Onde as luzes viram estrelas
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Desculpem os erros.
A primeira e última vez que eu beijei Joaquim foi em uma festa de São João da escola São Diego.
Era uma noite quente do mês de Junho.
A banda local tocava uma balada animada em cima do palco improvisado, a fogueira de enfeite emitia raios apagados de fogo no meio do campo e a barraca de comida mais parecia um ninho de formiga.
A diretora observava tudo ao longe com seu olhar de Falcão. Os professores mais pareciam auxiliares de carceragem do que participantes, prestes a dar voz de prisão, no caso voz de suspensão. E os alunos, no caso eu, mas pareciam animais enjaulados desesperados por liberdade.
Lembro de ter respirado fundo, preenchido meus pulmões pela brisa fria que passava.
Eu queria poder dizer que eu era uma das garotas em cima do palco levantado a saia e fazendo passos sincronizados, queria poder dizer que eu era uma das garotas que dançavam uma balada romântica em volta da fogueira, queria poder dizer tantas coisas...Mas, que no final seriam falsas. Pois, eu não era nenhuma dessas garotas.
Eu era a garota sentada no último degrau da arquibancada, vestida de amarelo e com sardas pintadas no rosto.
Eu era a garota solitária que segurava um copinho de vodka entre os dedos trementes e olhava para ele como se fosse a chave para a descoberta do universo.
A única saída para acabar com o tédio daquela noite.
Parei com o copinho a milímetros dos meus lábios. A respiração suspensa.
Porém, um assobio baixo, agudo e melódico me interrompeu. Girei a cabeça para o lado e abaixei o copo rapidamente.
— Joaquim?!
Escondi o copo rapidamente atrás de mim. Alarmada.
O garoto resmungou algo incoerente, enterrando o rosto entre as mãos, como se quisesse se fundir nelas.
— Deus, da onde desenterrou esse nome?
— Da sua certidão de nascimento?
A resposta automática o surpreende.
— Parece que os anos não afetaram o seu humor ácido, Bernardes.
— Posso dizer o mesmo de você e suas bebidas, TJ.
Olhei para a garrafa metálica pousada a seu lado. Teodoro Joaquim Dantas olhou para a garrafa com a mesma intensidade que um urubu olha para carne morta.
— É suco de laranja. — Pontuou com um sorriso malandro se esgueirando pelos lábios travessos. — Quer um pouco?
— Não, obrigada.
— É mais fraco do que o copo de vodka que você está escondendo aí atrás, se quer saber. — Ele sussurrou, inclinando-se na minha direção.
Minhas bochechas esquentam e eu me virei rapidamente para a frente o ignorando.
Alguns poucos metros de distância nos separava. Ele estava em um dos bancos acima, escondido pela escuridão da noite. A jaqueta preta e o boné azul eram perfeitos para disfarça-lo em meio às sombras.
— Bernardes? — A garrafa metálica entrou no meu campo de visão. — Última chance.
Afastei sua não com um tapa e bufei em resposta.
— Não vou colocar a minha boca nessa coisa.
Pelo canto do olho, vi ele dar de ombros e tomar um longo gole.
— Ótimo. Mais pra mim.
Caímos em um silêncio pesado. A música lá embaixo ecoava nas arquibancadas. As luzes dos postes faziam sombra sobre os bancos.
De repente, TJ voltou a assobiar uma música antiga com seu sopro melódico e agudo. Alongando as notas e tomando baforadas de ar para encher os pulmões de vez em quando. Eu deveria me sentir incomodada, geralmente barulhos agudos me incomodavam, mas o assobio de TJ não. Era calmo e hipnotizante. Como tudo nele.
TJ era o típico aluno delinquente. Com seu brinco prata no alto da orelha e seu cabelo rebelde negro, sua figura rendia boas lendas no colégio São Diego. Boatos corriam a solta pelos corredores sobre as vezes em que ameaçou o diretor somente com um grampeador e um clips para que não fosse expulso. Das vezes em que encurralou garotos no banheiro masculino do último andar para conseguir grana.
Eram tantas histórias que até mesmo as criança já o temiam.
Seu nome era lenda.
TJ somente existia entre nós, aparecendo e desaparecendo quando o convinha. E, talvez, tenha sido isso que tinha me feito permanecer sentada naqueles bancos frios, escutando seu assobio me embalar. Esse mistério que sempre o rondava.
De repente, ele parou como quem para uma orquestra. Abrupto.
— Por que está aqui?
Sua pergunta me pegou desprevenida. Olhei por cima do ombro com uma carranca.
— Pelo mesmo motivo que você suponho.
Ele riu baixo. Aquela risada de estremecer e fazer o coração de uma garota errar uma batida.
Tentei permanecer inexpressiva.
— Boneca, tenho certeza de que os seus motivos são mais nobres.
Boneca. Como aquele clichê em forma de palavra podia soar tão pateticamente bem aos meus ouvidos?
— Se não está aqui por causa do ponto extra, então o que veio fazer aqui?
Ele se inclinou na minha direção e com os braços apoiados nos joelhos sussurrou.
— Segredo.
Revirei os olhos e voltei o olhar para o palco.
— Eu quis dizer por que está aqui em cima? — Voltou a insistir.
Abri a boca, mas nada saiu. A verdade, é que eu não tinha resposta. A arquibancada era o único lugar vago naquele campo de futebol. E eu odiava multidões, ainda mais vestida daquele jeito.
— Por que você está aqui em cima? — Rebati o olhando incisiva.
TJ levantou a garrafinha metálica como se a resposta fosse óbvia.
— Por mais liberal que a nossa diretora seja...— Ele levou o olhar em direção a Diretora, que fiscalizava os alunos. —...não acho que gostaria de ver seu aluno prodígio* se embebedando.
Ele bebeu um último gole e limpou a boca com a manga da jaqueta em um movimento desleixado. De repente, se levantou e desceu um degrau ficando ao meu lado. Seu perna e seu braço pressionaram os meus quando ele se largou sobre o banco ao meu lado.
Eu me perguntei como um pequeno contato me fez prender o fôlego como se minha vida dependesse disso?
— Não vai beber?
Ele olhou fixamente para mim e eu vi o desafio em seu olhar. A palavra não estava na ponta da minha língua, mas a rebeldia do meu íntimo pulsou enlouquecida.
E, então, fiz o inacreditável. Bebi.
TJ colocou a mão no meu ombro quando me dobrei e tossi como uma tuberculosa.
— Foi bom para uma primeira vez. — Ele encorajou. O fulminei com o olhar.
— Nunca mais vou beber.
— É o que todos dizem.
Ficamos em silêncio escutando a balada romântica. Ao que parecia nenhum dos dois estava dispostos a ceder o lugar recluso no alto das arquibancadas.
— Se fosse seu último dia viva, o que faria?
Pelo canto do olho, vi que TJ olhava para o céu, para as estrelas que se juntavam em constelações brilhantes.
O encarei, analisando em qual estágio de bêbado ele já estava.
— Estou falando sério. — Ele diz com um sorriso de canto. — Responda. — Falou suavemente.
Respirei fundo e pensei com cuidado.
— Desceria esses degraus e expulsaria Santiago do palco...— TJ concordou enfaticamente com a cabeça. —...pegaria o microfone e diria que Ben traí Olívia todos os dias com Micaela atrás do armário do professor de educação física, que Taylon é um tarado que vive salivando pelos peitos da auxiliar de corredor e que Simone teve um caso com o professor de matemática no ano passado e por isso passou de ano.
Joaquim assobiou baixinho; admirado.
— Estou impressionado, Bernardes.
O ignoro e continuo.
— Depois abraçaria meus pais, pegaria o carro na garagem e assistiria o último nascer do sol no declive das montanhas. — Sussurrei como uma confissão.
Pisquei e só então percebi aonde estava. Virei lentamente a cabeça e prendi a respiração quando notei o olhar nublado de TJ me fitando com intensidade.
— O que foi? — Indaguei apreensiva quando ele não falou nada.
— Nada. Só estou pensando o porque não te beijei até agora?
Juro que tentei rir de sua piada sem graça, mas o riso simplesmente não veio, assim como a minha respiração, que havia sumido.
Eu abri a boca atordoada, lutando para falar algo esperto, porém qualquer pensamento coerente desapareceu como nuvens em meio a tempestade quando TJ virou o boné azul para trás e deixou sua face descoberta.
Eu tinha esquecido o quanto ele era bonito. O quanto seus olhos âmbar eram de paralisar o coração e o quanto sua boca perversa era atraente.
E era essa mesma boca que no outro segundo pressionava a minha com suavidade, dançando sobre os meus lábios como um dançarino que ainda está conhecendo o palco. Deslizando e recuando, enlouquecendo e inflamando.
Os lábios mornos sondaram os meus, provaram os meus e me fizeram inteiramente sua por breve segundos.
Que eu poderia não saber naquele instante, mas marcariam a minha história para sempre.
Cedo demais ele se afastou com um sorriso satisfeito na boca ainda úmida pelo beijo. Pelo meu beijo.
— Bem melhor do que suco de laranja.
Tentei rir da sua piada idiota, porém não havia ar em meus pulmões para fazer a risada sair.
Só havia um caldeirão de sentimentos a flor da pele, eletrizando os meus sentidos.
TJ se ergueu abruptamente. O boné já virado para a frente novamente e o velho sorriso malandro no rosto, como se não tivesse acabado de me beijar.
— Vou dar uma volta na moto do Senhor Simon. Tá afim? Até deixo você pilotar um pouco.
Pisquei atordoada.
— Do Senhor Simon? A moto do nosso professor de educação física?!
TJ franziu a boca, em notório desagrado pela volume da minha voz.
— Ele nem vai sentir falta. Não vamos demorar. — Ele estendeu a mão e parecia que me estendia o caminho de uma encruzilhada. — Vem comigo?
Olhei para ele, dentro dos seus olhos. Mas, nós já sabíamos a resposta.
Não daquela vez.
— Aproveite a noite por mim. — TJ desceu um degrau e meu coração vacilou no peito. Meus joelhos tremeram querendo segui-lo, mas não o fiz. Ele se virou e seu sorriso me lembrou a boca de um tubarão. — A gente se ver por aí, Lúcia.
TJ não voltou para casa naquela noite. E em nenhuma das outras que se seguiram. A moto foi encontrada na margem da auto estrada que cortava nossa pequena cidade. Destruída.
Assim, como a minha alma. Que por anos sangrou por sua morte.
Até hoje.
Notas finais
Bjs♡♡♡
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