Onde casa um, casam dois

1 O que Elvis uniu, homem algum pode separar


Notas iniciais
Apenas mais uma na fábrica de SagaXShaka

"Viva, Las Vegas"!

Era praticamente possível escutar o clássico de Elvis, como se a canção emanasse pelas ruas. Com os vidros do carro todos baixados, quatro amigos e um noivo escolhiam a esmo e com excitação um cassino para a celebração da despedida de solteiro de Kanon. Saga, gêmeo do noivo, dirigia o carro, optando enfim por estacionar em um edifício opulento e notoriamente cheio. Ótimo, seria uma noite memorável.

Começaram a noite em um dos diversos bares e não demorou muito para um dos homens do grupo de amigos desaparecer com uma garota e outros dois partirem para a sorte nas máquinas, restando somente os irmãos. Kanon sorriu, abraçando Saga. Seu sonho era conhecer Vegas, a noite não poderia ser melhor. "Ou poderia", foi o que pensou quando arrastou Saga para uma mesa de pôquer, especialidade dos irmãos em partidas amadoras. Estavam ali para diversão, não para perder as economias da vida, mas ainda que com apostas compatíveis com a realidade de ambos, valendo-se da experiência, atenção e, claro, a pitada de sorte nas boas mãos, a quantidade de fichas em suas sacolas cresceu. Sabendo que era melhor parar antes que começassem a perder, resgataram o dinheiro e foi quando Kanon sumiu. Saga ainda o procurou, "ora, não poderia ir longe"... "Ou poderia", concluiu contemplando a imensidão daquele lugar.

"Paciência", murmurou, parando em outro bar com vista para uma mesa de Black Jack. Neste momento avistou um apostador em particular. Bonito como um anjo, com um olhar enigmático e longos fios loiros trançados, evidenciados pelo tom verde de sua vestimenta. Pensou que o rapaz deveria ter cerca de 21 e sorriu com a coincidência entre a idade um dos nomes dados ao jogo no qual a bela criatura apostava. Aparentemente seu sorriso não passou despercebido pelo rapaz misterioso, pois este lhe sorriu de volta. Um pedaço de mal caminho. Se a aparência era angelical, aquele sorriso indubitavelmente era um oferecimento do “senhor do andar de baixo”. E a tal paciência seguiu sendo a palavra, enquanto entre drinks coloridos que nunca havia provado, Saga esperava o jogador da trança loira sair da mesa. Demorou, mas aconteceu. Levou tempo o suficiente para o rapaz sair um pouco mais rico do que havia entrado, ao menos era o que Saga supunha pelo peso da sacolinha. Igualmente notou que o jovem seguiu sem titubear em sua direção, pedindo uma dose dupla de vodka com gelo e limão. Saga aproveitou, pegando seu drink e erguendo um brinde, próximo do homem desconhecido.

— À sua noite de sorte! – disse, sorrindo de lado, sedutor.

O rapaz lançou-lhe um olhar de cima a baixo, devolvendo um meio sorriso, desses que podem significar qualquer coisa que a imaginação permitir. Ergueu seu copo, encostando-o no que o o outro homem segurava em seguida, aceitando o brinde. Verteu o conteúdo transparente de uma vez, antes de pedir outra dose ao barman. Já havia notado o homem alto e atlético desde quando estava na mesa de Black Jack. Igualmente notava que o belo exemplar da espécie não tirava os olhos de si. Agora, com a proximidade, podia admirar o olhar verde enigmático que ele possuía. Agradou-se de como a cabeleira escura e solta realçava o tom pouco comum das íris alheias. A sorte do estranho já começava na roleta da genética.

— Hermes – Saga apresentou-se, mentindo o nome.

Era Vegas, afinal. E o que se faz em Vegas, fica em Vegas, não é esse o ditado?

Observou o outro sorrir mais uma vez. Guardou alguns segundos de silêncio, antes de enfim apresentar-se.

— Shiva.

— Um nome hindu em um belo par de olhos azuis?

— Quer apostar que esta é apenas a primeira das muitas coisas surpreendentes sobre mim?

— Quero apostar todas as minhas fichas – respondeu no ato.

— Então quer contar com a sorte, hoje? – provocou – Olha que eu ando limpando mesas, este já é meu terceiro cassino.

Com outro sorriso de seu arsenal e outra bebericada em seu drink, Saga decidiu entrar no jogo. Era tão bom em flertes ácidos quanto em pôquer. Talvez melhor.

— Contar… Contar é uma palavra interessante. À propósito, não é proibido contar cartas em Vegas?

— Se perceberem, sim, ao que parece – escutou o outro gargalhar em resposta – Ora, está me acusando de algo, Hermes?

Saga admirou mais alguns instantes o alvo de seu interesse. A única acusação possível ali seria a que sua beleza era imprudente e passível de multa por excesso. Desfilar uma aparência como aquela pelas ruas poderia causar até um acidente.

— Longe de mim! Você é apenas um homem de sorte e boa estratégia! E aposto que procurando por um jogador à sua altura – comentou lançando um olhar para si mesmo, antes de voltar as íris novamente para o rapaz.

Com um gole em sua vodka e um passear de língua pelos lábios, a réplica veio de pronto.

— É que realmente não costumo contar com a sorte. Finjo que esta nem sequer existe, desta maneira, é sempre uma agradável surpresa quando a mesma resolve dar o ar da graça.

— E agora? – Saga indagou com um sorriso.

— Agora parece que ela está sorrindo para mim.

O sorriso de Saga só fez se alargar com uma indireta tão direta.

— Que bom que gosta do meu sorriso! E tudo bem, pode me chamar de Sorte, se prefere. Você pode me chamar do que quiser, inclusive.

— Então diga-me, Sorte, está oferecendo toda essa metralhadora de sorrisos e olhares de turmalina só porque este é meu terceiro cassino?

— Ah, imagine, para você eu ofereço frente e verso de graça, mesmo.

Foi a vez do estranho rir.

— Então não está interessado no meu bolso?

— Estou interessado no que este bolso veste… Não gosto de educação financeira! Prefiro tomar aulas de anatomia e geografia de relevos de uma criatura tão bonita.

O gesto do desconhecido de levar outra vez o copo à boca deixou claro o ponto marcado por Saga, que imitou o ato, terminando seu drink. Então, a mão alheia tocou a sua, captando sua atenção.

— Vem, Hermes, vamos curtir como loucos!

— Loucura é minha especialidade!

E assim, Saga segurou a mão do desconhecido, com a excitação de quem está prestes a encarar a noite mais deliciosamente doida de sua vida.

Ao acordar no dia seguinte a dor de cabeça era nítida. Percebeu-se sozinho. Estava confuso, a noite parecia um borrão. Buscou concentrar-se e ao sentar na cama demasiadamente confortável sentiu outro tipo de dor, desta vez em uma área mais comprometedora do corpo, começando a se recordar da noite. Do jogador mais bonito do cassino, da boate, das roletas onde o rapaz que parecia mesmo estar em sua noite de glória arrecadou uma pequena fortuna, do amasso no elevador rumo a uma das luxuosas suítes com vista para a cidade. Do sexo insano na varanda, na banheira, na bancada – que inclusive quebrou no ato e das piadas sobre “quebrar a banca” subsequentes ao fato – e, enfim, na cama. A história do frente e verso foi mesmo levada a sério. Saga estava exausto de tanto que haviam transado na madrugada e era de se esperar que o tal Shiva estivesse em igual estado. Ainda procurou o homem pelo espaçoso quarto enquanto desfilava sua nudez marcada pelo prazer desenfreado, mas sem sucesso. O que encontrou foi uma bela mesa de desjejum. Ao alcançar um pêssego, olhou para a própria mão reparando em um belo e caro detalhe que o fez recordar de outra passagem de suas últimas horas: uma aliança. Foi quando lembrou da joalheria e depois da capela e… Do Elvis! Céus! Havia casado com o homem que acabara de conhecer. E casado pelo Elvis! Havia vivido Vegas até as últimas consequências. Era uma lástima que seu “marido” não houvesse deixado nem sequer um número de telefone.

Ao se arrumar, reparou em suas roupas, lembrando-se que também comprara novas. O relógio igualmente. O estranho o havia coberto de presentes e fora embora sem levar absolutamente nada de volta. Havia falado sério quando disse que não era um homem de apegos financeiros. “Dinheiro existe para promover experiências antropológicas e não para mofar em um banco”. Recordou da frase dita enquanto escolhiam uma refeição em um restaurante.

Que loucura.

Para os Hindus, Shiva é o Deus da destruição. Aquele que aterra tudo o que não se é mais benéfico, para que outro ciclo possa começar. Aquele que traz o fim. Sorriu com a ironia enquanto descia no elevador. Pois era como Saga se sentia: avassalado. Fora virado de cabeça pra baixo e nada mais parecia como antes. E nem ao menos podia ver novamente aqueles olhos ou escutar a voz bonita daquele que lhe proporcionara tudo aquilo.

Que loucura.

Escutou seu telefone tocar. Era Kanon. Nem sequer recordou-se do irmão e da ocasião na qual estava em Vegas após Shiva. Ao menos, ao que parecia, tampouco seu gêmeo, visto que ao desligar conferiu que não haviam chamadas não atendidas em seu aparelho.

Marcaram de se encontrarem no hall de entrada. Ainda esperava Kanon quando ao olhar para fora vislumbrou uma farta e longa cabeleira loira do lado de fora. Aproximou-se. Um homem fumava de costas e pôde notar na mão que segurava o cigarro: a aliança.

Ah sim, que loucura.

— Ia embora sem se despedir de seu marido? – brincou, sorrindo ao rapaz que, mesmo surpreso, sorriu de volta.

Reparou que desta vez o mesmo usava um óculos de grau de aro tartaruga. Conferia um ar intelectual ao rapaz que, também sem o kajal marcando os olhos turquesas e com o cabelo preso em um rabo de cavalo baixo e displicente, parecia uma versão nerd do estranho fatal do dia anterior. Sentiu-se igualmente atraído por ambas as possibilidades.

— Não quis te acordar, você dorme muito bonitinho – observou o outro fazer uma careta frente a provocação, enquanto lhe devorava com os olhos verdes, como na noite anterior – É que tenho um compromisso importante hoje.

— Que pena! Eu pensei em te convidar para um casamento.

— Mas nós já casamos! – riu.

— Ah, um celebrado por um juiz de paz, não pelo Elvis!

— Eu pensaria a respeito sobre ir à um casamento de uma pessoa que eu nem sequer conheço, já que sou seu "marido" – dizia num misto de ironia a humor – uma lástima que eu também tenha um casamento para comparecer hoje.

— Shaka, até que enfim achei você!

Um homem se aproximava, esbaforido. Possuía porte atlético e bela aparência e, o mais curioso, Saga o conhecia de vista. Era Milo, colega de trabalho de seu cunhado. Este prosseguiu falando com seu alvo como se Saga não existisse:

— Onde você se meteu a noite toda? Nunca sai com a gente e quando finalmente nos acompanha resolve fazer o aventureiro? Bem que dizem que os santinhos são os piores! – o cara mal respirava – Você sabia que precisamos voltar logo? Não se esqueça que para todos os efeitos a despedida do Sorento foi no restaurante de sempre, não sabem que estamos aqui! – finalmente tomou um pequeno fôlego, ao mesmo tempo em que mudava sua expressão – Inclusive, você viu o Sorento?

— Espera um pouco, Milo, o Sorento está aqui? – Saga os interrompeu, chamando a atenção do recém-chegado.

— Puta merda! Saga? – mal podia acreditar – Vocês vieram atrás da gente? Como descobriram? Bem que o Sorento não queria mentir. Ele vai me matar… Olha, a ideia foi toda minha! Botei pilha o suficiente para iluminar Vegas inteira!

— Parece que você mentiu seu nome – Shaka acrescentou.

— Aparentemente não fui o único, não é, Shaka? – retrucou com uma expressão sedutora na face.

— Uma pena que esta desonestidade deva invalidar nossos papéis – completou em tom de troça.

Como se os papéis das capelas de Las Vegas possuíssem alguma validade.

— Fui bem honesto em outros assuntos – rebateu no mesmo clima.

— Como é? Outros assuntos? – Milo entrou novamente na conversa, cheio de questionamentos – Vocês o que? Transaram ontem? – não precisou olhar muito para os dois para entender.

— Transar é pouco, nós casamos ontem! – Saga mostrou a aliança – Bom saber que todo mundo se conhece, assim podemos até marcar uma festa para celebrar nossa união.

— Menos, Saga – era estranho para Shaka mudar o nome que passara a noite inteira dizendo entre suspiros e outros sons pouco decorosos – até porque quem casou ontem foram o Hermes e o Shiva. Además, os casamento aqui nem são de verdade.

Era muita cara de pau daquele homem falar tão abertamente sobre a noite anterior na frente de outra pessoa. Ainda assim, Shaka precisava confessar ao menos para si que essa expansividade toda o cativava de alguma maneira. Gostava de pessoas decididas, que não se arrependiam de seus atos.

— Os casamentos talvez não... Mas a lua de mel foi! – Completou, sacana, fazendo Shaka corar.

— Nerd do céu, eu achava que você era assexuado! Olha só, mandando ver! – Milo observou Shaka quase engasgar com a fumaça de seu cigarro. Já fazia votos para que aqueles dois ficassem juntos, ia adorar atazanar a vida de seu amigo com aquilo – Agora, o não dá para perdoar você não avisar que ele está aqui, Shaka! Isso é traição! Não dava para mandar uma mensagem entre uma transa e outra? “Olha, o plano melou, gêmeos na área, resgatem o noivo, estou distraindo o cunhado”!

— Milo, quer parar? Francamente, eu nem sabia o nome dele ontem, quanto mais que todo mundo se conhece!

— Como? Amigo, uma cara bonita dessas aí a gente não esquece com facilidade! – Milo precisou revisitar suas lembranças para entender. Claro que Shaka não sabia. Ambos trabalhavam com Sorento, mas apenas os que se encontravam para além do trabalho já haviam visto Kanon – Este aí com quem você casou ontem é irmão do noivo do Sorento! E gêmeo! Se você fosse minimamente sociável e aceitasse nossos convites para o happy hour, ao menos teria reconhecido o rosto, visto que são iguais!

Aos poucos a coincidência improvável foi se fazendo clara para todos. Foi quando Saga exclamou:

— Espera! O Sorento tá aqui? Ai, que merda! – exclamou com a mão na testa, percebendo de repente a probabilidade de Kanon ter sido pego na mentira.

— Vocês não vieram atrás da gente? Veio com o Kanon, não é? – Milo perguntou.

— Sim, ele está aqui. Mas eu nem sabia! Acreditei na história do restaurante.

— Então o que vocês fazem aqui?

— O mesmo que vocês!

Qual a probabilidade?

E quem era o sujo para falar do mal lavado, não é mesmo?

Milo novamente se adiantou.

— Então é melhor nos separarmos, ninguém conta nada para ninguém, o que aconteceu em Vegas fica em Vegas e não impedimos um casamento de acontecer! Imagina o que acontece se esses dois se encontram?

— Acho que aproveitam o ensejo e se adiantam para os finalmentes – Shaka respondeu.

— Muito otimista, você! – retrucou Milo.

— Realista. Como sempre, aliás. Estou apenas constatando fatos, veja você mesmo.

Na direção em que Shaka apontava, Sorento e Kanon caminhavam aos beijos, parando as carícias apenas quando avistaram os outros homens.

— Ah, que bom que vocês se entenderam, aparentemente – começou Milo.

— Milo! Eu quis muito te matar por ter me trazido até aqui quando vi o Kanon! – Sorento dizia – Mas aí eu me dei conta que ele não estava me procurando e sim curtindo uma despedida de solteiro sobre a qual não fui informado, daí eu quis foi matar o próprio!

— Mas como meu querubim estava aqui fazendo a mesmíssima coisa que eu, nossa briga terminou quando sem querer paramos em frente a uma capela muito simpática, toda azul e creme, parecendo um docinho… Aí acabamos nos adiantando! – Kanon complementou erguendo a mão da aliança que havia mudado do dedo direito para o esquerdo – Hoje será um juiz, mas adivinha quem casou a gente ontem?

Tudo indicava que a roleta das coincidências improváveis havia sido girada com vontade naquela noite insólita.

— O Elvis! – Saga e Shaka responderam em uníssono.

— Ué! E como sabem?

— Ora, irmãozinho – Saga ergueu a própria aliança, lançando um olhar nada casto para Shaka, antes de enfim terminar a frase – Onde casa um, casam dois!

Notas finais
Obrigada a você que leu até aqui.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!