Onde Tem Ódio Tem Amor

89 Senhora misteriosa


Notas iniciais
A vida, gente, ela anda complicada... Mas, enfim, kkkk Boa leitura!

O lado esquerdo da cama estava vazio quando despertou. Estranhou de imediato o fato. Natsu nunca acordava mais cedo que ela. Além disso, tinham dormido abraçados um ao outro, de modo que não havia como ele sair sem acordá-la.

Por mais estranho que fosse, não se importou tanto. Ele poderia apenas ter saído, não precisava se preocupar, embora a sensação de angústia se fizesse presente por não saber o que tinha acontecido. Aquela preocupação que tinha sempre que estava sem notícias sobre alguém que amava, achando que algo de ruim aconteceria.

Pegou o celular para checar as horas. Passava das nove. Estava tão cansada que dormira mais do que o normal. Além do que, não estava se sentindo muito bem. O banho de mangueira que Natsu a obrigara a tomar no dia anterior parecia ter lhe feito mal.

Percebeu que havia deixado Levy falando sozinha, não intencionalmente. Distraíra-se com Natsu e se esquecera de responder a amiga. Levy insistiu por algumas mensagens, mas desistiu quando não obteve resposta.

"Desculpe. Natsu roubou minha atenção" Enviou. Poucos segundos depois, a pequena respondeu:

"Tudo bem. Ele ama roubar sua atenção mesmo"

"Minha atenção, minha paciência, minha boa vontade... "

"Suas roupas..."

"Levy!"

"E essa parte você também ama..."

"Ei!"

"O que? É mentira por acaso? Não precisa ficar envergonhada. Conheço vocês"

"Logo pela manhã e você já falando essas coisas. Você e Natsu são extremamente parecidos mesmo. Dois pervertidos"

"Acho que somos gêmeos separados na maternidade"

"Devem ser. E eu tenho que aguentar os dois..."

"Tenho tanta pena de você... Bom, de mim não vai se livrar mesmo. E do Natsu... Não tem nada que possa fazer também. Já disse o famoso "sim""

"Não oficialmente"

"Não oficialmente ainda. Bom, tenho que ir, Lu-chan. Não estou me sentindo muito bem"

"O que aconteceu?"

"Não é nada. Não se preocupe. Só preciso descansar um pouco"

"Ok. Melhoras"

Talvez fosse só paranoia de sua mente, afinal, que conclusões precisas poderia tirar apenas de uma conversa pelo telefone? Mas, coisa de sua cabeça ou não, sentia que algo havia acontecido com Levy. Ela não parecia normal, não estava animada como costumava ser. Era sempre tão mais empolgada. Ainda assim, preferia não pensar muito sobre o assunto. Quando voltasse para sua cidade, faria uma visita à amiga e descobriria. Esperava que fosse mesmo apenas uma sensação ruim.

Aproveitou enquanto Natsu não voltava para se arrumar e reorganizar as malas. Estava deitada na cama, tentando descansar um pouco mais, quando a porta do quarto se abriu.

— Ei, onde você estava? — Perguntou assim que Natsu entrou. Chovia naquela manhã, sua blusa e cabelo estavam um pouco molhados.

— Fui pagar a estadia e aproveitei para buscar o café da manhã. O do hotel não parece muito bom, e, já provando ser o melhor marido que você poderia sonhar em encontrar, trouxe uma comida melhor — respondeu, jogando a blusa sobre as malas e deitando-se ao lado da loira, colocando a sacola da padaria entre eles.

— Podia ter me avisado.

— Não queria te acordar.

— Percebi. Aliás, como você conseguiu sair sem que eu notasse?

— Com muito cuidado — disse, complementando a fala com um beijo na bochecha de Lucy. De dentro da sacola, tirou um copo e uma pequena embalagem contendo pão doce. — Café, forte e sem açúcar, não faço ideia de que maneira, mas como você gosta, e alguns pães. Come.

— Ok. Obrigada.

— Devia agradecer mesmo. Está chovendo demais lá fora.

— Não fez mais que sua obrigação — um dia não começaria de verdade se não provocasse Natsu. Parecia que as coisas ficavam incompletas sem sua atividade matinal favorita.

— É mesmo?

— Claro. Uma das cláusulas do seu contrato diz que você tem que me alimentar.

— Eu não lembro de ter assinado esse contrato.

— É porque você tem uma péssima memória.

— Aham, sei. Então, o que ficou fazendo enquanto eu estava fora?

— Arrumando as coisas e falando com a Levy — respondeu, dando uma mordida em um dos pães. Não estava ruim, mas já tinha provado melhores. Contudo, era suficiente para matar a fome. — Ela não parece muito bem.

— Por que? O que aconteceu?

— Não sei — disse, aconchegando-se no peito do rapaz, sentindo-se aquecida com o braço dele sobre seus ombros. — Ela não quis me contar.

— Talvez tenha brigado com o Gajeel de novo. Eles brigam praticamente toda semana. Isso para não dizer todo dia.

— Talvez, mas Levy não ficaria mal por isso. É tão comum que parece que ela já se acostumou. Eles sempre acabam brigando mesmo.

— Quem sabe foi uma briga mais séria.

— Não sei... ainda assim, seria estranho.

— Então o que pode ser?

— Não faço a menor ideia. Nada sério, espero — enquanto comia, assustou-se ao sentir repentinamente a palma da mão de Natsu sobre sua testa. Murmurou em protesto. Quase ele a fizera derrubar o café em sua camisa. — O que foi?

— Você está quente, Lucy. Ficou doente?

— Não é nada.

— Talvez devêssemos voltar para casa. Sabe, pode não ser uma ideia muito boa ficar viajando se você não está muito bem. Vai que acaba piorando.

— Nem pensar. Você não vai escapar assim.

— Só estou pensando na sua saúde. Não vai te fazer bem sair nessa chuva. Como pode pensar que eu seria tão egoísta? Assim você me ofende.

— Você só quer voltar por não querer enfrentar essa situação. Não vai te matar fazer uma visita a um parente.

— Não é só por isso. Eu estou mesmo pensando em você, ok? E eu sei que não vai me matar nem nada do tipo, mas não é agradável. Estou com uma sensação ruim sobre isso.

— O que de ruim poderia acontecer? É só uma visita.

— Eu não sei. Só sei que não me sinto bem com essa situação.

— Relaxa, Natsu. Vai ficar tudo bem. E eu vou estar lá com você — inclinou-se para beijá-lo, porém parou no meio do caminho, a poucos centímetros dos lábios do garoto. — Se eu estiver mesmo doente, pode não ser não ser uma boa ideia te beijar. Você fica doente muito fácil. Consegue sobreviver a um tempo longe dos meus lábios, senhor Dragneel?

— Você está supervalorizando seus beijos. Óbvio que eu consigo.

— Ah, é? Eu acho que não.

Com o olhar, provocava-o, notando os olhos de Natsu alternando entre os dela e sua boca. Sorria de canto, sentindo o gosto do desafio. A provocação, afinal, vinha de ambos os lados. Um casal de competitivos.

— Isso é uma aposta, Heatfilia?

— Depende. É?

— Por que a insegurança? Medo de perder? — Respondeu, diminuindo a distância em alguns poucos centímetros. Podia até sentir a respiração quente de Lucy, tão perto de seu rosto.

— Perder para você? Por favor. Sua cabeça se move para a frente até sem você perceber de tanta falta de controle sobre suas vontades, Dragneel.

— Não sei de onde você tirou isso. Já criei resistência contra os seus lábios, inclusive, como uma bactéria que fica resistente a um antibiótico.

— Na verdade, bactérias não criam resistência. Só acontece de existirem bactérias resistentes que sobrevivem e se reproduzem. E você tem noção de que acabou de se comparar a uma bactéria? E de onde essa sua mente genial tirou essa comparação, Natsu? Sabe, as pessoas costumam usar exemplos mais comuns.

— Ok, me desculpa, senhorita “mestre da biologia”. E qual o problema de se comparar a uma bactéria? São criaturinhas bem poderosas, sabia? E não faço a menor ideia, simplesmente surgiu. Eu tenho essa habilidade de ser especial, incomum. Uma espécie rara.

A garota riu. Seu noivo era uma pessoa estranha, sem sombra de dúvida. Era de fato uma espécie rara, do tipo mais difícil de se encontrar.

— Não sou mestre de nada, só li isso em algum lugar. Tudo bem, compare-se ao que você quiser, o fato é que você não aguenta sequer um dia inteiro sem me beijar. Isso é uma certeza.

— Você vai se arrepender de ter duvidado de mim. Sempre se arrepende e, ainda assim, não cansa de tentar. Vamos à parte que interessa: qual o meu prêmio quando eu ganhar?

— Sei lá. Faço o que você quiser por uma semana. Não vai conseguir mesmo, não importa qual o prêmio.

— Vou guardar essas palavras com muito carinho, Lucy...

— Pode guardar, Dragneel. Fique à vontade — a loira se levantou, jogando as embalagens da padaria no lixo. — Agora para de enrolar e vamos. Quem sabe conseguimos voltar para Magnólia antes do anoitecer.

Natsu bufou. Completamente sem vontade, caminhou até as malas e as colocou sobre os ombros.

— As coisas que eu faço por você...

— Você fala como se fosse o fim do mundo — abriu a porta, já que as mãos do garoto estavam cheias demais para conseguir sozinho.

— É bem perto disso.

— Da primeira e última vez em que eu vi a sua avó ela não pareceu tão ruim assim.

— O problema não é exatamente ela, Lucy. É a sensação — respondeu. Com o peso que carregava, tinha que tomar muito cuidado para não tropeçar na escada. Por sorte, estavam no segundo andar, e dali até o carro o trajeto não era tão longo.

— Vai ser uma visita rápida, prometo. Quando perceber, já vamos estar voltando para casa.

— Espero que você esteja certa.

Quando chegaram à saída, o rapaz pegou a blusa que usava antes e a colocou sobre a cabeça de Lucy, para evitar que ela se molhasse com a chuva. Além disso, ainda a abraçou da maneira que pôde no caminho até o carro, trazendo-a próxima de si. Aquela proteção toda, muito embora às vezes fosse sufocante, fazia-a sentir-se muito bem.

Durante todo o trajeto até a casa da avó, Natsu manteve-se calado. Era perceptível a tensão que pairava sobre seus ombros, todo o desconforto que sentia naquele momento. Chegava a se sentir culpada por fazê-lo passar por aquilo, sabendo o quanto ele detestava ter que visitar sua velha cidade, suas velhas memórias. Ao mesmo tempo, também sentia a obrigação de tentar ajudá-lo a superar aquela coisa que o deixava tão mal. Por mais difícil que fosse, se tivesse parentes vivos, gostaria de não perder contato com eles, tê-los em sua vida. Não tinha a mesma oportunidade que ele, mas, se tivesse, não iria desperdiçá-la. Talvez não funcionasse, afinal, eram pessoas diferentes, para Natsu quem sabe fosse melhor se manter afastado. De qualquer forma, precisava tentar.

Ouviu-o inspirar profundamente quando parou o carro em frente a uma velha casa. Lucy lembrava-se bem no fundo de sua memória da fachada quando visitara o lugar pela primeira vez. Não havia mudado muito desde aquela época. Também não fazia tanto tempo assim. Alguns meses, talvez. Os relógios pareciam tão acelerados que sentia ter estado presente naquele mesmo terreno apenas alguns dias antes. O pensamento a deixou reflexiva. Melancólica, até. Em alguns dias aqueles sentimentos simplesmente surgiam, sem explicação. Mas, naquele em específico, precisava deixá-los de lado. Natsu necessitava de seu apoio.

— Ainda dá tempo de desistir — o garoto comentou, olhando-a até com certa esperança.

— Estamos só a alguns metros da porta. Não vamos voltar agora. E isso não é algo tão complicado assim.

— Talvez não para você. Talvez para a maior parte das pessoas isso seja só um medo bobo. Para mim é algo terrível.

— Eu sei. Mas, pense pelo lado positivo. Vai se sentir melhor se fizer isso. Imagine se você não a convidasse, pode ser que depois se sentisse culpado por isso. Pelo menos assim não vai carregar essa culpa com você.

Ele inspirou novamente, tomando coragem.

— Ok. Vamos acabar logo com isso.

Não o esperou para descer do carro. Natsu correu até ela, carregando um olhar reprovador. A chuva estava pior do que antes, mas ela não se importava tanto assim. Já ele, por outro lado, parecia pensar que sua noiva era feita de açúcar. Imediatamente quando a alcançou, colocou a jaqueta sobre Lucy.

— Quanto exagero. Não dá nem 10 metros daqui até a porta.

— Não importa — respondeu. Seu tom de voz estava diferente. Trazia nervosismo. A garota respirou fundo. Percebeu que rebater naquele momento não era a melhor ideia. Além do mais, ele só estava tomando conta dela, sendo cuidadoso, e isso também era bom para mantê-lo distraído. Seria bobo discutir. Portanto, ao invés, segurou a mão de Natsu, acompanhando-o até a porta.

Torcendo para que não houvesse ninguém em casa, ele tocou a campainha. Para seu azar, seus pedidos não foram atendidos, já que menos de um minuto depois a senhora os atendeu. De expressão simpática, surpresa ao encontrar o neto que há tanto não via parado em frente à sua porta. Lucy não entendia os motivos dos desafetos de Natsu. Contudo, não estava presente em sua vida naquela época, então como poderia criticá-lo?

— Natsu, que visita maravilhosa! E trouxe essa adorável moça com você — exclamou, imediatamente abraçando os jovens. Para Lucy, aquela mulher não parecia uma avó. Sua aparência, apesar dos cabelos grisalhos, era nova demais para isso. Gostaria de chegar à idade da senhora com o mesmo vigor, se possível. — Entrem, por favor. Devem estar congelando aí fora.

— Sim, obrigada — a loira respondeu, já que Natsu parecia ocupado demais analisando o ambiente. Não fazia tanto tempo desde a última visita. Tudo continuava igual. Exceto, com certeza, pela presença de um senhor sem camisa no corredor.

— Quem são esses, Rosa? — Perguntou assim que colocou os olhos nos dois.

— Desculpe, não sabíamos que tinha visita. Podemos voltar outra hora — Natsu comentou, desconfortável.

— De jeito nenhum, meu neto. Vocês fizeram uma longa viagem, não se preocupe com isso. E você — disse, apontando para o senhor —, vista uma camisa, seu velho. Meu querido neto raramente vem me ver, quando vem não deveria precisar ficar olhando para essa sua barriga caída.

— Neto? Você não me contou que era avó — o senhor resmungou, levando as mãos às costas. — Enfim, vou tirar um cochilo. Você esgotou minhas energias noite passada, hein?

Ele retornou ao quarto, rindo, deixando Rosa com as bochechas totalmente coradas. Lucy se perguntava se era de vergonha ou raiva pelo descoro com as visitas. Pela expressão da senhora, provavelmente era a segunda opção.

— Não liguem para esse velho. Estamos juntos há pouco tempo e ele adora me envergonhar desse jeito. Teria te avisado, mas pensei que iria apenas incomodá-lo.

— Não se preocupe. Temos que aproveitar a vida, certo? — Lucy comentou, tentando manter uma conversa. Infelizmente, não era boa criando assuntos, e Natsu estava tenso demais para dizer qualquer coisa.

— Claro. E faz tanto tempo desde a morte do avô de Natsu. Amei tanto aquele homem... Mas, bem, a vida continua — Rosa pareceu se perder em memórias por alguns segundos. — Sentem-se! Sentem-se! Por favor. Posso lhes oferecer alguma coisa? Chá, suco.

— Um copo de água seria ótimo.

— Ok, volto já!

Quando a senhora deixou o cômodo, eles dirigiram-se até a sala, acomodando-se no sofá. Lucy apoiou sua cabeça sobre o ombro do garoto, ainda segurando sua mão.

— Tudo bem? — Perguntou a ele.

— Sim. E você? Está se sentindo bem? — Lucy respondeu murmurando que sim. — Tem certeza?

— Tenho.

— Não parece. Vamos resolver logo esse assunto e voltar para casa. Ok?

Lucy assentiu. Não se sentia exatamente doente, mas gostava dos cuidados de Natsu para com ela.

Pouco depois, a senhora voltou, entregando-lhe o copo com água.

— Então? A que devo a visita? Não que não seja uma boa surpresa. Longe disso, mas é tão raro vocês virem me visitar que imagino que deve haver um motivo.

Como imaginava que Natsu iria continuar calado, Lucy se pronunciou.

— Bom, nós viemos para convidar a senhora para nossa festa de noivado. É só uma pequena comemoração, mas, como a senhora faz parte da família, gostaríamos que fosse.

— Festa de noivado? Meu neto irá se casar? — Rosa espalmou as mãos, sorrindo. — Que maravilha! Como o tempo passa rápido. Parece que ontem mesmo estava abrindo presentes de natal nessa sala. Agora já é um homem, constituindo uma família. É claro que aceito o convite, não perderia por nada.

Natsu esboçou um sorriso de canto. Lucy imaginou que podia tanto ser pela lembrança, quanto por estarem perto de poder ir embora.

— Sim, rápido demais. Ficamos felizes então por poder contar com a sua presença. Te mandaremos o endereço e o horário — a loira respondeu. Tentou relaxar um pouco, percebendo que talvez estivesse soando formal demais. Por estar sempre envolta por um ambiente em que palavras rebuscadas eram quase obrigatórias, acabava tomando aquela posição em situações que lhe causavam nervosismo. — Talvez a senhora pudesse levar aqueles álbuns de fotos de quando Natsu era pequeno. Eu iria adorar revê-los.

— Claro. Com certeza levarei! Quer saber? Acho que vou dá-los de presente para vocês. Um humilde presente de casamento.

— Seria um ótimo presente. E quem sabe um dia seus bisnetos não possam ver as fotos do pai deles quando era pequeno — Lucy comentou, sorrindo. Considerando a recente fixação de Natsu com o assunto “filhos”, imaginou que talvez aquele assunto pudesse relaxá-lo um pouco mais. Contudo, quando olhou para o lado, ele continuava exatamente como antes.

— Se seguirem a tradição dos Dragneel, vão ser muito parecidos com o pai. Natsu era idêntico a Igneel quando pequeno. Até mesmo no comportamento.

— Então, Igneel também era uma criança agitada?

— Muito! Perdi as contas de quantas vezes tive que mandar consertar a janela por ele ter quebrado. Mas, apesar das travessuras, era um bom filho.

Repentinamente, Natsu se levantou, caminhando até o corredor.

— Natsu? — O garoto não lhe deu atenção e continuou a andar. Sequer olhou para trás, mesmo que tivesse ouvido Lucy lhe chamando.

— Eu disse algo de errado? — Perguntou a senhora em voz baixa, inclinando-se para a frente, para que a moça conseguisse ouvi-la.

— Não, acho que não foi isso. Não entendi o que houve.

Rosa levou a mão ao rosto, parecendo aflita.

— Depois do que esse garoto passou, juro que tento fazer as coisas do jeito certo, mas sempre acabo estragando tudo de alguma maneira. Parece que Natsu nunca mais será capaz de gostar de mim.

— Não se preocupe. Tenho certeza de que não foi sua culpa — a loira levantou-se, espiando as escadas. — Vou checar se ele está bem.

A senhora assentiu, deixando-a ir. Lucy subiu lentamente os degraus. Sabia que a terceira porta era a do quarto de Igneel e algo lhe dizia que encontraria Natsu lá.

A porta estava apenas encostada. Tentou abri-la sem fazer barulho, para não chamar atenção. Estava certa, afinal. O garoto estava sentado na beirada da cama, de costas para ela. Se aproximou com cautela, como se estivesse tentando encurralar um animal assustado. Perto o suficiente, percebeu que Natsu estava chorando silenciosamente, com a cabeça abaixada, tentando disfarçar sua situação.

Sentou-se ao lado dele, colocando sua mão no ombro do garoto.

— Ei, o que foi?

— Não é nada.

— Se não fosse nada você não estaria chorando.

— Eu não estou chorando — respondeu, virando o rosto para a parede. Tentou secá-lo com a manga da jaqueta. Mesmo que estivesse literalmente em sua cara, jamais admitiria. Teimoso como sempre.

— Ah, não? Então seus olhos só decidiram se transformar em nuvens? Natsu, é você quem vive dizendo que eu não falo sobre as coisas que me incomodam. Quem está fazendo isso agora? Vai soar meio hipócrita se você me contar o que está havendo depois da bronca que me deu esses dias.

— É injusto você jogar minhas palavras contra mim — disse, tentando esboçar um sorriso.

— Não é para isso que elas servem? Me conta. O que te deixou assim? Você não é o tipo de pessoa que chora muito.

— Sério, não é nada, Lucy. Não precisa ficar preocupada — ele respondeu, dessa vez olhando para ela.

— Se eu não preciso ficar preocupada, você pode me contar o que é.

Inspirou profundamente, tomando coragem.

— Eu só...

— O que?

— Sinto falta deles. Só isso. E essa casa me traz lembranças demais.

— Natsu...

Lucy o olhou com compreensão. Entendia aquele sentimento como ninguém, e sabia o quanto a saudade podia ser algo devastador. Por muito tempo viveu presa ao passado, até finalmente entender que precisava olhar para a frente se queria ser feliz. Se havia alguém com quem Natsu pudesse compartilhar aquela sensação de aperto no peito, era ela.

O obrigou a deitar a cabeça em seu colo, ainda que o garoto estivesse relutante. Não queria demonstrar fraqueza. Sentia a necessidade de ser forte por ambos, o tempo todo, e para ele aquela situação o deixava fraco.

Mesmo que à contragosto, foi se acalmando a medida que Lucy mexia em seu cabelo, abraçado às pernas da loira.

— Eu sei como você se sente. É por isso que nem moro em Nagoya, você sabe. Essa enxurrada de sentimentos e memórias contidas naquele lugar sempre me deixam mal. Não precisava se esconder por isso. É normal. Todo mundo se sente assim às vezes.

— Eu sei — respondeu, voltando a se sentar.

— É só isso que está te incomodando? Só a saudade?

O garoto inspirou profundamente antes de responder.

— Também tenho essa sensação, como se estivesse tentando substitui-los convidando outra pessoa da família. Sei que isso soa muito egoísta.

— Se não está se sentindo bem com isso podemos, sei lá, arranjar uma desculpa. Dizer que você fugiu com uma garota para outro país e terminou comigo.

Natsu sorriu.

— Não. Não ia ser justo. Está tudo bem, sério.

— Ok. Então, será que agora pode voltar a sorrir? Sua cara fica tão estranha quando você chora.

— Como você é engraçada, Lucy — respondeu, ainda sorrindo. Lucy sentiu-se feliz por ao menos ter conseguido distrai-lo. Levou suas mãos ao rosto do garoto, trazendo seu rosto para mais perto do dele.

— Além do mais, você tem um sorriso que poderia iluminar uma cidade inteira. Seria uma tristeza deixar tantas pessoas no escuro — suavemente, com a leveza de um primeiro dentre tantos beijos, mesmo que seus lábios já tivessem se tocado incontáveis vezes, encerrou a distância. Todos os beijos eram bons, mas aqueles, os que tinham real significado, faziam seu coração disparar de uma maneira diferente. Definitivamente, seu coração era a tal cidade, e cada sorriso de Natsu iluminava seu ser. Faria sempre tudo que estivesse ao seu alcance para vê-lo sorrir.

— Só por curiosidade, esse beijo não conta como parte da aposta, conta?

— Não. Idiota — respondeu, rindo.

— Ok então. Bom saber.

— Está melhor?

— Sim — o garoto se levantou. — Acho que vou dar uma volta por aí.

— Se importa se eu ficar aqui um pouco?

— Não, tudo bem. Eu volto logo. E depois vamos para casa, certo?

— Certo.

O garoto assentiu, ansioso para poder retornar ao seu lar. Encostou a porta do quarto, em parte para dar privacidade a Lucy, em parte por não saber quem era aquele senhor com quem sua avó estava se envolvendo e não querer que ele encontrasse sua noiva sozinha.

Depois, desceu as escadas, indo até a cozinha. Rosa estava lá, preparando o almoço, aparentemente. Não quis assustá-la com sua presença, porém também não a avisou que estava ali. A senhora somente o notou quando o viu.

— Natsu, querido! Está tudo bem? — Perguntou.

— Sim, não foi nada. Já estou me sentindo melhor.

— A chuva parece ter piorado. Não querem passar a noite aqui e voltar para casa amanhã, quando o tempo estiver mais calmo?

— Melhor não. Lucy tem várias coisas para fazer — não era uma verdade, já que a loira estava de folga, mas também não era uma completa mentira.

— Ah, que pena. Onde está ela, por falar nisso?

— Lá em cima, descansando.

Rosa deixou os utensílios que utilizava sobre a pia, encarando o garoto.

— Natsu, você sabe que em algum momento terá que contar a verdade a ela, não sabe?

Ele endireitou sua postura, tomando uma posição mais séria.

— Do que está falando?

— Você sabe muito bem. Seus segredos, o monstro que carrega em seu sangue. Lucy tem o direito de saber, é importante que ela saiba.

— Como você sabe sobre essas coisas? — Perguntou, assustado, e talvez com raiva. Sua avó o afastava de sua vida durante anos, e então surgia dizendo que conhecia os mistérios que o cercavam, sem nunca ter contado a ele. Era absurdo.

— Eu apenas sou muito velha. Confie em mim, você deve contar a ela.

— Não — respondeu, irritado. — Não. De jeito nenhum. Não sei como descobriu sobre isso, mas Lucy não tem que saber de nada. Ela não precisa se envolver com essa história. Não vou colocá-la em risco.

— Você tenta protegê-la, mas não consegue enxergar que ela já está envolvida, meu querido. Fale a verdade antes que seja tarde demais.

Se contasse, corria o risco de perdê-la. Lucy iria achar que estava louco. Além do mais, era de comum acordo com Alexei que ela não se envolvesse com aquele mundo sombrio. Quando mais distante estivesse, melhor. Portanto, não iria lhe contar nada, não importava o que aquela senhora dissesse.

Estava prestes a responder quando ouviu passos descendo as escadas. Encontrou Lucy na entrada da casa. Com sorte, não havia escutado a conversa.

— Podemos ir? — Perguntou a ela.

— Claro.

— Ah, deixe-me lhe dar um presente, minha querida. Você gosta de ler? — Rosa questionou, pegando um livro na estante da sala, entregando-o a Lucy. Natsu, ao ver o título, desaprovou imediatamente o gesto. Trazia contos russos, incluindo a história do Koschei. Sabia as reais intenções da senhora com aquele presente.

— Sim, muito. Obrigada.

— Posso falar com você um instante? — Natsu perguntou à senhora, carregando um semblante sério.

— Pode, com certeza.

Caminharam os dois até a sala, longe o bastante para que Lucy não pudesse ouvir.

— O que pensa que está fazendo?

— Facilitando seu trabalho — Rosa respondeu. — O livro não contém a história completa, e é apenas um livro. Cabe a você preencher as lacunas.

— Eu não vou fazer isso. Escute, não sei quem você é ou o que quer com isso, mas estava fazendo um ótimo trabalho se mantendo afastada por todos esses anos. Por que não volta a fazer isso?

— Natsu, pode não acreditar, mas estou apenas tentando te ajudar.

— Ajude ficando longe da minha vida e da Lucy.

Saiu sem se despedir, praticamente puxando Lucy porta a fora. Havia uma mistura de emoções dentro de si, entre elas raiva, surpresa, medo e incerteza. A dúvida sobre como sua avó conhecia sua história pairava sobre sua mente. Gostaria de saber, mas tinha medo da resposta.

A garota notou seu silêncio dentro do carro, sua feição séria. Esperou ele parecer mais calmo até finalmente perguntar:

— Está tudo bem?

— Sim — disse, ainda com ares sérios demais. — Posso te perguntar uma coisa?

— Pode.

— Se alguém te dissesse que histórias e lendas são reais, o que você diria?

— Como em Once Upon a Time ou Grimm?

— Você tem assistido séries demais, Lucy. Mas é, algo como isso.

— Talvez — a garota respondeu, sorrindo. — Diria que essa pessoa ficou louca. Por que?

— Nada. Só curiosidade.

Era tudo o que precisava ouvir. Não iria mudar sua decisão, a menos que fosse forçado a isso. Sua avó estava errada. Lucy não precisava saber. Em sua vida, já havia carregado sofrimento demais, não precisava adicionar mais um. Afinal, a ignorância muitas vezes era uma benção.

Notas finais
Era para o final ter ficado melhor. Maaas, como já tinha demorado tempo demais para postar, quis terminar logo, o que implica num final escrito num momento de muito sono, kkkk. Me perdoem se não estiver tão bom, ok? Boa páscoa a todos! Não comam muito chocolate, e lembrem-se: https://www.facebook.com/theuniverseoffics/photos/a.528446470500671.117223.528307023847949/1355169781161665/?type=3 Comentem! Até mais o/