Três meses, doze semanas ou noventa e três dias, essas eram as frases usadas por todos em Cambridge para literalmente informar o tempo que Nicholas Parker estava desaparecido.

A vizinhança entrava na casa da Sra. Parker com os olhos arregalados, e logo meus ouvidos captavam sussurros deprimentes de pessoas que só se importavam com elas mesmas, era incompreensível aquela curiosidade em ver um caixão lacrado e vazio, era nojento ver as gêmeas Giffen chorarem por alguém que fez de suas vidas um inferno, talvez aquelas lagrimas significavam um arrependimento, mas elas estariam arrependidas do que?

O Outono de dois anos atrás estava claro em minha mente, Nicholas havia dado um jeito de colocar uma irmã contra a outra, e no final, como se ele já não estivesse satisfeito, empurrou as duas no Cam, um rio turístico que ficava logo atrás da mansão de Noah Armstrong, todos riram, e as irmãs perderam sua popularidade e poder colegial até o final dos estudos, sendo esquecidas por todos.

— Olivia? – Uma voz ecoou da cozinha – venha até aqui, por favor!

Segui em passos longos quando vi Noah entrar pela porta principal, ele estava com um belo terno preto e uma gravata vermelha cintilante, seus olhos pareciam aflitos e seus pensamentos perdidos, talvez os boatos eram verdadeiros, talvez eu o tenha perdido para o meu melhor amigo.

— Sim! – Falei quando atravessei a porta da cozinha.

Um homem alto, sério de meia idade saiu de trás do meu pai e estendeu a mão em minha direção. Seu rosto era pálido, mas em seus olhos dava para ver o fogo que consumia sua alma melancólica.

— Este é o detetive Gomez, ele gostaria de falar com você em particular – meu pai estava com uma voz trêmula, como se eu tivesse feito algo errado – acho que vocês terão mais privacidade na varanda.

A noite estava fria e acinzentada, a lua se escondia atrás de uma nuvem, deixando a varanda perdida na escuridão, com toda certeza era um dia triste, melhor, um dia de se despedir, mas se despedir do que? De uma caixa de madeira? Eu não conseguia me conformar com o abandono, Nicholas tinha seus defeitos, mas não merecia ser descartado dessa forma, não sem respostas concretas.

— Parece que até o céu ajuda para a noite ficar ainda mais deprimente! – O detetive falou na tentativa de puxar assunto – Deve estar sendo terrível para você, perder um amigo tão próximo, sei como é angustiante e ao mesmo tempo assustador...

— Angustiante e assustador não seriam as palavras corretas – apertei minhas mãos na cerca de madeira branca.

— Não?! – O detetive falou em um tom espantado – Então acho que me passaram a informação errada sobre você.

— Quer um conselho? Não escute essa vizinhança, estamos velando um caixão vazio por causa dela, acho que nesse momento o que eu sinto é ódio e uma grande sede de justiça por alguém que é especial na minha vida – suspirei aliviada.

— Alguém que “é” especial? Não seria “era”? – Gomez estava curioso, como se eu fosse ajudar em algo – Nicholas Parker pode estar vivo? É isso que você quer dizer?

— Não! Talvez! – Me virei para encara-lo – Apenas não vou tratar no passado alguém que sempre será especial para mim.

— Entendo, me desculpe...

— Olivia? – Uma voz trêmula veio da porta — me desculpe, não sabia que estava com outra pessoa.

— Noah? – Perguntei.

É claro que era ele, seus olhos azuis celestes brilhavam com uma leveza única em meio a escuridão, e sua voz grossa e sexy fazia qualquer estrutura se contorcer de desejo, ele era único, uma mistura de astro do Rock com uma pegada leve e estonteante de R&B, e mais uma vez eu me dei conta do motivo de Nicholas ter mudado por ele.

— Me procure mais tarde, por favor – Noah se virou e seus olhos desapareceram.

— Senhorita Bennett, acredito em você, sei que você jamais faria algo contra a vítima... – Gomez colocou a mão no meu ombro e olhou dentro dos meus olhos – mas eu vou descobrir o que aconteceu com seu amigo, e garanto que essa cidade jamais será a mesma!

— Vai ser um prazer lhe ajudar Detetive! – Estendi minha mão para ele.

Um grito ecoou na sala de estar.

Passei rapidamente pela cozinha e me deparei com algo inacreditável. Todos olhavam espantados, incrédulos, em minha mente o pior já havia se alastrado.

— Preciso de uma ambulância, urgente! – Gomez gritou ao telefone quando percebeu que a Sra. Parker havia desmaiado.

Todos questionavam o que estava acontecendo, conversas e sussurros pesavam a grande sala requintada e bem decorada, alguns se entreolhavam, outros preferiam não ver, mas um pré-julgamento já estava concretizado não só na minha mente, mas na mente de todos naquela casa.

Em meio a sala, James estava de joelhos, como se implorasse pelo perdão, suas mãos estavam caídas pingando sangue no tapete branco de linho fino, e seus olhos permaneciam fechados se recusando a olhar para as pessoas.

— O que houve? – Perguntei aflita.

Ele balbuciou algo.

— Ele está em estado de choque – disse Gomez se aproximando do garoto.

— Na igreja! – James gritou e caiu no chão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.