Notas iniciais
Boa leitura!

Natsu acordou assustado com o grito da garota. Ao acordar, por culpa do sono não se lembrou de imediato os detalhes da noite anterior. Correu até a cozinha imediatamente.

― O que foi? Viu uma foto minha e me chamou para ver pessoalmente esta obra de arte?

Lucy o olhou incrédulo, perguntando-se como ele podia ser tão idiota até mesmo segundos depois de acordar. Apontou para a porta sem maçaneta, esperando que o cérebro do garoto conseguisse ao menos associar os fatos.

― Isso, Natsu. O que significa isso?

― Ah, isso? ― disse, colocando a mão atrás da cabeça e se fazendo de desentendido ― Isso foi sua culpa por ter trancado a porta enquanto eu ainda não havia chego. Queria que eu fizesse o que? Dormisse no corredor?

― E por que não levou uma chave?!

― Minha mente se preocupa com outras coisas. Não sobra espaço para me lembrar desses detalhes fúteis. ― comentou enquanto caminhava até o sofá, tentando inverter a situação.

― Detalhes fúteis? E desde quando ficar trancado para fora de casa é um detalhe?

― É só chamar um chaveiro. Pra quê tanto estresse, Lucy? Você paga, a porta fica consertada, simples.

― Por que eu tenho que pagar se foi você quem quebrou a porta?

― Porque foi você quem a deixou trancada.

Lucy optou por não prolongar a discussão. Tentar argumentar com Natsu era como discutir com uma porta. E uma porta sem maçaneta.

― Sabe, Natsu, não existem palavras suficientes para descrever o quanto eu te odeio.

― Eu sei, você faz questão de deixar isso bem claro todas as vezes em que eu falo com você.

― E você continua insistindo.

― Eu sou bem persistente, nunca desisto quando quero muito alguma coisa. ― O rosado lhe lançou um sorriso acompanhado de uma indireta. Sua frase poderia ser traduzida como “Não vou desistir de você”. ― O que tem para o café da manha?

― Não sei, isso é problema seu. Essa discussão me fez perder tempo, vou comer algo na escola.

― E eu? ― perguntou com cara de cão abandonado, pidão.

― Acha mesmo que eu me importo com o que você vai fazer? Eu vou me arrumar, não quero me atrasar.

― Não vou deixar você ir sozinha, então estou indo me arrumar também. ― disse, se levantando de imediato.

Em quinze minutos ambos estavam prontos para sair. Natsu esperava Lucy sentado no sofá da sala. Quando ela finalmente saiu do quarto, e ia em direção à porta, sem prestar atenção no rosado, ele se levantou e a seguiu.

― Ei, Lucy.

― O que foi?

― Eu não pensei em uma coisa.

― Sério? Que novidade não é mesmo? ― respondeu, com sarcasmo expresso na voz. Natsu o ignorou, entretanto.

― Como nos vamos fechar a porta?

― Foi você quem quebrou a maçaneta, pense em alguma coisa logo ou vamos nos atrasar.

Natsu parou, olhando para a porta como se esperasse que ela fosse lhe dar a resposta. De repente pareceu ter tido uma ideia, porém não a contou para Lucy, apenas a pôs em prática. Desceu as escadas, pediu uma corda ao síndico e voltou. Uma ponta ele amarrou na janela, passou a corda pelo buraco da maçaneta e amarrou a outra ponta na escada. Lucy apenas observava enquanto ele fazia tudo. Não demorou nem dez minutos para que sua “forma de segurança improvisada” ficasse pronta.

― Pronto ― disse sorrindo, orgulhoso de seu trabalho. Lucy suspirou, perguntando-se se havia feito algo de tão errado a ponto de merecer um idiota como Natsu em sua vida.

Estavam quase atrasados. O caminho para a escola não era longo, mesmo assim precisariam se apressar. Lucy caminhava à frente, sem dizer uma palavra, enquanto Natsu a seguia, observando o caminho.

Quando chegaram ao colégio, Levy os esperava na entrada.

― Bom dia, Levy-chan.

― Bom dia, Lu-chan. ― retribuiu o cumprimento.

Não tiveram muito tempo para conversar, pois logo as aulas se iniciaram e tiveram que ir para as suas salas correspondentes. Natsu parecia viajar a aula inteira, perdido em algum outro mundo dentro de sua mente. Sua distração não passou despercebida por Lucy. A loira se perguntava como ele conseguia se manter naquela escola, afinal, mesmo que tivesse uma bolsa era necessário tirar boas notas.

No horário de almoço, Lucy comeu algo rápido, pegou um livro qualquer e se deitou em um banco atrás da escola. Gostava daquele lugar, pois, mesmo sendo próximo da quadra e portanto ser um local barulhento, era possível observar o céu dali.

Estava distraída lendo seu livro quando uma voz desconhecida chamou sua atenção.

― Lucy, não é?

A loira ergueu o olhar. A voz pertencia a um garoto de ruivo, de óculos.

― Sim. E você é...?

― Léo, mas pode me chamar de Loke. ― Loke se sentou no chão, com as costas encostadas no banco. ― Queria ter falado com você antes, mas não tive a oportunidade.

― Por que queria falar comigo?

– Não sei, queria te conhecer, é a garota nova. ― Lucy murmurou um “hum” em resposta. ― Então, você gosta de ler?

― Sim. Meu sonho é um dia ter um livro publicado.

― Eu vou querer ler seus livros. ― Loke comentou, sorrindo.

― Eu te aviso quando estiverem prontos. ― a garota respondeu de forma simpática.

― Vou esperar, Lucy. ― Loke lhe lançou uma piscadela. ― Você parece ser próxima do Dragneel.

― Aquele idiota? Eu tenho que dividir o apartamento com ele. Por obrigação, não por vontade própria.

― Tome cuidado com ele para não se machucar. Ele é um idiota egocêntrico que só pensa em si mesmo.

Já era a segunda pessoa que lhe dizia para tomar cuidado com Natsu Dragneel. E contando. Ou aquele garoto era muito ruim, ou sua fama era péssima.

― Eu sei disso, não se preocupe.

Enquanto os dois conversavam, Natsu se aproximava. Provavelmente vinha da quadra, já que estava suado e não vestia a camisa, que era trazida carregada no ombro.

― Ei, Loke, estão te chamando para se juntar ao time ― Natsu gritou, ainda distante dos dois.

― Certo, já estou indo. ― o ruivo se levantou de forma preguiçosa. ― Lucy, se precisar de mim para qualquer coisa é só falar, sempre que precisar eu irei te ajudar.

Lucy sorriu. Gostara daquele garoto, Loke.

― Obrigada, Loke.

― Te vejo mais tarde ― Se despediu de Lucy e correu até a quadra. No caminho, gritou para Natsu. ― Você não vem?

― Eu já estou indo.

O rosado deu alguns passos a frente, parando em pé ao lado do banco em que Lucy descansava.

― Você não tem que ir? ― Ela perguntou.

― Não, ficar aqui é bem mais interessante. Então, você estava conversando com o Loke, não é?

― Sim. Por que? Ele é legal, bonito, boa companhia, ao contrário de você.

Natsu repentinamente apoiou o pé e a mão esquerdos em cima do banco, ao lado do corpo de Lucy, ficando em cima dela e muito próximo de seu rosto, ação que a constrangeu.

― Então você prefere aquele magrelo de óculos ao invés disso?

― Exatamente. ― respondeu com convicção.

― Ah, qual é Lucy, admita que você gosta de mim. Mesmo que só um pouco, eu sei que você gosta.

A garota olhou profundamente nos olhos de Natsu. Sua feição séria denunciava que não estava brincando em suas falas.

― Eu não sei de onde você tirou isso, mas pode, por favor, sair de cima de mim? Você está fedendo.

― E se eu disser que não? O que você vai fazer? ― ele a desafiou.

― Vou gritar. Ou te bater. Ou os dois.

― Você não vai fazer isso

― Quer correr o risco? ― Dessa vez ela quem o desafiou. Estava enfrentando o perigo de cara. Literalmente.

― Prefiro correr um risco melhor e ver qual será sua reação ― O rosado ameaçou. Aproximou seu rosto do de Lucy alguns centímetros.

― Não ouse fazer isso.

― Acho que vou correr os riscos

Natsu aproximava ainda mais seu rosto de Lucy, quase encostando seus lábios nos dela, para desespero da loira. Não havia como fugir, ele bloqueava todas as saídas possíveis. O máximo que poderia fazer seria desviar o rosto para que o beijo atingisse apenas sua bochecha. Para sua sorte, uma voz os interrompeu.

― Posso saber o que os dois estão fazendo?! ― A voz pertencia a uma das professoras, Aquarius, o que significava que os dois estavam bem encrencados. Natsu imediatamente saltou de cima de Lucy.

― Eu posso explicar ― disse em sua defesa.

― Vista sua camisa, senhor Dragneel. Os dois para minha sala, agora.

O resultado da pequena travessura de Dragneel foi uma bela retenção. Ambos, ele e Lucy, seriam obrigados a permanecer no colégio até mais tarde. Ficariam responsáveis pela limpeza da sala B17.

O restante das aulas se passou normalmente, com Lucy querendo matar Natsu mais do que o normal, enquanto o rosado não deixava de provocar a loira. Quando o sinal tocou todos os alunos foram embora, menos Natsu e Lucy. Ela se recusava a olhar ou falar com ele, tamanha era a raiva que sentia.

― Ei, Lucy.

― O que você quer? ― Perguntou de forma grossa.

― Me desculpe por hoje mais cedo.

Lucy o olhou com a surpresa expressa no olhar. Nunca esperaria um pedido de desculpas vindo de Natsu.

― Por que está se desculpando? Geralmente não se desculparia.

― Porque eu passei dos limites, fui muito idiota. Você aceita minhas desculpas?

A garota ponderou por um momento. Era realmente estranho vê-lo pedindo desculpas.

― Tudo bem, está desculpado.

― Mas você gosta um pouco de mim, não é? Mesmo que seja só um pouco. –queria verdadeiramente ouvir um sim. Natsu com aquela expressão pidonha se parecia com uma criança. Naquele momento a loira por um segundo sentiu uma pitada de pena.

― Não, nem um pouco.

― Tem certeza?

― Absoluta

― Eu ainda vou fazer você mudar de opinião. ― prometeu a si mesmo.

― Duvido que consiga, a não ser que renasça como um novo Natsu exatamente o oposto do atual.

Natsu não respondeu. O silêncio se estabeleceu na sala por um bom tempo.

― O zelador está demorando. ― o rosado comentou.

― Está mesmo.

― Acha que ele foi embora e esqueceu que tinha que deixar os materiais aqui?

― Provavelmente, já faz um bom tempo que estamos aqui.

― Vamos embora ― Natsu sugeriu. ―, amanhã explicamos para a Aquarius o porquê de não termos limpado a sala.

―Espera, Natsu ― Lucy se levantou ― Está sentindo cheiro de fumaça?

― Agora que você falou... será que tem alguma coisa pegando fogo?

― Não sei, vamos ver.

Os dois foram até a saída da sala e abriram a porta, motivados pela curiosidade e instinto. Havia muita fumaça no corredor, com a sala fechada não haviam percebido antes, mas a escola estava pegando fogo.

― O que está acontecendo? ― Natsu perguntou.

― Não sei, mas não vou ficar aqui para ver. Vamos procurar uma saída.

Começaram a procurar por algum lugar, mas as escadas estavam bloqueadas. O primeiro andar já estava tomado pelo fogo. Assim que Natsu percebeu ficou paralisado pelo medo. Lucy olhou-o, percebendo o pavor que o tomava. Novamente as lembranças do incêndio que matou seus pais tomaram sua mente.

Ele continuava parado. Estava com muito medo, não exatamente por ele, pois sabia que poderia sair dali facilmente, o fogo não o queimava, mas Lucy estava ali, ela sim se queimava com fogo, e ele não sairia sem ela, mas tinha medo que tudo se repetisse, de perder uma pessoa que gostava novamente por causa do fogo.

Espantou os pensamentos de sua mente e voltou a si. Enxugou o rosto e abraçou Lucy o mais forte que podia, surpreendendo a loira, que não esperava essa reação dele. Ele não iria deixar que o seu passado se repetisse. Iria salvar Lucy não importando o que tivesse que fazer. Não iria suportar perder sua amiga, tinha que arranjar um jeito de superar o passado, e salvar a única pessoa com quem realmente se importava. Por mais que não admitisse.