One For Me
2 Capítulo 2 - De Lucy para Luca
Notas iniciais
Pela primeira vez na minha vida, ouvi minha mãe falando outra lingua. Ela não sabe inglês, espanhol e erra no português, então como ela consegue falar coreano? Ela é realmente cheia de surpresas e estou feliz que não nos perdemos. Se minha mãe não conseguisse se comunicar com as pessoas da cidade, com certeza estariamos perdidas dentro do rio Han.
Demoramos quase uma hora para achar o apartamento da minha tia — a propósito, o nome dela é Kim Sun Hee. Não somos ligadas por sangue, ela apenas se casou com o irmão da minha mãe, então eu nunca realmente falei com ela, só a vi quando era mais nova e lembro de nunca ter entendido uma palavra que ela dizia por culpa do seu sotaque coreano.
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O apartamento era pequeno, e minha tia morava nos primeiros andares — o quarto, acho. Assim que passamos pelas portas, algumas pessoas nos cumprimentaram inclinando a cabeça para nós — era realmente uma cultura diferente. Minha mãe empurrou minha cabeça, me forçando a cumprimenta-los de volta. Doeu.
Arrastei as malas até o elevador, mas assim que me aproximei dele, uma mulher de mais ou menos um metro e sessenta, cabelos pretos e de pijamas me abraçou. Ela falou algumas coisas que eu não entendia, então olhei para a minha mãe, pedindo ajuda.
- Sun Hee, não esqueça que a Lucy não sabe falar coreano. — minha tia riu. — Acho que ela vai ter que começar a aprender apartir de hoje.
- Aah, me desculpe, Lucy! — o sotaque dela era engraçado e fofo ao mesmo tempo. — Fiquei animada demais ao lhe ver, então não pude me conter e lhe assustar assim. — ela se inclinou para mim.
- A-Ah--- Não precisa se preocupar! — acenei minhas mãos rapidamente, tentando impedi-la de continuar inclinada. Podia sentir minhas bochechas ficarem quentes. — A senhora não está doente? Por que veio nos buscar aqui embaixo?
- Ne? Ah, imaginei que vocês não saberiam qual o andar e nem o número do meu apartamento, então vim espera-las aqui em baixo. — ela sorriu docemente. Agora entendo porque meu tio se apaixonou por ela.
- Mas tia, estou surpresa! Seu português é melhor que o da minha mãe! — senti a mão pesada da minha mãe atingir minha cabeça e a risada fraca da minha tia, seguida por uma tosse pesada.
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O apartamento era pequeno, mas bem aconchegante. Ao passar pela porta, minha tia pediu para tirarmos os sapatos, mas assim que encostei o pé no chão, senti meu corpo inteiro congelar. Não me admira que a tia Sun Hee tenha ficado doente!
Tomei banho, comi algumas frutas e fui dormir. O fuso horário havia me deixado bem confusa.
Saímos do Brasil às oito e meia da manhã, aqui na Coréia seriam oito e meia da noite. Viajamos por vinte horas. Chegamos no aeroporto às cinco da tarde — quer dizer, da manhã. Entramos no apartamento da minha tia quinze pras sete. Então agora são oito da manhã, certo?
Ser calculista tem as suas vantagens. Ou não. Agora estou com dor de cabeça. Melhor eu só dormir.
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Acordei com o som da porta abrindo. Ladrões? Me levantei rapidamente, peguei a coisa dura mais próxima de mim — livro extremamente grosso e pesado, dificil de carregar com uma só mão. Abri a porta lentamente e flagrei minha tia tentando sair às escondidas.
- Tia Sun Hee? Onde está indo? — perguntei. Minha voz estava bem rouca. Olhei no relógio e já eram nove e meia da noite.
- Ah.. Lucy.. Eu estava indo.. Comprar.. Arroz.. — ela falou, relutante.
- Não minta para mim, por favor.
Ela abaixou a cabeça e resumiu a história para mim.
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- Trabalhar?! Doente do jeito que está?! — eu estava pasma.
- O trabalho ligou enquanto você e sua mãe dormiam, dizendo que se eu faltasse mais um dia, não iriam me pagar, então não tenho escolha a não ser ir. — minha tia disse, fazendo bico.
- Mas não pode.. Você está doente. Não tem ninguém que possa substitui-la? — ela balançou a cabeça negativamente. Suspirei, e logo tive uma idéia. — Eu.. Não poderia ir no seu lugar?
- Como? Você tem apenas dezessete anos e não sabe falar coreano nem um pouco.
- Dezoito aqui na Coréia, certo? — sorri, e ela riu. — Não tem ninguém que possa me ajudar lá? — minha tia é assistente de um gerente. Não sei nada mais que isso.
- Nã-- Alias, tem sim! Sara! Ela fala um pouco de português e consegue falar inglês quase que perfeitamente. — ela respondeu, animadamente, mas logo começou a tossir novamente.
- Perfeito! Ela pode me ajudar lá, certo?
- Poder pode mas.. Eu não posso te pedir isso, Lucy. Você acabou de chegar de viagem.
- Eu estou bem com isso. É melhor do que ficar em casa sem fazer nada, certo? Não sirvo para cuidar de doentes de qualquer jeito. — ela riu novamente, mas pude ver que se sentia culpada. — Eu vou ficar bem, sério. Apenas me dê o endereço, explicarei a situação para essa tal de Sara e ela me ajudará, certo?
- Hm.. Tudo bem, mas, se você precisar de qualquer coisa, apenas me ligue, ok?
Eu não iria ligar mesmo se algo acontecesse. Minha tia parecia fraca e pálida, não podia incomoda-la.
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Esse prédio era gigante. Entrei e vi uma moça jovem, por volta de seus vinte e cinco, correndo na minha direção.
- Lushi? — o sotaque dela era pior que o da minha tia, não pude fazer nada mas rir. — Eu sou Sara. — ela sorriu animadamente.
- Lucy. Prazer em te conhecer, Srta. Sara. O que minha tia iria fazer hoje?
Antes de responder, ela me olhou debaixo para cima com um olhar decepcionado. Eu sei que não sou muito bonita, mas assim já é demais.
- Algum problema? — perguntei, confusa.
- Lushi é garota. Gerente irá brigar se alguma fã aparecer. — fã? Fã de quem? Apenas continuei calada e esperei ela continuar a falar. — Hm.. Mas isso posso resolver. Vem comigo, vem. — ela segurou minha mão e me puxou em direção ao elevador.
Quando as portas abriram, fui arrastada para uma sala vazia e fui "cutucada".
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- Ah- Lucy neomu yeppeo so! — não entendi uma palavra do que ela disse.
Me olhei no espelho e não pude me reconhecer. Antes, uma garota de cabelo longo e liso, pele pálida e sem graça, olhos medianos e que se vestia normal. Agora, uma pessoa estranha me encarava no espelho.
Uma peruca, um pouco de maquiagem e roupas estilosas realmente fazem milagres, mesmo quando me fazem ficar vestida como um garoto.
Uma calça jeans frouxa, uma camisa branca e um casaco listrado. Um tênis dois tamanhos maior do que o meu pé, um relógio e dois colares de estrelas. Mas o principal, uma peruca de cabelo curto e repicado. Eu estava lindo. " Eu me namoraria " — pensei comigo mesma, rindo sozinha.
- Um nome. — Srta. Sara falou de repente, tirando minha atenção do meu reflexo.
- Nome?
- Sim. Lucy nome de garota. Nome de garoto. — ela me lembrava o Tarzan falando. Tão fofa.
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Finalmente, hora de encarar o trabalho. Srta. Sara abriu a porta para mim, dizendo "annyon" ou algo assim. Coreano é realmente difícil.
Demorei, mas quando percebi, todos da sala estavam olhando para mim. Eu estava tão estranha assim? Olhei para os lados confusa e Srta. Sara sorriu para mim, arregalando um pouco os olhos. O sinal.
- A-Ah.. Annyonghasaeyo! Chonun Luca imnida!
Notas finais
pra quem tem curiosidade, o Luca seria mais ou menos assim http://i39.tinypic.com/6p5noh.png
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