Onde? Quando? Como?
1 MAMÃE, Morri!
—- CAPITULO 1 --
Há um ditado que diz que a justiça tarda, mas não falha. É um ensinamento útil se você acreditar que o mundo não está perdido em uma grande bola de fios de lâmpadas pisca-pisca que ninguém consegue desembolar.
Há também uma promessa de que no final dos nossos dias, todas as coisas boas e ruins que fizemos ou deixamos que fizessem em nossa presença seriam pesados, tirados diretamente da batida de nossos corações que não podem mentir.
Eu nunca acreditei em nenhuma das duas coisas, mas aqui estou eu, vestindo uma bata branca que não cobre minha bunda com medo de ambas.
— Está morto. – Alguém anuncia um pouco antes do meu coração bater pela última vez. Estou em pé ao lado do médico que ainda massageia o coração do meu outro ‘eu’ na mesa tentando alimentar uma esperança que não existe.
— Dezesseis anos não é a idade certa para se morrer. — Fala uma das auxiliares esfregando os ombros do médico como que para consola lo. Ele cessa a massagem, em seus olhos lágrimas se formam, ele retira as mãos do meu corpo e sai a largos passos da sala.
As palavras também me atingem, são palavras bem ditas, palavras verdadeiras. Sobra então uma pergunta: porque eu estou morto?
A lembrança me invade a mente no tempo de alguns segundos.
Lembro-me de acordar pela manhã com uma forte dor no estomago, minha mãe insistiu em me levar ao hospital, eu fui tomar banho e assim que as primeiras gotas d’ agua caíram, eu apaguei... Depois disso nada mais até o exato momento.
Uma conclusão me passa a mente:
“se estou no hospital, fui achado pelado debaixo da agua fria!?”
Com certeza uma maneira diferente de ser pego com as calças arriadas, Sinto minha moral baixar a cada segundo.
— Hora da chegada, 11h45min. – Ouço alguém anunciar atrás de mim tirando me da minha onda de vergonha. Viro-me assustado em direção à voz. Um homem alto de pele branca vestido com uma bata bege comprida aparece, em suas mãos ele carrega uma pequena balança de pratos.
— Olá, meu nome é André, sou seu juiz. Seja bem vindo ao seu pós-morte. — Ele fala. Eu me afasto, meu cérebro se é que posso chamar assim, avisa que é hora de fugir, me viro devagar com o mesmo receio que uma pessoa tem ao correr na frente de um cão bravo que esta prestes a atacar.
— Se eu fosse você não faria isso, você não vai conseguir chegar na esquina.- André diz ao baixar a balança. Dou-me conta de que estou tentando fugir da morte, o único destino certo na vida.
— vo-vo- você é a morte-te-te?- Eu gaguejo muito inseguro sem saber se deveria falar ou não.
— Será que não esta me ouvindo?– Ele se pergunta, em seu rosto da para ver que a preocupação era genuína.
— ME CHAMO ANDRE, SEU JUIZ DO PÓS-MORTE. — Ele grita ao se aproximar de mim.
— Eu estou ouvindo. — Mas com certeza não estou entendendo, eu não estava preparado para isso, não me parecia justo, eu deveria estar morto e acabou por ai.
— ah bem, que bom, às vezes os recém-chegados não conseguem ouvir com os novos ouvidos, demora um pouco para se adaptar. – Ele me esclarece, em sua mão direita há uma pasta cheia de papeis.
— Júlio, Júlio, sua pasta é extensa, você viveu por pouco tempo mas parece ter feito muito. – Ele fala. Lembro-me da promessa, dos meus pecados, das minhas falhas, dos roubos de balas Fini nas lojas Americanas. Das vezes em que dei o troco errado prós meus pais e fiquei com algumas moedas. Isso seria o que? Furto qualificado? Da vez em que mentir que ia para a casa da vovó e fiquei dois dias na rua vagabundando com os meus amigos.
A voz da minha mãe me vem a cabeça: “ vá a igreja e confesse seus pecados e no final da sua vida você já estará perdoado e não vai pro inferno”
Se arrependimento matasse...
Eu vou para o inferno por não ouvir minha mãe, era isso.
Começo a suar frio ou pelo menos sinto que é assim.
— Vamos a sua sentença. – Ele fala e um frio percorre a minha espinha.
— Pelo crime de assassinato deliberado com requintes de crueldade, eu o condeno a viver seu pós-morte no inferno das ideias em nome do Deus da escrita,Tot. — Ele lê o papel, eu prendo a respiração e aperto os olhos.
Assassinato!? Onde, quando e como? Procuro em minha mente, e tal fato nunca esteve lá, os roubos eram verdadeiros, as piadas de mau gosto também, mas assassinato? N-U-N-C-A, NUNCA..
— Não, Não... algo deve está errado. – Eu falo, minha voz sai tão fina que olho ao redor esperando que outra pessoa tivesse aparecido e a voz fosse dela.
— Seu nome é Júlio? – Ele pergunta e eu aceno afirmativamente.
— Você é escritor?- Ele me pergunta logo em seguida. Eu paro para pensar. Eu sou? Em vida, eu costumava querer ser, inclusive tinha algumas historias publicadas no Watpad, acho que isso deve contar de alguma forma então aceno a cabeça afirmativamente de novo.
— Não há erros aqui então, Júlio – Ele diz e pega o ultimo papel.
— Duas e trinta da manha, no dia quatorze de janeiro de dois mil e vinte, assassinato deliberado com requintes de crueldade de Laís Filde na cidade de Belgrado, avenida três de maio, numero trezentos... – André lê o conteúdo e eu tento raciocinar.
Laís Filde? Definitivamente eu não conheço nenhuma Laís Filde. Eu nem moro no numero duzentos da rua três de maio.
— O endereço está errado, moro no duzentos e um. – Eu o interrompo e digo sem pensar como se esse fosse o cerne da questão que iria me salvar. Ele para e levanta uma das sobrancelhas. Seu rosto esta sério, ele abaixa a cabeça e checa o resto dos papeis.
— Me desculpe às vezes o Deus da Escrita, Tot , comete um ou dois erros de digitação. – Ele da uma risadinha sem graça.
— Muitas palavras, pouca revisão, você como escritor entende não é? — Ele pergunta e sem esperar a resposta retoma de onde havia parado.
— ...numero duzentos e um, livro: Ainda estamos longe, capitulo dois, linha vinte e quatro. – Ele completa. E assim que ele termina a frase, eu percebo.
Eu estou sendo condenado pelo Deus da Escrita, Tot, pela morte de uma personagem de um livro que eu escrevera.
Quem diria que a morte seria mais doida que a vida.
Eu começo a rir, rir como nunca ri antes. Minha barriga doí, é tudo uma loucura, eu só podia estar sonhando ou tendo uma daquelas experiências de quase morte que li na internet. Tudo uma grande piada da minha própria mente.
— Um produto da minha mente, é claro que é. – Eu balbucio tentando me acalmar.
— É difícil acreditar, eu sei, dizem que Shakespeare teve uma sincope quando chegou aqui com setenta e cinco assassinatos no currículo e passou direto para o inferno das ideias bem pior que o inferno normal... – André fofoca sobre o além.
Um pós morte para escritores!? Inacreditável, Impensável, improvável.
E como eu poderia saber que matar um personagem fictício era um grande pecado que me levaria ao inferno?
As coisas não poderiam terminar assim. Eu não tinha como adivinhar que a morte de um personagem era um grande pecado.
Era injusto! Além de que os ignorantes de suas ações não deveriam ser absolvidos como nos episódios de Law&Order?
O Joao Grilo não apelou para uma instancia superior e conseguiu uma segunda chance?
Eu tinha que tentar, seja la o que fosse o inferno das ideias, eu não podia ir para lá.
—...Saramago por outro lado foi absolvido, recorreu e argumentou que a liberdade criativa da estrutura da sua escrita foi uma das mais inovadoras em décadas e que o uso de vírgulas era simplesmente insignificante perto disso. – Ele continuou como um trem descarrilhado.
— Eu posso contestar essa sentença então? – Eu o interrompo esperançoso, os dedos torcidos em figas.
— Você pode, mas qual seria sua alegação? – Ele pergunta, pega a balança que estava no chão e coloca um peso em um dos pratos.
— Ignorância de tal pecado!? – Eu alego meio incerto. Outro peso surge na mão livre de André, ele o coloca com cuidado no outro prato e por breves segundos o peso colocado parece superar o peso previamente posto, entretanto os pratos começaram a oscilar para cima e para baixo até que ambos param no meio igualando o nível entre si.
— Parece que o seu pecado não pode ser ignorado, mas até certo nível você era sim ignorante. – Ele fala e coloca a balança de novo no chão, um novo livro de capa vermelha surge em sua mão, ele o consulta por alguns minutos, o fecha e se volta para mim.
— Eu proponho um perdão condicional. Precisamos de um favor seu e você de um favor nosso o que você acha? – André diz, um sorriso invade meu rosto.
— Eu faço qualquer coisa. — Eu digo como faria qualquer pessoa em minha posição.
— Tudo bem então, pelo crime de assassinato deliberado com requintes de crueldade eu lhe sentencio a uma pena alternativa –
— A cada um a sua obra meu amigo e por isso, eu lhe sentencio a viver a própria obra como um dos personagens, sua missão é salvar a vida de Lais Filde nos próximos dez dias. – Declara o homem.
Tenho que dizer, a proposta seria ótima, se eu soubesse como ela tinha morrido.
Lembro muito bem que ela só morreu, houve um velório rápido porque eu precisava de um cenário em que a protagonista feminina visse o lado sensível do protagonista masculino valentão que se da ao trabalho de ir ao velório e coloca uma rosa no caixão de Laís, então não me dei o trabalho de falar o porque da morte.
Escrita preguiçosa também deveria ser um dos sete pecados literários, eu tenho certeza.
Começo a abrir a boca para protestar.
Porem antes que meus protestos fossem elucidados, um arco branco se abre ao meu lado, uma força irresistível me puxa. Sou arrastado, não tenho tempo de falar.
— Tchauzinho e boa sorte. – é a ultima coisa que eu ouço antes de ser sugado através do arco.
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ATÉ SEMANA QUE VEM OU ANTES, NÃO SEI.
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