One Last Time
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Qualquer coisa se torna mais especial e divertida quando é para/com vocês ♥
Boa Leitura!
A neve caia com mais força, cobrindo o pequeno espaço entre as tábuas de contenção que Tino usava para observar o lado de fora, vendo os zumbis se arrastarem lentamente em meio ao grosso tapete de água congelada. Suspirou pesadamente, se afastando, cansado de vigiar o movimento de mortos-vivos do lado de fora. Se encostou contra a parede e fitou o teto empoeirado de seu mais recente esconderijo. Berwald estava próximo a si, dormindo um pouco. Não resistiu e passou a mão nos fios loiros do maior, tomando o máximo de cuidado para não o acordar.
Eles estavam planejando uma longa viagem para o sul, aonde existiam boatos sobre sobreviventes. Já haviam percorrido quase todo o país, indo atrás de boatos que ouviram de algumas pessoas, essas agora provavelmente mortas. Qualquer esperança, mesmo que pequena, bastava como motivação para sair daquele inferno.
Berwald abriu lentamente os olhos – que estavam visivelmente cansados – fitou o menor, este recolheu a mão que antes o acariciava, a abandonando ao lado do corpo.
-Peço perdão, não queria te acordar. – Sussurrou Tino, desviando o olhar para o chão.
-Não se preocupe com isso. – Ele responde docemente, dando um beijo rápido no topo de sua cabeça. – Todavia, está quase na hora de irmos. Melhor nos apressarmos em guardar tudo no carro. – ficou de pé, oferecendo a mão ao menor e o ajudando a levantar. – Pegue suas armas. – Disse antes de sair pelo fundo, aonde haviam escondido o carro.
Tino apenas recolheu as coisas de ambos, as colocando na mala preta esfarrapada, a guardando no banco traseiro junto com as outras armas. Deram sorte de achar algumas viaturas policiais com uma quantidade admirável de armas e munição. Encostou-se na porta da pick-up –que tinha alguns danos, nada muito grave, apenas arranhões, lanternas rachadas, pichações e alguns amassados.
O finlandês se perdeu em um breve devaneio, deixando os flocos gelados caírem sobre suas face pálida, sendo acordado pela mão forte do Sueco em seu ombro.
-Precisamos ir. – Ele disse, entrando no veículo e sendo acompanhado pelo menor.
Alguns zumbis seguirão o carro, mas nenhum deles era tão rápido a ponto de conseguir alcançá-los. Acabaram atropelando alguns deles também, e a cada um Tino riscava a janela embaçada do carro como se marcasse um ponto. A viagem estava sendo silenciosa, o que para Berwald significava que tinha algo errado com o finlandês.
-Tino? –Chamou, tirando o menor de seus devaneios. –Está tudo bem? –O fitou com certa preocupação, ajeitando os óculos.
-Hm? Sim. – Respondeu seco, tentando passar indiferença, mesmo que estivesse visivelmente triste. Seus olhos passeavam pela imensidão branca e vazia, esperando que o outro não falasse mais nada.
-Não parece estar bem. Tem algo que o está preocupando, não? – Tino suspirou, e ele soube que aquilo era uma afirmação. Parou o carro e virou-se para o outro.
-Por que você parou? –Questionou, Tino, virando para fitar o maior.
-Quero conversar com você. – O olhava de forma séria. – Estamos juntos nessa, Tino. Se houver algo o incomodando eu preciso saber, para pelo menos tentar te ajudar.
O finlandês desviou o olhar, um pouco incomodado – ou envergonhado- com o ato de seu companheiro. Não sabia exatamente como expor o que estava pensando para ele, era mais complicado do que apenas admitir seus sentimentos. Aliás, era o fim do mundo, literalmente. Eles tinham outras prioridades, como sobreviver, não tinham tempo para amor. Pelo menos Tino pensava assim. Sentiu uma leve dor em sua cabeça, a garganta ficou seca e um arrapio o percorreu o corpo. Odiava mentir e não queria mentir para Berwald, mas não tinha escolha.
-Eu só estou com fome. –tentou disfarçar, muito mal por sinal.
Berwald pegou timidamente uma das mãos do finlandês, o puxando para mais perto e o abraçando com delicadeza. Odiava ver o menor daquele jeito, queria proteger e cuidar dele, mas desde que esse inferno começou ele parecia distante. Tinha total conhecimento da dor das perdas que sofrera, mas queria que ele pudesse ao menos se abrir sobre o que sentia, queria estar mais perto dele. Apertou mais o abraço e ouviu Tino soluçar enquanto envolvia seus braços de forma desajeitada ao redor do sueco.
-Estou aqui. – Sussurrou, se afastando um pouco de forma que pudesse fitá-lo.
Seus olhos azul-violeta, sua pele pálida e os lábios avermelhados. Tudo no pequeno finlandês, desde sua aparência, seu coração bondoso e sua personalidade, tudo nele afirmava o que sentia. Era difícil por em palavras seu amor, da mesma forma que para Tino era difícil admitir -pelo medo da rejeição- o que sentia por Berwald. O maior se aproximou lentamente dos lábios do menor, desviando na última hora e selando-lhe a bochecha. Tino estava congelado com a proximidade, suspirando ao ter sua bochecha tocada pelo sueco, agarrando-lhe os ombros e o puxando para perto, quase implorando por mais daqueles toques quentes em si. Berwald, um pouco envergonhado com a situação tomou distância, voltando ao seu lugar e deixando o finlandês totalmente sem jeito no banco ao lado. Voltou a dirigir como se nada houvesse acontecido, enquanto Tino apenas olhava para fora, procurando se acalmar.
“O que eu estava pensando? Até parece que ele iria fazer algo comigo. Você é tão fácil de se ler, Tino” – Pensava o finlandês- “Agora ele sabe, com certeza ele sabe”
Por outro lado o sueco também tentava se acalmar. Poderia ter o beijado, poderia ter realizado seu desejo e ter tocado os lábios de Tino, mas era tão covarde para aquilo. E ainda tinha o fato de que não queria fazer isso sem a permissão do menor.
A viagem seguiu silenciosa, da mesma forma que começou. Passaram-se uma, duas, seis, oito horas e eles finalmente estavam perto de seu destino quando o carro inesperadamente parou. Tino, em um ato de nervosismo agarrou com força o banco, desviando o olhar da rua para o maior ao seu lado, que parecia compartilhar de seus desespero.
-O-O que faremos agora? – Tinha muito medo na voz do finlandês.
-Acho que teremos que andar. – Tentou se manter calmo. – Não é tão longe daqui, podemos cortar caminho pela floresta.
Tino apenas afirmou com a cabeça, mesmo que para ele fosse uma péssima idéia, confiava em seu parceiro. Não puderam carregar tudo o que estava na mala e no banco, mas levaram o que puderam. Andaram por alguns minutos e já avistaram alguns mortos, ambos engatilharam as armas- com silenciadores para não atrair outros- se prepararam e atacaram, apressando o passo. Avistaram a suposta cabana aonde os sobreviventes estavam, correndo até ela. O sueco bateu algumas vezes, esperando resposta, mas nada. Não havia ninguém.
-Droga! –gritou o finlandês, chutando a casa e encostando a testa na mesma. –Sozinhos. Continuamos sozinhos.
Berwald estava pronto para tocar a cabeça de Tino quando alguns zumbis apareceram do nada. O sueco conseguiu atirar neles, mas ao abaixar a guarda outro surgiu atrás de Tino, pronto para abocanhar-lhe. Em um ato desesperado pôs-se na frente do finlandês, recebendo a mordida no ombro. Não demorou até que o menor atira-se no zumbi.
- Sve! –foi até o maior, que se encontrava de joelhos, tentando conter o sangue. –Berwald por que fez isso? –seus olhos lacrimejavam, e a voz estava trêmula em um misto de preocupação e raiva.
O sueco sorriu de canto, levando a mão ao rosto do finlandês e acariciando-lhe a bochecha um pouco trêmulo.
- Não poderia deixá-los ferir a coisa mais importante que tenho. – Algumas lágrimas corriam-lhe a face, molhando o sorriso triste que sustentava, tentando disfarçar a dor.
-Sve...-Abraçou o maior com força, fazendo o sueco arfar de dor, mesmo assim retribuindo-lhe o abraço.
-Peço deculpas. – sussurrou ao pé do ouvido do finlandês, o apertando em seus braços. –Eu não poderia deixar que eles te machucassem.
-É minha culpa, Sve! Não se desculpe. – chorava muito, o atrapalhando-se um puco de falar. – Você vai morrer por mim. É minha culpa. Eu fiz isso com você. – o apertava contra si, podendo sentir seu coração do outro batia mais lentamente. –Sve...
-Estou aqui. – Tentava sorrir, mas as lagrimas e a voz o entregavam. Estava se sentindo mais fraco. Estava morrendo.
Tocou a face de Tino e se aproximou novamente.
-Sve... –sussurrou, desviando o olhar para os lábios do sueco. Tomou a iniciativa, selando-lhe os lábios avidamente, temendo de que ele se afastasse novamente.
Berwald correspondeu ao beijo da melhor maneira que pode, apertando-o em seus braços, sem se importar com a dor que sentia. Não demorou muito para que se afastassem.
-AAH!- O sueco gritou de dor, sentindo todo seu corpo latejar. –Você precisa sair daqui,foge! -Alertou, mas Tino se manteve no mesmo lugar.
-Não vou deixar você. – Sua voz estava chorosa. Puxou o maior para seus braços. – Eu te amo, Sve. Não vou te deixar.
Os olhos do Sueco se arregalaram com a confissão, chorando mais intensamente.
-É recíproco. –Sussurrou.- Por isso eu não quero te machucar. Quero que você viva, que seja feliz, que tenha uma vida. –As palavras saiam dolorosamente de sua boca.
-Não existe vida, futuro ou felicidade, se você não estiver comigo. –O apertou, soluçando. – Se for para morrer,que seja ao seu lado. –Sussurrou.
-Tino por...-foi interrompido.
-Não me impeça! Por favor. –Chorava mais. – Eu só quero isso, quero estar aqui com você, quero terminar ao seu lado.-Ouviu um suspiro doloroso do outro.
-Eu respeitarei seu desejo.-Se afastou limpando a face e pegando uma pistola, entregando a outra para o finlandês. – Você tem certeza?- Questionou receoso,recebendo um balançar positivo de cabeça.
Tino se aproximou e o abraçou com força, tocando seus lábios por uma última vez. Queria partir com o sabor de seus lábios e o calor de seu corpo junto ao seu. O finlandês fechou os olhos por um instante, posicionando a pistola um pouco abaixo de seu queixo. O sueco repetiu o gesto, pegando uma das mãos do menor.
-Adeus, Tino. –Sussurrou.
O menor abriu os olhos assustado. Algumas lágrimas escorreram dos olhos vermelhos.
-Adeus,Sve. – Sussurrou. – Eu te amo. – Sua voz saiu trêmula e dolorosa,mas arrancou um meio sorriso do Sueco.
-Eu também, mais do que imagina. – Introduziu o cano no interior de sua boca, sentindo o sabor metálico.
Tino choramingou baixinho com as palavras,o observando e tomando coragem, fazendo o mesmo em si. O menor levantou a mão trêmula com 3 dedos erguidos, abaixando um a um, com os olhos fixos no de seu amado. Ao abaixar o último dedo ouviu o tiro alheio e puxou o próprio gatilho, apagando sua existência e a de Berwald; seu amigo, seu companheiro, seu amor.
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