Notas iniciais
Só umas altas viagens depois de ver alguns quotes de Allegiant.Espero que gostem.

TRIS

Estávamos eu, Caleb e Matthew no laboratório. Meu irmão analisava soros horas antes de sua morte. É idiota, mas não digo isso.

Ele está aqui para ter certeza de que não irá morrer "por nada". Eu o entendo. Ao que parece, não dá para voltar atrás quando morremos.

Matthew pergunta para Caleb — pela trigésima vez em minhas contas — qual o código de ativação que acionará a arma do soro da memória.

– 080712 — responde Caleb. — E então apertarei o botão verde.

Enquanto isso, Cara está com o pessoal da sala de controle, preparando-se para colocar soro da paz em suas bebidas e desligar as luzes do complexo. Quando estiver feito, iremos até o Laboratório de Armas, escondidos da câmera pela escuridão.

Sobre a mesa do laboratório, encontram-se os explosivos que Reggie nos deu. Eles parecem comuns dentro da caixa preta com garras de metal nas pontas e um detonador remoto. As garras prenderão a caixa ao segundo conjunto de portas do laboratório. O primeiro ainda não foi consertado.

Matthew fala algo com Caleb que eu não presto atenção, mas me pronuncio:

– Matthew, pode nos dar um minuto à sós?

– Sim, claro. — diz ele. — Voltarei quando estiver na hora.

Ele fecha a porta ao sair. Caleb passa as mãos pela roupa de laboratório, pelos explosivos e pela mochila onde levará os equipamentos. Ele os alinha impecavelmente.

– Tenho pensado sobre quando brincávamos de "Franqueza" — diz ele. — Em como eu colocava você sentada em uma cadeira na sala e fazia perguntas. Lembra?

– Sim — respondo. — Você sentia meu pulso e dizia que se eu mentisse, saberia, porque membros da Franqueza sempre sabem quando os outros estavam mentindo. Não era legal.

Caleb riu.

– Uma vez você confessou ter roubado um livro na biblioteca da escola, bem quando a mamãe chegou em casa...

– E fui obrigada a pedir desculpas à bibliotecária. — Eu rio. — Aquela bibliotecária era terrível. Sempre chamando todo mundo de "meu jovem" ou "minha jovem".

– Ela me adorava. — Gabou-se ele. — Quando eu trabalhava como voluntário na biblioteca, em vez de guardar livros nas prateleiras durante o horário de almoço eu os lia. Ela me pegou algumas vezes, mas não disse nada.

– Sério? — Pergunto, com um nó na garganta. — Eu não sabia.

– Acho que há muito que não sabemos a respeito um do outro. Gostaria que tivéssemos sido mais honestos um com o outro.

– Eu também.

– Mas agora é tarde, não é? — Ele olha para mim. Sua expressão é ilegível.

– Não é, não. — digo, puxando uma cadeira e me sentando. — Vamos brincar de Franqueza. Primeiro eu respondo uma pergunta, depois é minha vez de perguntar. Com honestidade.

Ele aceita. Parece meio nervoso.

– O que você fez para quebrar aqueles vidros na cozinha quando disse que estava apenas tentando tirar as manchas deles? — Perguntou ele.

– É sério? É sobreissoque você quer que eu seja sincera?

– Está bem — Ele pigarreia e olha para mim, sério. — Você realmente me perdoou ou está apenas dizendo isso porque vou morrer dentro de algumas horas?

Encaro minhas mãos. Tenho sido gentil e agradável com ele porque tento esquecer o que aconteceu na sede da Erudição. Sempre que penso sobre, afasto tal pensamento. Logo, isso não é perdão. Se eu o tivesse perdoado, conseguiria pensar naquilo sem ressentimento, sem o ódio que sinto em mim, certo?

Ou, talvez, perdão seja o afastamento de lembranças amargas, até que o mal seja esquecido e o tempo diminua a dor.

Opto pela segunda opção.

– Sim, eu o perdoei. — digo, mas logo me corrijo. — Ou quero desesperadamente perdoa-lo, o que deve ser basicamente a mesma coisa.

Ele parece aliviado, como se eu tivesse tirado um peso de suas costas. Levanto-me da cadeira para que ele se sente. Já sei o que irei perguntar.

– Por que está fazendo isso? — pergunto. — Qual é o principal motivo?

– Não me pergunte isso, Beatrice.

– Não vou deixar de perdoar você por isso. Eu... Só preciso saber.

Olho para os instrumentos que irão levá-lo para sempre. A mochila. A roupa de laboratório. Os explosivos.

– Acredito que essa seja a única maneira que conseguirei para escapar da culpa por todas as coisas que fiz — explica ele. — Nunca quis tanto algo como quero me livrar da culpa.

Suas palavras me ferem como se mil facas atravessassem minha pele ao mesmo tempo. Eu já sabia que essa seria sua resposta, mas preferia não tê-lo ouvido dizer tais palavras.

Uma voz sai da caixa do sistema de comunicação interna, no canto da sala:

– Atenção, residentes do complexo. Iniciando procedimentos de confinamento emergencial, em vigor até as cinco da manhã.

Caleb me olha preocupado. Tenho a sensação que a minha expressão é a mesma da dele. Matthew entra no recinto.

– Droga. — diz ele. — Droga!

– Confinamento emergencial? — pergunto. — É como um alarme de ataque?

– Basicamente — responde Matthew. — Significa que devemos agiragora, enquanto há caos nos corredores e antes da segurança ser reforçada.

– Qual o motivo disso? — Caleb questiona.

– Talvez queiram aumentar a segurança antes de lançar os vírus. — diz Matthew. Ele parece querer falar algo, mas não tem certeza se deve, no entanto, o faz. — Ou desconfiem que tentaremos algo. Porém, se fosse isso, já teriam vindo nos prender.

Olho para meu irmão. Os poucos minutos que eu teria com ele se dissipam.

Atravesso o laboratório e pego nossas armas sobre o balcão, e penso sobre o que Tobias disse ontem: a Abnegação afirma que devemos permitir que alguém se sacrifique por nós se essa for a maneira da pessoa de nos mostrar que nos ama.

A razão de Caleb não é essa, mas ele escolheu a Erudição. Abominou a nossa antiga facção.

(...)

Um silêncio tenso paira no corredor, embora este esteja repleto de pessoas. Uma mulher esbarra em mim e pede desculpas e eu me aproximo mais de Caleb para não o perder de vista. São nessas horas que desejo ser alguns centímetros mais alta — para que o mundo não parecesse uma coleção de torsos.

Caminhamos rápido. Quanto mais seguranças vejo, mais a pressão dentro de mim aumenta. A mochila de Caleb quica em suas costas enquanto caminhamos. As pessoas movem-se em todas as direções, mas em breve, chegaremos a um corredor onde não há nenhum motivo para as pessoas passarem.

– Acho que algo aconteceu com Cara — diz Matthew. — As luzes já deveriam estar apagadas.

Concordo com a cabeça. Sinto a arma pressionar minhas costas, oculta sob a minha camiseta larga. Espero não usá-la, mas acho que isso será impossível.

– Por que não nos separamos? — digo para Caleb e Matthew. — Eu e Caleb corremos até o Laboratório de Armas enquanto Matthew cria uma distração.

– Distração?

– Você tem uma arma, certo? Dispare-a para cima.

Ele parece hesitante.

– Faça o que eu digo, tudo bem? — digo, entredentes.

Matthew saca sua arma. Pego meu irmão pelo braço e disparo pelo corredor. Ao olhar para trás, vejo Matthew levantar a arma e atirar, atingindo um dos painéis de vidro sobre sua cabeça. Os sons de grito e vidro estilhaçado enchem o ambiente, enquanto Caleb e eu passamos despercebidos por seguranças, que parecem não perceber que estamos indo para longe dos dormitórios, para um lugar onde não deveríamos ir.

É estranho sentir meus instintos e o treinamento que tive na Audácia se manifestarem. Minha respiração torna-se mais profunda e estável enquanto seguimos o trajeto determinado pela manhã. Minha mente parece afiada e clara. Olho para Caleb, esperando ver se aquilo acontece com ele, mas ele arqueja. Mantenho a mão firme em seu cotovelo para mantê-lo estável.

Viramos um corredor, o barulho dos sapatos contra o ladrilho é tudo o que ouço. Um corredor vazio, teto espelhado, estende-se à nossa frente. Não estamos longe.

– Parem — grita uma voz, atrás de nós.

Os seguranças.

– Parem, ou atiraremos.

Caleb estremece e levanta as mãos em sinal de rendição. Eu faço o mesmo.

Olho para meu irmão e já não vejo o garoto que me entregou para Jeanine. Vejo o garoto que segurou minha mão no hospital quando nossa mãe quebrou o pulso e me disse que tudo ficaria bem. Vejo o irmão que me disse que eu deveria fazer minhas próprias escolhas, uma noite antes da Cerimônia de Escolha. Penso em todas as coisas louváveis que ele é: esperto, entusiasmado, observador, tranquilo, sério, bondoso.

Amo o meu irmão. Eu o amo, ele ele está tremendo diante da perspectiva da morte iminente. Eu o amo, e tudo o que consigo ouvir em minha mente tudo o que consigo pensar são as palavras que disse para ele alguns dias atrás:Eu nunca o levaria à sua própria execução.

– Caleb, me dê a mochila.

– O quê?

Pego a minha arma. Aponto para ele.

– Vamos, me dê a mochila.

– Tris, não. — diz ele. — Não. Não vou permitir que faça isso.

Dito isso, ele pega a arma de minha mão.

– Baixe a arma — grita o segurança. — Ou atiraremos!

– Talvez eu consiga sobreviver ao soro da morte — argumento. — Consigo combater soros. Eu posso sobreviver, você, não.

Porém, ele parece decidido. Meus argumentos não interferiram em sua decisão.

– Ela é minha refém — diz Caleb. — Não se aproximem, ou eu atiro.

Ele se afasta de mim lentamente, ainda com a arma apontada em minha direção.

– Caleb... Eu amo você — digo.

– Eu também te amo, Beatrice. — Seus olhos brilham com lágrimas. Percebo que aquele momento será o último onde ouvirei meu irmão chamar-me pelo meu nome da Abnegação.

– De joelhos! — Ele grita para que os guardas ouçam.

Eu me ajoelho.

Ele se afasta mais um pouco, mirando um guarda. Ele parece inspirar e então dispara. Ouço um grito de dor. Meu irmão corre na direção oposta. Fico ali, ajoelhada. O som dos tiros ecoa em meus ouvidos.

Alguns instantes depois, ouço uma explosão. O som vibra em meus ouvidos. Naquele instante, percebo que nunca mais irei ver meu irmão.

TOBIAS

A viagem de volta ao complexo é lenta e escura. Posso ver a lua aparecer e desaparecer atrás das nuvens. Quando alcançamos os limites da cidade, volta a nevar. Será que Tris está assistindo à neve flutuar sobre o chão e se amontoar ao lado dos aviões? Será que ela está vivendo em um mundo melhor, onde as pessoas não se lembram dos genes puros?

Christina inclina o corpo para a frente na intenção de sussurrar algo em meu ouvido.

– Você conseguiu? Funcionou? — Pergunta ela.

Faço que sim com a cabeça. Pelo retrovisor vejo sua expressão de felicidade. Ela se sente segura. Estamos todos seguros.

– Você vacinou sua família? — Pergunto.

– Sim. Os encontrei junto dos Leais, no edifício Hancock. — responde ela. — Mas a hora da reprogramação já passou. Ao que parece, Tris e Caleb conseguiram impedir.

Hanna e Zeke conversam maravilhados sobre o mundo escuro e estranho que atravessamos. Amah oferece as explicações básicas, olhando mais para eles, no banco de trás do que para a estrada, o que me irrita. Tento ignorar o pânico que tenta se apoderar de mim quando ele quase bate em postes de luz ou barreiras de estradas. Tento me concentrar apenas na neve.

Odeio o vazio que parece surgir no inverno, a paisagem branca, a enorme diferença entre o céu e o chão, o jeito como as árvores ficam, parecendo esqueletos e o modo como a cidade fica, parecendo um terreno desolado. Talvez, neste inverno, eu consiga mudar minha mente.

Passamos pelas cercas e paramos diante das portas da frente, que estão livres de guardas. Saímos da van. Ao entrarmos no complexo, tenho a certeza de que Caleb foi bem sucedido, pois não vejo ninguém. Isso só pode significar que suas memórias foram alteradas. Para sempre.

– Cadê todo mundo? — Pergunta Amah.

Atravessamos o posto de segurança vazio, sem parar. Do outro lado, vejo Cara. Seu rosto está machucado e há um curativo em sua cabeça. Tris está ao seu lado, sua expressão é perturbada.

– Caleb — digo. — Caleb conseguiu?

É Cara quem responde.

–Antes de ser contaminado pelo soro da morte, ele conseguiu lançar o soro da memória.

Abracei Tris. Em parte, para consola-la. Sabia, apesar de tudo, o quanto o irmão significava para ela, mas também a abracei de felicidade. Estávamos seguros.

Estávamos bem e seguros.

Notas finais
É isso aí, gente. Não ficou dos melhores, mas está legível hahahaFoi basicamente este o final que eu esperava para Convergente (mentira pq um filho de uma boa mãe colocou spoiler numa página, odeio ele para sempre).Espero que tenham gostado.ComentemXx
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!