Onde está você...Coração?!

1 Onde está você...Coração?! (Capítulo Único)


Notas iniciais
Boa leitura :3

A casa vazia e tudo silencioso, o celular emitia um som irritante e desconfortável. Alguém estava ligando mas não queria atender.

Sentada com as pernas e os braços juntos, parecia mais uma bola do que alguém no sofá. Estava nublado, chuvendo forte, e bom, diferente das maioria das pessoas, eu odiava esse clima de inverno. O celular parou de vibrar.

Estiquei meu braço e abri o aparelho até então soterrado pelas almofadas do sofá. 13 mensagens... Alguns dizem que treze é o número do azar, não é?!

“O que diabos você fez?!”

“Você realmente traiu o Pedro, ele me ligou muito nervoso, diga apenas que ele está inventando tudo isso, sim?!”

“Você não vai responder?!”

“Eu realmente vou te apoiar, eu sou sua amiga esqueceu?!”

“Me responda quando poder, beijo.”

-Pff... –Soltei um breve sorriso irônico. –Amiga o escambau, eu nunca gostei dela.

“Filha, é sua mãe. Seu namorado me ligou desesperado. Você traiu ele, como assim?! Me ligue, tudo bem.”

-Ah, mãe. Como se você fosse me entender... –Murmuro, soltando o celular e indo até a cozinha.

Abri a geladeira e peguei uma garrafa de cerveja. Bem que queria tomar café, que além de ser minha bebida preferida, combinava melhor com o frio, mas não estava com cabeça pra fazer.

Antes de voltar pra sala, passo por um grande espelho, paro em sua frente e começo a me analisar.

Um metro e cinquenta e sete, vestindo uma camisa frouxa que mais parecia roupa de homem, um sorth curto que me deixava com frio nas pernas. O longo cabelo castanho preso em coque, o corpo marcado por uma noite de prazer. E os olhos pretos...Totalmente sem brilho.

-Eu devo ser um monstro não é mesmo?! –Digo, olhando para as orbes escuras e sem vida do meu rosto.

Volto pro sofá, bebo mais um gole de álcool e volto a conferir as mensagens.

“Eu disse que amava você Amanda...Porque fez isso comigo?!”

-Tão chato! –Reviro os olhos. –Mas eu nunca disse o mesmo, querido.

“Eu realmente preciso de uma explicação, não acha. Sua mãe me ligou ela disse que vai pedir pra você conversar comigo.”

-Afinal, quem ligou pra quem?! –Bufei, entediada. Dou um mais grande gole da bebida em minha mãos.

“Sua amiga veio aqui. Quer saber, sempre achei ela mais atraente que você.”

-Fique com ela, chupe até os ossos se quiser.

“Na verdade, ignore o que eu disse, não precisa me explicar nada, se vim aqui irei perder a cabeça e bater em você. Apenas suma da minha vida!!”

-Irei fazer isso. –Termino a bebida e vou até o banheiro ainda com a garrafa e o celular na mão.

Ligo a banheira, permitindo que ela se encha de água morna e que logo eu possa tomar um banho quente.

“Onde você está?! Soube do que aconteceu, posso ir aí?!”

Kim Daoka, nasceu em Seul, cursa segundo ano de administração, e é dois anos mais novo que eu. Ele pode achar que escode seus sentimentos muito bem. Mas sei perfeitamente do que sente por mim.

-Ah Kim, não mereço você! –Tiro apenas minha camisa e entro na banheira sem pensar, a água invadindo meus poros, um breve prazer me invade, proporcionado pelo calor daquilo.

“Liguei pra você algumas vezes, mas você não atende, está ouvindo minhas mensagens?! Estou preocupado.”

-Me ensine o que é amor...Kim. Eu não sei o que é. Eu nunca senti... –Meus olhos opacos passam pelo meu corpo analisando cada detalhe, eu parecia tão inocente vista assim.

“De qualquer forma, estou indo aí. Não consigo ficar sem notícias suas.”

Deixo meu celular escapar da minha mão, caindo no chão e emitindo um breve som. Quebro a garrafa que ainda estava na minha mão e a deixo com uma afiada ponta, aproveito pra me deliciar com os cacos de vidros que sobraram, passo eles por minha pernas deixando rapidamente a água da banheira vermelha pelo meu sangue.

-Se não consigo amar ninguém...Se sou apenas um monstro na pele de cordeiro...Não acho que mereço continuar viva.

Me mutilo com a garrafa quebrada, fazendo vários cortes profundos em meu corpo, pintando aquele banheiro com a cor que as pessoas dizer ser a do amor.

Ouço alguém bater a porta poderia ser o Kim, poderia ser qualquer pessoa. Mas não iria atender.

Solto a garrafa dentro da banheira, levando minha mão ao peito.

Algo está lá, batendo vagarosamente. Mas não acho que seja meu coração.

Quando pequena aprendi que era o coração o responsável por fazer nós nos apaixonarmos. Mas talvez, pra mim, ele fosse apenas um orgão qualquer.

A porta batia cada vez mais forte, Daoka gritava por mim intensamente, era minha última chance. Será possível que tivesse como alguém me salvar?!

-Como se já não tivesse tentado. –Solto novamente uma risada de sarcasmo, rindo da minha própria ingenuidade.

Não há mais jeito para mim. Nasci sem saber amar, preciso sair desse mundo. Acabar com alguém como eu, é a coisa certa a se fazer.

Volto a pegar a garrafa, até então esquecida por mim. Procuro novamente o lugar onde se encontrava aquele órgão que batia, e cravei a parte enfiada lá, mesmo que tivesse afastado de propósito um pouco da região...Será que ainda presava por minha vida?!

O sangue quente e denso escorria, invadindo meu corpo e se dissolvendo na água. Meu olhar pesa e a vista se escuresse...Só é preciso esperar agora.

Ouço um grande estrondo, Kim deve ter conseguindo finalmente arrombar a porta. Tarde demais, coreano!

-Amanda... –O mais novo entra no banheiro ofegante e cansado. –Mas, o que... –Ele se aproxima de mim, pouco ligando da situação.

Eu já não ouço muita coisa, não vejo nada. Apenas sinto. Sinto meu coração bater pesadamente, lutando consigo mesmo. Sinto Kim despejar suas lágrimas em cima de mim, sinto ele me abraçar. Sinto tudo parar e apenas aquele órgão gélido e até então insensível ressoar seus batimentos por todo o banheiro. Ele estava lá, sempre esteve. Amando ou não alguém, ele queria sobreviver.

Porque não me matei de uma vez, porque não escolhi algo mais rápido...Será...Que eu também queria viver?!

-Eu...Não sei amar Kim...Eu...N-não posso...Continuar viva. –Falo, mesmo que já não tivesse forças.

Será...Que eu me amo?!

Sinto meu coração ficar cada vez mais devagar. Seja como for já é tarde demais pra decidi. Sinto os lábios do oriental nos meus, sinto meu coração se acelerar pelo menos um pouco. Queria retribuir aquele beijo. Mas já era tarde.

No fim, eu percebi que tinha um coração. Um coração que me impediu de acertá-lo em cheio, um coração que lutou até os últimos momentos para viver, um coração, que queria ter tido um pouquinho mais de forças para retribuir um beijo.

Um coração...Eu realmente tenho um, e ele não é apenas um órgão...Ele é como o de todos os outros, um coração que sente.

Senti um sorriso se formar, e uma lágrima cair do meu rosto. Antes de realmente tudo acabar.

Coração...Achei você...

...

Abri os olhos, mas logo os fechei novamente quando tudo ficou claro, um irritante objeto estava grudado nas minha narinas, trazendo oxigênio para mim. Apenas arranquei eles e tirei do meu rosto, voltando a abrir os olhos, mas dessa vez mais lentamente.

-Mas o quê... –Tento me sentar mas é em vão, estou destruída.

-Ah, você acordou, calma, deixo subir sua cama, você acabou de fazer um cirurgia então deve está dolorida. –Diz a enfermeira aparentemente da mesma idade que eu.

Ela me deixa confortável na cama e finalmente posso me analisar melhor. Os braços enfachados e vestida com uma roupa patética de hospital.

-Você deve está meio perdida já que ficou inconciente por três dias. Irei chamar seu namorado, ele tem estado aqui durante todo esse tempo. –Diz a mulher, ainda organizando algumas coisas no quarto.

-Ele não é meu namo...

Inconciente?! Três dias?! Estou viva?! Eu estou viva!

-Ele não é seu namorado, bom, ele parecer gostar muito de você!

Um sorriso nasce do meu rosto, isso que chamamos de segunda chance?!

-De qualquer forma irei chamá-lo. Tudo bem?! –Ela se retira, me deixando sozinha no quarto.

Levo minha mão até meu peito, ele está lá, batendo com sempre fez, mais alto senão. Ele me deu uma segunda chance, a chance de aproveitá-lo melhor.

Com olhos fechados e a mão ainda sentindo meus próprios batimentos, murmuro:

-Obrigado...Coração.

Notas finais
Imaginavam um final diferente não é?! Desculpe gente, por mais que eu tente é impossível eu matar alguém. Bom, considerem tudo que disse nas notas e comentem o que acharam. Até :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!