“DEUS QUER FALAR COMIGO?” EU PERGUNTEI ENQUANTO O seguia por corredores e mais corredores. Agora eu tinha a absoluta certeza de que eu estava em coma.

Anjos deviam ser loiros e angelicais, com rostos dóceis e pacíficos. Michael não era nada disso. Ele de fato era a pessoa que menos parecia um anjo. Sem falar que depois de todas as pinturas do Michelangelo eu sei que anjos deviam ter as asas brancas. Os malvados tinham as asas pretas. Ou pelo menos era assim nas histórias.

“Sim.” Michael disse com sua paciência forçada. Ele estava andando a uns dois passos na minha frente, se esquecendo que ele me machucou e que dói quando eu me movo.

“Eu vou ver Deus?”

“Não ver. Ele é onipresente. Houve uma época em que era possível vê-lo, quando a fé era maior. Ele aparecia como um humano normal. Mas agora é diferente, ele não consegue assumir mais a forma.” Ele deu uma guinada para um corredor. Os corredores daqui eram extremamente frios e escuros. Eu continuava a olhar por alguma saída, mas não vi nenhuma. Eu sabia que eu não devia pirar ainda. Afinal, em algum momento eu tenho que sair desse estado comatoso cheio de alucinações.

“Certo, como eu pude me esquecer disso.”

Michael deve ter notado algo de errado em minha voz. Seus olhos de gelo encontraram com os meus, algo que deve fazer os anjos em cargos inferiores ao dele temer de medo. Eu não desviei o olhar. Eu, afinal de contas, não tenho medo de uma alucinação.

Ele quase sorriu com a minha audácia. Quase. Ele virou e seguiu adiante, parando em frente a uma porta de mármore. “Entre. E seja educada.”

Eu sempre sou educada, eu abri minha boca para falar. Mas ele havia aberto suas asas e havia saído voando para o céu. A porta atrás de mim abriu e eu entrei na sala.

Era uma sala pequena para se ter um encontro com Deus. Não que eu saiba como uma sala para falar com Deus deva ser, já que eu nunca fui muito religiosa nem fiz questão de ler a bíblia inteira. Apenas li as historias interessantes.

As paredes, o teto, o chão. Cada centímetro da sala era coberto por espelhos. Infinitos reflexos de mim mesma me encaravam. Eu parei em frente ao espelho que cobria a parede esquerda e me encarei, levantando a mão para tirar uma mecha que estava entrando em minha boca.

“Stella, que confusão você se meteu. Mas acho que não podia ter evitado isso. Era seu destino.” Meu reflexo disse, um sorriso calmo no rosto. No meu rosto.

Não era eu que havia dito aquilo. Mas era uma garota exatamente igual a mim. O mesmo machucado no ombro coberto por aquela gosma prata. Só que eu nunca tive aquela expressão calma no rosto.

“Não fique com a boca aberta, Stella. Eu apareci assim para você, pois é assim que quero que pensem em mim. Sou Aquele que está dentro de você. Não sou um homem velho e barbudo. Eu sou cada pessoa, eu estou dentro de cada pessoa. Essa sala mostra isso perfeitamente.”

Eu caí sentada no chão, tamanho foi meu choque. Mas o reflexo continuou de pé enquanto os outros das outras paredes seguiram meu exemplo. “Meu Deus.” Eu sussurrei. “Eu fui mesmo atingida pela espada não é?”

Deus me olhou de pena. “Sinto, minha filha. Michael deveria ter te visto, mas o que está feito está feito. Nada acontece por acaso. Isso nunca ocorreu antes, um humano ver os anjos batalhando... Bem, nem eu vi isso acontecendo. Você foi tocada por prata celestial e mesmo assim continuou a viver. Você é especial, criança. Temo que sua vida não seguirá normalmente depois do ocorrido.”

Envolvi meus braços em volta de mim. Eu acreditava em mim- quer dizer, em Deus. O que era estranho, já que eu nunca fui religiosa. Eu blasfemo umas trezentas vezes por dia, no mínimo.

“Mas eu vou poder ir embora daqui? Michael não sabia me responder.” Ele me ignorou, para falar a verdade. Mas eu não queria falar mal do Arcanjo preferido de Deus.

“É claro que sim. E Michael não é meu preferido, não tenho preferidos.”

Eu devia saber que Ele podia ler minha mente. Mas eu nunca fui muito forte em saber coisas de religião.

“Onde eu estou, afinal de contas? Paraíso?”

Meu reflexo sorriu um pouco. “Não, criança. Este é o quartel dos Anjos. Paraíso é diferente para cada pessoa, então é impossível reuni-lo em um lugar só. Mas chega de conversa Stella. Ache Michael e ele lhe contará tudo o que tem para saber.”

E o meu reflexo voltou a ficar na mesma posição que eu. Eu me levantei zonzamente e sai pelas portas de mármore.

Eu não precisei procurar Michael, já que ele estava recostado na parede parecendo sofrer por dentro.

“Parece que por minha falta de atenção eu fui encarregado de tomar conta de você.” Ele me informou quando eu deixei de olhar os braços definidos dele. Agora que eu sei que ele não é uma alucinação eu posso admitir o quanto ele é bonito. Não me importo se ele é uma criatura celestial e divina.

“Ele disse que eu posso ir embora.” Eu disse com minha voz soando um pouco instável. “Disse também que é bom você botar tudo o que você sabe para fora.”

Com isso eu ganhei uma arqueada de sobrancelha. “Certo, vamos para seu terraço então.”

Então ele só andou casualmente até mim e colocou seu braço ao meu redor. Eu previ o que ia acontecer e fechei os olhos com força. Passaram-se alguns segundos até eu tomar coragem de abri-los novamente.

Estávamos no terraço. Onde Michael havia me acertado com sua espada. Ele tirou seu braço da minha cintura e me encarou.

“Medo de altura?”

E me sentei no chão para recuperar minhas forças. Já era de noite e estava friozinho. O céu não era tão estrelado aqui em baixo. Eu toquei a coisa gosmenta do meu ombro quando uma mecha do meu cabelo grudou nela.

“O que você deve saber é que estamos em guerra. Era isso que você estava vendo quando veio aqui em cima bisbilhotar. Há anjos se rebelando, passado para o lado de Lúcifer. Novamente.” Ele disse amargamente, ele se sentou ao meu lado e suas asas não estavam em nenhum lugar à vista.

“Lúcifer, seu irmão?”

“Não me lembre disso, por favor.” Ele respondeu em um tom duro. Acho que eu entendia, eu não iria querer falar sobre meu irmão que virou o diabo. “Com as guerras... pessoas começaram a perder a fé. Religiões lutam entre si, não percebe que Deus é um só. Isso faz os anjos mais novos ficarem confusos-”

“Se você é do lado bom, por que suas asas são negras? Achei que fossem brancas.” Eu o interrompi. Essa era a pergunta que eu estava me coçando para perguntar desde que eu o vi ao meu lado.

Ele quase sorriu novamente. Mas se controlou. Provavelmente lembrou que ele é o anjo mais importante e eu sou uma reles mortal. “Por que nem sempre branco quer dizer luz e preto a escuridão. Não é tudo tão claro assim, é preciso pensar. Nada é o que parece.”

Eu estava me sentindo um pouco zonza ainda. ”O que vai acontecer comigo agora?”

Ele me olhou bem antes de responder. Sua encarada foi tão longa que eu achei que ele estivesse me admirando. “Como já disse, cuidarei de você. É minha culpa você estar nessa confusão, para começo de conversa.”

“Não precisa, eu vou ficar bem. Apenas vou ter uma cicatriz.” Eu logo disse, já que ele parecia tão abalado por ter de bancar a minha babá. “E de qualquer forma, você não é o capitão do exercito de Deus, ou algo assim?”

Agora eu tive certeza de que ele sorriu. “Algo assim.” Aqueles olhos claros encontraram os meus. “Mas não posso desacatar uma ordem direta Dele.”

“Ah.” Foi tudo o que eu disse. Então eu soltei u bocejo enorme. Então ele me mandou ir dormir.

Me mandou mesmo, com um tom todo autoritário. E eu não tive objeção nenhuma. Ele saiu voando novamente, e dessa vez eu olhei atentamente. Suas asas eram gigantes, deviam passar dos 2 metros cada. Eu desci as escadas pensando em como deve ser legal nunca pegar trânsito.

Eu entrei no meu apartamento e logo fui recebida por Miau, que se enroscava nas minhas pernas. Ele, ao contrario de Charlotte, havia sentido minha falta. Eu o mimei um pouco e fui para o chuveiro, tirar aquela sensação de gosma do meu corpo. Não foi até eu estar completamente limpa que eu vi o estrago que Michael havia causado em meu ombro.

O corte já estava cicatrizado. A cicatriz tinha 15 centímetros e parecia feia. Não havia nada que eu pudesse fazer sobre aquilo, então apenas suspirei e me enfiei nos pijamas. Miau me seguiu até a cama e se enroscou nos meus pés debaixo da coberta.

Notas finais
Reviews, porfa??
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.