Onde Tem Ódio Tem Amor
78 Coragem e estupidez
Notas iniciais
Tinha um plano. Claro que tinha um. De jeito nenhum sairia de casa, deixando Lucy preocupada, se não soubesse o que iria fazer depois, completamente às cegas. Também não poderia contá-lo a ela, por mais que doesse em seu coração vê-la daquela forma. Não havia maneira de revelar o que pretendia fazer. Entretanto, precisaria de ajuda. Não que fosse de extrema importância, podia muito bem fazer o que tinha em mente sozinho, apenas não queria arriscar. Não queria confiar somente na sorte, por mais que ela fosse ditar seu destino se as coisas saíssem do planejado estando ele acompanhado ou não, porém sentir-se-ia mais seguro se soubesse que alguém lhe daria suporte.
Antes de qualquer coisa, contudo, precisava arranjar alguns materiais específicos. Não se tratava de nada muito difícil de conseguir. Na verdade, qualquer loja de conveniência iria servir para comprá-los. Quanto à ajuda, contaria com Gray. No total, somente três pessoas poderiam cumprir aquela função, e dentre todas preferia confiar em seu melhor amigo, até porque as outras duas jamais concordariam.
A casa de seu amigo não ficava tão perto da sua, mas podia ir andando. Levaria um pouco mais de tempo, contudo não se importava com esse fato. Sabia que havia um posto perto da casa dele, então poderia parar lá no caminho e passar na loja de conveniência para comprar o que precisava.
A caminhada lhe dava tempo para pensar, gostava disso. Repassou o plano em sua mente várias e várias vezes, pensando em tudo que poderia dar errado e no quanto ele estaria impotente caso acontecesse. Porém, mesmo considerando todos os riscos, precisava tentar. Era a única ideia que tinha.
Chegando à loja vazia, passou seus olhos por cada prateleira, tentando localizar o que procurava. Tendo apenas três pequenos corredores, não foi algo muito difícil. Pegou dois engradados de energético, procurando os mais baratos que encontrou, e os levou ao caixa. O rapaz que atendia naquele horário, jovem e aparentando profundo tédio, o olhou de canto.
— Longa noite? — perguntou, parecendo não se importar realmente com a resposta, portanto Natsu apenas assentiu, pagando-lhe e saindo.
Dali até a casa de Gray não dariam mais de cinco minutos. Esperava profundamente que o moreno estivesse em casa, e sozinho. Nunca se sabe, ele poderia estar tendo uma noite romântica com Juvia, como a que Natsu planejara ter com Lucy. Se suas expectativas estivessem erradas, teria que fazer o que planejava por si mesmo, e realmente não queria isso.
Os carros estavam na garagem, o que era um bom sinal. Apenas os de Gray, o que também era bom. Não se lembrava se Juvia dirigia ou não, mas, caso dirigisse, significava possivelmente que não estava na casa do namorado.
Colocando as sacolas no chão, tocou o interfone.
— Quem é? — ouviu o moreno perguntar.
— Sou eu. Abre logo.
Pelo interfone, Natsu o ouviu suspirar.
— Sério que veio atrapalhar minha perfeita noite de estudos? Qual é, Natsu. Eu juro que tento ser um aluno dedicado, mas você não ajuda.
Gray estudava para se tornar advogado, como o pai. Muito mais por livre e espontânea pressão do que por vontade própria, o que levava-o a não se importar muito com os estudos. A família tinha dinheiro. A faculdade para ele era mera formalidade.
— Vamos fingir que isso é verdade.
— Sua falta de confiança em mim me deprime. Pode entrar — logo depois ouviu-se o barulho do portão sendo destrancado. Natsu pegou novamente as sacolas e entrou, sem esperar por Gray para abrir a porta da casa e entrar. — Olha só, e trouxe companhia. Por isso adoro suas visitas.
— Preciso da sua ajuda — disse, sem rodeios
— Com o que? — Gray perguntou, desconfiado. O moreno aparentemente falara sério quando disse que estava estudando, pois sobre a mesa havia vários papéis e livros. Natsu pegou uma cadeira e se sentou.
— É uma longa história.
— Eu sou bom em ouvir histórias — respondeu, fechando os livros e jogando-os em outro lugar, para depois se sentar de frente para Natsu. — Mas fala a versão curta pra não cansar meus ouvidos.
— Ok... — Natsu suspirou, recostando-se na cadeira. — Você sabe que o ex da Lucy está na cidade, não sabe?
— O cara que ferrou a vida dela quando era mais nova, sei. O que tem de mais nisso?
— Ela me contou quando chegou em casa hoje que ele a beijou. Duas vezes.
Gray ergueu as sobrancelhas, sentando-se de forma mais relaxada. Sua boca se abriu meio em surpresa, meio em descrença.
— E ela o beijou de volta?
— Da primeira vez, sim — falou, em tom defensivo. Dizer sim para aquela pergunta era como responder que Lucy havia-o traído, e preferia não acreditar nisso. Preferia analisar o quadro inteiro, o fato de que quando ela retribuiu o beijo estavam separados. E quanto ao outro, quando já estavam juntos novamente, não foi devolvido, então não o preocupava tanto. Era com esse pensamento que tentava acalmar sua mente.
— Ok, isso é ruim. Então você ficou com ciúmes e decidiu contar com a ajuda do seu amigo para encher a cara?
— Não, não é isso. É claro que saber desses beijos me incomodou, mas não é essa a questão. Além do mais, ainda que Lucy tivesse voltado a sentir algo por ele, tenho certeza de que ela jamais voltaria para ele. Lucy não é burra.
— Tudo bem, então qual é a questão? — Gray questionou, tamborilando os dedos na mesa.
— Tem algo de errado com aquele cara, e eu quero descobrir o que. Ele não voltou porque estava arrependido e queria a Lucy de volta, não tenho dúvidas disso.
— Tem certeza de que não é só o ciúmes falando? Pode ter sido só isso, cara. Talvez você é que esteja colocando coisas na sua cabeça por medo de perder ela.
— Eu não estou, ok? — Natsu respondeu, irritado. Precisava que Gray acreditasse nele. Seu plano por si só já era maluco, se Gray tivesse dúvidas às chances de ajudá-lo seriam mínimas. — Quando eu tenho uma sensação, na maior parte das vezes eu estou certo. Lembra do Sting?
— Aquele que tentou sequestrar a Lucy, é, lembro — Gray franziu a testa, com um pensamento viajando pela sua mente. — Sua namorada só atrai problemas.
— Ninguém acreditou quando eu disse que havia algo de errado com ele. Quem sabe o que poderia ter acontecido com ela se eu não tivesse agido. Não vou esperar que algo aconteça para tomar uma atitude dessa vez. Não vou cometer o mesmo erro.
— Você tem sensações com relação a Lucy, na verdade. Tipo um sexto sentido voltado para ela — o moreno comentou, brincando. — Ok, mas como vai descobrir o que o ex dela está planejando? Você nem sabe onde ele mora.
Natsu sorriu de canto. Pegou a sacola do chão e a colocou sobre a mesa.
— É aí que entra isso.
Curioso, Gray espiou o conteúdo das sacolas. A resposta só o deixou ainda mais confuso.
— Energéticos? Como isso vai te ajudar em qualquer coisa além de ficar acordado?
— Eu posso não saber onde ele mora, mas conheço alguém que talvez saiba. Só preciso conseguir falar com ele.
A expressão no rosto de Gray aos poucos se suavizou, conforme ele juntava informações em sua mente. Aos poucos, a face confusa deu lugar à surpresa, e ele se levantou de uma vez, andando de um lado para o outro com a mão bagunçando o cabelo.
— Isso tem a ver com a coisa dentro de você, não tem?
— O que melhor do que a ajuda de uma criatura mística quando você não tem absolutamente nada para continuar?
— O que você pretende fazer exatamente, Natsu?
— Pretendo causar um colapso. Já está mais do que na hora dele começar a pagar o aluguel. E é a única forma, é o único que pode talvez ajudar.
— Você ficou maluco?! — Gray exclamou, incrédulo. — Isso é perigoso, não é? Provocar ele dessa forma. Quer mesmo arriscar por uma suposição?!
— Não é só uma suposição. Eu sei que tem algo de errado. Eu sinto isso — Natsu respondeu, erguendo o tom de voz.
— É arriscado demais. Você não sabe o que pode acontecer.
— Eu aguento.
— Você não sabe nem se vai dar certo! Fora os efeitos que esse tanto de energético pode causar no seu corpo.
— E vou continuar sem saber se não tentar.
— Lucy sabe que você está aqui?
— O que você acha? — Natsu respondeu, como se a resposta fosse óbvia demais para precisar de uma pergunta.
Gray estava agitado, não parava de suspirar e andar de um lado para o outro, bagunçando ainda mais o cabelo.
— Se você quer se matar, tudo bem, vá em frente, mas eu não vou te ajudar com isso — o moreno respondeu, decidido.
— Escuta, eu vou fazer isso com ou sem você. A única coisa que você tem a decidir é se vai estar comigo pro caso de algo dar errado ou não.
Gray suspirou, colocando as mãos na cintura. Mirou o chão, como se dali pudesse surgir alguma resposta milagrosa do que fazer. Não podia deixar Natsu sozinho. Se odiaria caso algo acontecesse sabendo que poderia ter tido a chance de evitar. Também iria odiar a si mesmo se o ajudasse com aquele plano completamente sem noção, mas, que escolha tinha?
— Por que eu ainda sou seu amigo, Dragneel? — disse, sentando-se novamente na cadeira. Natsu sorriu, pegando duas latas do engradado e entregando uma a Gray.
***
Seu estoque de energético já estava perto do fim e tudo o que sentia no seu corpo era uma agitação comum. Nada de anormal acontecia. Gray parara na primeira lata, então, após quinze energéticos ingeridos ainda não sentia nenhuma diferença, além da sensação de que não aguentaria mais nenhuma gota. Frustrado, se levantou e jogou a última lata na parede.
— Droga!
— Bom, pelo menos você tentou — Gray comentou, relaxando. Não conseguia esconder seu alívio pelo plano de Natsu ter falhado. — Vai pra casa, Natsu. Já está tarde, e a Lucy deve estar preocupada.
— Nos piores momentos possíveis essa coisa aparece. Então, quando eu preciso dela, simplesmente some.
Assim, quase que como uma resposta ao pronunciamento de Natsu, começou a se sentir mal. Precisou se apoiar na cadeira para não cair. Seu coração passou a bater rápido demais e ficou com medo daquilo estar acontecendo por causa do energético e não do Koscheivich, de estar tendo um ataque ou coisa do tipo. Quando sentiu uma forte dor aguda na sua cabeça, sorriu. Apenas por um segundo, pois a dor logo se tornou maior, quase insuportável, e não dava para sorrir enquanto sentia uma dor daquelas, tão grande quanto a do dia em que descobriu sobre toda a história.
— Ei, Natsu!
Gray correu em seu socorro, e foi a última coisa que viu antes de sua visão escurecer. Após aquilo, quando abriu os olhos, não estava mais na casa do seu amigo, mas sim dentro de sua própria mente, no lugar que visitara antes.
As diferenças entre sua última visita e a atual consistiam em o ambiente estar completamente claro dessa vez. Ainda não era possível ver um fim, mas ao menos sentia-se mais seguro conseguindo enxergar o que estava ao seu redor. Outra diferença era o fato de que dessa vez não havia corrente nenhuma impedindo-o de se mover.
Escutou de repente uma risada, que começou baixa, elevando-se aos poucos, até conseguir ver a quem pertencia. A criatura deformada se aproximava passo por passo, calmamente, como se tivesse todo o tempo do mundo ao seu dispor. E a cada passo dado por ele Natsu sentia seu coração bater mais rápido, o que achou engraçado, pois, se estava em seu subconsciente, como podia sentir seu coração batendo?
— Você é realmente uma criatura interessante, Dragneel. Muito interessante — o Koscheivich disse. O modo como falava ainda dava calafrios em Natsu, principalmente pela forma como a região imóvel onde um dia estivera sua boca conseguia transmitir aquele som, mas também pela sensação de que, mesmo distante, ele estava a milímetros de seu rosto. — Corajoso também. Talvez um pouco estúpido, mas, sabe o que dizem, o que difere a coragem da estupidez é o medo, o medo que o protege, e isso posso sentir que você tem de sobra.
Ainda que receoso, Natsu avançou, andando até estar a poucos centímetros do Koscheivich.
— Suas palavras não vão me assustar. Você não pode fazer nada contra mim sem prejudicar a si mesmo. Você próprio é minha garantia de que nada vai acontecer comigo.
A criatura aparentemente riu. Era difícil distinguir as expressões em seu rosto.
— Continue pensando dessa forma e conseguirei o que quero mais cedo do que esperava — ergueu a cabeça, como se estivesse entediado. Natsu imaginou que era bem provável. Não havia o que se fazer por ali. — Sei por que está aqui. Acha que posso te dar o que quer.
— E pode? — perguntou, receoso.
— Posso. Com toda certeza posso. O que deveria estar perguntando é: eu vou?
O coração de Natsu palpitou ainda mais rápido. Sentiu raiva ao ver o que parecia ser uma expressão de escárnio na face da criatura. Estava um passo mais perto agora. Mesmo ele sabia que as chances de seu plano funcionar eram mínimas, e ainda assim arriscou. Chegara tão longe, não deixaria que todo seu esforço fosse em vão por meros caprichos daquela coisa. Ele o perturbava, o fazia sofrer, algumas vezes quase perder o controle, morava dentro de seu corpo sem nunca ter pedido permissão. O mínimo que poderia fazer em troca era ajudá-lo.
Não se deu conta do que estava fazendo até sua mão estar em volta do pescoço do Koscheivich, jogando-o contra uma parede que Natsu jurava não estar lá segundos antes. Talvez fosse àquilo que Alexei se referira quanto a uma possível fraqueza, a habilidade de conseguir controlar o que acontecia dentro de sua mente.
— Você vai! Isso não é um pedido, é uma ordem. Não ouse me desafiar
Aos poucos se acalmou, ainda mantendo a criatura entre seus dedos. Fora uma atitude drástica e impensada, a raiva o fez agir daquele modo. Percebeu que respirava rápido demais, e que a pele do Koscheivich quase queimava sua mão de tão quente. Ele riu, debochando do garoto. Fechou sua mão sobre o antebraço de Natsu, que o soltou, sentindo seu punho queimando, uma dor terrível que se espalhava por todo seu braço.
— Talvez eu tenha me enganado e você seja mais estúpido do que pensei. Precisa reabastecer seu estoque de medo, Dragneel. Não está medindo os riscos de suas ações com clareza.
Ainda com o Koscheivich segurando seu braço, Natsu caiu de joelhos. A dor era quase insuportável e, enquanto os dedos da criatura continuavam em contato com sua pele, apenas aumentava. Queria implorar para que parasse, mas seu orgulho jamais permitiria isso. Sabia que era aquilo que o monstro queria ouvir, não lhe daria essa satisfação.
— Pode fazer o que quiser, eu não me importo — o provocou. O Koscheivich finalmente o soltou, porém seu braço ainda ardia como nunca.
— Estúpido. Definitivamente. Embora ainda seja interessante. Não esperava menos de você, Dragneel. Não o escolhi por acaso, afinal. Gosto de desafios, e você é um. Eu vou ajudá-lo, mas não porque me pediu. Acontece de termos interesses convergentes nesse assunto — aquela frase, sobre não ter sido escolhido por acaso, deixou Natsu curioso. Se não fora o acaso, se não o que havia surgido naquele momento oportuno, por que havia sido escolhido? Mas havia outras coisas mais importantes nas quais se focar. — Essa sensação que você tem com relação àquele homem, não é um sexto sentido, como esse seu amigo sugeriu. Ela parte de dentro de você. Você a sente porque ele é igual a mim.
— O que quer dizer? Ele é um hospedeiro? — Natsu o questionou, tentando juntar as peças em sua mente. Se fosse verdade, seu primeiro instinto era julgá-lo como ainda mais perigoso para Lucy, porém isso seria muito hipócrita da sua parte, estaria admitindo que ele mesmo era um perigo para ela.
— Não. Um hospedeiro seria como você. Quando a garota o conheceu sim, provavelmente ele era, mas não mais. O que posso dizer? Ela é como um grande ímã para nós. Contudo, ele não aguentou a dor, foi fraco e cedeu seu corpo. Já não é mais o mesmo homem que era quando Lucy o encontrou pela primeira vez. Ele é um Koscheivich, não um hospedeiro. O que você vê é apenas uma carcaça.
— O que ele quer com ela? Por que voltou a procurá-la? — perguntou, ansioso. A situação aparentemente era pior do que pensara. Proteger Lucy de um cara que a magoou era uma coisa, protegê-la de um monstro era outra completamente diferente. Talvez precisasse de ajuda. Teria que falar com Alexei, contar tudo a ele.
— Pelo motivo mais óbvio, é claro. Vingança.
— Por que? Lucy não fez nada a ele.
— Não, ela não fez, mas seus antecessores fizeram. Ele quer fazê-la sofrer, pagar pelos erros cometidos no passado por outros.
— Ela não tem culpa de nada — Natsu rebateu, elevando seu tom de voz. Seu braço ainda ardia, mas tentava não demonstrar a dor. Precisava manter-se focado.
— Não importa. Não se trata disso — o monstro andou alguns passos, balançando a cabeça. — Pobre garota. Apenas teve o azar de receber uma dolorosa herança através do sangue, sem sequer saber sobre sua história.
— Então, você vai me ajudar a encontrá-lo? — fez a pergunta que o incomodava desde o primeiro momento.
— Vou.
— Onde ele está?
— Você simplesmente irá saber.
Havia algo a mais ali, Natsu sabia disso.
— Você disse que tínhamos interesses iguais nisso. Que benefícios vai trazer a você?
O Koscheivich pareceu sorrir. O garoto havia tocado num assunto interessante.
— Eu não sou diferente dele, caro Dragneel. Também quero vingança, e a quero com minhas próprias mãos. Não vou deixar que outro tenha essa chance. Você irá se livrar dessa ameaça para mim, e, quando me der o que quero, eu mesmo farei a jovem Heartfilia sofrer.
— Eu não vou deixar.
— Você vai. Quando o momento chegar, não terá escolha senão ceder a mim. Apenas aguarde e desempenhe seu papel — a criatura riu prazerosamente. — Você é interessante, Dragneel. Muito interessante.
No segundo seguinte, Natsu estava novamente na casa de Gray, acordando de sobressalto, com a respiração extremamente acelerada. Alguns panos molhados caíram de sua cabeça quando sentou-se no sofá em que Gray o deitara quando apagou. Além disso, não vestia a camiseta nem a jaqueta que vestia antes, notando que seu peito estava molhado de suor.
O moreno o observava receoso, sentado na mesa, em frente ao notebook. Natsu olhou para seu braço. A marca da queimadura ainda estava lá, e doía tanto quanto antes.
— Essa coisa surgiu no seu braço enquanto você estava apagado.
O garoto pegou um dos panos e enxugou o rosto, tentando controlar sua respiração.
— Que horas são? — perguntou, sentindo-se enjoado. Pressionou o pano contra o rosto, tentando controlar a sensação. Gray já o ajudara muito, não queria deixar sua casa fedendo a vômito.
— Uma da manhã. Do dia depois do seguinte. Você ficou mais de vinte e quatro horas desacordado. Me deixou preocupado, achei que não ia acordar nunca — considerando que da última vez em que visitara seu monstro interior passara mais de três dias apagado, o tempo havia sido pouco. Sua camiseta e a jaqueta estavam sobre uma das cadeiras. Levantou-se devagar para pegá-las e as vestiu. — Como está se sentindo?
— Não muito bem, mas não importa, preciso ir.
Havia uma sensação perturbando-o. Sabia que algo muito ruim iria acontecer. Apenas isso.
— O que descobriu? — Gray perguntou, levantando-se.
— Que as coisas são piores do que eu pensava. Esse cara, ele é perigoso, Gray. E eu estou sentindo que uma coisa terrível vai acontecer logo.
— O que?
— Não sei.
— Ok... Então onde?
— Também não sei isso. Eu só sinto, ok? E sinto que preciso impedir.
— Não, você não vai a lugar nenhum além da sua casa, entendeu? — Gray ordenou. —Lucy deve estar preocupada e você não está bem.
— Eu não posso — Natsu respondeu. Aquela sensação, sentia que ela iria sufocá-lo aos poucos se não fizesse nada.
— Você não vai sair daqui até me prometer que irá para casa.
— Gray.
— É sério, Dragneel.
Natsu suspirou. Odiava mentir para seu melhor amigo, porém era preciso. E, de certa forma, não era uma mentira completa. Iria para casa, queria checar se Lucy estava bem. Mas não ficaria lá.
— Eu prometo.
***
Pelo horário, Lucy deveria estar dormindo, portanto abriu a porta de casa e a do quarto com o máximo de cuidado para não acordá-la. Se ela o visse iria querer conversar, e ele não tinha tempo para isso. A cada minuto que se passava sentia aquela sensação crescendo mais e mais.
Estava certo. Heartfilia dormia aparentemente tranquila na cama, porém seu rosto sugeria que havia chorado. Natsu se odiou por tê-la feito derramar lágrimas novamente, quando havia prometido que jamais deixaria isso acontecer novamente. Suavemente, deslizou sua mão pelo rosto de Lucy. Deu-lhe dois beijos, um nos lábios e um na testa. Sentiu-a segurar sua mão enquanto dormia e quase pensou em tentar esquecer aquela sensação para ficar ali, ao lado dela.
— Eu não vou deixar que nada aconteça com você, prometo, e você sabe que eu cumpro minhas promessas. Eu tenho que ir agora, ok? Mas volto logo.
Soltou-se devagar de Lucy para não acordá-la. Não esperou por uma resposta antes de sair.
Nunca sentira algo tão estranho quanto aquilo que estava sentindo naquele momento. Não sabia para onde estava indo ou o que estava fazendo, apenas seguia seus instintos, confiando neles. Não chamou um táxi, até porque não havia como lhe dar um endereço. Correu, pois sentia que precisava chegar ao lugar que o chamava o mais rápido possível. Reconhecia as ruas, porque elas levavam à casa de Lisanna, e o trajeto continuou sendo o mesmo, até estar de frente para a casa azul, ainda que não conseguisse entender o que fazia ali.
Chegou mais perto da porta, encostando seus ouvidos na madeira. Reconheceu imediatamente as vozes que conversavam. Lisanna e Ryan.
— Eu não sei onde estava com a cabeça quando achei que seu plano era uma boa ideia. Era completamente sem noção. Agora ele me odeia — ouviu a albina dizer.
— O problema não foi meu plano, o problema foi você. Meu plano era perfeito. À prova de falhas — o homem respondeu.
— À prova de falhas o caramba. O que iria fazer quando ele percebesse que minha barria continua do mesmo tamanho de sempre? Você estava pensando apenas nos seus interesses, porque para mim isso nunca iria funcionar. Eu vou contar a ele. Vou contar toda a verdade. Ele já me odeia mesmo. Pelo menos eu não vou ser a única prejudicada, porque quando eu contar você também perderá qualquer chance com a sua preciosa Lucy.
— Não, você não vai contar nada — falou, com a maior calma do mundo.
— Como pode ter tanta certeza disso?
— É simples, Lisanna. Mortos não falam.
Por instinto, Natsu abriu a porta o mais rápido que pôde, bem a tempo de ver Ryan, ou o Koscheivich, disparar uma arma em direção a Lisanna. Bem a tempo de vê-la caindo no chão, criando uma poça de sangue em volta de si. Não soube o que havia se passado na sua mente. Não conseguiria jamais impedir que aquilo acontecesse, chegara tarde demais. Ainda assim, sentiu a dor em seu peito. Apesar de tudo, Lisanna um dia fora sua amiga, e vê-la morrer bem na sua frente foi extremamente doloroso.
Natsu não sabia o que fazer quando Ryan o olhou, sorrindo, erguendo a arma em sua direção. Não houve tempo para agir entre essa imagem e o segundo disparo, seguido de uma dor lancinante em sua perna, que o fez cair no chão, com um grito de dor.
Em seguida, viu Ryan pegar um dos aparelhos de limpeza da lareira e caminhar em sua direção. Tentou se mover, porém a dor em sua perna, e também em seu braço onde o Koscheivich o queimara, o impediram.
— Dragneel, Dragneel... Sempre se metendo onde não é chamado.
— Eu sei o que você é, sei o que quer. Fique longe da Lucy, ou eu juro que acabo com você.
— Você sabe que não posso cumprir isso. E não acho que você esteja em posição de dizer coisas assim — Ryan respondeu, sorrindo, antes de acertar a nuca de Natsu com força usando a haste de ferro.
A última coisa que pensou antes de apagar foi que não poderia cumprir a promessa que fizera a Lucy. Não voltaria logo.
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