Notas iniciais
E cá estou, novamente cortando um capítulo pela metade para não ficar tempo demais sem postar. Desculpa, gente ^-^' Bom, de qualquer forma, espero que gostem do capítulo : ) Boa leitura!

Nagoya, a maior cidade da região de Chubu no Japão, maior região metropolitana da província de Aichi e quarto centro urbano mais populoso do país com 2.266.249 habitantes. Considerado também o maior centro econômico da região central do Japão, detentora de um de seus maiores portos, contribuindo para que seja a terceira cidade mais rica do país. E também, claro, palco das maiores decepções vividas por Lucy.

Se tivesse opção, jamais retornaria àquela cidade, mas a sede da empresa estava localizada lá, com os gastos para movê-la a outro lugar altos demais, além de uma mudança desse tipo ter como único objetivo solucionar um capricho de sua sócia majoritária, tornando-se completamente imprudente. Mas não tinha jeito, estaria presa aos seus fantasmas do passado enquanto quisesse dar continuidade aos negócios da família.

Desceu do carro, contemplando a enorme casa à sua frente, a qual sempre considerou grande demais considerando-se que residiam ali apenas ela, seu pai, Jun e alguns empregados. Enquanto isso, Natsu tentava retomar seu estado normal encostado ao veículo. A viagem havia lhe deixado um pouco zonzo.

A morte da mãe; os piores anos de sua vida, quando seu pai resolveu que ela era culpada pela perda de sua esposa; o encontro com Ryan e as decepções que aquele canalha lhe causara; a morte de seu filho, o qual nem chegou a conhecer; a morte de seu pai, justo quando pensou que as coisas andavam bem; o enterro, cercada de sócios e companheiros de negócios movidos por interesses; a volta para Nagoya, onde ficou durante mais de um ano, completamente sufocada pelos mesmos que a cercaram no enterro. Tudo o que havia naquela cidade relacionava-a a memórias dolorosas. Ao menos tinha Natsu ao seu lado, daquela vez.

Tão distraída em seus devaneios, sequer percebeu quando Jun se aproximou e a puxou para um abraço. Seu irmão mais velho de consideração e uma das únicas pessoas em quem confiava naquela cidade.

― Bem-vinda de volta, senhorita. ― a cumprimentou apertando-a em seus braços. Por cima do ombro de Jun, Lucy notou o olhar torto de Natsu e riu disfarçadamente, afastando-se pouco depois. Nem perto de desmaiar ele deixava seus ciúmes de lado.

― Não posso dizer que é bom estar de volta, mas obrigada, Jun.

O garoto, de cabelos e olhos castanhos, sorriu por um instante, para logo em seguida tomar uma expressão séria.

― Tem um tempo? Preciso falar com você.

Tempo seria o que menos teria naquela noite, com todos os preparativos para o baile, porém o tom usado por Jun a preocupou. Deveria ser algo importante, e assim não deveria recusar.

― Tudo bem. Só espere um pouco.

― Sem pressa, não se preocupe. Vou estar no jardim de inverno, me encontre lá. ― só então Jun notou o garoto de braços cruzados apoiados sobre o capô do carro e a cabeça sobre eles. Estreitou os olhos, achando-o estranho. ― Quer que eu chame alguém para te ajudar?

― Não ― Natsu respondeu sonoramente. ― Não preciso que ninguém me ajude.

Jun deu de ombros, não insistiria então. Acenou para Lucy e se retirou.

A loira virou-se para Natsu e sorriu sutilmente, dando passos lentos até o rosado que a encarava de lado.

― Não precisa de ajuda, é? Seu estado sugere outra coisa.

― A sua eu não recusaria ― comentou. ―, porém, é, acho que estou bem o suficiente para conseguir andar pelo menos.

― Está bem mesmo? ― a loira insistiu.

― Eu estou, mas e você? ― Natsu a questionou, acusando-a com o olhar.

O coração de Lucy apertou-se em seu peito. Sentiu vontade de dizer que não e deixar que ele a apertasse em seus braços, como costumava fazer, e que a obrigasse a voltar a Magnólia. Mas não podia. Simplesmente não podia deixar que sua fraqueza a vencesse. Precisava superar o passado, por mais que ele insistisse em refletir em seu presente, portanto limitou-se a um falso sorriso e um olhar que dizia a Natsu mais do que qualquer resposta lhe diria.

Deu alguns passos à frente e inclinou-se para beijá-lo em despedida, tentando em vão acalmar a preocupação evidente no rosto do rapaz.

― Te vejo mais tarde, ok? Se não conseguir encontrar os quartos peça ajuda aos empregados. ― Lucy ainda demorou-se alguns segundos com o rosto próximo do dele, sem mais o sorriso no rosto. Respirou fundo, inalando o cheiro de Natsu, e sussurrou tão baixo que ele mal pôde ouvir: ― Eu amo você.

Com o coração apertado e a vontade de fazer exatamente o que Lucy desejava, ele a observou afastar-se pelo jardim exterior. Numa cidade em que só vivera decepções, nunca seria demais deixar claros seus sentimentos. Claro, torcia para que nada de ruim acontecesse a Natsu, e as chances de que acontecesse eram pequenas, mas queria se precaver.

Caminhar por aquela casa, solitária, despertava nela péssimos devaneios. Bem ali, ao lado do caminho para o jardim de inverno, estava a cozinha reformada que um dia foi o palco do desastre em sua família. Passou pelo local o mais rápido que pôde, para não prolongar seu desconforto. Jun a esperava contemplando algumas plantas floridas.

― Belas flores, não é? ― Jun comentou sem desviar o olhar. ― James faz um ótimo trabalho.

― São mesmo lindas.

― São o reflexo da dona da casa. ― o rapaz concluiu, sorrindo para Lucy. Tímida e com as bochechas coradas, retribuiu o sorriso com menos da metade da empolgação. Há muito Jun se conformara de que nunca possuiria o coração da loira, portanto aquele era apenas um elogio sem segundas intenções.

― Sobre o que queria falar comigo? ― Lucy foi direto ao ponto, a curiosidade lhe corroía por dentro. Repentinamente, a expressão de Jun se tornou séria. Ele virou-se, dando alguns passos, como se refletisse sobre como dizer o que queria.

― É sobre o Sr. Martínez, ele anda estranho ultimamente.

Sr. Martínez era um dos sócios minoritários da empresa. As ações da Heartfilia S/A eram dividas da seguinte forma: Lucy era a sócia majoritária, com 60% das ações recebidas de seu pai; logo em seguida vinha o Sr. Martínez, com 30%; os 10% restantes eram divididos igualmente, uma metade vendida no mercado de ações, e a outra partilhada entre sócios minoritários, quase sem poder algum dentro da empresa, entre os quais estava Jun. O rapaz também vazia parte da diretoria da empresa, escolhido por Lucy para representá-la.

― Estranho como? ― a loira o questionou, suas sobrancelhas arqueadas.

― Estranho do tipo “eu tomaria cuidado se estivesse no seu lugar”. Para alguém que era completamente contra que você assumisse o controle da empresa, ele anda interessado demais em sua visita.

Lucy franziu ainda mais a testa. Sem dúvida Matínez era a pessoa que mais lhe causava repulsa entre todo aquele ambiente. O homem cinquentenário, de cabelo e barba grisalhos, era movido pelo dinheiro. Casara-se com a irmã de seu pai, tia que a loira nunca chegou a conhecer, e nunca chegaria, pois a senhora morrera pouco depois do casamento, deixando todos os seus bens para Martínez, as ações da empresa, inclusive, fato que intrigava Lucy. Não duvidaria que o autor da morte tivesse sido o próprio marido.

Jude confiava em Martínez, porém a filha não herdara dele esse dom para confiar em quem não devia. Perto de Jude, o homem era de um jeito; longe do dono da grande empresa, era de outro completamente oposto. Portanto, boa coisa das atitudes suspeitas de Martínez Lucy não esperaria.

― O que ele fez? ― a loira questionou, procurando seguir o conselho de Jun e precaver-se.

― Passou a semana perguntando sobre sua vinda. Mais estranho ainda, perguntava sobre seu acompanhante também.

― Natsu? O que ele poderia querer com o Natsu?

― Não me pergunte, nunca sei o que passa pela cabeça daquele cara. Mas ele parecia bem ansioso e nervoso.

A loira suspirou, caminhando em círculos enquanto tentava estabelecer qualquer conexão possível em sua mente.

― Só espero que ele estivesse sendo movido apenas pela curiosidade.

― Não tente prever o que Martínez tem em mente. Pode ser que não seja nada, pode ser que seja eu quem estou alucinando. Só seja cautelosa, Lucy. Não te contei para que se assustasse.

― Mesmo sem intenção, é meio difícil que isso não aconteça. É muito estranho, Jun. Quando eu recebi as ações do meu pai ele chegou a brigar com o juiz, apenas para que eu não assumisse o poder, e de repente quer que eu esteja aqui?

― Talvez tenha mudado de ideia a respeito da sua gestão. Os próprios números demonstram que seu pai não foi imprudente ao confiar em você.

Nada parecia fazer sentido para Lucy, apenas a ideia de que Martínez planejava algo cujo ela não gostaria de ver. Levou a mão ao rosto, pressionando a face, já sentindo sintomas de uma forte dor de cabeça, literalmente e figurativamente. Analisou o pensamento de Jun, e então balançou a cabeça negativamente.

― Não, não faz o feitio dele mudar de opinião assim. Duvido que seja isso.

O rapaz suspirou. Deu passos em direção a Lucy e repousou as mãos nos ombros da loira, atraindo sua atenção.

― Esquece, ok? Sendo esse baile um evento da empresa ou não, ainda é algo no qual você pode se divertir, não deveria pensar em problemas essa noite. Deixe essas preocupações para outro dia. Fique com seu namorado e esqueça um pouco tudo isso, finja que o Martínez não existe.

― Queria que fosse fácil assim. Ainda tenho que cuidar dos últimos detalhes, não posso relaxar ― então foi a vez dela suspirar. Desvencilhou-se dos braços de Jun e caminhou em direção à saída. ― Virgo está por aí? Estou com saudades dela.

― Deve estar na cozinha.

― Ok ― a loira acenou em despedida e saiu.

***

Natsu definitivamente não levava jeito para morar em um lugar grande como aquele. Perdeu-se em três corredores antes de finalmente encontrar o quarto de Lucy e deixar suas malas lá. Podia muito bem ter perguntado aos empregados, como a loira sugerira que fizesse, inclusive alguns lhe perguntaram se queria ajuda. Mas ele não deixaria que pensassem que não conseguia se virar sozinho, não, de jeito nenhum. Seu orgulho falava mais alto.

A caminhada o cansara. Jogou-se na cama assim que a viu. Os lençóis possuíam o mesmo cheiro que Lucy, deixando-o ainda mais relaxado, apesar de sua mente estar completamente agitada. A loira não era a única que possuía preocupações naquele momento.

Naquele mesmo dia, durante a manhã, Natsu visitara um médico, como prometera a Lucy que faria para esclarecer suas fortes dores de cabeça. Confiando no profissional, cometera o erro de ir além e contar também sobre certas alucinações que andava tendo, sem especificar quais. Fora aconselhado então a procurar um psiquiatra, e aquele pensamento não saía de sua cabeça.

Poderia ele estar desenvolvendo um problema neurológico? Estava ficando “louco”? Queria muito que a resposta fosse não, mas as evidências o levavam a pesar muito mais para o “sim”. De qualquer forma, aquilo tudo não explicava sua resistência ao fogo. Daria qualquer coisa para descobrir o que havia de errado com ele. Por fim, imaginou que acabaria ficando mesmo louco de tanto pensar se estava ou não estava louco, e expulsou qualquer pensamento de sua mente, adormecendo pouco depois.

Quando acordou já passava das 20h30min. Sentou-se na cama, esfregou os olhos, e procurou por qualquer resquício de que Lucy havia passado por ali, mas não encontrou nada. Decidiu procurar pela loira, mesmo que acabasse outra vez se perdendo.

Seu corpo ainda estava mole devido a curta soneca que tirara, entretanto não precisou andar muito para encontrar a Heartfilia num quarto que conhecia bem da sua última visita, o que havia sido montado para o filho da loira, para surpresa de Natsu.

Aproximou-se dela a passos silenciosos, sem querer chamar a atenção. Lucy contemplava em suas mãos um retrato de sua mãe, antes colocado numa estante ao lado do berço azul. Ele nunca entendera por que ela deixara aquele quarto intacto, mas também nunca a questionou sobre o assunto. Sem que ela o percebesse, abraçou pelas costas e beijou seu pescoço, vendo-a fechar os olhos e sorrir.

― Me desculpe por ter estado tão ocupada desde que chegamos. ― disse a loira, repousando sua mão sobre a de Natsu em sua cintura.

― Tudo bem. Por que estava aqui? ― o garoto a questionou, sendo vencido por sua curiosidade. Lucy virou-se, ficando de frente para Natsu.

― Não sei. Só me deu vontade. ― Dragneel murmurou um “hum”. ― Temos que nos apressar, já estamos atrasados. Pedi para que deixassem um smoking para você no quarto de hóspedes.

― Sabe, se nos aprontarmos juntos daria para economizar um tempo...

― Acho que na verdade iríamos demorar ainda mais. ― Lucy respondeu, sorrindo.

― Por que acha isso?

― Você sabe porque. Agora anda, Natsu, vá se vestir, e tente não demorar muito. Vá até o meu quarto quando estiver pronto.

O garoto bufou, mas obedeceu, deixando o depressivo ambiente e seguindo as ordens de Lucy. Quando voltou ao quarto ainda teve que esperar a loira por vários minutos, e era justamente ela quem lhe dissera para se apressar. Porém, a espera compensava ao ver a beleza de sua Lucy em um elegante vestido preto.

A loira caminhou até ele, elevou suas mãos até o pescoço de Natsu e ajeitou sua gravata, perguntando com sarcasmo:

― Pronto para uma empolgante noite em um ambiente composto por 70% de pessoas fúteis?

Natsu sorriu, oferecendo seu braço a Lucy, prontamente aceito.

― É claro.

Notas finais
Comentários para alegrar uma pobre autora? :3