Onde a Mente Descansa
4 Menininha Autista
Os corredores daquele lugar eram extremamente assustadores, o cheiro pútrido de morte era forte, as madeiras que formavam o chão eram gastas e pareciam que iriam se ceder a qualquer instante sob seus pés. Miria respirou fundo com certo esforço pelo cheiro horrivel e andou lentamente por eles. Aquele lugar era tão precário que nem se incomodaram em ver quem ela realmente era, a semelhança entre ela e sua mãe era imensa. Sempre pode se passar por uma adulta com facilidade, sempre que queria ir a festas ou comprar bebidas sua aparência a ajudava muito.
Miria só estava lá para saber o que aconteceu com a mãe, haviam boatos de que ela havia sido morta ali, sua madrasta havia dito que ela fugira para outro país, só de pensar naquela mulher sentia o sangue ferver, mas se ela realmente havia sido morta, ela tinha que investigar seu último paciente: Elliot, o garoto de olhos verdes do qual ela havia esbarrado. Ele era portador de uma beleza extraordinária, porem seus olhos que pareciam duas esmeraldas eram cheios de frieza e indicavam perigo, e fazia ter vontade de desviar o olhar e se afastar de sua presença tão bela e intimidadora.
A garota foi interrompida bruscamente de seus pensamentos quando sentiu se chocar contra algo, ela quase caiu no chão de tanta força que havia se chocado. Se ajeitou um pouco dolorida e atordoada por conta do susto.
— Ugh! Sinto muito! — ela falou baixo quando olhou quem se chocou e viu uma garotinha negra com longos cabelos pretos e olhos vermelhos como sangue.
A pequena soluçava baixinho, estava caida no chão e lagrimas rolavam por pequeno rostinho redondom.eu Deus querida! Eu machuquei você? — Miria se agachou para ficar na altura da garota, se sentindo um pouco receosa por estar chorando — Qual o seu nome?
—Alawa — respondeu baixinho entre soluços. Não parecia machucada, o que já era um alivio.
—Alawa, eu sinto muito, estava distraída e não a vi chegar. Esta doendo muito? — ao terminar a frase, a criança abriu um berreiro como se a estivessem surrando com pedaços de pau. Se assustou com o choro, pensou na única coisa que poderia acalma-la no momento, a tomou nos braços e a balançou de um lado para o outro como se faz com bebês, rezava para que nenhum enfermeiro viesse até elas, sabe-se la Deus o que fariam com a menina. Aliás, era uma situação estranha para ambas, provavelmente, mal se conheciam — Shhh! Querida! Não quis te machucar, pare de chorar — falava com urgência enquanto olhava para os lados a procura de alguma testemunha. Deus, só havia se trombado com a garota.
— N-não me machucou, e-eu só estou triste porque me perdi do meu irmão mais v-velho. Eu quero meu irmão! Estou com muito medo e as pessoas daqui me assustam — ela soluçava baixinho, com os olhos cheios de lágrimas e as bochechinhas molhadas.
Miria não pode deixar de sentir pena da pobre alma que ali estava, aquele lugar era horrível, não podia culpar-la por sentir-se assustada.
— Ok! Vamos fazer o seguinte, vamos nos duas procurar pelo seu irmão. Pode ser? Onde foi a ultima vez que o viu? — perguntou, colocando Alawa gentilmente no chão.
A pequena esfregou os olhinhos úmidos e pareceu em duvida por poucos segundos, olhando para as paredes manchadas do corredor putrído, como se pensasse aonde havio o visto.
— Foi em um pátio bem grande, estava cheio de pessoas diferentes, umas falavam sozinhas e outras batiam partes do corpo contra o chão. Eu fiquei com medo e corri para longe. Ele deve estar muito zangado comigo.
— Então vamos ate o pátio. Estendeu a mão para a menina que a segurou gentilmente, as duas andaram até o grande pátio, Alawa apertou a mão de Miria com força, estava nervosa.
— Tudo bem querida, aonde ele está? — os olhos vermelhos carmesim da menina corriam pelo local. Elas andaram um pouco por meio das pessoas e a morena olhava para todos. Percebeu que a criança parecia despreocupada naquele momento, como se não tivesse caído aos prantos a momentos atrás. — Aonde ele está?
Observou as pessoas também, vendo alguns falarem sozinho como a menina havia descrito. Outros andavam de um lado para o outro num ciclo, jurou que viu um tentando arranjar as próprias unhas mas a paciente estava de costas para si. Deus, que lugar horrível... não conseguia deixar de lado a sensação de arrependimento por entrar naquele hospício, mas era preciso já que sua vontade de saber a verdade era maior que o seu medo. Poderia lidar com aquilo, logo iria saber o que aconteceu com sua mãe.
— Hum? Ele não esta aqui. Não é nenhum deles — Alawa formou um bico nos labios cheios com certa infantilidade, e sua voz fininha a tirou de seus devaneios, a trazendo de volta ao foco.
— ... Certo, como é o nome do seu irmão? — perguntou, achando que deveria saber mais sobre ele já que estava procurando por alguém que não conhecia, era algo perigoso principalmente pelo lugar aonde estavam.
— Irmão — ela respondeu seca, sequer desviando o olhar que estava fixo a sua frente. Seu rostinho ficou mais duro, mais sério.
— Sim, sei que ele é seu irmão, mas preciso saber o nome dele. Por exemplo o nome da minha irmã é Valentina — inventou aquela Valentina, precisava de um exemplo concreto já que a garota parecia um pouco estranha, mas não parecia tão incomum já que ela era uma interna.
— O nome do meu irmão é irmão — repetiu, olhando para Miria alguns segundos antes de desviar o olhar com pressa, fechando mais os lábios.
“Merda” pensou consigo mesma, queria berrar de raiva, mas lembrou que era apenas uma criança com algum transtorno, provavelmente. Respirou fundo e tentou novamente, sorrindo com doçura.
—Lembra o que ele estava vestindo, querida? — falou tentando parecer gentil para ver se ela contribuia com mais facilidade.
— Essa é facíl! — menina respondeu animada, o que deu uma esperança para o coração impaciente da moça — uma blusa e uma calça.
Um leve ataque de furia se passou pela sua cabeça, quase a fazendo apertar a mãozinha da outra. A criança realmente não estava cooperando em nada. Isso a deu dor de cabeça, tendo que respirar fundo novamente para se acalmar, fechando os olhos durante alguns segundos.
— Está bem! Lembra da cor dos cabelos dele? Dos olhos? Da cor das calças e da blusa? — ela pareceu nervosa, como se não soubesse responder tais perguntas, ficou em silêncio e começou a olhar em volta com certa urgência.
— Alawa estou falando com você — Miria disse um tanto severa, se irritando mais pela garota sequer se dar o trabalho de lhe responder. Olhou para aquela praguinha, sentindo vontade de balança-la até responder.
— Meu deus olha! Um bichinho — e soltou sua mão e correu pelos corredores decadentes.
— Não, espera! — gritou ela. E correu desesperadamente atrás da menina. Se alguém periogo a pegasse, seria o fim da menininha autista.
Ela corria rápido pra alguém do tamanho dela, era extremamente ágil, era como se ela soubesse para onde estava indo até que diminuiu o ritmo quase parando.
— Miria! Olha o bichinho entrou aqui dentro — a garota havia parado totalmente agora, a moça parou ofegando sem ar, agarrou um dos braços de Alawa e quase berrou.
—Nunca mais corra dessa maneira. Esse lugar é perigoso! Esta querendo se matar é? — disse, realmente lhe dando uma bronca. Estava quase em seu limite, sentia preocupação e também sentia vontade de socar a garota... — espera. Me chamou de que? Como sabe meu nome? Eu nuca havia te contado antes.
Ao fechar a boca, a menina se tornou frenética tentando escapar do aperto, sapateava no lugar de maneira brusca como se ela estivesse a ameaçando de morte, como se fosse apanhar ou tivesse sido pega feito algo errado. Acabou ficando nervosa de alguém as ver naquela situação, quase num deja-vu.
— Desculpa! Ta me machucando. Olha! Olha! Acho que achei meu irmão — com um puxão forte, se soltou das garras de Miria e voltou a correr. Ela foi atrás. Quem era aquela garota? Como a conhecia? Ela seria uma interna e o mais importante quem as duas estavam perseguindo?
A morena entrou em um quarto para o desespero de Miria e assim correu para dentro do quarto também, querendo matar aquela criança.
— Alawa! Volte pra cá! Não sabemos quem fica aqui, podemos estar em... — sua frase foi interrompida ao se deparar com um cena horrível, chegando a ficar em certo choque.
Era Elliot que estava com ela em sua frente, segurando uma faca em mãos, a apontando ao pescoço da menina. Os olhos verdes e frios e calculista dele estavam fixados nos dela, como se fossem devorar sua alma. Miria sentiu que ira desmaiar.
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