Onde Tem Ódio Tem Amor
55 Especial - When i look into your eyes
Notas iniciais
― Você e sua grande boca, não é, Natsu? ― a loira reclamou, parada de braços cruzados enquanto aguardava o rosado trancar outra vez a porta recém-arrombada. ― Isso é invasão de domicílio, sabia? É crime. E eu seria julgada como sua cúmplice!
― É? E quem vai nos denunciar? Os fantasmas que supostamente vivem aqui? Acredita nessas histórias de terror, Lucy? ― Natsu espiou por cima do ombro, percebendo o desvio no olhar de Lucy. Ela acreditava sim, e ele se divertiria com isso. ― Eu não podia deixar que Gray achasse que eu fosse um covarde. Não ia fugir do desafio dele.
― Seus problemas são seus problemas. Não os traga para mim também.
Ela estaria em casa, tranquilamente repousando em frente à televisão, mas não, Natsu tinha que colocá-la naquela aposta. O problema completo era o seguinte: havia uma casa em Magnólia abandonada já há muitos anos. Famílias despretensiosas arriscavam-se a alugá-la hora ou hora, e todas, sem exceção, mudavam-se uma semana após se mudarem. Mas o mistério não terminava aí, de forma alguma. A parte mais estranha é que todas sempre saíam desoladas do local, pois um dos familiares simplesmente desaparecia.
Rezava a lenda que há muitos anos um sequestrador habitara a residência e levara uma de suas vítimas para lá, uma jovem loira de olhos profundamente azuis, filha do prefeito, muito conhecida na cidade por sua mesquinhez, péssimo caráter e avareza. Todos a odiavam, e não houve manifestações a favor da busca do criminoso, exceto por parte do prefeito, seu pai, por esse motivo.
O prefeito estava com a conta bancária em saldo negativo, portanto não possuía o dinheiro necessário para pagar o resgate da filha. Implorara à população então para que eles lhe ajudassem com arrecadações, porém ninguém quisera lhe ajudar. O sequestrador, cansado da espera, assassinara brutalmente a menina, enterrando o corpo no porão e fugindo de Magnólia logo em seguida, sem nunca contar o que havia feito a ninguém. O prefeito entrara em depressão profunda um ano depois, desolado por não ter mais recebido noticia alguma da filha, sem saber que ela estava na verdade morta, se enforcara na própria residência com uma de suas gravatas.
O corpo da garota nunca havia sido encontrado, mas os boatos corriam, e o mais forte deles era verídico: ela continuava na casa. Muitos acreditavam que sua alma estava presa àquele lugar, e que os desaparecimentos eram obras suas. Irritada pela população ter se recusado a ajudar o pai a encontrá-la, prometeu que dos grupos que entrassem na casa, um dos membros seria morto por ela, como ela fora pelo sequestrador. Seria aquela a dívida eterna que Magnólia pagaria por seus atos.
Claro que para a maior parte da população era apenas uma história para assustar crianças e não incentivar que invadissem o terreno, mas ainda assim causava arrepios na maioria. Em um dia de conversa, o assunto surgiu no grupo. Gray começara a irritar Natsu dizendo que ele não era corajoso o suficiente para passar uma noite na casa misteriosa, fez a aposta de que lhe pagaria uma boa grana se cumprisse o que dissera. E Lucy, bem, se lembrava perfeitamente da resposta idiota que o rosado dera: “Pode apostar que eu consigo. Não só eu como Lucy também, e aí você terá que pagar o dobro para nós”.
Natsu a atormentara tanto que não conseguira fugir. E ali estavam, após Natsu arrombar a porta de entrada, às onze horas da noite.
― A garota da história era loira como você, sabia, Lucy? ― a provocou após conseguir fechar a porta outra vez. A pouca luz presente no ambiente vinha das janelas.
― Não enche, Natsu.
Ele riu, percebendo a tensão aumentar nos ombros de Lucy. Aquela noite seria com certeza divertida para ele.
― Anda, vamos dar uma olhada na casa. Com sorte encontramos sua amiga.
― Onde está a lanterna? Está escuro aqui.
― Que lanterna? ― Natsu perguntou, desentendido. A loira estudou sua face, procurando qualquer sinal de brincadeira presente nela, mas não encontrou nada. Natsu não estava brincando, e naquele ritmo, ele seria o próximo fantasma a vagar pela casa, porque ela própria o mataria.
― Como assim que lanterna, Natsu? Só pode estar brincando! Como espera passar a noite aqui sem luz?!
― Esperava que tivesse energia aqui. Espere ― ele então começou a tatear a parede ao lado da porta, à procura do interruptor. Com sorte, o encontrou sem dificuldade e a luz das lâmpadas encheu o corredor. Ele virou-se e sorriu para Lucy, caminhando até ela e dando-lhe um tapa fraco na cabeça. ― Viu? Estressadinha.
Ah, seria sorte se Natsu sobrevivesse. O ódio que estava sentindo por ele naquele momento não poderia ser medido em palavras. Sua autoconfiança extremamente elevada e seu despretencionismo a irritavam tanto que seus dentes chagavam a trincar ao pensar nele.
Natsu encarava a parede vermelho vivo do corredor, cheia de quadros estranhos e aparentemente muito antigos.
― Que tipo de pessoas pinta as paredes com essa cor? Parece até manchado de sangue.
Ótimo. Se o objetivo dele era assustá-la até não poder mais, estava conseguindo. Lucy sentia que seus pés não conseguiriam aguentar seu próprio peso. Suas pernas tremiam, mas conseguiu força suficiente para ordenar que seguissem Natsu corredor à frente, chegando à sala, onde na parede oposta havia uma lareira. O rosado não se ateve àquele detalhe e seguiu para as escadas, e portanto Lucy também não tivera tempo para fazê-lo. Se já estava ruim o suficiente com ele, não queria saber como seria sem ele.
As escadas levavam a um novo corredor, com quatro portas, duas do lado direito e duas do esquerdo. Natsu acendeu a luz e abriu a primeira delas da esquerda, a qual correspondia ao banheiro. Checou o ambiente, nada de estranho. Partiu então para a porta da direita, encontrando-se em um ambiente que se parecia com um escritório. Ao fundo, uma árvore fazia sombra pela janela e a cena, vista rapidamente, assustou Lucy.
A loira deu um rápido passo para trás, atraindo a atenção de Natsu. O cretino foi capaz de sorrir ao perceber o susto que ela havia levado.
Seguiram adiante. As duas últimas portas levavam aos quartos. Natsu olhou com pressa o da direita, que possuía apenas uma cama de solteiro, e partiu para a da esquerda, a qual achou bem interessante pela grande cama colocada paralela à parede. Sem pensar muito, caminhou até ela e se jogou no colchão.
― Isso aqui é bem confortável.
― Natsu! ― a loira exclamou, espiando a porta atrás de si.
― O que foi? Acha que a fantasma vai ficar brava por eu estar usando a cama dela? ― satirizou.
― Tomara que fique e leve você. Um problema a menos para mim.
― Você diz isso, mas sentiria muito a minha falta. Um dia ainda vai dizer que me ama e não consegue viver sem mim.
― Continue sonhando, Natsu. Faz bem. Mas apenas sonhe, porque isso nunca vai acontecer.
Ah, se as pessoas pudessem ver os seus futuros... Afinal, o rosado não estava tão errado assim.
― De qualquer forma, por que não experimenta? Prometo me comportar.
― Não. Vamos sair logo daqui. ― respondeu de forma direta. Bufando, Natsu se levantou e caminhou em sua direção.
― Sabe a frase “faça amor, não faça guerra”? Você não é muito adepta dele, não é? É muito ranzinza, Lucy.
― Cala a boca.
― Viu? É disso que eu estou falando. ― a garota lhe lançou um olhar que dizia praticamente “se não parar juro que te jogo pela janela”. E ele obedeceu. ― Tudo bem, prepare-se, nossa próxima parada é o porão.
― Como é? ― Lucy perguntou, sem conseguir fechar a boca demais devido ao medo.
― Exato. Vamos ao suposto túmulo da garota. Se não, que graça teria vir até aqui? Não se preocupe, eu te protejo.
Natsu lhe lançou uma piscadela logo após falar. Aquele ato foi o suficiente para dar coragem à loira e seguir adiante.
― Não preciso da sua proteção.
Ele sorriu. Lucy, como sempre, só precisava de um leve incentivo seu. A loira seguiu na frente por metade do caminho, logo depois ele tomou a dianteira. Chegou à porta do porão, colocou a mão na maçaneta e respirou fundo. Não conseguia negar que aquele cômodo específico dava medo até mesmo a ele.
Abriu a porta devagar, espiando o lugar, mas estava escuro demais para que pudesse ver alguma coisa. Ao lado da porta, do lado de dentro, encontrou o interruptor e acendeu a fraca luz. Antes que pudesse pisar no primeiro degrau, porém, sentiu algo quente em sua mão direita. Olhou para trás e encontrou Lucy o olhando com tanta aflição no olhar que, por ela, quase sentiu vontade de desistir da aposta. A coisa quente que havia encostado em sua mão e agora a segurava era a própria mão da loira.
Os dois desceram as escadas daquele jeito, de mãos fortemente unidas. Ele a protegendo e lhe passando segurança, e ela lhe devolvendo um pouco da última. O chão era coberto por madeira, e o lugar era capaz de causar arrepios ao homem mais corajoso da face da Terra. Havia teias de aranha em vários cantos, devido a ninguém nunca entrar no ambiente por medo da velha história. Na parede oposta às escadas estava posicionada uma prateleira cheia de coisas que os dois não ousaram tentar descobrir o que era.
Caminharam pouco antes que a luz do lugar se apagasse de repente. Instintivamente, Lucy se agarrou a Natsu, enterrando seu rosto no ombro do rosado e fechando seus olhos o mais forte que podia. O garoto a segurou em seus braços protetoramente. Até mesmo ele havia se assustado com aquilo, mas tinha uma explicação para acalmar sua mente.
― Calma, a lâmpada parece ser bastante antiga, só deve ter queimado. ― mesmo com a tentativa de acalmá-la, Lucy continuava muito assustada. ― Ei, Lucy, olhe para mim.
― Não quero.
― Está tudo bem. Só olhe para mim, ok?
Relutante, a loira obedeceu. Mesmo na escuridão, conseguia ver o brilho refletido dos olhos de Natsu. Aos poucos seus batimentos cardíacos se estabilizaram, enquanto percebia o olhar terno de Dragneel. Sentiu-se realmente protegida e esqueceu-se do medo.
O medo esvaiu-se completamente quando ele a beijou, selando seus lábios em um beijo quente, controlado por uma vontade absurda que sempre acabava por controlá-lo quando o assunto era Lucy. Havia realmente algo sobrenatural naquela casa naquele instante. A vontade e o sentimento que ele sentia e o qual não via possibilidades de recusar. Nunca havia se sentido daquela forma, atraído como se Lucy fosse um ímã. Quando deu por si, estava beijando-a num porão que era palco da maior história de terror de Magnólia.
Os batimentos de Lucy voltaram a se descontrolar, de forma positiva, porém. A língua dele em sua boca a fez esquecer-se dos fantasmas que a assustavam. Todos eles, os reais e os fictícios. E quando ele se afastou, foi ruim de uma maneira que ela nunca admitiria. Mas o recente beijo continuou a manter o beijo longe, incentivando-a até mesmo a provocar Natsu como sempre fazia.
― Você beija muito mal, sabia?
― É mesmo? Então por que não para de olhar para a minha boca, como se quisesse que eu te beijasse outra vez?
― Como sabe que eu estou olhando para a sua boca?
― Não está tão escuro que eu não possa perceber. E não respondeu minha pergunta, Lucy?
A loira ajeitou suas mãos nos ombros de Natsu. Contou meia verdade para não ter que admitir o inadmissível.
― Foi porque o beijo me distraiu, me fez esquecer do medo.
― Então quer que eu te beije outra vez?
Lucy permaneceu em silêncio alguns segundos antes de responder.
― Talvez.
― Vou entender isso como um sim.
E então ele a beijou pela segunda vez em um porão assustador. Não era o ambiente mais romântico do mundo, sem dúvida, mas provocou boas lembranças no futuro, e não havia como temer um lugar que um dia proporcionou boas lembranças.
Após o segundo beijo, os dois subiram outra vez até o quarto, de onde Natsu pegou um edredom, e sentaram-se no corredor, local o qual julgaram o mais seguro para passar o resto da noite.
Natsu acordou na manhã seguinte com a luz do sol vinda da janela bateu no seu rosto. Haviam conseguido, afinal. Passaram a noite toda naquela velha casa. Sentiu um peso em seu ombro direito e olhou para o lado. Lucy dormia serenamente, usando seu ombro como travesseiro.
Ele sorriu inocentemente. E foi naquele momento, observando-a dormir com tamanha calma, que ele percebeu que seu caso era um caso totalmente perdido. Estava indubitável, irreversível e incondicionalmente apaixonado por aquela garota.
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