Charles Darwin nos diz que só os fortes sobrevivem na sua seleção natural. Desde que minha vida se mostrava diferente daquilo que a sociedade me pedia, eu passei a odiar Charles Darwin, do mesmo modo que ele passou a odiar Deus.

Eu acho que comecei a dar "errado" quando parei de frequentar a igreja e tinha que lidar com minha vó fazendo sempre a mesma pergunta "Você vai a igreja hoje?" e eu não sabia o que responder.

Era difícil dizer um "não" porque minha relação com minha vó era estranha. Eu sentia que ela não me amava como os meus primos obedientes e que iam na igreja não só no domingo, mas como também nas terças, quartas e sábados. Foi nessa época que compreendi que nadava contra a maré. Eu começava a ser o diferente, o por fora ou simplesmente a ovelha negra da família.

Eu voltaria a dar errado quando não conseguisse acompanhar o ritmo de meus amigos adolescentes. Sexualidade era um papo que não me envolvia e eu não via o óbvio como saber que minha melhor amiga transava. E também as outras amigas. De alguma forma, eu era sempre a última a saber e o meu espanto era grande. Elas perguntavam por que o espanto, como perguntavam também por que não namorava.

Talvez porque os fracos não têm vez.

Mas eu tivera uma terceira que dei errado quando abandonei a escola. O meu deslocamento do meio era tão grande que culminou na minha desistência de ver as aulas. Eu nem ao menos pensava no futuro como numa profissão, eu tinha a plena certeza que morreria antes dos 20.

E eu errei de novo, na verdade eu passei dos 20, e quando fiz 22, minha mãe me disse que eu morri no ensino médio. Como as tartarugas que saem do ovo e que não conseguem alcançar o mar por causa da seleção natural.

No capitalismo, vivemos numa sociedade que você precisa estudar, ter uma profissão de renome, casar e ter filhos. Mas eu morri na praia do ensino médio. Não alcancei a margem que estava tão perto, não passei para o outro lado azul e cristalino, não me senti acolhida. A sensação de deslocamento só aumentava. Eu olhava pra trás, via tantas pontas soltas... me achava uma péssima roteirista. Me sentia só.

No entanto, o tempo me fez compreender que ninguém está nos padrões que a sociedade nos submete. Por incrível que pareça, aquele casal do instagram não é tão feliz como demonstra ser. E eu percebi que ser diferente é legal, até porque seguir regras é uma cafonice sem tamanho, são feitas para aqueles que não sabem viver por si próprios. Foda-se o capitalismo, foda-se a sociedade, foda-se Charles Darwin, foda-se o que os outros acham de mim. Meus heróis usaram drogas, moraram debaixo de uma ponte, fugiram de casa, perderam um olho num protesto, se vestiram de mulher, apanharam do marido, foram mortos só por causa da cor, tiraram os seios, deixaram de comer para deixar aos seus filhos, tiveram anorexia, estavam insatisfeitos consigo mesmos, se apaixonaram pelo mesmo sexo, procrastinaram, são homens que choraram, são homens das trincheiras e foram dizimados.

Nós falhamos ao passar na linha tênue da seleção natural, mas não estamos mortos. Não morremos no ensino médio e nem em praia nenhuma. Estamos aqui e agora pra fazer história. Nossa história. Vista sua melhor roupa e tire fotos de si mesmo, porque não são regras e padrões que vão pôr fim naquilo que te faz feliz: você mesmo.

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