Onde Tem Ódio Tem Amor
74 O Sol por trás das nuvens
Notas iniciais
A noite anterior fora definitivamente esquisita, concluíra Lucy naquela manhã de sábado. Quase isenta de palavras, marcada pelo calor de um abraço que durou até o momento em que caiu no sono, e, ainda assim, não exatamente um gesto de reconciliação. Face a face, mas a quilômetros de distância. A recuperação viria com o tempo, esperava, mas naquele momento não se sentia de fato em casa, como era antes estar nos braços de Natsu. Sentia-se pisando na calçada depois de um longo e cansativo dia, com a ansiedade dos últimos passos até a porta fazendo parecer com que a caminhada seria muito mais longa do que realmente era.
Suas costas doíam por ter adormecido no sofá, em algum momento da noite. Começou a pensar em como Natsu aguentava dormir naquela coisa dura sempre, mas logo se lembrou do sono pesado que ele possuía. Poderia dormir até mesmo sobre pedras sem problema nenhum. Ele, aliás, parecia ter acordado cedo, pois quando Lucy despertou não havia nem sinal do garoto pela casa.
Após o dia anterior, definitivamente precisava relaxar, arranjar um jeito de esclarecer sua mente, e sabia que não seria uma tarefa nada fácil dentro daquele pequeno apartamento. Enquanto tomava o café veio aos seus pensamentos a lembrança de quando Natsu lhe mostrara o lugar para onde ia sempre que precisava tirar algo de sua cabeça. Lucy nunca o visitara depois. De repente lhe ocorreu que poderia ser uma boa ideia tentar usar aquele lugar para descansar um pouco. Era sábado, afinal, e, apesar de ter coisas do trabalho a fazer, não teria vontade o suficiente para elas. Não custava tentar experimentar o tal lugar.
Esperava que sua memória não a traísse e que se lembrasse bem a localização do parque abandonado, porque a última coisa que precisava naquele momento era se perder, como se já não bastasse ter que dirigir. Bem, não que exatamente fosse obrigada a isso, mas definitivamente não queria esperar por um táxi e ter que dar instruções que nem ela mesma sabia ao certo quais eram ao motorista.
Sua memória a guiou, apesar de ter errado o caminho uma ou duas vezes, com certa precisão até a entrada daquele velho lugar abandonado que a deixou com um pouco de medo da primeira vez. A única diferença que notara era provavelmente o mato ligeiramente maior do que se lembrava. Desligou o carro, verificou se estava trancado quando saiu, e caminhou relutante pela entrada até o interior do parque, para o lugar que Natsu lhe mostrara. Sua maior surpresa fora constatar que a ideia de ir até lá não era exclusivamente sua.
Seus passos tornaram-se mais vagarosos à medida que se aproximava do riacho que cortava o parque, em frente ao qual encontrava-se sentado um rapaz de cabelos rosados, que notou sua presença devido ao barulho da grama amassada pela pressão dos pés da loira sobre ela.
— Ei — ele a cumprimentou, sorrindo hesitante. Aquele mesmo sorriso que antes poderia facilmente iluminar uma cidade inteira, mas que agora talvez servisse apenas para três ou quatro quarteirões.
— Não pensei que você poderia estar aqui — definitivamente aquele pensamento sequer passou pela sua mente, apesar de ser algo muito provável. — Posso voltar outra hora.
— Se for para continuarmos evitando um ao outro, qual o motivo de tudo o que dissemos ontem?
— Não estou querendo evitar você. Só achei que fosse querer ficar sozinho — respondeu, defensivamente. Estranhamente, Natsu riu.
— E aqui estamos, quase brigando outra vez — pega por aquele pensamento, a loira acabou por deixar escapar um riso também. — Pode se sentar aqui. Definitivamente ficar sozinho não é bem o que eu quero.
Lucy obedeceu, sentando-se ao lado dele às margens do riacho.
— Será que nós não sabemos mais conversar sem quase brigar, Natsu?
— Acho que nós nos adiantamos no tempo. Sabe, virar um casal ranzinza que só discute um com o outro deveria acontecer quando ficássemos velhos, depois de anos e anos juntos. Não agora.
— É porque somos especiais — a loira respondeu, com um fraco sorriso.
— Somos alguma coisa. Com certeza.
A água cristalina refletia o azul do céu. Era possível ver os peixes nadando livremente por ali, sem preocupação aparente. Sempre pensou nos sentimentos de animais de estimação, por exemplo, mas nunca sobre outros tipos de animais, como aqueles peixinhos. Se fossem isentos de sentimentos, talvez quisesse ser como eles. Deveria ser muito mais fácil viver preocupando-se apenas em sobreviver.
— Quando foi que as coisas ficaram assim? — Lucy indagou, atraindo a atenção do garoto. — Quer dizer, eu sei que foi quando a sua ex bateu à porta dizendo que estava esperando um filho, mas... Estava tudo tão bem, e de repente não estava mais.
— Eu sei.
— É tão estranho. Como as coisas podem mudar em questão de segundos.
— Nem me fale — mas não era apenas em Lisanna e o bebê em que Natsu pensou naquele instante. Era em Lucy e suas aparentes origens. O pensamento de se ela sabia que era adotada e que pertencia à família que carregava a história que prejudicou muito sua vida não saía de sua cabeça. — Eu estou quase literalmente tremendo de medo.
Lucy o fitou atentamente, escutando muito bem suas palavras.
— Por quê?
Ele riu. Parecia óbvio.
— Sabe quando uma família está esperando pelo nascimento do filho e todos estão muito ansiosos com isso? Bom, é quase o mesmo, só que sem a empolgação e ansiedade positiva. Se essa história toda for verdade não sei o que vou fazer. Provavelmente serei um péssimo pai porque mal vou conseguir olhar para o meu filho sem lembrar o que o deslize que eu posso ter cometido me custou.
Ela gostaria de poder confortá-lo e dizer que com certeza ele seria um bom pai, mas não queria isso. Não quando se tratava do filho dele com outra pessoa. Queria que ele fosse um ótimo pai sim, mas para os filhos dela.
— Não seria culpa da criança.
— Eu sei. Eu sei. E isso me deixa ainda pior. Iria acabar descontando minha frustração em alguém que não teve culpa de nada.
— Por isso veio aqui? Para pensar? — Lucy concluiu.
— Esse lugar sempre me ajuda a colocar os pensamentos em ordem — os cantos da boca de Natsu se ergueram em um sorriso. — Não pensei que você se lembrasse daqui.
— É, isso surpreendeu a mim também.
— Também precisava pensar? — a loira o encarou, sem precisar dizer mais nada. — Ok, pergunta estúpida, desculpe.
— Ultimamente pensar é tudo o que eu tenho feito. Queria me livrar de alguns pensamentos e não sabia mais o que fazer. Então me lembrei do seu lugar especial e pensei em fazer uma visita. Sabe, você disse que eu fui a única pessoa com quem o dividiu, pareceu meio insensível esquecer esse presente.
Natsu riu.
— Acho que uma penseira seria muito útil para nós dois nesse momento.
Foi a vez da loira sorrir, incentivada pela menção a Harry Potter.
— Talvez esse riacho seja a nossa penseira.
— Estamos jogando nossos pensamentos e memórias nesses pobres peixes? Agora fiquei com pena deles.
— Acho que você está viajando demais, Dragneel.
— Eu, é? Só eu?
Em meio a risadas há muito esquecidas, veio à memória de quando elas eram frequentes.
— Sinto falta disso — a loira comentou. — Saudades de quando ríamos praticamente o tempo todo quando estávamos juntos. Era divertido. Às vezes queria que isso nunca tivesse mudado. Queria que muita coisa não tivesse mudado. Mudanças são um saco.
— Não dá para fugir delas, infelizmente.
— Seria tão mais fácil se pudéssemos.
— Seria. Mas, como você disse, quando se trata da gente as coisas nunca são fáceis.
— Bem que poderiam ser.
— É, poderiam — Natsu concordou. — Mas, sabe, não precisa ser tão ruim. Nós dois não mudamos tanto assim. Você continua sendo uma loirinha implicante que precisa da minha proteção.
Ela o fitou. As sobrancelhas arqueadas.
— Ah, é? E você continua o mesmo cara estranho e irritante, sabia?
— Sabia — ele a encarou, rindo logo depois. — Viu? Algumas coisas nunca mudam, independente do que aconteça.
— Talvez não mesmo.
— Como esse lugar. Ele nunca mudou para mim.
— Espero que não mude, porque foi difícil o suficiente encontrá-lo — a loira comentou.
— Por que? Se perdeu?
— Não, mas quase.
— Ei, Lucy — ele a chamou. — Já pensou em simplesmente se perder? Sabe, sair por aí, sem uma direção ou um destino, e apenas ir, deixar tudo para trás, sem se preocupar com nada.
— Não sei se eu conseguiria fazer isso. Abandonar tudo.
— Poderíamos tentar um dia — Natsu sugeriu. Lucy refletiu por um instante a respeito da ideia. Precisaria deixar de lado seu lado racional, que pensaria sobre todas as suas responsabilidades, para aceitar uma coisa como aquela. Mas, nunca se sabe.
— Se um dia os problemas continuarem insistindo em não desaparecerem, talvez.
— Então, você acha que eles irão desaparecer um dia?
— O que eu acho é que nada dura para sempre. Nem as coisas boas, nem os problemas.
O garoto voltou seu olhar para o riacho outra vez. Sua expressão se tornou séria.
— Posso perguntar uma coisa? — encarou o silêncio como um sim. — Quando eu te conheci, você disse que tinha queimado seu passado, esquecido, ou pelo menos tentou, tudo o que aconteceu. Se as coisas não dessem certo para nós, você faria o mesmo? Queimaria nossa história, tentaria esquecer.
Pensando numa resposta adequada, Lucy tardou a responder. Era uma questão interessante. Quisera esquecer o passado daquela vez porque ele fora recheado de decepções e tristezas, mas, agora, as coisas não eram como daquela vez.
— Não — respondeu, finalmente. — Eu não iria querer esquecer. Tudo o que Ryan deixou foram feridas que não poderiam fechar; com você é diferente. Mesmo se as coisas acabarem, mesmo se não tivermos jeito, eu não iria querer esquecer. Muitas coisas boas aconteceram, e eu não posso simplesmente ignorá-las. Além do mais — ela se virou para olhá-lo. — O fogo não te atinge, não é? Como eu poderia queimar você?
Natsu sorriu inteiramente. Não meio sorriso, um sorriso completo, como aqueles pelos quais ela se apaixonara.
— Mas estamos falando de memórias, não de me queimar fisicamente.
— Não estrague minha metáfora, Natsu, ou não estaremos mais falando de memórias.
— Ok — ele concordou, ainda rindo. — Ultimamente você anda violenta demais, Lucy.
Ele que o diga. Suas costas ainda ardiam. Haviam sido muito maltratadas no dia anterior.
— É culpa sua, então não reclame — a loira parou por alguns segundos para refletir. Lembrara-se naquele momento da história de Natsu envolvendo fogo, mas geralmente se esquecia daquele detalhe. — Isso parece coisa de ficção, isso do fogo não te ferir.
— Pois é — ele concordou, rindo. “Você não faz nem ideia”, sentiu vontade de completar. O buraco era muito mais fundo do que aparentava, e ela estava envolvida nele. — Ficção do tipo conto de fadas? Porque nesse caso eu com certeza seria o cavaleiro que salva a princesa do dragão. Seria uma tarefa bastante fácil.
— Poderia ser, mas não acho que seja nosso caso. Parece que o “felizes para sempre” não existe para nós.
— Talvez existe, se tivermos paciência.
— Será? Um dia iremos viver em paz, sem apostas, distâncias ou ex-namoradas para atrapalhar.
— Ou ex-namorados — ele lembrou.
— Justo.
— Eu sinceramente espero que sim, Lucy Heartfilia.
— Pareceria muito bom — alguns filhos, talvez no futuro netos e os dois sentados em uma cadeira de balanço observando o pôr do Sol. Clichê, mas um ótimo futuro. — Você já mergulhou nesse riacho, Natsu? — perguntou de forma aleatória.
— Não, nunca — respondeu, ajeitando-se. — Eu costumava pensar que quando olhava para ele e pensava nas coisas que estavam me incomodando essas coisas iriam para a água e seriam levadas para longe, como se fosse um rio de magoas, então, se eu entrasse, todos esses sentimentos ruins voltariam para mim outra vez — subitamente uma ideia lhe veio na cabeça. Aquele pensamento rodeava sua mente quando ele era uma criança, e de alguma forma permaneceu com o tempo, mas as coisas haviam mudado. Estava na hora de quebrar antigos conceitos e fazer algo diferente. Rapidamente se levantou, atraindo a atenção de Lucy. — Quer saber? Talvez eu estivesse errado. Talvez eu só consiga fazer com que essas coisas sejam levadas para longe entrando na água. Vamos testar.
Ele estendeu a mão, invitando Lucy a se juntar em sua experiência. A loira o olhou incrédula, sorriu hesitante e balançou a cabeça negativamente.
— Sem chance. A água deve estar fria demais.
— Vou te dar duas opções. Vir comigo por bem ou por mal.
— Não pode me obrigar, Natsu.
—Não posso? — ele a encarou com as sobrancelhas arqueadas. Então ela soube que nunca deveria duvidar de Dragneel.
O garoto a agarrou pela cintura, jogando-a em seus ombros, e, apesar das aparentes reclamações, a loira ria. Estava errada sobre a água estar gelada. Na verdade estava congelante, fato que a fez grudar-se ao corpo de Natsu durante os primeiros minutos, devido ao corpo dele estar sempre quente, tornava mais fácil suportar a baixa temperatura.
Aos poucos se acostumou. Conseguia sentir até mesmo os pequenos peixes nadando por ali encostarem em suas pernas quando passavam. Mesmo que já estivessem completamente encharcados, começaram uma guerra de água, e, quando Lucy deu-se por si, seus braços contornavam o pescoço de Natsu e sua cabeça encostava-se na dele enquanto ria. Quando seu olhar subiu encontrou-se ao dele. Aos poucos o riso cessou, sobrando apenas a troca de olhares. Instintivamente ela o puxou para um beijo, ao contrário do dia anterior, completamente calmo e sem pressa.
— Eu preciso ir, tenho muitas coisas do trabalho para fazer — a loira falou quando seus lábios se separaram.
— Não vai embora por causa do beijo, vai? — ele questionou, de certa forma com medo.
Talvez o beijo tivesse feito com que ela quisesse ir embora. Sentia-se um pouco culpada, como se estivesse traindo a si mesma ao beijá-lo, por ainda guardar ressentimentos. Mas não poderia agir como se fosse culpa dele, afinal, ela tomara a iniciativa.
— Não, eu tenho mesmo muitas coisas para fazer — o que não era mentira. — Você... quer uma carona?
Começou a pensar em como ele havia chegado ao parque, já que parecia não ter trazido a carteira, e se tivesse naquele momento ela deveria estar encharcada. Então achou a oferta justa.
— Não, obrigado. Eu tenho que ir até um lugar logo.
Lucy achou estranho, mas não o questionou a respeito.
— Ok. Te vejo mais tarde, então.
***
Não vira Natsu chegar, mas sabia que àquela hora da noite ele já deveria estar em casa. Quando chegou, foi fazer as coisas que precisava, e, pela metade da tarde, exausta pelo trabalho e pelas atividades inesperadas da manhã, resolvera tirar um cochilo. Acordara com o som forte dos trovões no meio da madrugada. O problema era que tinha pavor de tempestades.
Estava encolhida na cama, abraçada aos edredons, tremendo, sem conseguir sequer piscar, com medo demais para sair da cama. Com o máximo de coragem que conseguiu reunir, colocou os pés para fora do colchão, pisando no chão, caminhando até a sala hesitantemente. Precisava da companhia de alguém ou não conseguiria se acalmar.
— Natsu — o chamou para acordá-lo. Estranhamente, ele atendeu logo em seguida. Murmurando algo. — Será que você pode dormir comigo hoje?
Ele arqueou as sobrancelhas, achando o pedido estranho.
— Por que? — não precisou de resposta ao ver Lucy tremendo depois de ouvir um trovão. — Ah, certo, seu medo de tempestades. Claro, sem problemas — ele a seguiu até o quarto, deitando-se na cama ao lado da loira. Para tentar confortá-la, abraçou-a, apertando-a em seus braços, só então sentindo o quanto ela tremia. — Ei, tudo bem. É só barulho, não pode te machucar.
— Eu sei disso, mas não consigo evitar — sua voz estava embargada, devido ao medo.
— O que você fazia em Nagoya nessas situações, quando estava sozinha?
— Só esperava até que passasse. Mas pensei que ficaria mais fácil tendo alguém por perto.
— Fico honrado de ser essa pessoa. Não se preocupa, você sabe que eu jamais deixaria qualquer coisa acontecer com você — era de certa forma estranho ouvir aquilo da pessoa que mais a havia magoado nas últimas semanas. — Quer saber o que eu percebi hoje?
— O que?
— Que nós podemos sim conversar sem brigar — apesar do medo, a loira riu. — É sério. Olha pra gente agora, conversando civilizadamente. Talvez seja um sinal de que as coisas podem voltar a ser como eram antes.
— Talvez — mais um trovão, mais uma vez em que seu coração quase parou de bater. — Como consegue ficar sem camisa com esse frio, Natsu?
— Eu não sinto tanto frio.
Abraçada a ele, com a cabeça apoiada no ombro do rapaz, percebeu marcas vermelhas em suas costas.
— O que é isso? — perguntou, deslizando a mão pelas marcas.
— Isso foi você me maltratando ontem.
— Sério?
— Sério.
A loira posicionou seus cinco dedos sobre as cinco linhas, percebendo que se encaixavam perfeitamente.
— Uau. Desculpe por isso.
— Tudo bem — ele respondeu rindo.
Os minutos passaram, e com eles a tempestade era levada embora, restando apenas o suave barulho da chuva, das gotas de água batendo na janela do apartamento.
— Parece que o tempo já está melhor — Natsu comentou.
— Será que pode ficar mais um tempo... sabe, pro caso da tempestade voltar?
— Literalmente ou figurativamente? — afinal, naquele momento duas tempestades se acalmavam, a física e a que envolvia seus sentimentos.
— Os dois, eu acho.
Natsu sorriu.
— Claro. Posso ficar o quanto você quiser.
Afinal, nada dura para sempre. Nem mesmo a pior das tempestades.
Fale com o autor