Once upon a December
8 Flying lights
Notas iniciais
Eu estava descontrolada, não queria ter sido agressiva, mas aquelas fotos tiraram-me do sério! Só que depois de pensar em tudo o que ele me disse, tudo o que ele fez por mim, em tão pouco tempo, decidi dar-lhe o beneficio da dúvida:
—Olha-me nos olhos e diz-me a verdade! Foste tu que me enviaste as fotos?
—Claro que não Anastasia – ele parecia extremamente calmo e honesto – Porque é que eu faria isso? Eu era o único que ficava a perder, pois iria perder-te a ti…
A minha expressão amansou e após alguns segundos eu quebrei a conexão dos nossos olhares e enfrentei o chão. Ele chegou-se até mim e abraçou-me, passando-me uma das mãos pelo cabelo despenteado.
—Tenho a certeza de que foi a Olivia…
—Não me disseste que tinhas dormido com ela! – agora percebo a sua obsessão por ele.
—Porque não importa, o passado é passado, e para mim esse esta mais do que enterrado.
Eu soltei-me do abraço, para raciocinar melhor, pois nos seus braços era impossível concentrar-me.
—Mas… como é que ela teve acesso ao teu telemóvel? – indaguei.
—Eu nunca o levo para as gravações, para me concentrar melhor… provavelmente ela entrou no meu camarim e mandou-te isso. Depois deve ter apagado, pois eu não tenho registos do envio – ele explicava tudo com cuidado e rapidez, provavelmente para que eu não o pudesse interromper.
—Desculpa! Eu acredito em ti, claro que acredito!
Provavelmente ele acha-me a rapariga mais estranha do planeta. Chego aqui a acusá-lo e alguns minutos depois estou a pedir-lhe desculpas… Porquê Anastasia Castle? Porquê? Ele apanhou o objeto que eu tinha deitado ao chão e verificou cuidadosamente se estava inteiro.
—Toma… é para ti! – ofereceu ele, todo contente por estar tudo bem.
Um pouco envergonhada eu aceitei. Era uma caixa de música redonda, adornada de retalhos dourados e pérolas. Eu abri-a e de lá de dentro saiu a música, a nossa música… Once upon a december! E não é que era verdade. Pois tudo começou assim: uma vez em dezembro, eu ia sendo atropelada por um carro, mas acabei por ser salva pelo rapaz mais surpreendente que já conheci… Bem, vocês sabem a história. O que eu não sabia, era que esta só estava a começar.
—Tens fome? – perguntou-me ele com uma expressão indecifrável.
—Nem por isso, mas vamos jantar certo?
—Ainda bem! – disse ele, ignorando a minha questão.
Ele tirou o avental e vestiu um casaco quente. Depois pegou em dois capacetes, numa coisa amarelada e arrastou-me para fora de casa pela mão. Eu não estava a perceber nada, mas estava a tentar deixar-me levar pela situação, seja ela qual fosse. A mota ia a toda a velocidade por caminhos desconhecidos, sem uma direção certa. Do nada, comecei a ver uma grande multidão a dirigir-se para um único local: um grande jardim! Arranjamos estacionamento facilmente (era a vantagem da mota) e dirigimo-nos para o aglomerado de pessoas. Todos conversavam muito animados, e cada casal tinha uma espécie de pano nas mãos, semelhantes ao nosso.
—Podes explicar-me de uma vez por todas o que é que está a acontecer!? – eu já estava a ficar farta de segredinhos.
—Já ouviste falar das luzes voadoras?
—Terra chama Jared… não estás em gravações e certamente não somos do mundo da Rapunzel!
—Hahaha! Não estamos, mas isto é parecido. Em Portugal há uma festa que se chama S. João, e acontece durante o verão. Numa noite, quente ou fria, todos lançam um balão para celebrar a data e parece que a comunidade nova iorquina gostou da ideia e decidiu “plagiá-la”, com pequenas alterações claro.
—Espera aí, então quer dizer que nós vamos…
—Tens aqui o balão!
Eu abracei-o tão forte que quase lhe esmaguei os ossos. Ele estava a fazer de tudo para que a minha viagem se tornasse num verdadeiro conto de fadas, e estava a ser bem-sucedido!
—E se nos despacharmos acho que ainda temos tempo para apanhar o barco…
—O barco!?
Ele voltou a puxar-me pela mão e conduziu-me até ao cais, onde havia uma grande embarcação em madeira, semelhante a um navio pirata, pronta para acolher os passageiros apaixonados. Ele pegou-me ao colo como se eu fosse uma princesa e subimos até ao convés. Era lindo! Recheado de luzinhas de natal e bandeiras de todos os países, incluindo Inglaterra, e quando a vi senti uma certa nostalgia. O capitão deu-nos as boas vindas, sorridente (embora eu tivesse ficado um pouco desiludida por ele não ter um gancho, mas enfim… não se pode querer tudo).
Encontramos duas cadeiras vazias na proa e sentamo-nos, de mãos dadas, como se fossemos um daqueles casais idosos que fazem um cruzeiro pago pela reforma. De certo modo a ideia agradou-me, embora eu ainda tivesse muito para viver antes disso. Esperamos minutos, horas, até que o momento chegou.
—É quase meia noite! – exclamou o Jared entusiasmado.
Desembrulhamos o balão e com um isqueiro emprestado acendemos o fogo… demorou um pouco até o balão estar preparado para levantar voo, e nós estávamos tão concentrados que nem nos apercebemos do maravilhoso espetáculo que se tinha iniciado no céu. Só quando largamos a nossa luz voadora pudemos ver as centenas, não, milhares! De luzinhas no céu que reluziam em todas as direções possíveis e imaginárias. Era a coisa mais bonita que eu já tinha presenciado, e as lágrimas vieram-me aos olhos, enquanto observava.
—Sabes… — começou ele pensativo, enquanto olhava o céu – Há quem diga que cada balão vai parar ao lugar onde a pessoa que o lançou deve estar.
—E onde é que achas que nós devíamos estar? – entretanto vi alguns balões se incendiarem e caírem sobre Nova Iorque, questionando-me se algum deles seria o nosso.
—Quem sabe… Talvez só vejamos essa luz com o tempo – finalizou ele sorridente, e eu sorri ainda mais pela referência à musica da Rapunzel.
E sobre todas aquelas luzes, as mais brilhantes eram certamente os seus olhos esverdeados. Sem qualquer prenúncio, puxei-o para um beijo… porque tudo o que eu queria naquele momento era sentir-me amada, e que ele também se sentisse assim, até porque agora iriamos ter alguns dias difíceis pela frente, e ambos sabíamos disso. Mas tínhamos de ser fortes, até porque o amor (o verdadeiro amor) supera tudo, e é essencial para viver!
“Qualquer que seja a dor que sintas, se tu nisso acreditas… assim dona do amor és tu.”
Cinderella
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