Onde os Demônios Se Escondem
1 Uma História Difícil
Essa será uma história difícil, mas eu preciso compartilhar com alguém porque eu sou pequenino (não só na altura), sou só uma pessoa que não passa dos 15 anos, tão magro que não suporta o próprio peso dos pensamentos, sou apenas uma pequena pessoa em uma imensidão que chamamos do universo e não consigo aguentar tudo sozinho, a verdade é que também tenho demônios dentro de mim, a verdade é que essa é apenas mais uma entre milhões de histórias difíceis de contar, então porque continuar a ler ? Porque as pessoas não gostam de falar sobre isso, fingem que não existe, é melhor para continuar conseguir a noite, tranquilo, sem pensar em histórias difíceis, mas essas histórias estão mais próximas do que imaginamos e os protagonistas podem ser alguém da nossa família, nossos vizinhos, nós mesmos, diferente de contos de fadas a maioria delas não tem um final feliz, diferente das histórias de terror não tem um monstro que sai matando todo mundo, é pior, são pessoas que matam um pouco de si mesmas e do que está a sua volta todos os dias, são demônios, é aqui onde eles estão, dentro de nós mesmos. Essa vai ser minha história, não recomendada para se você quer dormir a noite tranquilamente.
Sou Caleb e atualmente vivo em Cidade dos sonhos, aqui é coberto por sonhos mesmo, sonhos que nunca viram realidade. Uma cidade qualquer do interior que não existe no mapa, praticamente nem os habitantes, pouco mais de 2.000 pessoas onde todos se conhecem e ninguém se ajuda. Moro com meu meio irmão Fabrício, ele é filho do formiga com outra mulher da qual não sei nem o nome, ele e formiga passam a maior parte do dia na oficina trabalhando, o Fabrício tem 19 anos e é o contrário de mim, ele é forte com olhos e cabelos castanhos, um nariz fino que parece que foi modelado por um escultor e uma boca que raramente sorri, ele é apaixonado por carros e sabe todas as marcas e modelos existentes, também moro minha irmã de 13 anos Juliana, morena alta como minha mãe e de olhos e cabelos pretos como eu, minha mãe Valentina que é a pessoa que mais admiro em toda minha vida pois ela não deixa os seus demônios agirem, ela é o motivo porque estou vivo e a inspiração para continuar e o formiga que na verdade é Firmino, chamo ele de formiga porque parece menos amedrontador, mas ele é o oposto de uma formiga, ele é alto e sempre com uma barba por fazer, não tira a roupa da oficina nunca, tem olhos meio esbugalhados e falta alguns dentes na boca dele.
Passo a maioria das horas no meu mundo preto e branco, desprovido de sentimentos e emoções, para mim só existe dois extremos, certo ou errado, feliz ou triste, vida ou morte, deuses e demônios, não acredito em um meio termo e agora estou no extremo do azar, minha vida esta uma merda, não só a minha mas também todos que moram aqui, passo o dia pensando em maneiras de fugir, reagir, enfrentar, só penso. No meu mundo preto e branco eu posso imaginar o que eu quero e como eu quero, sou um príncipe que esta prestes a salvar sua mãe de um monstro e leva-la ao reino das cores, meus irmãos estão com medo, mas sei que juntos podemos enfrentar os demônios, eu posso !!
- Ele está chegando, corre vai avisar a mamãe — Minha irmã grita pegando a vassoura e fingindo que está arrumando a casa.
Não posso !! Saio em direção a cozinha onde minha mãe está cozinhando
- Está chegando, está chegando — Grito correndo em direção a ela
- Calma meu filho — Diz ela me abraçando
Gosto dos abraços da minha mãe, me acalmam, mesmo quando o formiga volta mais cedo, todos os dias acontece isso, fico perdido em meus pensamentos e do nada ele chega, sempre quando vou tentar enfrentar ele no mundo preto e branco, não consigo enfrentar ele na real então apenas corro para o abraço da minha mãe que é lá onde estou protegido, não importa qual seja a situação. Primeiro vejo Fabrício com sua boca que nunca sorri e do lado está o formiga, pensar nele me da arrepios e não são arrepios bons quando como alguém te dar um beijo no pescoço, arrepios ruins como quando o dia está quente e você está com febre, arrepios como quando você ver que os demônios estão dominando as pessoas, esse é o formiga quando chega em casa, um demônio.
- Mulher, aonde está meu jantar ? — Resmunga ele
- Você chegou cedo hoje amor. — Responde calmamente minha mãe
- Não perguntei se cheguei cedo, perguntei aonde está a minha janta.
- Ainda estou preparando.
- Essa mulher não serve para nada mesmo e você moleque vai ficar ai parado ?
Quando ele se direciona para mim é como quando sua professora te manda ler uma página e você não sabe nem em que aula está, já senti essa sensação quando ia para escola, mesmo com todos esses constrangimentos, sinto falta da escola, sinto falta de qualquer lugar que não tenha o formiga
- Eu ... Eu não tenho — Gaguejo
- Esse menino é viado mesmo, não sabe nem falar direito, vai me servir, cadê a inútil de sua irmã ? — Ele pergunta se afastando da cozinha
- Não fala assim com ele ! — Responde minha mãe
Ela é a única que tem coragem de o enfrentar.
- Mulher, eu respondo do jeito que eu quero, vai ajeitar a janta que estou morto de fome.
Alguns minutos depois a janta está pronta, a regra aqui de casa é primeiro come formiga e minha mãe depois nós três comemos o que sobra, minha mãe sempre coloca comida a mais no prato para deixar algo para a gente, mas o formiga come por 5, enquanto eles comem nós o servimos, estava tudo "ocorrendo bem" até
- Moleque, quando você comer aquela mina ? Como é o nome dela mesmo ? — Indaga o formiga
Não respondo, achava que ele estava falando do Fabrício
- Não fala assim com ele — Rebate minha mãe.
- Só quero saber se meu filho é macho, não vou sustentar viado nessa casa não.
- O que ? — Pergunto com a voz tremula
- Quando você vai arrumar uma namorada ? — Ele pergunta e todos olham para mim
- O Fabrício também não tem namorada — Solto sem pensar
Fabrício olha para mim e para meu pai
- Você já comeu uma garota ? — Pergunta para o Fabrício
Eu não devia ter dito isso, essa conversa nem tinha que existir, eu sei como vai acabar, ele vai ficar estressado e quem irá sofrer somos nós
- Acho melhor para essa conversa — Minha mãe responde.
- NÃO SE METE MULHER — formiga grita.
- Claro — Fala Fabrício
- Quem ? — formiga pergunta
- A Ana
- Da academia ? Essa eu peguei ontem *risada assustadora* esse é o meu filho.
Minha mãe abaixa a cabeça como um tom de reprovação, sei o que ela passa, eu odeio o formiga eu odeio essa casa odeio todos
- Moleque trás a cerveja pra mim — Ordena formiga.
Quando estou levando a cerveja tropeço em algo, parece que foi o pé do Fabrício, mas foi tudo tão rápido que não consigo identificar só consigo ver que estou no chão e quero ficar aqui por toda minha vida pois sei o que vai ocorrer logo depois.
- CARALHO, O QUE VOCÊ TEM NA CABEÇA ? VOCÊ NÃO SERVE NEM PARA PEGAR UMA CERVEJA ? AGORA VAI TER QUE BEBER DO CHÃO !!
- Não fala assim com ele — Responde minha mãe ainda calma
- JÁ MANDEI VOCÊ FICAR CALADA — Grita formiga dando um tapa na cara da minha mãe.
Mais uma vez, tudo culpa minha e assim os demônios começam a agir. Começo a lamber o chão pois ele está ao meu lado em pé.
- MAIS RÁPIDO — Me chuta — BEBE TUDO.
Consigo ouvir o choro da minha mãe e minha irmã
- NINGUÉM SAI, É ISSO QUE ACONTECE COM QUEM É INCOMPETENTE. — Ordena ele.
Os chutes dói, mas não é nada comparado a dor que sinto ao ouvir o choro da minha mãe, olho para trás, pela primeira vez talvez eu vejo o Fabrício sorrir, acho que ele está infectado, maldito sejam os demônios.
Esse não é o começo, nem o final, é apenas relatos de uma história difícil
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