Onde Tem Ódio Tem Amor

35 Entre o passado e o presente


Notas iniciais
Feeeeeeeeeliz Nataaaaaaaaal, pessoal!!!! Então, esse é o meu presente de Natal para vocês : ) Espero que gostem dele, ficou BEM grande, tomara que não esteja muito cansativo para ler. Pessoal, queria agradecer aos que comentaram no capítulo anterior, alguns fantasminhas se revelaram e fiquei muito feliz com isso. Vocês todos que comentaram foram (e são) tãaaaao fofos. Muito obrigada!!!! Eu sei que ando bem atrasada com respostas de reviews, mas aos poucos respondo todos. Ah, uma coisa que eu esqueci de dizer no capítulo anterior é que a fanfic está passando por processo de edição. Não vai mudar muita coisa, só estou corrigindo os erros, tirando algumas cenas que achei desnecessárias, etc. Nada de mais. Enfim, boa leitura! Ps: Tem música : ) Ps²: Capítulo não betado ^^

Após aquela curta conversa um silêncio constrangedor se formou. A única coisa que se ouvia era o balançar das folhas das árvores e plantas causado pelas rajadas de vento que as atingiam.

Natsu calado ao seu lado era algo realmente raro para Lucy. E desconfortável. Ele estava sempre fazendo piadas e tentando irritá-la, de certa forma ela havia se acostumado com isso. Não ter o habitual garoto irritante com o qual convivia todos os dias era desagradável, por mais estranho que parecesse, pois a todo momento insistia para que ele a deixasse em paz. Mas quando ele o fez sem estar brigado com ela queria que não o tivesse feito.

Precisava tentar fazer algo para animá-lo, sair daquele clima silencioso. Definitivamente.

― Ei, Natsu ― o chamou, atraindo o olhar do garoto. Contra o a luz do sol seus cabelos rosados se tornavam ainda mais claros e o tom esverdeado de seus olhos era ressaltado. Ficava ainda mais atraente. ―, eu não deveria ser considerada uma novata? Quer dizer, eu também entrei na Fairy Tail esse ano.

― Eu não sei. Mas você pertence à turma dos veteranos, então todos pensam que estuda aqui há um bom tempo. E acredite, fique feliz por isso.

― Por quê? ― Perguntou apenas para manter Natsu distraído com a conversa.

― Porque ninguém gosta de ser novato. Todo mundo sabe que os novatos não têm moral alguma com os veteranos. Não é legal.

― Mas os veteranos também já foram novatos um dia. A não ser que sejam como eu, claro, que já entrei como veterana.

A loira riu, esperando que Natsu risse também, mas tudo o que recebeu foi um pequeno sorriso.

― Exato. E quando eles eram novatos foram zoados por veteranos da época deles. Quando os novatos desse ano se tornarem veteranos eles também irão fazer o mesmo com os novatos deles. É um ciclo, uma tradição. Não se pode romper uma tradição. Entende?

― Sim. Mas ainda acho que é algo bem idiota.

― Ei! Está chamando a tradição dos veteranos de idiota? Então está nos chamando de idiotas. Somos veteranos, esqueceu? ― Natsu disse sorrindo, fingindo se sentir ofendido.

― Isso não é novidade para você, Natsu.

O rosado sorriu novamente, um sorriso mais largo. Era bom vê-lo sorrindo. Muito melhor do que vê-lo quieto. Se levantou, pegando sua mochila.

― Ok, senhorita “veterana-novata que não gosta de tradições”. Vamos, a aula começa daqui a pouco.

Natsu preocupado com o horário da aula? É, ele realmente estava muito estranho.

― Eu gosto de tradições, só acho que essa é totalmente desnecessária. ― A loira respondeu, também se levantando.

― É como um marco de entrada. Se você não passa por isso, não é como se realmente tivesse entrado. Todos tem que passar, senão não faz sentido. ― Natsu argumentou. ― Ei! Para onde está indo?

Lucy parou de andar, não entendendo a pergunta do garoto.

― Para a sala. ― Deu de ombros, como se fosse uma resposta óbvia.

― Não por aí. Vamos por outro caminho.

― Por que? Por aqui é muito mais rápido.

― Se fossemos por aí teríamos que passar pelo campo, onde os caras estão jogando.

― Sim. E daí? ― Perguntou, ainda sem entender.

― E... E daí que você quer levar uma bolada?! ― O rosado respondeu, estendendo os braços, dramatizando sua resposta ainda mais.

― As chances disso acontecer são quase zero, Natsu. ― Lucy respondeu, já ficando sem paciência. ― Então, a não ser que tenha um bom motivo para ir pelo outro caminho, vamos logo. Iremos chegar atrasados desse jeito.

― Esse é um bom motivo! ― A loira cruzou os braços enquanto encarava Natsu. O rosado virou o rosto para o lado e sussurrou: ― A-Além do mais aqueles idiotas são um bando de tarados, não podem ver uma garota atraente passando por perto que já a imaginam de modo... indecente.

Lucy descruzou os braços, movendo o olhar para a parede e rindo, embora estivesse levemente corada pelo rosado indiretamente ter dito que ela era atraente, o que, de qualquer forma, não era mentira.

Então era esse o problema: O famoso “ciúmes”. Um dos sintomas mais complicados e, de certa maneira, quando sentido razoavelmente, adoráveis do amor.

― Não seja idiota, Natsu. ― A loira disse, voltando a andar. Natsu correu para acompanhá-la.

― Não é idiotice, ok?! Aposto que você não quer estar na mente suja daqueles pervertidos.

E ele também não queria que ela estivesse, com toda certeza. Apesar de ele próprio não poder negar que imaginava Lucy daquela forma. Mas não tinha culpa! Sua imaginação sempre fora fértil, e a loira simplesmente aparecia em seus pensamentos sem aviso prévio. Não conseguia evitar. Quando percebia já era tarde demais, ela já havia invadido sua mente mais uma vez, o dominado como se fosse um gatinho dócil. Assim como havia dominado seu coração, mesmo que disso ele ainda não tivesse se dado conta.

E enquanto ele se perdia novamente em seus pensamentos, a loira se afastava, andando até a sala por aquele caminho mesmo, sem se importar com o que o rosado dissera.

― Ei! Lucy! Me espere!

//Segunda-feira, 20h45min//

― Ahh, não dá, Lucy! ― o rosado exclamou, colocando as mãos sobre a cabeça. Após um longo dia no colégio, ainda teria que estudar durante a noite com sua professora particular vulgo Lucy? Não, aquilo era demais para ele. ― Meu cérebro está cansado demais, nunca vou conseguir entender isso hoje.

― Se esforce, Natsu. ― A garota o repreendeu. ―Você sabe que se não conseguir notas acima da média não poderá jogar pelo time da escola, não é?

― Eu sei disso. Eu sei. E vou me esforçar para conseguir, prometo. Mas precisamos mesmo começar hoje? É o primeiro dia de aula. ― Reclamou, recostando-se na cadeira.

― Exatamente por isso precisamos começar hoje. Com o tempo só vamos ficar ainda mais cansados e isso só irá piorar. Você perdeu três meses, Natsu. Três meses! Tem que dar um jeito de recuperar o tempo perdido. E se quer mesmo minha ajuda, será deste jeito.

Natsu bufou, encarou o teto por alguns segundos ― de repente as manchas levemente amarelas no teto branco se tornaram tão interessantes... ― e finalmente voltou a olhar para Lucy, com um sorriso brincalhão no rosto.

― Talvez se eu tivesse algum incentivo... quem sabe essa matéria não entraria mais fácil na minha mente? ― Lucy o incentivou a continuar falando, mesmo sabendo que nada de bom viria dali. ― Que tal uma peça de roupa a menos por cada questão certa? Um incentivo e tanto. ― disse maliciosamente, olhando de canto para a loira.

Exatamente como previsto. Natsu se tornava tão previsível após alguns meses de convivência, Lucy nem sequer se importava mais com as coisas que ele dizia.

― Mesmo se eu aceitasse, o que com certeza não acontecerá, não faria diferença alguma, Natsu.

― E por que não, senhorita Heartfilia?

― Porque, do jeito que está indo, duvido muito que irá acertar uma questão que seja.

― Você tem tanta confiança em seu aluno que até me emociona, Lucy. ― Natsu falou de modo sarcástico.

― Então me faça ter confiança em você, Natsu. ― A loira respondeu sorrindo.

E durante o resto da noite ele bem que tentou se concentrar na matéria e aprender algo, mas que culpa tinha se observar sua professora se tornara tão mais interessante do que entender matemática?

//Terça-feira, 10h20min//

As aulas particulares que Natsu recebera no dia anterior já mostravam resultados. Fora um dia apenas, ou uma noite, mais precisamente, mas apenas aquela noite já o ajudara muito. Durante a aula de matemática daquela terça-feira, não se sentira totalmente perdido. Conseguira, pelo menos, assimilar alguns conteúdos e entender as partes mais simples. Havia um longo caminho pela frente ainda, mas pelo menos um por cento de sua caminhada para conseguir atingir notas no mínimo satisfatórias já estava feito. Apenas precisava contar com a ajuda de Lucy, e talvez conseguisse se formar sem muitos problemas.

Após quatro longas aulas de matemática, os dois esperavam sozinhos no corredor ao lado da porta o início da quinta aula do dia: Inglês. Se parecia mais com uma aula vaga, portanto era um ótimo tempo para retirar o stress das aulas anteriores.

― Tenho que admitir, não estava com nem um pouco de saudade das aulas do Sr. Munhoz. ― Natsu comentou recostando-se na parede branca, suspirando aliviado pelas três horas e vinte minutos dentro daquela sala terem acabado.

O Sr. Munhoz era o professor de matemática da Fairy Tail High School. Um homem de aproximadamente cinquenta anos, alto, carrancudo e de cabelos ralos e olhos azuis. Detestado pela grande maioria dos alunos devido ao seu jeito rigoroso e ritmo de ensino extremamente acelerado. Dizia sempre que o dinheiro dos impostos que pagava estavam sendo gastos nos alunos, portanto eles deveriam fazer por merecer e se esforçarem o máximo possível.

― Ele não parece tão ruim assim. ― Lucy respondeu com os braços cruzados, parada em frente ao rosado.

Era estranho. O corredor e a sala estavam totalmente vazios, mesmo que faltassem apenas dez minutos para o início da aula. Geralmente o lugar costumava ficar lotado de alunos andando por ali, mas naquele momento não havia ninguém, exceto os dois. Nem mesmo alunos, nem professores.

― Você fala isso porque teve apenas seis aulas com ele até agora. O cara é um saco. Ele é completamente maluco. Aquele olhar psicopata que fica te encarando fixamente, como se estivesse apenas esperando o momento certo para te atacar... Ugh! Só de lembrar já me dá calafrios.

Lucy riu.

― É, deu para perceber que ele também não vai muito com a sua cara.

― Pode-se dizer que temos uma história juntos construída ao longo desses quatro anos. Ele não gosta de mim. Eu não gosto dele. É um sentimento mútuo.

― História? Que história? ― A loira perguntou cerrando os olhos, curiosa.

― Quando eu era calouro discuti com ele uma vez. Me rendeu minha primeira suspensão nessa escola. E o motivo? Foi porque meu lápis caiu no chão. Ele disse que fiz aquilo de propósito para interromper sua aula. Armou a maior confusão e queria me levar para a diretoria por causa disso. Eu não achei justo, nós brigamos e ele tem me perseguido desde então.

― Um lápis? Sério? ― Lucy perguntou incrédula.

― Sério! Eu juro! ― exclamou. ― E depois você não acredita quando eu digo que ele é maluco.

Os dois riram ao mesmo tempo. O Sr. Munhoz podia ser odiado, mas não se podia negar que ele rendia boas histórias aos alunos. Os risos foram interrompidos apenas quando ouviram o barulho de passos se aproximando, e, para infelicidade de Natsu, os passos pertenciam ao novato do dia anterior. Não que ele representasse uma ameaça ao garoto por ter se interessado por Lucy, sabia que ele não fazia o “tipo” da loira, apenas não havia ido com sua cara. Além do mais, seu rosto estava horrível por culpa daquele novato.

Estava torcendo para que ele seguisse reto, mas, novamente para azar do garoto, parou em frente a Lucy, abraçando os livros fronte ao peito.

― O-Oi. ― Cumprimentou timidamente. Lucy sorriu de forma amigável.

― Hey! Como vai?

― Hum, bem. ― Respondeu. Moveu o olhar para o chão e, após alguns segundos, voltou a falar. ― E-Eu só queria agradecer novamente por ontem, sabe? Foi muito legal da sua parte.

“É, mas quem se ferrou fui eu, não é?” Natsu respondeu mentalmente.

― Ah, não foi nada. Não precisa agradecer. ― A loira disse.

“Não foi nada?! Você não está vendo esse olho roxo não, Lucy?! Ah, é, ele está EM MIM, não nele.”.

― Foi sim! Com o tamanho daquele cara, eu estaria morto agora se você não tivesse pedido para o seu namorado me ajudar. ― O novato disse, apontando com a cabeça para Natsu.

― Ele não é meu namorado. Só um amigo. ― Lucy riu e Natsu moveu o olhar para o lado oposto, cruzando os braços.

― Oh, não é? ― perguntou, parecendo interessado naquele fato. ― Pensei que fosse. ― O sinal tocou, indicando o fim do intervalo de dez minutos antes do início da próxima aula. ― Ah, eu tenho que ir, senão vou me atrasar.

― O.K. ― Lucy respondeu sorrindo. O novato deu alguns passos, então parou repentinamente e olhou para trás.

― Ei, me esqueci de perguntar. Qual o seu nome?

― É Lucy. E ele é o Natsu.

― Certo. Eu sou o Brian. Prazer em te conhecer, Lucy.

― Prazer em te conhecer também, Brian.

Apenas após o novato se afastar Natsu relaxou os braços. Deu alguns passos para frente e uma ideia surgiu em sua mente. Virou-se, olhou para Lucy, sorrindo de forma estranha novamente, e voltou a andar lentamente, dessa vez em direção à loira.

― Então as pessoas pensam que nós namoramos, ahn? ― Perguntou retoricamente enquanto se aproximava cada vez mais, até chegar a centímetros de distância da garota.

― Não, não pensam. Foi apenas o Brian que disse essa besteira.

― Brian? Já está íntima assim do novato? ― Perguntou novamente, aproximando apenas seu rosto do rosto de Lucy.

― Ele parece ser legal.

― Não, não parece. ― Natsu encostou sua mão esquerda na parede, enquanto apoiou a direita na cintura de Lucy, que se arrepiou ao sentir o toque do rosado em sua pele, mesmo que por cima do tecido. ― Mas você não acha que se ele pensou isso, é porque parece?

― Não acho. Não parecemos namorados, Natsu.

― E se eu te pedisse em namoro? ― a testou, deixando seus lábios a poucos centímetros do dela. ― Você aceitaria?

O coração de Lucy acelerou com aquela pergunta, assim como sua respiração. Seus olhos se arregalaram e sua voz sumiu por alguns segundos. Droga! Por que ele tinha que mexer tanto com si?

― N-Não. Não aceitaria. ― Foi esta sua resposta, mas mesmo ela duvidava da veracidade de suas palavras. Não aceitaria um pedido de namoro de Natsu? Não aceitaria beijá-lo quando quisesse sem sentir culpa ou remorso? Não aceitaria poder tocar aquele corpo e tê-lo apenas para si? Será mesmo que não aceitaria ter tudo isso?

― Você gaguejou. ― Natsu disse, sorrindo galanteadoramente.

Quando Lucy abriu a boca para responder Jellal a interrompeu, gritando a alguns passos dali:

― Ei, não fiquem se pegando nos corredores, por favor. ― Provocou sorrindo. Todo o resto do grupo estava com ele.

― Não estávamos “nos pegando”, Jellal! O Natsu que é um idiota. ― Lucy retrucou enquanto o rosado se afastava.

― Que ele é um idiota todos sabemos, mas não negue a primeira parte, Lucy. Os olhos não mentem. ― Disse o garoto de cabelos azuis.

― Fale por si mesmo, Jellal ― começou Natsu. ―, eu vi muito bem você e a Erza no corredor E ontem. Do jeito que estavam, não duvido nada que nasça um mini ruivinho daqui nove meses. Me chamem para ser padrinho.

Erza corou imediatamente, assim como Jellal. Pouco tempo depois a professora chegou. Porém, antes de entrarem na sala Natsu segurou o braço de Lucy, impedindo-a de avançar.

― Ei, foi brincadeira, ok? Minha pergunta. ― Natsu sorriu.

― Eu sei disso. ― Lucy respondeu. Não sabia se ficava aliviada ou triste por ouvir aquilo.

― É que você ficou meio estranha.

― Não fiquei não. Mas, Natsu ― o chamou. ―, a minha resposta foi verdadeira.

O rosado assentiu e sorriu, antes de entrar na sala. Ela podia negar, mas ele sabia que aquele “não” tinha, no fundo, um grande “sim”.

//Sábado, 9h15min//

O resto daquela semana se passou como nos primeiros dias. Embora a pergunta de Natsu tivesse deixado Lucy incomodada por algum tempo depois de feita, ela nem sequer era mais lembrada pela loira, como se o rosado nunca a tivesse feito. E isso realmente era algo bom, pois não queria passar muito tempo pensando em algo que desejava, mesmo que superficialmente, nunca acontecer.

Finalmente havia chego o dia que Natsu tanto temia. Sua ansiedade beirava o limite, se é que já não o havia ultrapassado. Não duvidava disso. Mal dormira durante a noite, não conseguia fechar os olhos sem se lembrar daquele dia, há tantos anos. Sentia um grande misto de sentimentos, dentre eles o que mais se destacava era o medo.

― Ei, Natsu, ande logo, parece que não vai demorar a começar a chover. Melhor não demorarmos para ir. ― Disse a loira da sala do pequeno apartamento enquanto espiava o tempo pela janela.

― Eu estou indo. ― Natsu respondeu, saindo de seu quarto enquanto abotoava a camisa social ³/4preta. Vestia além dela uma calça jeans de mesma cor e tênis.

― E depois ainda dizem que as mulheres é que demoram para se arrumar.

― Eu só estou com sono. Fico mole demais quando estou assim, daí demoro para fazer as coisas. ― disse, fingindo um bocejo logo em seguida. ― Precisamos mesmo ir, Lucy?

― Não vai voltar atrás agora, vai? Você precisa superar isso. Não se preocupe, não está sozinho.

― Ok. ― O rosado suspirou e deu alguns passos, porém mal conseguiu chegar até o sofá antes de a mesma terrível dor de cabeça de sempre o atingisse. Se sentiu tonto e por sorte conseguiu se apoiar no encosto do móvel e se sentar ali, caso contrário teria caído no chão. Fazia já um bom tempo que não sentia aquela dor, mas sem dúvida alguma era uma das piores que já havia sentido. Colocou a mão na cabeça até que a dor começasse a se amenizar e sua visão, antes turva, voltasse ao normal.

― Natsu, o que foi?! ― Lucy correu até ele e se sentou ao seu lado no sofá, preocupada.

― N-Nada de mais. ― Respondeu gaguejando. Por causa da dor não conseguia falar direito.

― Como nada?! Olhe para você! ― A loira exclamou, apoiando sua mão esquerda nas costas de Natsu enquanto o fitava.

― Eu já estou bem, foi só uma dor repentina. Tenho isso às vezes.

― E por que ainda não foi ao médico saber o porquê dessas dores?

― Eu não preciso ir ao médico. Não é nada de mais, sério.

― Deixe de ser teimoso, Natsu! Está claro que é sim algo nada de mais. ― Natsu olhou para Lucy e sorriu, rindo levemente. ― Por que está rindo?

― Você preocupada comigo. É fofo.

Lucy corou. Talvez por ter ficado envergonhada, talvez por raiva. Aquele não era um momento para fazer brincadeiras.

― Isso é sério, Natsu!

O rosado se levantou, ajeitando a camisa. Já se sentia bem melhor. A dor havia passado, e isso era o fato mais estranho: Sempre que vinham não duravam muito tempo, não eram como dores normais. Mas ele preferia não pensar nisso. Estava bem.

― Nós temos que ir, não é? Você mesma estava me cobrando poucos segundos atrás.

― Tem certeza de que está bem? ― A loira perguntou, também se levantando.

― Eu estou. Não se preocupe. Por mais que eu goste de ver você preocupada comigo. ― completou sorrindo. E não era mentira. Ver Lucy preocupado com ele dava-lhe uma sensação boa.

Lucy hesitou por alguns segundos, mas enfim respondeu:

― Tudo bem, vamos.

***

Estava realmente frio naquela manhã, e quando chegaram ao cemitério a temperatura pareceu cair ainda mais. Quando entrou naquele lugar o coração de Natsu disparou devido à ansiedade e hesitação. Sentia vontade de voltar, desistir daquilo tudo, mas Lucy tinha razão, ele tinha que superar aquele medo. Tinha que fazer aquilo.

Mesmo que tivesse visitado seus pais apenas uma vez naquele lugar, no dia do enterro, sabia perfeitamente o lugar onde estavam seus túmulos. Era como se seus pés o guiassem automaticamente. Logo estava parado em frente às duas lápides, que continham fotos do Sr. e da Sra. Dragneel.

― Sua mãe era uma mulher muito bonita. ― Lucy comentou, enquanto observava o retrato. ― E você se parece com o seu pai.

― Sim, todos sempre me diziam isso. ― Natsu respondeu, sorrindo sem jeito e com as mãos no bolso. Já sentia o nó em sua garganta, causado pela saudade que sentia apenas por olhar aquelas fotos. ― O-O que eu faço agora, Lucy? ― Perguntou hesitante.

― Só... diga o que gostaria de dizer a eles.

Natsu suspirou e se agachou em frente às lápides, com os cotovelos apoiados em seus joelhos. Respirou fundo e fechou os olhos. Não era bom com aquele tipo de coisa, e o nervosismo não ajudava em nada.

― Oi, pai. Oi mãe. Há quanto tempo, não é? ― tentou começar, porém parou logo em seguida. Não sabia exatamente como continuar. ― Bem, tem uma garota muito linda aqui que eu sei que se você a conhecesse, pai, ficaria dizendo que criou seu filho muito bem e se gabando para os amigos, e a mamãe não pararia de fazer perguntas sobre ela, tentando arrancar todos os detalhes possíveis. ― Lucy sorriu disfarçadamente. ― Bom, ela me disse que eu deveria vir aqui hoje, ver vocês. Acho que ela tem razão. Eu demorei tempo demais para fazer isso, me perdoem. Eu sei que você sempre me disse parar ser corajoso, pai, mas eu admito que estava com muito medo, e por causa disso é que nunca vim.

“Eu queria dizer tanta coisa a vocês, mas não queria que fosse desse jeito. Então, o que eu vou dizer é: Me perdoem. Por favor, me perdoem por aquele dia. Por minha culpa vocês não estão mais aqui. Se eu pudesse voltar no tempo e desfazer o que fiz, só para ter vocês ao meu lado hoje, eu faria sem hesitar. Não há um dia em que eu não sinta vontade de fazer isso, mesmo não podendo. ― Natsu fez uma pausa, sentindo que já não conseguiria mais conter as lágrimas. A saudade era tão grande que precisava ser colocada para fora, mesmo que na forma daquelas pequenas gotículas salgadas. ― Vocês fazem muita falta. Não há um dia em que eu não lembre do sorriso bondoso da mamãe, ou do jeito como você falava comigo, pai. Você era sempre compreensivo com tudo, mesmo eu não sendo um filho muito bom. Eu sinto falta até das broncas que vocês me davam, dá para acreditar?

Ei, pai, por que as pessoas tem esse péssimo hábito? De só dar valor a algo quando já não o tem mais. Eu me lembro de sempre reclamar e muitas vezes querer apenas ficar sozinho enquanto vocês não me deixavam em paz, mas hoje a única coisa que eu mais queria era poder estar com vocês novamente. É difícil. É muito difícil não ter vocês aqui para me dar conselhos e para me ajudar. Às vezes fico imaginando o que a mamãe ou você diriam sobre algo, só que nunca é a mesma coisa. E tem essa culpa que nunca me abandona, porque toda vez que penso sobre vocês lembro que tudo poderia ter sido evitado se eu não tivesse sido tão teimoso.

Eu só queria ter a chance de ver vocês mais uma vez. Eu amo vocês, pai, mãe. Só queria poder falar isso para vocês pessoalmente mais uma única vez que fosse.”

Natsu se levantou, enxugando o rosto com o braço. Se sentia um pouco melhor, mas após dizer todas aquelas coisas a saudade apenas aumentou.

― Sabe o que é pior, Lucy? ― Ele perguntou sem olhar para a loira. Mesmo Lucy não conseguira conter as lágrimas, afinal ela entendia muito bem como era aquilo, como era sentir toda aquela culpa. ― É que eu nunca vou saber se eles me perdoaram ou não.

When I am down and, oh my soul, so weary; When troubles come and my heart burdened be; Then, I am still and wait here in the silence, Until you come and sit awhile with me.

A loira caminhou até ele e o surpreendeu puxando-o para um abraço. Natsu retribuiu, mesmo que sem jeito, enlaçando a cintura de Lucy com seus braços e enterrando sua cabeça em seus ombros, deixando ainda mais do que antes as lágrimas rolarem.

― Eu tenho certeza absoluta que eles te perdoaram, Natsu. E, onde quer que estejam, também tenho certeza de que tem muito orgulho do filho que criaram. Fizeram um excelente trabalho como pais.

Natsu a apertou ainda mais no abraço.

― Obrigado, Lucy. Se você não estivesse aqui comigo, eu nunca teria conseguido fazer isso.

― Eu sou estou retribuindo o que você já fez. Você também estava ao meu lado quando eu fui visitar o túmulo da minha mãe, lembra? Você me ofereceu ajuda naquele momento quando eu também precisei. Agora é minha vez de te ajudar.

― E pode ter certeza de que sempre que precisar eu te oferecerei minha ajuda. Você não vai se livrar de mim tão facilmente, ouviu? ― O rosado disse, rindo.

“― E quem disse que eu quero isso?” Lucy respondeu mentalmente. Sua mente falava o que sua boca não tinha coragem de dizer. Natsu se afastou, ainda sorrindo.

― Isso é embaraçoso, você me ver chorando.

― Qualquer pessoa normal chora, Natsu. Não tente ser durão.

O garoto riu novamente. Com certeza se sentia muito melhor. Aquilo não havia sido tão difícil quanto pensou que seria, mas apenas porque tinha Lucy ao seu lado. Tê-la ali tornou tudo tão mais simples.

― Então, o que acha de fazermos algo hoje à noite para deixar as coisas um pouco mais divertidas? Sabe, sair desse clima triste. ― Lucy sugeriu.

― Tudo bem. E o que poderíamos fazer?

Ah, se o garoto não estivesse em um momento ruim com toda certeza aquilo teria sido motivo de mais uma de suas piadas. Como resposta à pergunta Lucy apenas sorriu.

***

― Cozinhar? Sério? Essa é sua ideia de diversão, Lucy? ― O rosado perguntou, indignado após Lucy contar qual era sua ideia para aquela noite. Já haviam retornado ao apartamento, e bem a tempo, pois não demorou até que a chuva começasse a cair.

― Qual é! Dê uma chance, Natsu!

― Ok, eu darei, se você insiste. E o que você tem em mente?

Lucy parou por alguns segundos e apoiou as mãos sobre a mesa, enquanto pensava. O rosado apenas a observava, curioso.

― Já sei! ― exclamou entusiasmada. ― Que tal pizza?

― Pizza?

― É. Pizza.

O rosado suspirou e concordou com a cabeça, dando alguns passos em direção a Lucy. Mesmo que achasse que aquela “noite divertida” não seria nada divertida, acabou aceitando. Precisava aliviar a mente, o dia fora cansativo, mesmo que não de forma física. Faria como a garota pedira e daria uma chance.

E no fim, Lucy realmente tinha razão. Cozinhar se tornara divertido. Mas claro, apenas depois de Natsu iniciar uma pequena guerra com a farinha. Os móveis da cozinha se tornaram totalmente brancos; o cabelo rosa de Natsu estava coberto por pequenas manchas, assim como o cabelo de Lucy. Quase não sobrara farinha para o objetivo principal: A pizza. Mas conseguiram. Tarefa concluída com sucesso. Ou quase.

Quando haviam acabado de colocar a comida redonda no forno para assar o telefone começou a tocar.

― Deixa que eu atendo. ― Disse Lucy, correndo até o telefone. ― Alô?... Sim, é ela.

Natsu a observava e, após alguns segundos começou a pensar que havia algo muito errado ali. Lucy parou no lugar, imóvel, e suas mãos começaram a tremer, quase não conseguia segurar o telefone. Além do que, ela não falava nada, apenas ouvia.

― Ei, Lucy, está tudo bem? ― Ele perguntou, andando até a garota e, sem receber resposta, pegando o telefone de sua mão. Lucy nem sequer reclamou, apenas permaneceu parada. ― Ei, quem é?

Desculpe, com quem estou falando? ― Respondeu a pessoa do outro lado.

― Natsu Dragneel, amigo da Lucy.

Sr. Dragneel, aqui quem fala é Hikaru Masaki, um dos sócios do Sr. Heartfilia. Estou ligando para informar que o Sr. Heartfilia faleceu esta tarde.

― O-O que? ― Natsu perguntou, totalmente sem reação. Estava explicado o motivo de Lucy estar daquela maneira.

Ele foi encontrado morto em seu escritório por um de seus funcionários. Ao que tudo indica, teve um ataque cardíaco e estava sozinho no momento. Meus pêsames. Entrarei em contato com a Senhorita Heartfilia em outro momento para acertar os detalhes do funeral.

Hikaru encerrou a ligação, deixando do outro lado Natsu atônito. Ele simplesmente não sabia o que fazer, o que dizer. Apenas pensava em como o destino parecia ser cruel às vezes. Lucy não merecia aquilo, não merecia sofrer novamente. Mas ela não estaria sozinha. Como ele dissera mais cedo naquele mesmo dia, ele a ajudaria sempre que precisasse, e naquele momento tudo o que tinha vontade de fazer era segurá-la em seus braços e não soltá-la nunca mais.

Lucy fitava o teto, também sem reação, chorando silenciosamente.

― Natsu ― o chamou sem mover o olhar. ―, me diga que é mentira, por favor.

Ele queria dizer que sim. Queria muito dizer que era mentira, mas não podia.

― Eu... sinto muito, Lucy.

E a puxou para o seu peito, segurando-a o mais forte que podia, embalando-a na segurança de seus braços. Sentou-se no sofá, com Lucy em seu colo, agarrada a camisa do rosado enquanto chorava, desejando apenas conseguir livrá-la daquele sofrimento.

Notas finais
É, esses finais tristes... Bem, espero que tenham gostado do capítulo : ) Feliz Natal e Feliz ano novo, pessoal!!!! Eu não sei quando sai o próximo capítulo porque tenho a leve impressão de que o meu notebook acabou de bugar aqui ^^ O carregador parou de funcionar e quando acabar a bateria não sei o que vou fazer. Torçam por mim para que eu consiga fazer funcionar T^T Bem, é isso. Vejo vocês em 2014 o/ Infinitos beijos para todos vocês :* E deixem reviews com suas opiniões ; )