, Gema! Você poderia chamar Lívia para mim? Achei ela tão tristinha com tudo que aconteceu, quero acalmá-la. — Pediu. Mas como não poderia? Ter quase perdido a mãe em um acidente, no qual foi a razão por ter acontecido e ver pouco a atenção do pai que a trata com tamanho desdém, certamente não é para qualquer um.

— Claro, chamo sim! Mas tem certeza que não quer conversar? — Insistiu. Gema sabia que ela queria. E pediu para chamar Lívia só para desviar o assunto.

— Agora não... Eu só quero a minha filha. Ah, Gema! Obrigada por ter passado a noite comigo no hospital. Eu senti todo o tempo um carinho sobre mim. Um carinho que não pôde deixar de sentir tão forte, sabe? Só você mesmo! Você seria a única pessoa que me faria sentir assim aqui em Bellarrosa, Lívia não poderia ser, é muita pequena para cuidar da mãe em um leito hospitalar — sorriu. — Obrigada, Gema! Obrigada por cuidar tão bem de mim. — Agradeceu a amiga com um olhar terno.

— É... Hunm... — Fingiu um sorriso. — Não precisa agradecer, meu amor! Sempre... Sempre vou estar com você! Mesmo que de longe. É... Eu vou chamar a Lívia! Você deve querer muito falar com ela... — Nervosa falou. Fez menção de querer sair do quarto, não quer que seu semblante condenasse a Emília a sua tensão. Mas foi tarde demais, Emília já havia percebido um olhar diferente.

— Está tudo bem Gema? — A questionou com um sorriso de canto. — Não quer me dizer algo? Você de repente ficou nervosa, te achei muito antes um pouco apreensiva, mas agora... Está acontecendo alguma coisa que eu não saiba, Gema? Está tudo bem com você?


— E por que não estaria? — Perguntou sem conter ainda o nervosismo. Ora, "por que"! Seu semblante não diz outra coisa.

— Não sei! De repente você ficou nervosa... Está tudo bem mesmo Gema? Vocês e o Raul, vocês... vocês... — Tentou insinuar algo entre eles. Gema corou.

— Não, não Emília! Quê isso! Não... Imagina! É você, eu fiquei nervosa, quer dizer, emocionada por estar bem! Foi isso... Eu pensei que perderia você minha amiga. — Não disse uma mentira, mas também não conto-lhe a verdade. Lágrimas de seus olhos caíram. Perder Emília não estava mesmo em seus planos. Mas mentir para ela menos ainda.

— Ô Gema, minha amiga linda — Pegou em sua mão. — Não precisa ficar assim. Eu não iria embora de qualquer jeito, temos muito ainda o que conversar nessa vida. Vem cá me dá um abraço! — A puxou pelo braço para completar ação. — Mas não sei se acredito, conheço você Gema, tem mais alguma coisa te incomodando? — Desconfiou. A dizia com afago a ela em seu colo.

— Não Emília, já disse! Foi só emoção, eu senti medo. — Engasgou. — Eu... Eu vou chamar a Lívia, vocês precisam conversar, não é?! Bom, vou chamá-la! — Enxugou as lágrimas de seu rosto passando rapidamente os dedos e saiu da cama de Emília.

— Gema! — A chamou.

— Oi? — Respondeu apreensiva que ela insistisse com o assunto novamente.

— Obrigada! Já estou bem melhor... — Disse Emília sorrindo a amiga. Gema forçou um sorriso de alívio.

Gema chama Lívia para Emília. Elas conversam muito abraçadas e Lívia conseguiu parar de chorar pelo menos um pouco. Depois de muito carinho e amor de mãe, elas dormem juntinhas com a falta do carinho que a tempos não haviam tido uma com a outra. Passou algumas horas e Gema se surpreende ao ver Emília e Lívia dormindo abraçadinhas. As acorda sonolentas com desvelo , perguntando se ali haveria um lugarzinho para ela também. Emília afirmou que sim e a puxa para mais um abraço de "urso". Quão Emília sentia-se feliz com a presença de Gema.

— Assim vocês me esmagam! — Esbravejou Lívia literalmente esmagada pelos carinhos que vinham de ambas. Gargalhas soltou, em meio as cócegas onde Gema a sufocava. Emília não se sentiu bem e brincar a partir daí, pela pancada que levou afinal, sentia em seu corpo as dores que já a incomodavam novamente.

— Agora, chega! Vamos comer? — Gema sugeriu desvencilhando-se das duas na cama.

— Vamos, estou com uma fome! — Exaltou Lívia. Quanto tempo não se sentia tão à vontade para sorrir. Ficava sempre aborrecida pela ausência de atenção que não tinha em casa.

— Também! — Emília fazia menção de sair da cama para acompanhá-las. Mas com um olhar firme Gema a encarou.

— Nada disso mocinha! — Lívia sorriu. — Você precisa de repouso! Não ouviu o que o médico falou? Trago seu almoço aqui mesmo! Vamos, Lívia! — A repreendeu. Emília a olha perplexa. Como que não acreditasse no que acabou de ouvir da amiga.

— Mas Gema, eu não estou doente! Estou bem! — Insistiu.

— Sem teimosia, Emília! — Pediu ainda firme.

— Está bem! — Mais resignada. Gema tinha razão.

— Mãe! — Emília a olhou com carinho. — Você precisa se recuperar logo! — Avaliou Lívia confiante.

— Sim, filha! Eu já estou bem. Mais um dia de descanso e estou pronta para sair!

— Vamos ver Dona Emília, vamos ver! — Falou Gema com autoridade.

— Vocês, parem com isso! Eu preciso sair, se eu ficar aqui por mais uma hora, aí sim ficarei doente. E com Enrico aqui então! — Exaltou inconformada.

— Está bem! Amanhã falaremos sobre isso... Vamos almoçar e você minha querida Emília, só descanse! Traremos sua refeição aqui! — Disse Gema ao olhar para Lívia insinuando querer ir para fora do quarto.

— Lívia, não vai dizer nada? Não vai defender a sua mãe? Mas que espécie de filha fica contra mãe? — Brincou.


— Ah sim, mamãe! Estou com você, tia! — Disse Lívia. Gema a piscou de lado. E Emília as olhou em refutação.

Enquanto isso Bernardo ainda dormia. Raul chega no apartamento. Bernardo parecia ter passado por lá. Viu que não estava na sala e se dirigiu ao quarto do amigo. O encontrou fadigado, deitado de bruços sobre a cama, apenas com uma toalha cobrindo-lhe o quadril. Raul logo imaginou que ele celeremente tomou uma ducha e "capotou" exausto sobre a cama aveludada. Os dois dormiam cada qual em seus respectivos quartos. O apartamento por um tempo alugado é amplo demais para somente eles dois. Tem espaço para três ou mais pessoas. No início não entenderam o interesse em alugar um apartamento tão espaçoso assim ainda mais para ficar tão pouco tempo. Raul estranha ver o amigo em um estado tão exaustivo. Ao ouvir Raul o chamar, Bernardo acorda meio assustado.

Raul? — Levantou-se confuso. Ainda estava a se acostumar com a "luz" do lugar.

— Amigo, nunca o vi assim. Está tudo bem? Gema me disse que saiu do hospital correndo! — Perguntou intrigado. Bernardo não era de se estressar por tão pouca coisa, deveras ter sido algo mais devastador.

— Não... — Espreguiçou-se. Desembaraçou a ofuscação dos olhos, os lubrificando para se acostumar com a claridade que havia no quarto. — Estou acabado! Com ciúmes! Com ódio daquele "Enrico". — Entonou com deboche. — Nunca pensei ficar assim por uma mulher. Emília não merece ficar com aquele cara, Raul! Ela não merece! Se você visse o jeito que ele falou, ele não deu a mínima para ela lá naquela cama de hospital! — Enraiveceu. Levantou-se da cama e incomodado continuou a falar.

— Bernardo, isso é porque ele e Emília não sabem que você passou a noite lá. Tem certeza que continuará com essa história? Pelo que eu vi com a Gema, ele parece ser bem autoritário! E pode piorar as coisas com a Emília. — O advertiu.

— Raul, eu me apaixonei por ela! — O confiou com todas as palavras que ligeiramente saíram da sua boca. Sentou-se mais uma vez na cama e descansou sua cabeça sobre o "alicerce" de seus braços.

— Bernardo, e agora? — O peguntou estagnado. — Confesso que o conhecendo já sabia. Mas convenhamos, eu jamais pensei que levaria essa história com Emília adiante! Por que isso agora? E no mais, com uma mulher casada!

— Eu sei! Mas perdê-la não está nos meus planos. Eu sei que ela sente a mesma coisa por mim. Quando eu passei a noite com ela no hospital. — Sorriu. — Em delírios dizia que não amava mais Enrico, me dizia para lutar por ela. Me dizia para não desistir dela! Raul, ela me disse com todas as letras que não amava mais ele. — Exaltou esperançoso.

— Sim, meu amigo. Mas em completo delírio! Não ver que está indo longe demais? Até beijo a deu! Bernardo, sou o seu amigo e o apoiarei em qualquer decisão maluca que tomar, mas envolver-se com mulher casada é furada na certa!

— O beijo, o beijo... Foi sim, um delírio! Tanto que ela dormiu depois. Mas Raul, como pode ela dizer assim de repente que não amava o marido? Eu a amo, e não vou desistir dela tão rápido assim. — O confiou.

— Não sei não, Bernardo... Mas estou contigo! E não se meta em encrencas, se preocupe com Emília. Se fizer qualquer besteira pode comprometer sua relação com ela. E Enrico pode ganhar, afinal ele já tem ela como mulher.

— Eu disse uma vez aqui mesmo em Bellarrosa que não lutaria por mulher alguma, ainda mais casada. Sofri decepções demais! Mas, Emília... Emília, não irei abrir mão. Eu não vejo a hora de tê-la em meus braços, Raul, eu não vejo a hora de tirá-la daquele homem frio e egoísta, eu não vejo a hora de fazê-la feliz! Raul! Eu tenho certeza que ela sente o mesmo por mim, quando nos beijamos senti seu coração bater forte. Mesmo ela negando, seu olhos declaravam outra coisa. E ninguém, ninguém, vai me fazer mudar de ideia. Nem ela! — Deixou bem claro o amor que sente por ela.

— Hunm... Desde que a viu nem conversamos sobre o livro, nada Bernardo! E pelo jeito esse livro não vai sair na data prevista. — Inconformado. Ciúmes, Raul?

— Eu sei, meu amigo! Não se preocupe, vamos conversar sobre isso. Eu só preciso de um tempo!

— Hunm... Estou apaixonado por Gema! E acho que ela está por mim. O que acha? Estamos nos conhecendo. — Exaltou feliz. Está verdadeiramente encantado por Gema. Diferente de Bernardo, Gema é uma mulher livre. O que entristece a face do querido amigo.


— Que bom, meu amigo, que bom! Já eu, vou ter que lutar por Emília. Terei de vencer essa fera! Emília Boldrin! — Sorriu feito um bobo.


— Estou com você! Como sempre. — Bateu nas costas do amigo e o declarou feliz.