Onde Tem Ódio Tem Amor
20 Quase...
Notas iniciais
― Lisanna?
― É, ela não para de perguntar sobre você, cara. Escute, eu não vou mais te dar cobertura. Se não está mais a fim de vê-la, dê um jeito nisso você. Cansei de dar desculpas para que você não se dê mal.
― Não é que eu não esteja mais a fim. Eu não sei, só não estou com vontade ultimamente. ― o rosado suspirou. Não conseguia entender o que havia de errado. Lisanna era louca por ele, nem sequer precisava se esforçar para tê-la, mas ainda assim não conseguia mais sentir-se interessado. Levou a mão até a testa e pressionou o local, como se aquilo fosse ajudá-lo a pensar. ― Qual é Gray, preciso da sua ajuda.
― Já faz um mês desde que a viu pela última vez, ela está me enlouquecendo. E por que não diz isso a ela? Não diz você mesmo, honestamente?
― Me ajude só por mais um tempo, depois decido o que fazer.
― E o que eu ganho se te ajudar?
― Minha eterna gratidão?
―Como se sua gratidão valesse alguma coisa. ― Gray murmurou. ― Sério, Natsu, o que eu ganho?
― Tudo bem, eu fico te devendo um favor, qualquer coisa que me pedir eu faço, só aguente por mais... duas semanas, ok? Depois dou um jeito nisso.
― Certo, duas semanas! Apenas isso! E é melhor que não volte atrás com suas palavras depois.
― Fique tranquilo, eu não vou.
― E você não se esqueceu de que semana que vem recomeçam os treinos de Rúgbi, não é? Temos que vencer o campeonato esse ano.
― Eu não esqueci. Até mais, olhos caídos.
Lisanna, prima de Gray, a garota mais insistente que Natsu já conhecera em toda sua vida. Também fora um dos relacionamentos mais duradouros que teve. Durou até muito pouco antes de conhecer Lucy. Algumas vezes ainda saíam juntos, por insistência da albina, não por vontade de Natsu. A última vez fora um mês atrás, poucos dias depois do garoto ter voltado da curta viagem para Nagoya, após ter se recuperado do resfriado; e desde então Lisanna insistia em querer vê-lo novamente, enchia Gray de perguntas sobre o rosado e pedia ao primo que dissesse ao amigo para encontrá-la.
― Lisanna não é sua namorada? ― Lucy perguntou da cozinha do pequeno apartamento, enquanto preparava chá quente para si. Prestara um pouco de atenção na conversa entre Gray e Natsu e ficara curiosa sobre a tal garota, apesar de ter visto a albina pouquíssimas vezes.
― Namorada? Quem foi que disse isso a você?
― Levy, no primeiro dia de aula.
― Então ela te contou uma mentira. Levy não me conhece tão bem para dizer coisas assim. ― disse, jogando o celular em cima da mesa de centro da sala sem o menor cuidado e sentando-se confortavelmente no sofá.
― Acho que o mentiroso é você. Eu me lembro de ter te visto junto com ela algumas vezes.
― Não estou mentindo, nós terminamos há um bom tempo.
― Por que será que não consigo acreditar em você? Ah, é mesmo, porque você é um mentiroso, chantagista e sem escrúpulos. Não se pode acreditar em pessoas assim.
― Ei! ― exclamou, tomando uma posição mais séria. ― Não sou esse canalha que você imagina que eu seja.
― Bem, eu me lembro bem do dia em que cheguei àquela escola. Você distribuía cantadas entre quase todas as garotas que se aproximavam. Um perfeito galinha. E se disse que ainda estava com Lisanna naqueles tempos... Acredito que seja o suficiente para te caracterizar como um canalha.
― Acha mesmo que aquilo era sério? ― riu, relaxando outra vez. ― Eu conheço aquelas garotas há muito tempo, eram apenas brincadeiras. E elas sabiam bem disso.
― E a Lisanna? Ainda se encontra com ela às vezes, não é? Por que não a dispensa de uma vez ao invés de lhe dar falsas esperanças?
― Fácil falar. Se você a conhecesse... Não sou eu quem dá falsas esperanças a ela. É ela quem se dá. E eu já disse que não estou a fim de um relacionamento sério, não com ela. E disse também... ― no exato momento em que Lucy passava em frente ao rosado para se sentar na cadeira paralela ao sofá, ele a puxou, fazendo-a perder o equilíbrio e se sentar no colo de Natsu ― Que no momento estou interessado em uma garota muito mais bonita.
― Te dou três segundos para me soltar, caso contrário jogo todo esse chá quente em você. Acredito que não será nem um pouco agradável.
― Tudo bem, estressadinha. ― defendeu-se erguendo as mãos em sinal de rendição.
O galanteio de Natsu jamais a comprariam. Podiam fazer a maior parte das garotas se derreterem aos seus pés, mas não surtiriam o mesmo efeito nela, não deixaria com que isso acontecesse, não com ela que já conhecia muito bem os perigos de se envolver com um homem como Natsu. Ou pelo menos, se envolver com o tipo de homem que via nele.
Mesmo após um mês e meio de convivência, e após terem se tornado praticamente amigos, algumas vezes tinham pequenas discussões envolvendo o jeito do garoto. Para ele, nem Lisanna, nem outra garota interessava, apenas uma invadia sua mente todos os dias. Já Lucy era um caso à parte. Parecia cada vez mais tentar tomar o lugar daquela garota, porém ele não permitiria, o que sentia era mais forte. Surgiu em apenas um dia, muito menos tempo do que demorou para que Lucy começasse a perturbá-lo, mas fora mais forte do que qualquer outra coisa que já sentira, e mesmo após passados alguns anos, sentia aquele sentimento com a mesma intensidade.
― Paz? ― perguntou o rosado.
― Tudo bem. Paz. ― Lucy concordou, bebendo um pouco do chá. Menta com hortelã, seu sabor favorito.
― Legal ― disse sorrindo ―. Lucy, mudando de assunto, o que acha de sairmos hoje?
― Sairmos? Para onde?
― Não sei, qualquer lugar. É muito chato ficar aqui. Que tal o shopping? Podemos almoçar lá, ou assistir a algum filme. Já terminou os seus “estudos diários”? ― caçoou.
― Já, e você deveria passar a estudar também, adiantar a matéria. Quando as aulas voltarem será muito pior.
― Lucy, isso é quase como férias. Não se estuda nas férias.
― Sinceramente, não sei como consegue manter suas médias. Certo, vamos ao shopping então.
― Certo. Você tem quinze minutos para se arrumar. É tempo suficiente para o táxi chegar aqui. ― avisou-a, levantando-se e já discando o número do serviço de táxi no celular.
― Nenhuma mulher consegue se arrumar em quinze minutos, Natsu.
― Em muito menos tempo você consegue ficar muito mais linda do que a maior parte das mulheres. ― insistência com certeza formava uma das características do rosado. Não importava quantos “nãos” recebesse, sempre estava pronto para receber um “sim”.
― Não vai funcionar.
― Dizem que o importante é ser persistente e nunca perder a esperança, não é?
Sorriu abertamente com a expressão de descrença no rosto de Lucy. Sabia que na mente dela naquela momento passava-se a mesma pergunta de sempre: “qual o problema desse cara?”. E jurou para si mesmo que um dia ainda a teria.
(...)
Mesmo tendo que se arrumar com um pouco de presa, Natsu tinha razão. Em quinze minutos Lucy conseguiu um ótimo resultado em seu visual, usando uma blusa de lã azul simples e calça jeans escura, além da maquiagem leve.
Natsu já a esperava na sala quando saiu do quarto. O rosado vestia camisa social preta aberta por cima de uma camiseta branca e, assim como Lucy, calça jeans.
― Está atrasada. ― disparou assim que viu Lucy, após conferir as horas no relógio da parede. Um dos ponteiros no número 12, o outro no 5, marcando meio-dia e vinte e cinco.
― Só cinco minutos.
― Cinco minutos são suficientes para fazer uma guerra eclodir, sabia?
― Não enche, Natsu. Vamos logo, eu estou com fome.
(...)
Fazia frio no dia em questão. As nuvens escuras no céu anunciavam que não demoraria muito para uma forte chuva se iniciar. Não fazia muita diferença para os dois jovens, entretanto. Na verdade, Lucy até preferia o frio. Já para Natsu não importava, o calor não o incomodava, e não sentia frio em temperaturas baixas, a não ser que estivessem realmente muito baixas.
A entrada do Shopping Center de Magnólia, enfeitada com as cores que representavam o inverno, condizia com o clima e proporcionava um aspecto agradável ao lugar, ressaltando ainda mais as características daquele período do ano, muito apreciado pelos casais, o que não era exatamente o caso de Natsu e Lucy, já que não eram um casal. Por mais que o desejo de certo rosado fosse outro.
― Não sabia que você jogava Rúgbi. ― Lucy comentou enquanto passavam pela porta automática. Dento do estabelecimento estava quente, uma temperatura muito agradável, ao contrário das ruas geladas.
― Como você acha que consegui entrar para a Fairy Tail? Eu, Gray e Gajeel fazemos parte do time do colégio. Os treinos haviam parado no ano passado, e com o incêndio o retorno acabou sendo adiado.
― Agora muita coisa faz sentido.
― Como assim? ― perguntou o rosado, confuso.
― É um esporte que envolve muito contato físico, os tombos devem ter prejudicado seu cérebro. ― sorriu com ironia.
― Muito engraçado, Lucy. ― retrucou sarcasticamente. Sarcasmo era algo muito utilizado por Natsu. ― O que fazemos primeiro?
― O que acha de comprarmos os ingressos do filme que iremos assistir, seja qual for, e depois almoçarmos?
― Tudo bem, e que filme iremos ver?
Programação decidida, a parte mais fácil resolvida. A segunda questão, por outro lado...
(...)
― Qual é Lucy?! Eu não quero ver uma comédia romântica!
― E eu não quero ver um filme de ação! Irei dormir a sessão inteira!
Em frente aos cartazes de exibição, os dois jovens começaram uma discussão. As opiniões divergentes demais não os permitiam entrar em nenhum consenso. Eram como polos iguais de um imã, em alguns momentos. E aquele definitivamente era um desses momentos.
― Certo, vamos decidir isso de maneira justa! ― Exclamou, erguendo o punho fechado.
― O que é isso?
― Jo-ken-pô. Melhor de três. Quem vencer escolhe o filme.
― Escolheu o jogo errado, flamingo. Saiba que eu já fui campeã em um campeonato de jo-ken-pô. ― gabou-se, também erguendo o punho.
― Veremos.
Primeira rodada: Lucy – Pedra, Natsu – Papel.
Natsu 1 x 0 Lucy
― Sabe, eu nunca entendi porque papel ganha de pedra. Como um papel ganharia de uma pedra? Com um abraço? ― comentou Lucy.
― Não faço ideia, mas são as regras.
Segunda rodada: Lucy – Tesoura, Natsu – Papel.
Natsu 1 x 1 Lucy
― Empatado. Agora é tudo ou nada.
A competitividade dos dois chamava a atenção das pessoas que passavam ao redor. Direcionavam seus olhares a eles, algumas rindo, outras tentando descobrir qual era o problema daqueles dois jovens.
Terceira rodada: Lucy – Pedra, Natsu – Tesoura.
Resultado final: Natsu 1 x 2 Lucy.
― Pedra quebra tesoura, parece que eu ganhei ― a loira comentou com um sorriso vitorioso no rosto.
― Não me culpe se eu dormir no meio do filme.
― Não se preocupe, faço questão de te acordar caso isso aconteça. Agora vamos almoçar, estou morrendo de fome.
Escolheram comer em uma lanchonete próxima ao cinema. O filme começaria em duas horas e já haviam comprado os ingressos. Tratava-se de uma comédia romântica que estava fazendo muito sucesso em todo o país. Clichê, porém muito adorado por jovens e adultos de todas as idades, a grande maioria pertencente ao público feminino.
Não demoraram muito a comer. Pediram os mesmos lanches, e em uma hora já não havia mais nem uma migalha sequer na mesa. Restava ainda uma hora livre antes do início do filme.
― Sabe que ainda dá tempo de trocar os ingressos, não é? ― tentou argumentar Natsu.
― Esqueça. Foi um jogo justo. Eu ganhei, você perdeu.
Natsu bufou, não estava nem um pouco a fim de assistir aquele filme. Não era muito fã de comédias românticas, muito menos as clichês, como aquela que Lucy desejava ver.
― Comemos muito rápido, ainda resta uma hora. ― O rosado comentou, se esparramando na cadeira da lanchonete.
― Levamos uma hora comendo, não comemos rápido, aliás, era impossível comer mais devagar. Mas o que vamos fazer nesse tempo livre?
O rosado olhou para o teto, observando detalhadamente os tubos de ar condicionado, enquanto tentava ter alguma ideia. Algo lhe veio à cabeça, só não sabia se Lucy concordaria.
― Eu tenho uma ideia ― exclamou, sentando-se ereto na cadeira novamente.
― Natsu, se for alguma besteira...
― Não é, mas precisamos de uma caneta. Tem alguma aí?
Lucy checou os bolsos de sua bolsa, a procura do objeto pedido pelo rosado. Conseguiu encontrar uma velha caneta, que nem mais funcionava, não sabia nem o porquê de ainda guardá-la, mas mesmo assim entregou ao rosado.
― Certo. Olhe, o lado da tampa é o de quem pergunta, e o lado oposto, de quem responde. ― explicou, colocando a caneta no centro da mesa vazia.
― Espere, você quer jogar verdade ou desafio?
― Só verdade, na verdade. Não daria certo incluir desafio aqui. Qualquer pergunta é válida. Eu começo.
Natsu girou a caneta. A tampa parou virada para Lucy, sendo assim ela faria uma pergunta, e ele teria que responder.
― Deixe-me pensar um pouco... Tudo bem, com quantas garotas você já ficou?
― Por que está interessada em saber isso? ― interrogou desconfiado.
― Você disse que qualquer pergunta é válida, e essa foi a única que consegui pensar com relação a você.
― O que? Parece que pra você minha vida gira em torno disso. ― bufou. ― Mas tem razão, eu disse qualquer pergunta. Apenas ficar, não sei quantas foram, mas tive apenas três namoradas, relacionamentos sérios... e também uma exceção.
― Exceção? Como assim? ― a curiosidade lhe venceu facilmente e não resistiu à pergunta.
― Isso não interessa a você. E as regras compõem-se de uma pergunta por rodada. É a minha vez.
O resultado foi o oposto na vez de Natsu girar a caneta. A ponta com tampa parou virada para o rosado. Um sorriso brotou nos lábios do garoto, e nesse exato momento Lucy pensou que coisa boa não viria dali.
― Como você classificaria nosso relacionamento? ― disparou.
― Como assim? ― perguntou sem entender a pergunta do garoto.
― Como você classificaria.
― Como... amizade? ― respondeu, um tanto duvidosa quanto à resposta.
― Então você me considera seu amigo? ― gostaria de confirmar o que seus ouvidos ouviam, apenas para não restar dúvida.
― Uma pergunta por vez, Natsu. Não são essas as regras? ― sempre é possível utilizar a fala de seu adversário à seu favor, e fora o que Lucy fizera. ― Mas tudo bem. vou responder essa. Sim, eu já te disse isso, considero seu jeito completamente irritante, mas você é um amigo, de certa forma. Minha vez novamente.
A caneta outra favoreceu ao rosado, dando-lhe o direito a uma pergunta. Ele sorriu para sua sorte.
― Parece que estou com um dia bom. Agora é sua vez, Lucy. Com quantos caras já ficou?
― Apenas um. ― respondeu. De repente o olhar de Lucy se tornou triste. Antigas lembranças começaram a remoer em sua mente, coisas que odiava se lembrar, mas que não conseguia impedir. Seu mal estar não passou despercebido por Natsu
― Lucy, está bem? Ficou estranha de repente. Sabe, se estiver com vergonha por ter ficado com apenas um cara, está sendo boba.
― Não, não é isso. Eu estou bem, mas podemos já ir até a fila? Ainda temos que comprar a pipoca.
― Tudo bem. ― concordou, ainda que preocupado. Talvez não devesse ter feito aquela pergunta, mas não tinha culpa. Não sabia que ela a incomodaria.
(...)
O filme ajudou a retirar as lembranças da mente de Lucy. Saiu da sala do cinema rindo, mas não do filme. De Natsu. O garoto não queria admitir de forma alguma, mas havia gostado, rira mais do que ela durante a sessão. Era engraçado vê-lo daquela maneira. Pensara que ela não havia prestado atenção em suas risadas discretas, e estava envergonhado por perceber que o que aconteceu fora o contrário. Suas bochechas estavam levemente rosadas e tentava esconder o rosto, para que Lucy não visse. Era fofo, de certa forma.
O barulho da forte chuva que começara a cair podia ser ouvido de dentro do estabelecimento. Natsu e Lucy caminhavam em direção à saída do shopping, quase passando em frente à loja de instrumentos musicais. Já passava da hora de ir para casa.
― Admita, você gostou do filme, Natsu.
― Não, impressão sua. ― recusou veemente. Jamais admitiria. ― Aquele filme era muito sem graça.
― Sei.
― Ei, Lucy, olhe aquilo. ― disse, indo até a vitrine da loja de instrumentos musicais.
― O que? Os violões?
― Sim. Sabia que eu sei tocar?
― Você? Duvido.
“Músico” não fazia nem um pouco o estilo de Natsu, na mente de Lucy.
― É sério. Venha.
― Espere, você não espera que eles te deixam tocar, não é?
― Eu conheço a gerente dessa loja. É uma amiga antiga, aposto que ela permitirá.
Dentro da loja, o garoto imediatamente caminhou até a única funcionária ali presente, que arrumava alguns CDs nas prateleiras. Devia ter em média vinte e nove anos, cabelos pretos que iam até o ombro e um olhar amigável no rosto. Assim que viu o rosado, sorriu, reconhecendo-o de imediato.
― Natsu! Pensei que tivesse se mudado de Magnólia, há séculos não aparece por aqui.
― Andei meio ocupado. ― respondeu enquanto cumprimentava Sarah, a tal gerente. ― Ei, será que pode me emprestar um desses violões? Minha amiga aqui está duvidando que sei tocar.
Lucy apenas o observava de perto, duvidando que a funcionária fosse permitir.
― Isso depende, você ainda toca bem? Me lembro de quando vinha aqui e me ajudava com as vendas, atraindo clientes. Era muito bom naquela época.
― Sem querer me gabar, mas a prática se recusa a me abandonar.
Sarah riu, já acostumada a falta de humildade de Natsu.
― Faz um bom tempo desde a última vez. Faça pelos velhos tempos ― disse, pegando um dos violões expostos e entregando ao rosado, para surpresa de Lucy. ― Que música pretende tocar?
Sussurrou o nome da música no ouvido da moça. Não queria que Lucy escutasse suas pretensões. Faria daquilo uma surpresa para a loira.
― Posso te acompanhar no piano, se quiser, acho que ficaria ainda melhor.
― Seria ótimo. ― agradeceu.
Sarah se posicionou atrás do piano exposto, enquanto Natsu afinava as cordas do violão. Lucy continuava apenas observando, e algumas poucas pessoas já paravam em frente à loja, para ver o que ocorria ali. O garoto sentou-se em um pequeno banco encontrado no canto da loja e começou, apenas o som do violão e do piano no começo, mas logo em seguida sua voz também se juntou à música.
― Oh her eyes, her eyes; Make the stars look like they're not shining; Her hair, her hair; Falls perfectly without her trying. She's so beautiful; And I tell her every day… ♪
Lucy encarava-o surpresa. O garoto cantava mesmo muito bem, sem desafinar em nenhuma nota, por incrível que parecesse. Possuía os atributos que encantariam qualquer garota. Atleta, cantava e tocava muito bem e era lindo. Mas Lucy se recusava de todas as maneiras a se entregar a ele. Atributos como aquele não lhe conquistariam.
Aos poucos uma grande multidão foi atraída, curiosos tentando descobrir o que acontecia ali, e a quem pertencia aquela voz. Todos se reuniam dentro e fora da loja para ouvir Natsu cantando. Já ele, alternava seu olhar do violão para Lucy, como se cantasse aquela música para ela. De certa forma era, já que queria mostrar a ela seu dom musical, mas também em outro sentido, mesmo que nem ele mesmo soubesse.
Fora seu pai quem o ensinara a tocar, quando ainda era uma pequena criança. Certo que há muito tempo não tocava nada, e por isso até pensou ter perdido um pouco da prática, contrariando sua fala, mas era apenas impressão, já que continuava tocando muito bem.
― ... When I see your face; There's not a thing that I would change; Cause you're amazing; Just the way you are; And when you smile, The whole world stops and stares for awhile; Cause girl you're amazing; Just the way you are ♪
Terminou olhando para Lucy, com seu típico sorriso no rosto. Todos que assistiam bateram palmas e assoviaram. Realmente havia chamado muita atenção, metades das pessoas presentes no shopping se concentravam ali.
― Apareça por aqui, Natsu. ― comentou Sarah, sorrindo ao ver os possíveis clientes para sua loja. Pegou o violão de Natsu e lhe deu uma discreta piscadela.
― Obrigado. ― agradeceu sorrindo. ― Quem sabe. Então, Lucy, o que achou? ― perguntou. Afinal, a única opinião que realmente importava para ele naquele momento era a dela.
― Você canta mesmo bem. Nem preciso dizer isso, toda essa gente já diz.
― É sua namorada? ― Sarah perguntou. Um singelo sorriso surgiu no rosto do garoto com a ideia.
― Não, é apenas uma amiga.
(...)
Após alguns minutos, conseguiram sair da loja. Grande parte da multidão que se formou ali parava Natsu para elogiá-lo ou fazer algum comentário, e isso acabou por atrasá-los. Esperavam pelo táxi na saída do shopping, a chuva batia de leve nos dois, mas não incomodava.
― Por que as pessoas sempre pensam que somos um casal? ― Lucy perguntou.
― Não sei, acho que formamos um belo casal. ― os dois riram da possibilidade. Era impossível para ambos, por mais que desejável algumas vezes. ― Lucy, sabe, você é mesmo como a garota da música.
― Eu já disse que coisas desse tipo não irão funcionar, Natsu.
― Não, é sério. É um elogio sincero agora, eu juro. Não há segundas intenções escondidas. Você é mesmo muito linda, e incrível.
Ele delicadamente colocou uma mecha do cabelo de Lucy que recaía sobre sua bochecha para trás de sua orelha. Um choque percorreu o corpo de Lucy ao sentir os dedos frios do rosado encostarem em sua pele. Seu rosto imediatamente tomou uma coloração avermelhada e ela o virou para o lado tentando escondê-lo do garoto. Ele sorriu. Lucy ficava fofa tentando esconder-se. Repentinamente vontade quase que incontrolável de sentir o gosto dos lábios de Lucy o preencheu.
Por que ela fazia aquilo com ele? Ele não podia, havia prometido. Mas... Não conseguia evitar. Seu corpo se moveu automaticamente alguns poucos centímetros, aproximando-se mais. Queria parar, mas simplesmente não conseguia. Já Lucy não conseguia se mover, apenas olhava fixamente para os olhos de Natsu. Sua consciência havia sido totalmente tomada.
Porém, antes que qualquer coisa a mais acontecesse, ambos despertaram e voltaram a si, com o barulho do carro, que havia acabado de chegar e parado em frente aos dois.
― O-O táxi. ― disse Lucy, com o rosto muito corado. A situação de Natsu não era muito diferente, e raramente corava. Entraram no táxi sem dizer uma palavra, apenas pensando no que quase acabara de acontecer e sobre como aquilo seria errado se tivesse mesmo acontecido.
Ainda bem que fora apenas um “quase”.
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