Onde Tudo Se Perde
1 Capítulo 1
Asuka gostava de Akira desde criança, só não sabia disso. Andavam juntos. Comiam juntos. Como irmãos? Era assim que ela via tudo. Irmãos.
O tempo foi passando. Ela criou mais corpo e se viu com novos desejos. Começou a olhá-lo diferente. Ele era lindo. O mais popular da escola. E ela, a mais comum. Mas nunca deixaram de andar juntos. Ele a pegava em casa de bicicleta e a levava para o seu lugar secreto. Um cantinho da praia, onde ninguém ia. Lá conversavam de tudo enquanto ela fazia bolhas de sabão.
— Que mania essa sua!
— Gosto de fazer bolhas, me acalma. Você deveria tentar. — Asuka estendeu o aro de bolhas para ele. Akira não o pegou.
— Eu vou embora em três dias. – um silêncio desagradável sentou entre eles.
— Como? — Estavam na praia. O céu estendia-se azul infinito adentro. O calor era bom. Akira a olhou de lado. Respirou fundo. Um gelo na barriga.
— Vou embora em três dias, Asuka... Já é certo. Tokyo. Minha tia era a única coisa que me prendia aqui... E já que ela...
Não completou a frase, ela parecia pesar chumbo na garganta, não tinha coragem. Asuka o mirou. Sabia disso. Sabia que ele iria embora. Só não sabia para onde. E na verdade já o imaginava andando quilômetros de bicicleta para visitá-la. Mas, Tokyo, tão longe! Uma faca no coração de Asuka. Ela tremeu. Não disse nada. Eles só tinham treze anos, o que era essa sensação estranha? Alguma coisa quebrava por dentro. Mas, o que era? Medo de perder, o quê mesmo? Uma amizade, ou...
— Akira, eu...
— Deixa eu te mostrar uma coisa, Asuka? Quer ver? — Ela parou e o encarou um instante. Sabia o que era. Mas ele sempre pedia, sempre.
— Pode mostrar, sim. — Um oco frio formou-se em sua barriga. Mordeu de leve o lábio inferior. — Onde?
— Vem!
Foram correndo. Riram no caminho. Olharam-se. E por um segundo, só um segundo, Asuka esqueceu que era a última vez. O último encontro. De dois amigos? Ou... Isso corroía a mente dela.
Uma praça jardim. A única em toda a cidade a beira mar. A mais triste por isso? A mais melancólica, será? Ela não sabia o que sentia. Quando soube, era tarde.
— É a minha predileta! — Ele sorriu quente pra ela. Como um sol particular. Só seu? Ela não sabia dizer. — Aqui à noite é lindo, Asuka. Você ia gostar, juro que ia. Quer vir aqui à noite, comigo?
Ela o esquadrinhou de cima a baixo. Lindo, alto, louro. Seu? Será?
Já tomaram banho juntos uma vez. Como irmãos. Como seria agora? Como...
— Que está pensando? Não me respondeu, por quê?
— Gosto do dia. – ela responde – É mais bonito, não acha? — Akira lhe deu devagar mais um sorriso quente. Depois balançou em negativa a cabeça.
— Não, não gosto! Prefiro a noite. — Asuka o fitou interrogativa. O que ele queria dizer?
— Como assim, a noite? Por quê? — Aquilo era um fora, será? Ele apontou para o mar, depois para o céu. Nuvens de algodão sorriam para eles. Com escárnio. — O que você queria me mostrar?
— Ali, veja. Gaivotas! – lindas e imprecisas num céu borrado de nuvens. Mas lá estavam elas.
— Você gosta, né? Só que você não pode ver as gaivotas à noite, Akira. Só o som, e fica tão triste. — Uma gaivota voou sobre eles. Longe e indiferente.
— Não, não é triste. Acho bonita a noite. Sinto como se a praia fosse um mundo, e o mar, o negrume infinito. O último escuro. Gosto disso. É como se perder, sabe?
Perder...
Ele estava de costas para ela. Asuka estendeu a mão. Teve vontade de tocar em sua camisa branca, como a alma do dono. Mas não fez, não teve coragem. Ia ser uma declaração, não ia?
— Vem à noite comigo, Asuka?
— Não posso... Não vão deixar.
— Eu vou te esperar, okay. Quero te falar uma coisa. É importante.
— Por que não aqui, de dia, e agora?
— O dia não me dá clima. Ele me aborrece. — O vento sopra as bolhas do aro de sabão, eles sorriram. Mas eram sorrisos que se tocavam tristes.
— Ainda vou ver você mudando de opinião sobre o dia! Ah, se vou! – Asuka apontou um dedo para ele – E vou forçar você a soprar bolhas de sabão na praia!
— E ainda soltando aquelas bolhas? Nunca!
— Mas ficam tão lindas com o sol! Você sabe! — Ele a fitou triste. Sorriu.
— Elas também ficam bonitas à noite, Asuka, juro. A luz da lua lhes dá um aspecto prata. Como luz néon. Você vem?
— Não sei...
Asuka olhou para as suas sombras no chão e sorriu. As mãos das sombras davam, na posição que estavam, a impressão de que se tocavam tímidas. Ela apertou mais aquela mão.
— Vou te esperar, Okay. – disse Akira.
O vento suspirou lamentoso jogando quente o som das gaivotas que prenunciavam despedidas.
— Tá.
Noite.
Ela não foi. Não teve coragem.
Medo dos pais, da sociedade, de ser rejeitada, ou pior, ser só usada como disse a mãe, e nada mais. Será que ele faria isso? Tantos fazem!
Passaram-se os três dias. No fim do último dia, em um acesso de arrependimento e amor profundo, Asuka foi à noite no jardim. Lá, só encontrou a lua, o mar e, jogado triste num banco, um aro para bolhas.
Passaram-se os anos.
Ela se formou. Trabalhou. Os pais morreram, cada um dando-lhe um beijo de adeus e desculpa. Asuka casou-se tarde. Teve um filho. Deu-lhe o nome de Akira. O marido nunca soube o porquê. Mas ela nunca amou o marido, que a amou mais que a vida, até morrer.
Asuka, viúva, já velha, recordava com constância a infância. O Akira da sua infância era uma bolha em sua mente. Só dela. Era lá que ela recordava o sorriso quente dele. Só dela.
— Mãe? — Akira esperou a mãe sair do transe. Devagar e piscado, ela despertava.
— Oi, meu amor. Que foi? — Notou que seu filho não estava só em sua sala. Não, bem ali, ao lado dele, estava uma versão feminina e muito bonita de seu amor da infância. Seu Akira.
— Meu Deus... — Ela levantou-se devagar, trêmula, lágrimas presas por anos afogaram seus olhos. — É você, não é? — Os jovens não entenderam, mas a dor da idosa os fez chorar também, sem saber, lágrimas silenciosas. Asuka desculpou-se, pediu para que sentassem e contou a história. Parte por parte. Arrependimento por arrependimento. Cortando em fatias curtas a sua dor.
— Essa é a mesma história que meu pai me contou – diz a jovem Asuka –, mas de outro ângulo. Meu Deus... Então era a senhora que ele...
— Nossa, mãe, não sabia dessa história. Que triste...
— Não me arrependo de ter tido você, meu filho.
— Eu sei, sempre soube.
— Qual seu nome, menina? — Asuka a abraçou e ao filho. Não o via há quase seis meses. Estava em Tokyo formando-se.
— O mesmo nome que o seu, mãe, o nome é Asuka. Já te disse por telefone, lembra? Como o seu. — Ela não lembrava. — Vamos nos casar. – ele completa.
— Não lembrava, Meu Deus, me desculpe eu... Não lembrava mesmo.
— Que coincidência extraordinária! — Disse a jovem. Meu pai me deu esse nome em sua homenagem, não foi?
— Como ele está, digo, ele... E sua mãe? — A menina sorriu triste. O mesmo sorriso do pai. Quente.
— Não o conheço direito, senhora, só conversávamos quando eu era criança, desculpe. Ele teve um colapso nervoso quando eu tinha dez anos. Não lembro dos dias felizes. Me desculpe.
A dor dançou feliz na sala de mãos dadas com o silêncio. Só os dois. Por cinco minutos.
— Eu lamento, filha, de verdade. Ele... Ama você, tenho certeza!
— A mim? Não sei... Ele nunca amou minha mãe.
— Onde ele está agora, depois do colapso? Você pode...
— Sim, senhora, eu posso te levar lá. Mas só à noite... Você vai? — O coração de Asuka deu um salto. A mesma pergunta. Na mente de Dela tudo se repete: Você vem, à noite?
— Desta vez eu vou. Desta vez... Eu vou! — Os jovens entreolharam-se. Não disseram nada.
— Onde ele está?
— Aqui mesmo, na cidade. — Diz a jovem — Faz um ano. Um casal contratado cuida dele. Ele só fica calmo aqui. Só aqui.
Noite.
A praia à noite era calma. Areia pálida, canto murmurado de gaivota. As nuvens negras atropelavam-se e escondiam, ciumentas, a lua cheia.
O jardim parecia o mesmo. Intocado. Preso na indecisão do tempo. Akira estava sentado em um banco de frente para o mar escuro. O mesmo banco. Atento, velho, lindo ainda. Com um aro de bolhas na mão, soprando-as. As bolhas percorriam o ar como prata viva e desciam macias em Asuka.
— Oi, Akira. Lembra... de mim? — Ele a olhou indiferente, como se não estivesse ali. Voltou a fitar o mar. Asuka sentou no banco, perto dele.
— O mar é lindo à noite, – ela disse – você tinha razão. — O som lamentoso de uma gaivota passou voando por eles. Só o som.
— Não, não tenho. Gosto mais de dia. Posso ver as gaivotas e as bolhas ficam mais bonitas. Como ela...
— O que você faz aqui então, meu querido? Está frio, você pode se resfriar.
— Estou esperado. Marquei um encontro aqui. Faz tempo.
As lágrimas queimaram Asuka, desceram finas até o queixo e de lá, desoladas, pularam em seu colo. Ela não desgrudava os olhos dele. Nem ele do mar.
— Estou aqui, Akira, eu.. eu vim... Vê? Criei coragem. — Lágrimas, como prata fosca na noite. — Eu vim...
Ele a ignorou. Olhos fitos no nada escuro que era o mar.
— Quando ela chegar... Quero dizer a verdade. Mas só se ela confiar em mim. Só se vier.
— O quê? Que verdade?
— Eu a amo, sempre amei. Ah, nem sei se serei rejeitado! Mas, vou tentar.
— E se... E se ela disser que o ama?
— Eu a levo comigo. Já está tudo arrumado. Se ela quiser...
A dor espremeu o coração de Asuka com maldade. Um nó doía na garganta.
— Ah, Akira! Eu quero... Eu quero, sim! — As lágrimas já eram ácido em sua face. A desfiguravam em arrependimento.
— É só ela, senhora, me desculpe, não amo mais ninguém, me desculpe. Ela tinha razão.
— Em que, meu amor?
— A praia, o jardim. Tudo é mais bonito de dia. Mas é à noite que eu a espero, à noite. Você também gosta do dia, senhora? Gosta de ver as gaivotas? — Ela soluçou por um instante. Tirou um lenço da bolsa e enxugou as lágrimas.
— Não, não gosto. — Asuka aproximou-se dele. Beijou-o demoradamente na testa. Tocou em sua camisa com o desejo da infância.
— Por quê? – Akira perguntou.
Fitaram-se. Asuka se viu nova de novo. Duas crianças de treze anos. Para sempre na dor, parados em um relógio de areia.
— Acho mais bonito à noite. Sinto como se a praia fosse o mundo, e o mar, o negrume infinito. O último escuro. Onde tudo se perde...
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