Onde Tem Ódio Tem Amor
5 Passado
Notas iniciais
A loira acordou sentindo-se já levemente melhor. A dor não lhe afligia tanto quanto antes, porém ainda não conseguia mover-se direito. Suas lembranças da noite anterior se encerravam no momento em que Natsu a deitou na cama.
Olhou para o relógio, ao lado de sua cama. Ainda era muito cedo para se levantar, seis horas da manhã. Dormiria por mais meia hora e só então se arrumaria para ir à escola. Não demorou a cair no sono novamente. Foi acordada pelo som da porta se abrindo e passos se aproximando, até chegarem bem próximos de si e uma voz sussurrar-lhe no ouvido:
― Loirinha, hora de acordar. ― disse, alongando o “a”. Lucy se remexeu na cama, incomodada pela voz. Natsu se aproximou ainda mais, quase encostando sua boca no rosto de Lucy. Provocá-la logo cedo com toda certeza haveria de se tornar uma de suas tarefas preferidas. ― Você vai acordar sozinha ou prefere que eu te acorde com um beijo? Prefiro a segunda opção, mas a decisão é sua, claro.
Imediatamente a loira se virou. Tentou desferir um tapa no rosto de Natsu, porém o rosado fora ágil o bastante para se esquivar.
― Saia daqui. AGORA!
O garoto obedeceu e se afastou rindo. Lucy se sentou, ainda que com dificuldade devido à dor. Esfregou os olhos antes de abri-los completamente.
― Pensei que você nunca fosse acordar, loirinha. Já estava ficando preocupado.
― Você preocupado comigo? Me poupe. ― Natsu sorriu de canto. Por incrível que parecesse para a garota, ele possuía um coração. Lucy moveu o olhar para o relógio e, ao conferir as horas, tentou saltar da cama, porém o rosado a prendeu no colchão tão logo percebeu suas intenções. ― O que está fazendo?! Olhe o horário! Preciso me arrumar ou irei me atrasar.
― Você não pode ir. Não nesse estado.
― É claro que eu vou!
― São recomendações médicas. Não vai ousar desobedecê-las, não é? Mas não se preocupe. Você terá a ótima companhia de um lindo, charmoso, carinhoso, atencioso garoto de cabelos rosados.
― Sério? E cadê ele? ― perguntou, fingindo curiosidade.
― Bem na sua frente.
― Então ele é invisível?
– Não, não é. Muito engraçado, Lucy ― disse o rosado. Pegou um remédio que estava em cima da mesa ao lado da cama e o entregou para Lucy ― Tome, está na hora, não está?
Lucy o aceitou, ainda que com desconfiança no olhar. Não duvidaria nada se aquilo fosse uma espécie de sedativo ou coisa do tipo. Não duvidava de Natsu em nada.
― Tudo bem, eu aceito ficar aqui. Mas com uma condição.
― Que condição? ― O garoto arqueou as sobrancelhas, já esperando uma resposta do tipo “Que você fique o mais distante possível de mim”, porém a resposta não foi essa.
― Me conte porque ficou estranho ontem no hospital depois de ver aquele incêndio.
Aquele era um assunto delicado para Natsu, coisa que, pela expressão em seu rosto, não passou despercebido para Lucy. Já era a segunda vez em que ele mudava suas feições ao ser questionado sobre esse assunto.
― É pessoal. Por que está tão interessada nisso?
― Eu fiquei curiosa. Apenas isso.
O garoto amansou sua expressão, com uma ideia correndo-lhe pela mente.
― Façamos uma troca de histórias então. Eu lhe conto a minha, e você me conta a sua. Mas, também tenho uma condição: Você terá que ser “legal” comigo hoje.
― Eu sou legal, você é quem não facilita as coisas. É um idiota irritante. Eu concordo, contanto que você também seja legal. Nada de cantadas ou piadinhas bestas.
― Ok. ― respondeu, erguendo os braços em sinal de rendição.
Natsu sorriu novamente. Lucy se levantou, e dessa vez ele não a impediu.
― Aonde você vai?
― Tomar um banho.
― Se quiser eu posso te ajudar. ― o rosado sugeriu em um tom malicioso
― O que aconteceu com a nossa trégua? ― a loira perguntou enquanto pegava algumas roupas limpas no armário.
― Você não disse quando ela começava. ― comentou rindo. Teve que desviar de um travesseiro jogado por Lucy, o que não foi difícil, já que o travesseiro não foi jogado com força devido à condição da garota. ― Você não deveria se esforçar, pode acabar se machucando mais.
― Vale a pena o sacrifício ― a garota saiu do quarto, sendo seguida por Natsu. ― Certo, então nossa trégua começa assim que eu terminar meu banho.
― Ok, então isso significa que eu posso te provocar até lá, correto? Tem certeza que não quer minha ajuda?
Lucy nem sequer se deu ao trabalho de respondê-lo, apenas bateu a porta na cara do rosado. Ele não queria falar sobre seu passado, não queria trazer de volta lembranças dolorosas que ainda lhe machucavam, não sabia nem mesmo o porquê de ter aceitado contá-lo para Lucy, a única pessoa que sabia aquela história era Gray. Mas agora não podia voltar atrás.
Quando a loira terminou seu banho, caminhou até a sala. Natsu estava na cozinha. Os dois cômodos formavam apenas um, não havia paredes para dividi-los, portanto Natsu continuou lá, tendo que se segurar para não provocar Lucy. Ela se sentou no sofá, olhando para ele.
― Isso é o paraíso, sabe? Nada daquelas piadinhas. Por que você não poderia ser assim sempre? Se tornaria ao menos... tolerável.
― Porque nesse caso não seria mais eu, apenas uma cópia sem graça. Mas lembre-se, nossa trégua só vale para hoje. E eu não sou tão ruim assim ― o rosado lhe entregou uma tigela com um líquido pastoso branco e se sentou no sofá com outra tigela, para si. ― Pegue.
Lucy olhou o conteúdo dentro da tigela desconfiada. Não fazia a mínima ideia do que poderia ser aquilo.
― O que é?
― Um mingau, para o café da manhã. O que mais poderia ser?
― Isso? Um mingau? Obrigada, mas acho que perdi a fome.
― Eu não sei cozinhar, foi o máximo que eu consegui fazer. Pelo menos me esforcei. Sabe, Lucy, posso não ser bom na cozinha, mas sou ótimo na... ― ele parou e pensou, enquanto Lucy o encarava, apenas o esperou completar a frase ― Droga! Por que eu fui aceitar essa trégua? Não poder te irritar é... irritante!
― Mas agora que aceitou terá que cumprir ― comentou vitoriosa. ― Vamos, comece a contar porque você estava estranho ontem.
– Por onde eu começo...? Bem, meu pai sempre gostou muito de dragões. Seu nome era Igneel, tinha cabelos vermelhos, enquanto minha mãe era loira, acho que é por isso que eu tenha cabelo rosa, deve ser uma mistura dos dois...
― Mas o que isso tem a ver com o que aconteceu?
― Você vai me deixar contar ou não?
― Tudo bem, continue.
― Como eu estava dizendo, meu pai era apaixonado por dragões, chegou a dizer que eu fui abençoado por um, uma história maluca. Nunca acreditei nele, mas hoje em dia não tenho tanta certeza de que era só uma brincadeira...
― Por que?
― Quer parar de me interromper? ― disse, começando a ficar irritado. ― Você quer saber, mas não me dá tempo para falar.
― Me desculpe, eu fiquei curiosa.
― Então não me interrompa, senão não conto mais nada. Continuando, meu pai sempre me contava histórias sobre dragões, e eu adorava.
“Ainda era tarde, quase anoitecendo. Me lembro bem daquele dia. Eu estava fazendo um desenho para meu pai. Um dragão, obviamente, de escamas vermelhas, assim como o cabelo de Igneel, tentando deixá-lo o mais bonito possível. E quando terminei, corri até meu pai, orgulhoso, para entregar a ele minha “obra de arte”.
Ele estava sentado no sofá, lendo o seu jornal. Sempre fazia isso ao chegar em casa. Como trabalhava durante o dia, o único horário que tinha disponível para ver as noticias era à noite. Para mim, ele realmente se parecia um dos dragões das histórias. O melhor de todos. .
“Papai.” Eu o chamei. E ele me respondeu, perguntando o que eu queria, então entreguei-lhe o desenho. O olhou maravilhado, sem desviar o olhar. Um sorriso se formou em seus lábios lentamente enquanto seus olhos brilhavam. Parecia feliz. Pôs a mão na minha cabeça e disse sorrindo: “Está ótimo, filho. É um grande dragão, meu pequeno dragãozinho.”. Eu o abracei, contente por saber que ele se orgulhava.
O seu cachecol branco pinicava meu pescoço, mas eu não me importava. Ele sempre o usava, em todas as ocasiões. Dizia ter um grande valor sentimental, mesmo que eu nunca tivesse entendido realmente o porquê. Porém, naquele dia ele o tirou. Para colocá-lo em outro lugar: Em mim. O enrolou no meu pescoço, dizendo que tinha certeza de que eu iria cuidar bem de seu precioso item. Me pediu para guardá-lo e que se lembrasse dele sempre que o olhasse.
E então mamãe entrou na sala, chamando-nos para o jantar. Antes de ir, pedi ao meu pai que me contasse uma estória naquele dia. Ele, como sempre, aceitou. Eu adorava as estórias que meu pai me contava, geralmente, claro, sobre dragões.
Quando terminamos o jantar, meu pai pediu para que eu esperasse no quarto. Havia algumas coisas que ele precisava fazer antes. Às nove e meia ele me chamou em seu escritório, pegou um grosso livro e me sentei em seu colo enquanto o ouvia ler. Era a estória sobre um dragão que possuía o mesmo nome que meu pai, Igneel, e sem dúvida alguma foi a que mais chamou minha atenção. Porém, antes que ele pudesse terminá-la, mamãe me chamou, dizendo que estava na hora de eu ir dormir. Eu insisti para ficar, como qualquer criança faria, mesmo que soubesse que no fim ela venceria. Mães sempre vencem.
Papai me disse que terminaria a estória no dia seguinte. Me levou até o quarto e me desejou boa noite. Como se eu fosse conseguir dormir.
Aquela estória martelava na minha mente. Eu precisava saber o final, de um jeito ou de outro. Desci sorrateiramente até o escritório, tomando cuidado para não acordar ninguém. Peguei uma vela e a acendi, desobedecendo as recomendações de minha mãe sobre nunca mexer com fogo sozinho. Peguei o livro, coloquei-o sobre a escrivaninha e o li até o fim.
Era confuso. No fim da estória o dragão simplesmente sumia, sem nenhuma explicação. Pensei que no dia seguinte, quando meu pai me contasse novamente a estória, ele teria iria me explicar o que aconteceu. Mas essa chance nunca veio.
Ao guardar o livro esbarrei a mão na vela sem querer. Ela caiu no chão, provocando um barulho alto quando o vidro do copo que a guardava se quebrou. As chamas da vela atingiram o tecido da cortina e tão logo quanto pude perceber o fogo se espalhou.
Ouvi passos vindos do corredor. Dos meus pais, com certeza. O olhar de meu pai primeiro mirou a mim, gritando o que estava fazendo ali; logo em seguida avistaram as chamas atrás de mim. Ele ordenou para que eu fosse até ele, e eu o obedeci. As chamas já quase atingiam os papéis sobre a escrivaninha quando o alcancei.
Toda a estrutura da casa era de madeira, o que significava que não demoraria muito até que tudo estivesse em chamas. A saída estava bloqueada, a porta para o corredor ficava exatamente ao lado da escrivaninha, justamente onde o fogo mais atingia. Logo mamãe também estava ali. Desceu ao sentir o cheiro de fumaça.
Mal tiveram tempo de procurar uma saída ou ligar para os bombeiros. O fogo se espalhou rápido demais. Eu estava com medo, muito medo. Abracei meu pai o mais forte que podia, pedindo desculpas a ele. “Não tenha medo, Natsu. Vai ficar tudo bem, meu pequeno dragão”. Foi o que ele disse, mas eu sabia que eram apenas palavras.
Sufocado pela fumaça, acabei por desmaiar. No dia seguinte, quando acordei, a casa havia desabado. Havia cinzas por todo o lado. Apesar de tudo eu estava bem. Nenhuma queimadura, nenhum ferimento. Já meus pais... eles estavam mortos.
E depois disso me mudei para Magnólia. Minha tia, irmã do meu pai, ficou com minha guarda. Não gostava dela, e esse era um sentimento recíproco. Assim que consegui me mudei, mas o aluguel do lugar em que morava antes era caro demais, e, bem, aqui estamos agora. O cachecol que ganhei do meu pai foi a única coisa que trouxe da minha antiga casa, a casa dos meus pais. Está guardado, é doloroso olhar para ele. Até hoje não consigo entender como não me queimei naquele incêndio. E até hoje tenho que conviver com a culpa pela morte dos meus pais.”
Ao terminar seu relato, Natsu jogou a cabeça para trás. Por que contou tudo aquilo a Lucy? Mal a conhecia. Não deveria confiar sua história a qualquer um, mas, por algum motivo desconhecido até para ele, a confiou a ela.
Lucy sorriu de canto, com o olhar triste.
― Sua vez. ― Natsu disse, colocando as mãos atrás da cabeça e se espreguiçando.
― Nós temos ao uma coisa em comum.
― O que? ― Ele perguntou, curioso.
― A culpa pela morte de pessoas queridas.
― Bem, então me conte como foi que adquiriu a sua culpa.
Lucy suspirou, preparando-se para a sua vez de contar-lhe o passado.
― Quando eu tinha oito anos adorava ajudar minha mãe a cozinhar. Sempre pedia a ela que me deixasse ajudar, aquele dia não foi diferente. Ela estava na cozinha preparando o almoço. Meu pai havia ido trabalhar. Fui até ela e como sempre perguntei se poderia ajudar. Ela relutou em aceitar, dizendo que poderia ser perigoso, mas por fim cedeu.
Começou a procurar pelos fósforos, para acender o fogão. Eu os encontrei antes dela. Antes que eu ou ela percebêssemos um vazamento de gás na cozinha, os acendi. Minha mãe me abraçou a tempo de me proteger da explosão que se seguiu. Quando eu percebi, ela estava morta e eu apenas com alguns arranhões. Ela morreu para me proteger. Por muitos anos meu pai me culpou por isso. Nossa relação se tornou ainda pior do que já era. Somente há alguns anos temos voltado a nos entender.
― Parece que nós dois temos passados complicados. ― Natsu comentou, erguendo levemente o canto da boca.
― Sim, aparentemente.
O resto do dia passaram conversando, sem tocar mais em feridas do passado, entretanto. Aquela conversa já havia sido o suficiente para aquele dia. Mal perceberam o passar do tempo na companhia um do outro.
Já no fim da tarde, a campainha tocou. Natsu se levantou, caminhando até a porta para atendê-la. Era Levy.
.― Oi, Natsu. Lucy está aí.
O garoto não se deu nem ao trabalho de responder, apenas apontou para o sofá. Levy imediatamente foi até a loira e a abraçou carinhosamente.
― Lu-chan, como você está?
― Bem melhor. ― Lucy respondeu.
― Parece que sua companhia linda aqui não precisa mais ficar, já que outra pessoa chegou para cuidar de você. ― Disse Natsu.
― Isso é um alívio.
― Você diz isso, mas não vive sem mim.
― Eu mal te conheço, Natsu. ― Lucy rebateu.
― Para você ver o quanto me tornei importante em tão pouco tempo de convivência. Bem, vou até a casa do Gray. Vejo vocês mais tarde. ― o garoto as avisou.
Antes que Natsu saísse, Lucy o chamou.
― Ei, Natsu, foi bom conversar com você. Sabe, sem você ser extremamente irritante.
― Digo o mesmo, senhorita. ― ele sorriu discretamente, atravessando a porta. ― Sei que é difícil, mas não sinta muito a minha falta.
― Pode deixar, não vou sentir nem um pouco.
Ao fechar a porta Natsu parou um pouco antes de andar em direção a saída do prédio. Estranhamente, havia ficado feliz ao ouvir de Lucy que tinha sido bom falar com ele. Havia algo de estranho naquela garota, mesmo que ele não soubesse o quê. Um estranho no bom sentido.
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