Onde Tem Ódio Tem Amor
33 "O imperfeito que é perfeito"
Notas iniciais
― Lucy, o que você está fazendo? ― Um completamente confuso Natsu perguntou. Sua resposta, porém, não lhe trouxe nenhuma explicação satisfatória.
― Apenas fique quieto, garoto do cabelo rosa. ― Ela sussurrou sensualmente em seu ouvido enquanto sua mão esquerda deslizava pelos fios de cabelo de Natsu. ― Apenas você pode se divertir? Eu já disse. Agora, é você quem está em minhas mãos.
Ela mordeu o lóbulo da orelha do garoto e beijou lentamente seu pescoço. Natsu não se movia nem mesmo um centímetro, e se quisesse fazê-lo já teria feito assim que ela se colocou sobre ele. Mas não, queria saber até onde aquilo iria. Também não podia negar que estava gostando, apesar de aquelas não serem nem de longe atitudes que Lucy tomaria.
Lucy o beijou até chegar ao canto dos lábios do rosado, depositando ali um singelo selinho. Simples, porém totalmente provocante e carregado de intenções de deixá-lo louco. Afinal, naquele momento pelo menos era isso que ela estava tentando fazer.
― Não sei o que aconteceu, mas por que mesmo você não pode ser sempre assim, hein, Lucy? ― Perguntou, soltando um sorriso malicioso. Em resposta, Lucy apenas retribuiu o sorriso e logo em seguida retirou rapidamente a camisa que o rosado vestia, com a ajuda do mesmo. Passou a beijá-lo novamente no pescoço, descendo pelo peito, abdômen, até chegar à cintura da calça jeans.
Ele estava se controlando, mesmo que esta fosse uma tarefa difícil. O plano de Lucy estava funcionando perfeitamente, apenas com simples beijos distribuídos com astúcia nos lugares que mais o afetavam estava deixando-o louco.
Enquanto isso, ela começava a se arrepender. Continha a vergonha dentro de seu corpo, sem deixar que Natsu a percebesse, mesmo que estivesse morrendo de vontade de se esconder em um buraco e nunca mais sair após fazer aquilo. Pensou se não deveria desistir, mas não podia, não depois de ir tão longe. O que diria a Natsu se desistisse de seu plano? Não, definitivamente não podia.
Aquilo parecia um jogo. Quem resistiria por mais tempo? Natsu, ao resistir aos seus impulsos de inverter as posições e arrancar sem nenhum pudor todas as roupas que Lucy vestia naquele momento; ou Lucy, ao resistir à sua vergonha e não desistir de seu “plano de vingança”?
― Qual a graça de algo que é rotina, hein, Natsu? ― Ela perguntou, olhando nos olhos do rosado, mesmo que estes estivessem vendados. Subiu novamente para beijá-lo nos lábios. Um beijo de verdade, não apenas um simples selinho.
E aquilo quase foi suficiente para que Natsu perdesse a cabeça. Ela o beijando daquela forma tão sensual, a guerra que ocorria dentro de suas bocas naquele momento. Nem mesmo quando estava bêbada ela o beijou daquela maneira. Ele imaginou como deveria ser tê-la por completo, ter seu coração e sentir um beijo de Lucy cujo ela realmente se entregasse, pois apenas com um beijo em que ela quase não deixava expostos seus sentimentos conseguia mexer muito mais com ele do que qualquer outro beijo de qualquer outra garota que ele já havia beijado em toda sua vida. E não foram poucas.
Naquele instante, Natsu realmente teve que ter muito autocontrole. Mal imaginava, porém, que tudo não passava de um plano da “loirinha”, e ela sabia muito bem que se ele perdesse o controle e decidisse virar o jogo, tudo estaria perdido e não saberia onde poderiam parar.
Por esse motivo parou o beijo.
Natsu a olhou nos olhos, com a respiração ofegante, antes de responder a pergunta que a loira havia feito antes de beijá-lo.
― É, acho que você tem razão.
Ela sorriu antes de sussurrar novamente em seu ouvido.
― Está sem ar só por causa disso, Natsu? Eu mexo tanto assim com você, é? ― Repetiu a pergunta que o próprio rosado havia feito a ela no dia anterior.
― Não se ache tanto, por favor. Precisa de muito mais para me deixar sem ar, loirinha.
― Ah, é?
Ela sorriu maliciosamente novamente enquanto abria o zíper da calça do rosado e a retirava por completo, revelando a cueca boxer preta, e também o grande volume que havia ali dentro. Tinha sorte de o quarto estar totalmente escuro e os olhos de Natsu estarem vendados, pois seu rosto tomou uma coloração vermelha tão forte que parecia que todo o sangue de seu corpo havia se concentrado em suas bochechas.
Definitivamente, aquela não era a Lucy que ele conhecia.
Ela o beijou novamente no abdômen, chegando a mordiscar a pele do rosado e arranhar seu peito com as unhas.
E pronto, aquilo já era suficiente para que seu plano funcionasse, tinha tudo o que precisava, não necessitava mais enlouquecer o pobre Natsu. Lentamente, para não levantar suspeitas, saiu de cima dele e da cama. Pegou a camisa e a calça do garoto e saiu do quarto, fazendo o mínimo de barulho possível ao abrir e fechar a porta. A parte mais difícil estava feita, agora era só esperar.
Natsu pensava que ela havia se levantado apenas para pegar alguma coisa, mas passados alguns segundos sem ouvir barulho algum começou a suspeitar. Tirou a venda e se sentou na cama, olhando para todos os cantos e, como imaginava, sem encontrar nem um resquício de Lucy.
Levantou-se imediatamente, olhando para a cama, embaixo dela e para cada centímetro do chão. Não era apenas Lucy que havia sumido, suas roupas também!
Checou a porta: Trancada. A porta do banheiro: Trancada. As janelas: Trancadas!
Ele não tinha por onde sair, e o pior: a camareira vinha limpar os quartos todos os dias entre nove e dez horas da manhã e a permanência de garotos nos quartos femininos era totalmente proibida, ainda mais de garotos vestindo apenas a roupa íntima! Aquilo com certeza lhe renderia muitos problemas.
Socou a parede mais próxima com força. Como havia sido burro! Devia ter percebido que aquilo estava estranho demais e ter desconfiado. Mas não. Deixou-se ser totalmente manipulado por aquela garota.
Não havia por onde sair, nem onde se esconder, já que não cabia embaixo da cama e não havia armários no quarto, nem ao menos poderia se vestir já que suas roupas não estavam ali e as de Lucy não lhe cabiam, muito menos as de Levy.
O rosado mal percebeu que passou tempo demais pensando ao invés de encontrar uma solução quando a porta do quarto se abriu e a senhora de cabelos presos, uniforme branco e vassouras e baldes entrou, parando estupefata ao ver o jovem seminu ali.
― O-Oi. ― Cumprimentou o rosado sorrindo, enquanto bagunçava seu cabelo rosa, coisa que sempre fazia quando estava nervoso. Como se um sorriso fosse tirá-lo daquela situação...
***
― Natsu Dragneel! As aulas nem sequer retornaram ainda e já estou tendo problemas novamente com você?! Já tendo que te dar uma bronca em minha sala?! ― Bem, tecnicamente não era uma sala, mas sim o quarto em que o velho estava. O tom do diretor Makarov sugeria que Natsu não o havia pego em um de seus melhores dias. Talvez isso se explicasse pela sua pele queimada de Sol e pelo fato dele odiar praias e apenas ter acompanhado os alunos por ser sua obrigação. ― Te darei uma chance, UMA CHANCE, de explicar o porquê de o senhor estar praticamente nu no quarto das senhoritas Heartfilia e McGarden de forma convincente.
― Foi culpa da Lucy, ela que me chamou. ― Natsu, já devidamente vestido respondeu, olhando para qualquer ponto do quarto, menos nos olhos do diretor.
― Há! Está querendo culpar a senhorita Heartfilia agora, é? Por acaso não sabia que é proibida a entrada de garotos nos quartos das garotas?!
― Mas é verdade-
― Nem mais uma palavra! Eu tenho tido problemas com o senhor desde quando entrou nessa escola, senhor Dragneel. Essa foi a gota d’água. Deveria expulsá-lo! ― O sangue de Natsu congelou. Gostava daquele lugar, não queria ser expulso. ― Mas não farei isso. Lhe darei outro castigo, entretanto. Foi uma infração grave e eu já estou cansado das suas artes, senhor Dragneel. Como castigo, o senhor está expulso do time de Rugby da escola.
O rosado se levantou rapidamente da cadeira em que estava sentado, indignado.
― O senhor não pode fazer isso! Eu... Eu-
― Não só posso, como vou. Pode continuar jogando, mas não no nosso time. Agora saia, terminamos por aqui.
Natsu obedeceu. Naquele momento sentia tanta raiva de Lucy como nunca sentira antes. Sua vontade era de nunca mais olhar na cara da loira. Ele amava aquele esporte, amava ser um dos melhores jogadores do time, estava totalmente ansioso pelas finais, havia lutado para chegar até ali e tudo simplesmente havia acabado por causa dela!
Enquanto caminhava de volta para seu quarto a encontrou.
― Ei, a camareira gostou do seu físico, Natsu? ― perguntou a garota para provocá-lo, enquanto sorria.
― Não fale comigo. Nem uma única palavra.
O tom sério de Natsu a assustou.
― Qual é. Você vive fazendo isso, por que eu não posso?
― Eu não faço coisas desse tipo!
― Ah, claro que não! Você é um santo, não é? ― disse em tom irônico. ― Até parece! Poderia citar várias vezes, mas apenas uma já basta: Aquele dia da boate!
― Não é a mesma coisa. Você era quem estava dando em cima de mim naquele dia.
― E você se aproveitou! ― Lucy respirou fundo. Se continuassem discutindo naquele tom logo os outros alunos viriam ver o que estava ocorrendo, e ela não queria isso. ― Foi só uma brincadeira, ok? Uma brincadeira para contrapor todas as vezes que você fez o mesmo comigo. Não leve as coisas tão a sério, Natsu.
― Só uma brincadeira?! ― Ele riu sarcasticamente. ― Pois por culpa da sua brincadeira eu fui expulso do time de Rugby!
A loira parou, olhando fixamente para Natsu, expressando surpresa e afônica.
― E-Expulso? Como assim? ― Perguntou, notando a seriedade da situação para Natsu. Se antes suspeitava, agora tinha certeza: Havia ido longe demais com seu “plano de vingança”.
Nunca teve a intenção de fazê-lo ser expulso do time. No máximo sabia que ele poderia levar uma advertência ou suspensão, o que já era comum para Natsu, mas ser expulso do time? Isso nem sequer passou pela sua cabeça.
― Isso mesmo que você ouviu. Toda minha dedicação, todos os treinos para finalmente chegar à final, tudo foi por água abaixo por sua culpa.
― Natsu, eu não pensei que o diretor fosse ser tão rigoroso com o castigo. ― Disse, arrependida de seu feito.
― Ah, que novidade você não ter pensado. Você nunca pensa mesmo, não é, Lucy? Nunca pensa nas consequências dos seus atos, e justamente por causa disso sou quem sempre acaba levando a pior! Sendo tendo que te salvar ou... sendo expulso do time! Sabe, existe uma coisa chamada cérebro que você deveria usar um pouco, não faria mal nenhum.
As palavras do garoto a atingiam como facadas em seu coração. O tom grosso e sério que ele utilizava, nunca havia falado com ela daquela maneira. Além do que, o modo como ele falara parecia demonstrar arrependimento em tê-la salvo todas as vezes.
― Natsu-
― Quer saber? Você é uma garota mimada, irresponsável, ingrata e egoísta, só pensa em si mesma, sem nem ligar para outros. Acha que pode fazer o que quiser sem nem pensar no que pode acontecer. Eu nem sei porque me importei tanto com você até agora, sendo que em troca tudo o que ganhei foi você me chamando de idiota e de várias outras coisas, além ter perdido uma das coisas que eu mais gostava. É como um fardo que eu sou obrigado a carregar. E já estou de saco cheio disso.
Ele a deixou sozinha na sala e partiu para o seu quarto. Lucy nem sequer se deu ao trabalho de respondê-lo, estava ocupada demais tentando desfazer o nó que se formara em sua garganta e conter as lágrimas que se formavam.
Dizem que palavras são a forma de tortura mais eficiente. Machucam muito mais do que qualquer lamina. Mas as palavras de Natsu não a machucaram por terem sido ditas por ele, mas sim por pensar que talvez ele tivesse razão. Por aquelas características que ele dissera descreverem a antiga Lucy. A Lucy que a atual queria de qualquer forma enterrar o mais profundo possível em seu coração. Características que a descreviam no pior momento de sua vida.
Não devia pensar no passado, sabia disso, mas por alguma razão ele estava a todo o momento ali, como algo que ela teria que sempre carregar. Algo do qual ela nunca parecia nunca conseguir se livrar.
“As pessoas têm um costume irritante de se lembrarem de coisas que não deviam.”
— Eragon
***
― Lu-chan, o que está fazendo aqui dentro com o tempo ótimo que está lá fora? ― Perguntou Levy, assim que encontrou sua amiga sentada na cama do quarto abraçada ao travesseiro. As duras palavras de Natsu ainda reverberavam na mente da loira.
― Não estou com vontade de ir lá fora. ― Respondeu sem o menor ânimo.
― O que aconteceu? ― Levy perguntou sentando-se ao lado de Lucy, percebendo que algo estava errado.
Lucy lhe contou toda a história. Desde seu plano de vingança, até as palavras cruéis de Natsu. O feitiço havia se virado contra o feiticeiro, afinal.
Levy escutou tudo com atenção, sem interromper a amiga em nenhum momento. E apenas quando ela terminou se pronunciou a respeito.
― Eu não acredito que você fez isso, Lucy.
― Eu sei, foi uma atitude idiota. Agora eu sei...
― Deixe ele se acalmar, ok? Natsu está estressado demais agora, não importa o que você diga, ele não vai te ouvir. ― Levy se levantou, segurando a mão de Lucy para tentar levá-la junto. ― Vamos, precisa se distrair. Ficar trancada aqui não vai ajudar em nada. Além do mais, só temos mais esta tarde e amanhã para aproveitar esse lugar.
― Mas Levy-chan...
― Sem “mas”, vamos, Lucy.
Sem conseguir fazer sua pequena amiga mudar de ideia, Lucy a obedeceu. Vestiu o biquíni e a seguiu para a piscina. Ao menos de início não viu Natsu por lá. Não sabia se queria vê-lo, estava envergonhada demais para isso.
Sua felicidade, porém, durou pouco. Avistou o garoto de cabelos rosados do outro lado da piscina, conversando com Stace Johnson, uma das meninas mais disputadas da sala pelos alunos do sexo masculino. Muito conhecida por ficar com todos os caras populares, e Natsu não era exceção. Lucy apenas não sabia, mas aquela era uma das garotas da lista “já peguei” do rosado.
Estavam próximos demais um do outro. Stace praticamente colava os seios no peitoral definido de Natsu, e em alguns momentos sussurrava no ouvido do garoto enquanto ele ria. Se ele havia percebido a presença de Lucy ali, não havia dado a mínima. Era como se nem a conhecesse.
― Ei, olhem só quem parece ter voltado a ação. ― Comentou Gray para Levy, Erza e Lucy, apontando com a cabeça para Natsu. O moreno nem sequer tinha conhecimento da recente briga entre Natsu e a loira. ― Ele não estava pegando ninguém desde que Lucy chegou. Isso é estranho. Ou o normal do Natsu. Mas ele podia ter escolhido alguém melhor. A Stace? Sério, olhos puxados?
Lucy se levantou, claramente incomodada.
― Levy-chan, eu realmente não estou com vontade de ficar aqui.
A pequena lançou a Gray um olhar que dizia: “Seu idiota!”.
― O que?! Eu não fiz nada. ― Ele retrucou.
***
Ah, o bom e velho livro. Melhor companheiro nos momentos depressivos, ou quando simplesmente se quer fazer com que tudo ao redor desapareça. Lucy agradecia mentalmente por não ter se esquecido de colocar um de sua coleção na mala. Sabia que poderia precisar.
Pegou o que havia trazido, um de seus contos fictícios favoritos, Eragon, do escritor norte americano Christopher Paolini, e se sentou no sofá da sala para ler, após tomar um banho.
A estória de um jovem rapaz que tem sua vida completamente mudada após encontrar uma pedra misteriosa, que era, na verdade, um dos únicos ovos de dragão restantes no mundo. Ela amava aquele livro, o mundo de fantasia criado com tanta maestria por Paolini conseguia levá-la a outro universo e fazê-la esquecer-se de todos os problemas que tanto incomodavam-na.
Porém, nem mesmo o melhor livro do mundo faria a presença de certo garoto de cabelos rosados passar despercebida por ela.
Assim que ele adentrou o recinto, ela tirou os olhos da página e o observou. Era como se Lucy fosse invisível, como se não estivesse ali. Ele procurava por algo, e a garota então pensou em arriscar dirigir-lhe a palavra.
― Natsu. ― o chamou. ― Por favor, me perdoe. Eu sei que eu fui idiota, ok? Eu sei que não deveria ter feito o que eu fiz. Só... pare de me ignorar, por favor. Eu estou arrependida e se pudesse voltar atrás eu voltaria. Só que não tem como, eu só posso pedir que você me perdoe.
Ele nem sequer deu atenção. Quando encontrou o que procurava saiu da sala e a deixou falando sozinha.
O que estava feito, estava feito, não havia chance de desfazer. E como aquilo doía... Mas ele não podia ignorá-la para sempre, não é? Os dois moravam juntos, ele não podia continuar daquela maneira por muito tempo. Pelo menos ela torcia por isso.
Precisava tomar alguma atitude... Precisava consertar o erro que havia cometido. Apenas não sabia como.
A tarde, a noite e a manhã do dia seguinte se seguiram da mesma maneira: Com Natsu a ignorando. Ela nunca pensou que fosse sentir tanta falta daquele Natsu irritante e pervertido de antes. Era simplesmente torturante não tê-lo por perto, por mais estranho que parecesse.
Foi então que na manhã do último dia naquela viagem ela teve uma ideia. Torcia para que funcionasse, pois caso isso não ocorresse não saberia mais o que fazer para ter o seu Natsu de volta.
***
Bateu na porta e entrou, mesmo que não tivesse recebido nenhuma resposta de volta. O garoto estava deitado na cama, mexendo no celular. Olhou de canto para Lucy e voltou a se concentrar no que fazia antes.
― Você ainda está no time da escola. ― Disse. Ele a olhou com os olhos semicerrados, sem entender. O velhote havia sido muito claro no dia anterior quando o expulsou do time. ― Eu falei com o diretor Makarov, disse que a culpa era minha e contei tudo a ele. Bem, você ainda levou uma advertência, por ter entrado em um dos quartos femininos; e eu levei uma também, adeus histórico perfeito. ― Ela riu levemente. ― Mas ele reconsiderou sobre te expulsar, já que não foi totalmente culpa sua. Então, será que agora pode voltar a ser o pervertido e idiota que eu conheço e que não aguento mais ficar sem? Por favor, Natsu.
― Está falando sério? ― Natsu perguntou, sentando-se na cama. Como era bom ouvi-lo falar com ela novamente.
― É claro que sim. Eu não mentiria. ― Respondeu, estendendo a mão. ― Amigos?
Ele olhou para Lucy, sorriu e retribuiu o cumprimento...
― É, tudo bem. ―... antes de puxá-la, fazendo-a cair em sua cama. ― Mas com um preço.
― Natsu!
Natsu colocou seus braços um de cada lado do corpo de Lucy e se aproximou de seu rosto, ainda sorrindo.
― O que? Você pode e eu não?
Ela esperava que ele fosse beijá-la, e depois do que acontecera sinceramente não queria isso. Mas o que ele fez foi um pouco diferente. Colocou suas mãos na barriga de Lucy e pressionou a região, fazendo cócegas e arrancando gargalhadas da garota, além de pedidos implorando que ele parasse. E ele parou, mas apenas quando achou que era suficiente.
― Agora estamos quites.
Lucy se sentou na cama, assim como Natsu, enquanto recuperava o ar e sorria. Porém o sorriso logo se desfez.
― Sabe, Natsu, acho que você estava certo. ― Ele a olhou com atenção. ― Sobre as coisas que disse sobre mim ontem. Você tem razão.
Rapidamente Natsu se recordou das coisas que dissera. E assim como Lucy não se orgulhava do que havia feito, ele não se orgulhava do que havia dito.
― Não, eu não tenho.
― Tem sim. Você sabe que tem. E eu também sei. Eu venho tentando me livrar dessa personalidade há anos, mas parece que nunca consegui.
Natsu segurou o rosto da garota com as duas mãos, obrigando-a a olhá-lo nos olhos.
― Lucy, você não é nada daquelas coisas, ok? Eu estava com raiva, disse coisas que não deveria. Quando as pessoas estão com raiva não pensam no que dizem. Não significa que seja verdade. Você tem defeitos sim, não dá para negar. E eles são irritantes algumas vezes, admito. Assim como eu tenho meus defeitos. Mas mesmo os defeitos são uma qualidade humana. Qualidade no sentido literal, não uma característica. São coisas que fazem parte de nós, nos tornam quem somos. Eu sou irritante, e pense, se isso de repente desaparecesse de mim seria como se não fosse mais eu, não é? Faz parte de mim. Mesmo os defeitos formam o que somos, não devem ser levados exatamente como coisas ruins, afinal, são eles que nos tornam humanos. ― Ele se levantou, estendendo a mão para Lucy. ― Agora, que tal um passeio na praia antes de irmos embora, para esquecer todas essas coisas, hein?
Ela sorriu, acenando positivamente.
Natsu tinha razão. Mesmo os defeitos formam o que somos. E se desaparecessem seria como uma parte de nós que desapareceria. Ela tivera a prova disso naqueles dias, com Natsu não sendo... bem, Natsu. Aquele jeito irritante e pervertido que por vezes a tirava do sério, mas que com certeza fazia muita falta quando desaparecia.
“Aqueles que nós amamos são normalmente os seres mais estranhos para nós.”
— Oromis (Eldest)
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